terça-feira, 8 de maio de 2012

vinho da madeira e cerveja

Acordei com os palavrões da Plaft e o som de uma roçadora a gasolina a desbastar a sebe do jardim da frente, mesmo por debaixo da janela do quarto. A minha almofada foi puxada num safanão. Os palavrões esbateram-se abafados pelas penas do meu travesseiro que apertou contra a cabeça, numa espécie de casulo de insonorização. Acalmou-se a pouco e pouco, os últimos palavrões foram já proferidos em sono profundo e dissolveram-se a meio, em sílabas imperceptíveis como na linguagem secreta de sonolentos elfos estivadores. Saí da cama. Entorpecimento dos sentidos, os caminhos todos fechados, desespero existencial, olhos baços com ocasionais sombras de morte, qual é o sentido da vida, hmm? Qual é? Diz-me, diz-me. Nota mental: nunca mais misturar cerveja com vinho da madeira, a não ser que queira viver num romance do  Lobo Antunes. Enquanto tomava banho e a dor de cabeça latejava com o vapor da água quente, seguiram-se toques frenéticos à minha campainha que rapidamente foram acompanhados por mais imprecações vindas do quarto. No início achei que era apenas um distribuidor de publicidade no primeiro dia de trabalho, entusiasmado e profissional. Depois seguiu-se a imagem mental de um carteiro com parkison. A campainha não parava, a Plaft já estava a gemer convulsivamente debaixo da almofada. Fui à janela ver porque motivo a minha campainha se tinha tornado no centro do universo. O meu carro estava estacionado em frente às sebes e eles precisavam de lhes aceder com as roçadoras a gasolina e adivinharam que o dono do carro devia morar naquele andar.

Despachei-me a tomar banho e a fazer a barba, vesti-me e despedi-me da Plaft como pude, por entre almofadas e edredons. Quando cheguei à minha viatura, estavam dois jardineiros de fato macaco fluorescente e máscaras, com roçadoras enormes, à espera. Pedi-lhes licença, um pouco envergonhado de ser tão novo e da minha vida ser tão fácil.

Depois, no caminho, vi dois acidentes daqueles em que um carro de uma mulher bate por trás no carro de um homem nos seus 40-50 e não se nota absolutamente estrago nenhum e o  senhor está de cócoras a fazer festinhas no pára-choques, a ver se detecta um afundamento ou uma irregularidade e não sai dali até encontrar uma.


sábado, 5 de maio de 2012

afinal o Brasil é capaz de estoirar mais depressa do que eu pensava

«O Brasil de hoje não justifica isso [juros altos]. Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra, com honestidade, os seus compromissos", afirmou a presidente na noite de ontem (madrugada de hoje em Lisboa). Rousseff disse ainda que a economia brasileira só será "plenamente competitiva" quando for feita a redução dos juros para produtores e consumidores e quando as taxas se equipararem às praticadas no mercado internacional. » - DN

O Brasil conseguiu a proeza de criar uma bolha imobiliária (e não só) com taxas de juro superiores a 10% e com uma banca comercial ainda num estado semi-primitivo. Podem acompanhar aqui http://www.bolhaimobiliaria.com/.  Enquanto a economia "cresce", não se vê grande crescimento estrutural. O Mundial de futebol, pago a peso de ouro para cumprir prazos irrealistas, é simbólico e familiar. A rede de transportes é de 3º mundo, a burocracia e leis favorece a corrupção generalizada, preparam-se para aniquilar a Amazónia com o novo Código Florestal, os impostos são draconianos, as medidas ultra-proteccionistas estrangulam a concorrência das empresas brasileiras nos mercados internacionais e o fosso entre ricos e pobres não pára de crescer. Mas o problema, dizem eles, é o crédito que não é barato que chegue. É isso aí.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

pronto, ganhou mais uma


Pinto da Costa: o bitó pereira ganhou a liga, viste? lol
Mou: vi, parabéns
Pinto da Costa: lol é só para veres que num és nada de especial
Pinto da Costa: para o caso de achares que sim
Pinto da Costa: sabes se o Florentino precisa de frutinha portuguesa? lol

Abramovitch: 20 million euros +  nice car + protection from russian mafia
Mou: no. i told you, money is not everything to me
Abramovitch: whores.lots and lots of whores.
Mou: no
Abromvitch: a bimbi?
Mou: no

Moratti: mio bambino speciali, vieni qui al Inter, 15 millione de aerofichi!
Mou: Morattini mio amiguini... non puó..
Moratti: la mamma va fare molto pizza al fromaggio e funghini.. che ti piace!
Mou: :) si, ma non puó
Moratti: :(

Vieira: o jorje jesus fika.
Mou: mas... prometeu-me :(
Vieira: mudei de ideias, ele fika. talves para o ano. abrasso
Mou: dei 30 milhoes pelo coentrão e pelo di maria e agora o witsel
Vieira: faltou o combinado.
Mou: 200 mil euros pelo emerson!? impossível
Vieira: azar. abrasso, até pro ano
Mou: :(

quinta-feira, 3 de maio de 2012

têm razão..

... os que se indignam contra a manobra do Pingo Doce que é comum noutros países,como em inglaterra no Boxing Day e mesmo cá quando começaram os outlets ou como a feira de viagens abreu ou até a merda do IKEA às quartas feiras com o dia do quarto que dá xis de desconto em mobília de quarto e que me fez ter um semi-esgotamento quando pensei que podia aproveitar (saí sem comprar nada, abandonei o carro na fila). E se fez dumping, pois que seja punido. E pela escolha da data, que foi filha da putice mesmo. No entanto, nós vivemos no facebook e no blogger e nos jornais. Num nível menos sério, isto é um pouco como aquele horrendo anúncio do pingo doce de janeiro a janeiro, sempre encher os bolsos o ano inteiro etc. e que me fez, na altura, jurar nunca mais meter os pés num supermercado que puxa ao patriotismo serôdio e depois não tem fruta ou vegetais portugueses à venda (pelo menos nos de Alvalade e Alcântara é quase tudo estrangeiro, até o caralho das cebolas) e muda a sede para a Holanda. Mas as pessoas assobiavam a música e até fizeram versões e tornou-se viral. Tudo bem. Eu também continuei a ir lá porque na minha curva de utilidade, a proximidade de casa e do trabalho é o factor mais importante, aqueles filhos da puta sabem disso. Enfim. Vou-me adaptando e depois desta iniciativa, vou reservar o sábado de manhã para ir à praça aqui do bairro e combinar com o Mini Preço. É a minha contribuição. E se o Pingo Doce pensa que pode ir dando tiros nos pés junto de um target premium que não precisa de ir a correr por uns descontos e/ou que eventualmente pode ter alguma ideologia e se sinta ofendido com a história do 1º de maio, pois que pode ver a rentabilidade pura e dura a mudar. É beleza da livre escolha. Eu que conheço pessoas que foram. Eu tenho contacto com essa gente oprimida, desde um colega consultor que é obcecado por promoções, até ao senhor do café que foi abastecer o estabelecimento de whiskey a preços mais baixos. E na tv, diria que 9 em 10 pessoas que foram entrevistadas (e tinham ido) aprovaram a iniciativa. Olha não. Então iam, submetiam-se aquilo e achavam que a dignidade deles tinha sido posta em causa? Essas pessoas ficaram contentes com os descontos que fizeram. E não, não tem absolutamente nada a ver com o contexto actual de crise. Lembro-me que há uns anos passava pela Repsol em frente ao Estádio de Alvalade que fazia um desconto de 4 ou 5 cêntimos por litro e a puta da fila era de 30 minutos pelo menos (para poupar 2 euros no máximo) pelo que acho compreensível que conseguir poupar 150, 200 ou mais euros seja algo apelativo a uma franja enorme da população. Quando abriu o IKEA, tinham uma merda qualquer de meter casais a dormir em camas na rua e fazerem figuras de parvo no telejornal das 8, para um desconto qualquer de merda. E sempre que era um concerto dos U2, as pessoas até dormiam na rua dias a fio para comprar um bilhete. Meu deus, para os U2. O mundo é assim. Também me intriga muito aquilo do Pique Nique do Continente ou as vuvuzelas da Galp e a bandeira humana e essas merdas. Ou pessoas que gostam de José Luís Peixoto ou de The National ou os congressos do PCP. Cada um tem a sua curva de utilidade que inclui, entre outras coisas, preocupações ideológicas e a sensação de ser manipulado. Não significa nada. É completamente subjectivo e relativo. Se uma pessoa se sente bem com isso, está tudo bem. É de uma enorme condescendência e paternalismo generalizar e considerar os portugueses que foram como uns desgraçados esfomeados e oprimidos. Eu digo isto porque sinto o mesmo que vocês, só que sei que é um sentimento errado e tento combater isso. Façam um esforço também. Pronto.

terça-feira, 1 de maio de 2012

night drive

Saí da cama sem te acordar. Fiz-te uma festa no cabelo  e suspiraste, a tua mão adormecida procurou-me mas desistiu e caiu inerte no edredon de penas como se tivesse um súbito ataque de narcolepsia. Depois peguei-te no pulso e arrumei-te o braço debaixo do edredon para não te constipares. Eram duas da manhã e chovia torrencialmente. Vesti-me às escuras, fui buscar umas cervejas ao frigorífico, escrevi-te uma nota num post-it, peguei no pequeno gravador sony e saí. Nas escadas confirmei que tinha meias de cores diferentes, mas não me importei, não estavas ali e só tu é que reparas nessas coisas. Entrei no carro, fiz reset ao contador dos km, meti uma música de dor de corno e arranquei para a A2 Sul, dando assim início à experiência.



Primeiro afastei-me de ti devagar e de forma intermitente por causa dos semáforos e do trânsito da ponte, mas uns quilómetros depois abri uma cerveja e comecei a afastar-me de ti a 160km/h, uma boa média. 

Liguei o gravador e comecei a gravar notas:

0240 horas, Delta +34km de Amor Da Minha Vida, doravante designado por ADMV. Velocidade +160km/h, música… nightdrive, chromatics.

Sinto a gravidade do ADMV a puxar-me, o universo a ficar num plano inclinado com ADMV no centro. As gotas de chuva rolam até aos extremos do pára-brisas e são pulverizadas em sua direcção. Pode eventualmente dever-se ao vento e à deslocação da viatura automotora. Música induz um estado mental melancólico. Hipótese de lágrimas fracas ocasionais. Over and out.

0300 horas, Delta +92km de ADMV, velocidade +160km/h, música: only the lonely, roy orbison

Calor do corpo do ADMV a ficar mais distante. Aumentei temperatura do carro para não correr risco de hipotermia. A noite ficou mais escura. Sentimento de ciúmes dos condutores dos carros que vêm na direcção oposta, para mais perto de ADMV. Tentativa de abrir a janela para fumar cigarro, hesitação, receio de que a chuva estrague os comandos eléctricos dos vidros. Para efeitos de simulação de sentimento de “quero lá saber”, abertura total de todos os vidros da viatura. Cigarro apagou-se. Over and out.

0330 horas, Delta +180km de ADMV, velocidade 170km/h, música… perfume de mulher, ágata 

Chuva torrencial. Vidros fechados, excepto o vidro da porta direita da frente, deixou de funcionar. Registar resultados para sentimentos futuros de “quero lá saber”. Saudades de ADMV, vida não é possível sem a proximidade física de ADMV. Lágrimas frequentes e sentimento de desespero existencial, possivelmente ampliado de alguma forma pela expectativa de custo monetário da reparação do comando eléctrico do vidro na BMW. Over and out.

0355 horas, Delta +220km de ADMV, velocidade 170km/h, música… strange little girl, stranglers

Necessidade de interromper o afastamento a grande velocidade, formação de poça de água no banco de pele, orçamento para experiência ultrapassado, possível corte de financiamento para experiências futuras. Saída para área de serviço de Almodôvar. Estacionamento com cobertura. Cervejas integralmente consumidas. Solidão extrema, forte sensação de que não vale a pena viver sem ADMV misturada com sono e estimativas de orçamentos de reparação. Over and out.

Só gravei estas, de manhã fui tomar o pequeno almoço a Almodôvar e vim para cima nas calmas pela nacional. Lamento muito ter-te assustado quando acordaste sozinha de madrugada. Desculpa também não ter atendido o telemóvel e só chegar a casa a horas de almoço, cheio de fomeca. A propósito disso, dadas as circunstâncias, compreendo perfeitamente que não tenhas cozinhado o Empadão do Amor como disseste que ias fazer... E admito que o post-it com “adeus mundo cruel” pode ter-te induzido alguma preocupação desproporcional face à discussão que tivemos ontem à noite a propósito de margarida ou manteiga na massa (margarina?!…) Mas é preciso fazer estas experiências em nome da ciência. De forma controlada, sim, mas o mais realisticamente possível, para estarmos precavidos para este tipo de situação e procurar evitá-la. E da próxima vez, talvez penses duas vezes antes de meteres um bocadão de margarina no meu prato de esparguete.

domingo, 29 de abril de 2012

Feira do Livro

Andei por ali para cima e para baixo, já tinha comprado muitos livros, sempre sem encontrar a Assírio & Alvim, muito triste.
 Começou a chover torrencialmente e corri para debaixo de uma banca da Porto Editora para me abrigar. A Plaft ficou à chuva debaixo do chapéu a chapinhar nas poças, é tipo uma pancada que ela tem e não quero alongar-me sobre isso. Estou ali abrigado, de costas para as prateleiras de livros, entalado na pequena multidão compacta que se formou, quando começo a desconfiar... Um gajo com óculos de massa e sobretudo, outro de barbas e camisola de gola alta, outro com o cabelo comprido e óculos redondos, outro magrinho com o aspecto macilento dos vegetarianos, outro vestido de preto niilista recusante da vida e do futuro a meter os pés assim e com a cabeça tombada para o lado... Voltei-me para a prateleira dos livros: Assírio & Alvim! Eu sabia! Foi o destino! Tinha-me esquecido que a Assírio & Alvim foi absorvida pela Porto Editora.
 Lá estavam os livros todos que já comprei e li, encafuados em prateleiras iguais às das outras bancas da Porto Editora. Tentei chamar a Plaft para lhe mostrar aquilo, porque gosto muito de apontar para livros à venda e dizer-lhe "tenho este, este e este" como um latifundiário a mostrar as suas terras à noiva comunista. Ela estava em modo Fred Astaire, aparecia a esvoaçar pelas poças para me avisar que tinha avistado ginja de óbidos mais acima e que já tinha lido aquele e aquele e aquele que eu lhe sugeria com condescendência, desaparecia disparada, voltava para me dizer que tinha visto farturas com bom aspecto uns metros adiante.
 Fomos beber uma ginja, eu comi uma fartura e ela comeu uma italiana que é uma coisa que parece um donut, mas chama-se italiana, assim mo explicou a menina da roulotte com uns modos bruscos. Foi depois acalmada pelas colegas, aquilo deve acontecer-lhe constantemente, pessoas da Feira do Livro a apontar para os donuts e a dizer "é um donut destes" e ela "é uma ITALIANA CARALhOS FODAM ESTES INTELECTUAIS DA MERDA! NÃO É UM DONUT! Foda-se puta que os pariu, feira do livro é sempre a mesma merda todos os anos..".
O momento alto da tarde foi quando tive a brilhante ideia de sugerir à Plaft o Espuma dos Dias do Boris Vian que por acaso é o livro preferido dela e ela já me tinha dito isso umas 4 ou 5 vezes. Talvez isso explique o entusiasmo e a  convicção com que lhe sugeri o Espuma dos Dias do Boris Vian.
 - Olha Plaft! Queres a Espuma dos Dias? Já leste? Vais adorar! Conheces Boris Vian? Devias conhecer!
- Estás gozar comigo?
Aqui devia ter dito "sim, estava a brincar ah ah", bastava observar o facto do sorriso grandioso, ainda com um bocado de açúcar por cima do lábio, se ter dissolvido numa expressão de incredulidade apática. E depois passava o resto da tarde a tentar perceber o que se tinha passado, porque estaria eu a gozar.
 - Não! A sério, acho que... ias... adorar :|
- ESTÁS A GOZAR COMIGO!?
Ok, perdi a oportunidade, pânico, ela entrou-me em modo Sigourney Weaver, Aliens. Os intelectuais à volta começaram a formar um pequeno círculo a uma distância segura e um senhor cinquentão olhou para mim mesmo com aquela cara cúmplice de "fizeste merda não fizeste? ;)"
 É evidente que depois me lembrei muito bem das conversas sobre o Boris Vian e do livro preferido dela, mas era tarde demais, há uma coisa muito enervante na vida real que é a linearidade do tempo e a ausência de botão de undo. Tentei desculpar-me explicando que ela só me tinha dito que adorava o livro e não me tinha feito uma análise crítica ao mesmo, da próxima que escrevesse um pequeno texto sobre isso e eu nunca mais me esquecia, mas a certa altura (quando ela abriu a janela do carro para apanhar ar e soltou um daqueles suspiros de "meu Deus, como é que eu vim parar aqui?") optei por calar-me.

Sei dar-lhe a volta muito bem, eu controlo a relação, ao contrário do que sucede com os outros gajos que se deixam controlar por elas. O truque é trazer-lhe oferendas diversas, de olhos postos no chão, fazer vénias, tratá-la por Deusa em discurso indirecto e apenas para emitir elogios à sua beleza, sensibilidade e inteligência. Pode demorar mas as coisas resolvem-se sem problemas e com facilidade, é o segredo de uma relaç... meu Deus, olha as horas que são, tenho de ir buscar sushi, ela está quase a acordar!!

sábado, 28 de abril de 2012

o nome dele é skrillex

Na cabeça de alguns, Skrillex parece estar para a música electrónica e o próprio dubstep (género que popularizou) como os Bush para o grunge. Ainda se agravou mais quando limpou os Emmys (primeiro produtor a ganhar aquelas categorias). Vejo o Skrillex um bocado como uma fusão de Chemical Brothers, Daft Punk, Burial e até Aphex Twin (mesmo nos videos, as influências são óbvias). Parece que foi buscar as peças a isto tudo, extraiu a parte pop mas sem sacrificar um edge agressivo (que afasta muita gente), fundiu tudo obsessivamente e ao detalhe num laptop a partir de casa e deu um toque mainstream a um género de nicho com melodias verdadeiramente catchy que uma criança entende. É acusado de ser um "vendido" mas ele nunca teve apoio comercial e promoção. Fez o disco em casa, fez upload, foi fumar um cigarro e passado um mês era uma celebridade mundial e nomeado a Emmys. Depois, em vez de destruir a cena da música electrónica, nomeadamente o dubstep (é só um rótulo por amor de Deus), o que fez foi abrir as portas e divulgar o próprio dubstep, como fizeram os Metallica com o Black Album para o heavy metal ou os Nirvana com o Nevermind para o rock alternativo mais pesado. Acho o trabalho dele absolutamente genial do ponto vista "pop" puro. Comparar isto com, por exemplo, um David Getta e afins, é um insulto.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

o jogador de poker

Hoje fui almoçar com um dos meus melhores amigos ali num restaurante em Alfragide, onde vão os camionistas e operários. Posso dizer que é praticamente um irmão, visto que nos conhecemos há 25 anos e fizémos toda a escola juntos, inclusive o curso de matemática, ao qual chumbámos um ano os dois, só para nenhum de nós se antecipar ao outro. O gajo é um pacato programador e tem um cérebro focado no jogo e na ambição de começar uma carreira no poker profissional, tudo isto potenciado por factores pessoais importantes (não tem miúda, é óptimo para a concentração). Começou a jogar poker mais ou menos ao mesmo tempo que eu, mas sem os meus problemas. Eu vim do blackjack para o poker e pelo poker domestiquei o vício do jogo, mas ao fim de centenas de milhares de mãos online e chegar a NL100 percebi que era impossível ser jogador profissional, uma fantasia que tive, seria um ganha pão a combinar com a escrita. Abandonei devido a problemas cognitivos: arrogância, indisciplina, sentimentos místicos, sensação de controlar o destino, tudo coisas óptimas para um escritor. Ele é mais calmo e cerebral (um excelente jogador de xadrez, brilhante em raciocínio profundo) e começou com uns míseros 100$ no poker online que se transformaram em largos milhares. Está neste momento a disputar pots que chegam aos 1200$. Tem, como qualquer bom jogador, a perspectiva correcta que no jogo, o dinheiro consiste em “fichas abstractas” e não dinheiro real. Jogar com 10$ ou 1000$ é igual, desde que a nossa banca possa acomodar a variância dos ganhos e perdas. E recordo que ele começou com pouco e nunca mais lá meteu “dinheiro”. Aquela banca é abstracta. O poker transformou-o numa pessoa melhor, o poker levado a sério é como um zen prático e não teórico e implica uma transformação no modo de pensar e de ver a própria vida. Sonha em deixar o emprego, estuda poker 3 horas por dia. O objectivo é chegar a high stakes, com pots de milhares de dólares. Espero que consiga. O caminho é muito difícil, até porque não tem fim. Partilhámos experiências. A ironia é que os nossos problemas, ele com o poker, o meu com a escrita, e os sonhos que temos, entalados em vidas em que encaixamos para ganhar o tostão, acabam por ser um espelho um do outro. Depois falou-me no desejo de ser encurralado e no exército que Sun Tzu coloca de propósito numa garganta que impossibilita qualquer retirada, porque sabe que perante um exército maior, o facto de não poderem fugir, motivará as suas tropas a lutar como nunca e a infligir danos sérios. Venha daí essa crise.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

blindagem

Uma forma de assegurar um estilo blindado é incluir referências auto-depreciativas, um certo cinismo ternurento, que tudo condena e perdoa simultaneamente, com recurso a ironia. Se por um lado isso cria um estilo sólido e interessante, o potencial é limitado pela aversão ao risco inerente a qualquer acto criativo puro que não contenha em si a chave para o destruir, como alguém que admite um defeito e pensa que, por admitir o defeito e viver bem com isso, o defeito transforma-se numa qualidade. Muitas vezes é o caso. Às vezes penso na evolução deste tipo de escritor (de pessoa) como uma esfera que se vai expandindo com a prática mas que não deixa de ser uma esfera e não uma lança ou uma nuvem. Estou com muito sono. Estou à espera da crise, com muito sono.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

12 boas razões para achar que a Plaft é a tal

Acabou o Portal 1.

Despiu-me até aos boxers a jogar strip poker.

Bifes bons fazem-na chorar.
Passou o teste dos cones no GT5.

Ganha-me ao Buzz 85% das vezes (eu nunca tinha perdido ao buzz).

Ganhou-me uma vez ao scrabble por mais de 100 pontos.

Ganha-me sempre ao Lobo.
Acabou o move the box.

Gostou muito do Tree of Life mas considera a cena final imbecil.

É do sexo feminino.

Acha que este livro é uma bosta.

Está a acabar o Portal 2.


terça-feira, 24 de abril de 2012

a lição


Acabei de ler a peça A Lição de Eugene Ionesco enquanto comia um hamburguer à portuguesa no irish da doca de santo amaro, à beira do tejo, indiferente às pessoas que escolhem esta área para correr com fones  e bodys de licra e passam a ofegar de autoflagelação desportiva. Gostei (da peça) mas, como todas as peças de teatro que li, causou-me uma sensação um pouco estranha, como se estivesse carregada de simbolismos e fosse uma fantasia esquemática. Mesmo na insuspeita peça de Tchékov, A Gaivota, as personagens ocupam posições simbólicas: jovem escritor falhado, o velho escritor consagrado, a actriz consagrada, a actriz aspirante falhada, a Gaivota morta, o escritor morto… Os diálogos acontecem e o tempo é denso e mágico, quando a vida real é como o universo, cheia de matéria negra de silêncio, nada, absurdo e contemplação. 

Suponho que faz parte da linguagem e das formas dramáticas este universo carregado de energia de palavras e acções. O texto tem de ir da cabeça do autor, para a do actor para a do espectador. A própria experiência do teatro, como a sala escura do cinema,  predispõe para o encantamento e é potenciada por luzes, som e encenação. Talvez o domínio do tempo seja um trunfo da literatura, pode-se congelar um instante por tempo indefinido, avançar, recuar, misturar tudo. No teatro o agora é tudo, é preciso acontecer algo, mesmo que nada aconteça, a própria espera é um acontecimento, tudo é linear.

O proclamado anti-teatro de Ionesco não é A Lição, que, pela leitura, me pareceu ser bom teatro e igual a bom teatro (embora me falte a perspectiva histórica para não considerar um cliché um Professor que mata a Aluna e uma braçadeira nazi que o protege da justiça etc. me falte a consciência das reacções à peça na época e tudo isso porque sou ignorante e por isso emito opiniões e já mal o faço a propósito de literatura notem bem, só estou à vontade é em terreno novo e...)

O verdadeiro nada não pode vir de vontade humana. Tem de provir de algo aleatório e frio e desinteressante, como são desinteressantes os exercícios de Burroughs com bocados de jornal misturados ao acaso para formar texto, especialmente se o leitor souber que foram feitos assim e que depois lhe exigem atenção e tempo para ler aquilo. O anti-teatro deve ser simplesmente mau teatro, como uma anti-restaurante, é um restaurante ali na zona do Parque das Nações.




sábado, 21 de abril de 2012

às vezes acordo com coisas destas na cabeça

- Gabinete da Presidência da República, em que posso ajudá-lo?
- Alô, bom dia, queria falar com o Presidente por favor.
- Quem devo anunciar?
- Diga que é o Patins, ele sabe quem é o Patins.
- O Patins?
- Ele sabe quem é. 
- Um momento por favor... Senhor Presidente, tem Patins em linha.


(passado umas horas e normalmente depois de dois ou três cafés, reavalio as coisas, etc.)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Oh.

Hoje abateu-se sobre mim uma depressão profunda ao pescar de dentro do armário da cozinha nada mais nada menos do que sete (SETE!) embalagens de esparguete já abertas.
Enquanto não conseguir incutir no Tolan o mínimo respeito pelas massas, nunca farei dele um homem de esquerda.

ainda por cima eu sei coisas acerca destas coisas todas e tenho um bom emprego

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Portugal é muito confuso

Estou lentamente a metamorfor... metamoforsear... transformar-me numa pessoa de esquerda. Cheguei ao ponto, vejam só, em que começo a achar ligeiramente errado o estado (no fundo eu, vocês) comprar o BPN assumindo um buraco de 6 mil milhões de euros, sendo posteriormente enrabado pelos angolanos do BIC e depois, no caso do BCP, estar em vias de injectar uns mil milhões (meus, vossos) mas sem o nacionalizar, sem o "comprar" como acontece em qualquer país de esquerda que se preze (por exemplo Inglaterra, onde o governo socialista inglês tomou conta do Lloyds e meteu lá o socialista Horta Osório). Ou seja, se bem entendo, só compramos bancos que faliram de forma catastrófica e por ilegalidades. Aos outros, os que têm hipóteses de se safar, emprestamos dinheiro. A injecção permitiria ao BCP sobreviver (e outros bancos, caso precisem). As acções vão valorizar a médio longo prazo visto estarem ao preço de um sms para outra rede e o book value do banco estar bem acima da sua capitalização bolsista. Era bonito que o estado fizesse um negócio em que podia sair a ganhar e privatizar o banco mais tarde e ter um lucro porreiro. Não sei, acho esquisito só fazer negócios financeiros em que perdemos ou perdemos ainda mais (recordo os menos dados a estas coisas de economia, que o "estado" é uma entidade abstracta que gere o dinheiro que vocês lhe dão). Isto significa que os donos do banco, os accionistas actuais portanto, só têm de devolver o dinheiro que o estado (nós) lá meteu com uns juros simpáticos. Se o banco for ao ar não há crise, nós os contribuintes estamos cá é para assumir o prejuízo. Os donos, compreende-se, não querem as patas do estado nos bancos deles, mas precisam do nosso dinheiro. Diz que dá má imagem ser nacionalizado e ter lá pessoas ligadas à política. Imaginaria que sim mas o BCP não me pareceu muito preocupado com a imagem quando teve lá o Armando Vara como bibelot ou aborrecido de ter accionistas angolanos que não são propriamente privados (no sentido não corrupto do termo). Estou confuso. Portugal é muito confuso. A minha esperança é que o Governo também esteja confuso. Constou-me que anda, o que é bom sinal. Temem (é ridículo eu sei) que uma coisa destas crie pessoas de esquerda ou liberais assim de repente, tipo os gremlins quando comem depois da meia noite e que isso signifique o seu fim. Vamos ver, eu gosto de ser como sou, moderado e tendo a ver-me como o representante da consciência colectiva de Portugal e como tendo o poder de 60% do eleitorado. Desde que me lembro, o partido que eu achava que devia logicamente ganhar as eleições, ganhou. Por isso sei que sou eu que decido. E no no dia em que achar que este governo deve cair, ele vai cair. Don't fuck with me.

tapete fofinho e creme de dia essencial

Ontem tive um choque ao pisar o novo tapete na casa de banho.

- Plaft, que tapete é aquele?
- É fofinho não é? :) É mais fofinho que o outro que tinhas, todo velho e sujo.

Todo velho é sujo... Suponho que na opinião dela, o Bukowski também era velho e sujo. Ou o Salvador Dali. Ou o João César Monteiro.

No outro dia foi a minha colecção de aftershaves que perturbou o seu peculiar sentido de lógica feminina. Diz que não faz sentido eu ter quatro embalagens quase vazias e nunca acabar nenhuma. Tomou a iniciativa de as reunir e comprimir numa só prateleira. Agora têm por vizinhos uns cremes e produtos esquisitos. No outro dia reparei num creme com o misterioso nome de "creme de dia essencial". Que raio é isso de "creme de dia essencial", quem é que compra um creme que só vai usar em dias essenciais? É normal sentir-me inseguro por ela não usar o creme todos os dias comigo?

terça-feira, 17 de abril de 2012

pedagogia para criar crianças que venham a ser especiais

Ao ritmo a que estou a desenvolver o meu talento e capacidade, já percebi que não vou nunca chegar a ser uma coisa de jeito. Sou evidentemente talentoso, mas os meus pais não tiveram grande profissionalismo na minha educação e foram demasiado brandos em diversas ocasiões. Para colmatar a impossibilidade de eu ser uma pessoa especial e bem sucedida, percebi que o truque é ter alguns filhos e continuar a trabalhar neles, mais ou menos a partir do ponto onde eu fiquei e fazer deles pessoas extremamente especiais e talentosas que vão fazer os outros pais roer-se de inveja com os seus filhos medíocres e desinteressantes nas reuniões de pais e festas de aniversário.

Só que isto de fazer pessoas especiais é também um talento e vai exigir alguma tentativa erro, tanto que planeio experimentar vários caminhos diferentes com cada filho. Por exemplo, um vai ser sempre contrariado e nunca lhe vou demonstrar qualquer afecto ou aprovação e ao outro (o ideal era ser um gémeo) vou dar tudo o que precisa: carinho, apoio e compreensão e dizer-lhe que ele é especial.

Claro que na verdade o primeiro tem muitas mais hipóteses de ser bem sucedido que o segundo e é nele que deposito as esperanças. O primeiro será certamente nobelizado ou algo do género, enquanto que o segundo, no limite, vai criar um movimento do tipo geração à rasca. É contra o pai (o ideal é a mãe participar também) que o jovem se vai rebelar e esforçar para conquistar a sua admiração e afecto para o resto da vida (sem sucesso). É preciso começar desde cedo. Nunca percebi os pais que elogiam os filhos quando estes fazem um desenho mal feito ao ponto de terem de escrever por cima o nome das coisas que tentaram desenhar, ainda por cima com erros.Se descobrir que aquele a quem estou a dar apoio e compreensão se revela mais talentoso que o filho proscrito, posso inverter subitamente os papéis sem qualquer aviso.

Sinto-me compelido a fazer um aviso, o tema é sensível, afinal, trata-se do bem estar dos pais na sociedade e não tem jeito nenhum ter filhos que os envergonhem, vão para a cadeia ou acabem mortos numa banheira antes de venderem os discos todos como deve ser. É importante o acompanhamento dos pais para os ajudar a escolher comportamentos desviantes que não sejam demasiado auto-destrutivos e que ajudem mesmo à criatividade (o famoso binómio autodestruição vs. estímulo). As doses de álcool e certo tipo de drogas (cocaína) devem ser administradas com receita médica ou auxílio de um nutricionista e mesmo assim é preciso ter cuidado porque há médicos que não são de fiar (os McCann por exemplo). De certeza que quantidade de cerveja que um rapaz de 16 anos pode beber, é totalmente diferente daquela que uma criança de 6 ou 7 pode tolerar antes de ficar em coma.

Tenho falado destes planos à Plaft porque é importante desde muito cedo estarmos alinhados com isto ou então não há futuro. E eu sou da opinião que quando namoramos com uma pessoa devemos imediatamente decidir a educação dos filhos que vamos ter, faço isso desde os 14 anos. Ela tem assim umas ideias esquisitas sobre o tema e fala em "felicidade", que é um conceito muito bonito mas um bocadinho vago e hippie demais. Mas o debate prossegue.

instântaneos entre grandes escritores #2 Sartre e Camus

- Que cadela adorável... De certeza que não queres ficar com ela Jean Paul? Parece gostar de ti. 
 - Toda a coisa existente nasce sem um motivo, emerge da fraqueza e morre por acaso. A última coisa que eu preciso é de uma coisa que nasce sem motivo, emerge da fraqueza e morre por acaso por aí a encher-me os sofás de pêlo.
- A Simone mete-te 15 gatos em casa e tu nem pias, nem quando eles te mijam o tabaco do cachimbo todo...
- Os gatos são livres, Camus. Quando me urinam dentro da bolsinha do tabaco ou mesmo no cachimbo e eu só dou por isso quando levo o cachimbo à boca e puxo duas baforadas... sinto... eu sinto isso como um acto de liberdade. Eles existem, eles são, independentemente de mim. Esta cadela procura em mim um Deus. Eu recuso esse papel de opressor.


domingo, 15 de abril de 2012

instantâneos entre grandes escritores #1 Tchekhóv e Tolstói


- Ouve o que eu te digo Tchekhiuchka: o chá verde é excitante. Pensas que não é, bebes duas taças à noite e depois não dormes nada.
- Se calhar tem razão.
- Claro que tenho, meu urso! Bebe chá de camomila por exemplo, tenho sempre o samovar cheio dele.
- Sim.
- E não te armes em esperto comigo que eu sei mais do que tu que és médico.
- Foi só uma sugestão.
-Ah bom. Então guarda-a para ti para a próxima. Quando tiveres uma barba como a minha em vez dessa barbichazeca vem cá dizer-me como devo viver a minha vida.
- Estamos só preocupados consigo avô Tosto, a Sofya pediu-me para vir cá visitá-lo.
- Essa parva!Agora tu ouves o que elas dizem? Vais longe vais..
- É só que não tem dormido nada. Tem de descansar.
- Descansar!? Viste o jornal de hoje? Já viste em que estado está a Humanidade?

sábado, 14 de abril de 2012

gajas electrónicas

Vou fazer um post, mas antes vamos ver este video pedagógico sobre o uso incorrecto de maquilhagem.


E o post é assim: hoje parece que vai chover, está assim com ares de borriço.
Tenho saudades do Atum Macaco :(
E ninguém conseguia obrigar as pessoas a ver os videos que ele postava como ele.

está explicado

Play Station... Plaft, Sílvia

quinta-feira, 12 de abril de 2012

sou um génio querida, mas ninguém o sabe a não ser eu

Já percebi a cena, há dois tipos de escritores. Bem, há muitos tipos de escritores que estão distribuídos numa espécie de eixo. Ou em vários eixos. É complicado. Bolas. Estava entusiasmado como que ia dizer e agora estraguei tudo, de há uns tempos para cá comecei a preocupar-me sempre que fazia uma generalização e a conter-me para não dizer disparates. Mas ok. Respira.



Entretanto pensei melhor e já não concordo com o que ia dizer, pensei melhor. Ia dizer que havia o tal eixo e os dois tipos de escritores nos extremos desse eixo. Um dos extremos é o que eu chamaria do perfeccionista enconado e no outro extremo, o génio que cospe textos. Penso que por esta descrição já adivinharam de qual dos extremos eu estou mais próximo, escuso de o dizer, a minha humildade impede-me. Mas o ponto não era esse. Não sei qual era o ponto. Isto ultimamente anda mal, esqueço-me do propósito dos textos a meio dos mesmos.



Ah! Ia dizer que, para o génio que cospe textos, as coisas às vezes saem más, péssimas. Se calhar por cada coisa boa, há 3 ou 4 más, ou mais. O génio que cospe textos é assim mesmo porque não leva as coisas assim tão a sério quanto os leitores parecem levar. A única coisa que lhe resta é fazer outra e outra e outra e esperar acertar mais uma vez porque ele é muito auto-crítico o que parece paradoxal mas é verdade, verdadinha, ele anda pela casa (estou só a dizer, a imaginar) de braços erguidos para o ar e a dizer "MEu DEus sou uma merda, uma fraude, um flop!" e fica prostrado no sofá uns minutos até o microondas acabar de aquecer a sopa de cebola que a Plaft fez. No processo, se tiver os genes certos, ele melhora e o mau dele melhora, é uma espécie de chão abaixo do qual ele não cai e que depois tem felizes oscilações para cima que o vão perseguir para o resto da vida e funcionar como maldições. Sim, maldições. Os leitores, insensíveis e bem intencionados, dizem-lhe "aquele que tu fizeste há 2 anos, aquele texto, foi o melhor de sempre" e os olhos do génio que cospe textos ficam marejados de lágrimas porque entretanto ele escreveu mais 200 textos. O leitor é um ingrato e um insensível porque, depois de experimentar o melhor do génio que cospe textos, não quer outra coisa, habitua-se, espera aquilo sempre como um drogado a quem deram uma vez heroína pura de elevada qualidade por engano em vez de estar misturada com gesso como é costume e vira-lhe as costas e vai a correr para outro dealer e o génio que cospe textos sabe que só lhe resta fazer outro e depois outro e outro a ver se alicia os filhos da puta de drogados que todos os leitores são.

Já para não falar naqueles "leitores" que estão sempre à espera que o génio tropece para o insultar e apanhar em falso, tipo aqueles pseudo-adeptos de futebol que odeiam o Cristiano Ronaldo porque embirram com ele por ele ser un chico guapo, rico e talientioso e que depois quando ele marca um livre e um golo de fora da área como neste último contra o Atlético, dizem "bah, nunca mais faz outra igual". Foda-se.

E era isto :) Estou mais calmo.


terça-feira, 10 de abril de 2012

tempo de fazer uma limpeza

Isto do BILF foi uma campanha de marketing que me foi imposta pelo Autor. Sei que durante uns dias me tornei completamente irresistível para o sexo oposto e para aqueles jovens rebeldes que, de acordo com o Saraiva, querem aderir à moda de ir ao cu uns aos outros como aderiram ao PREC depois do 25 de Abril. Modas, enfim. Depois de ver jovens licenciados com power balances no pulso, acho que tudo é possível. Com a mera construção de elementos básicos, projectei a imagem de que era um homem sensível, conhecedor dos meandros dos sentimentos. Estou com um mau humor de merda. Ontem cheguei a casa e a Plaft tinha um cachecol do Sporting desenrolado no meu sofá, perdão, no nosso sofá, antes do jogo. Estava refastelado depois do dia de cão, todo contente, a ligar a sportv e nem me tinha apercebido daquilo atrás de mim, quando tive o vislumbre do verde a tocar-me no pescoço dei um salto que parecia que tinha um aranhiço em cima. Sou aracnofóbico, lamento generalizar assim sobre as aranhas mas não gosto delas, acho que são assim porque é moda e acham fixe e rebelde serem assim com oito patas e nojentas. Tive de ir buscar o cachecol do Graças A Deus Sou Do Benfica e dividir o sofá em dois, com o meu cachecol um pouco por cima do cachecol dela, para dar sorte. O caralho. Não deu. A Plaft, como todas as pessoas do Sporting, não percebe puto de futebol mas é sócia desde que nasceu porque lhe pagam as quotas. Ela só começou a ligar aos resultados do campeonato desde que me conheceu e entendeu que aquele mito dos benfiquistas baterem na mulher quando o Benfica perde não era bem um mito. Não que eu lhe bata (fisicamente) mas alguma coisa devo fazer porque nas últimas jornadas e na champions ela começou a torcer, genuinamente, pelo Benfica e fica ansiosa quando o Glorioso perde, tratando-me como um tipo que sofre de stress pós-traumático, à cautela e com o cabo da vassoura a dar-me toques a uma distância segura para me perguntar se quero mais cerveja.

É verdade, trato toda gente mal, nem é nada pessoal. Às vezes começo com dissertações filosóficas que fazem o Schopenauer parecer um pateta optimista e depois lá me lembro "epá, o Benfica perdeu! É capaz de ser disso, se calhar a morte do acidental do parceiro não é a solução para o problema das relações amorosas definharem inevitavelmente em ódio e ressentimento!". Ela parecia bem intencionada, tentou transformar a casa numa festa futeboleira, tipo final de taça de Portugal no Jamor, com direito a uma bolonhesa em frente à tv e duas garrafas de vinho, cachecóis e acepipes. Pensei que ia ser uma noite perfeita, no fundo era uma armadilha cuidadosamente planeada. Reparem, nunca viu um jogo do Sporting esta época, só viu aquele e ficou toda contente. Durante um ano vai pensar que o Sporting joga sempre assim e que o Benfica é aquela merda. Depois ri-se muito sempre que aparece a cara do Bruno César em grande plano, sem qualquer respeito pelo Bruno César e por pessoas com prognatismo e estrabismo. E é racista, chamou "traidor" ao Djaló (que é preto). Riu-se dos suspensórios e dos blazers de cotoveleiras do Sá Pinto e achou-o parecido com o Jorge Jesus, tal é a profundidade da análise futeboleira do adepto típico do Sporting. E quando é o Javi Garcia ou o Volkswinkel a aparecer em grande plano e camera lenta pergunta "quem é este?" com um tom de voz inocente nada inocente.

No fundo é isto, o Sporting ganhou e celebrou a sua vitória da época, o Benfica perde o campeonato, mas eu fiquei com a sócia dos leões. Golo. Levem lá o 4º lugar, bom proveito. Eu não trocava a Plaft nem pelo 2º lugar no campeonato. Voltando ao tema inicial do post, que já não me lembro qual era e tenho preguiça de fazer scroll up, queria só reforçar esse tema e insistir nele sem contemporizações.

e a coluna chama-se "política a sério".

O José António Saraiva teve a ideia para este artigo de opinião enquanto batia uma na casa de banho do 3º piso dos armazéns do Chiado, depois partilhar o elevador com um efebo efeminado.