quinta-feira, 10 de novembro de 2011

a selecção de discos do Tolan de 2011 (sem ordem específica) #2

Tomboy de Panda Bear, aqui já falei dele. É inspirador e comovente. Por exemplo, isto é um vídeo não oficial para a faixa "Surfers Hymn". Não oficial, repito.

a selecção de discos do Tolan de 2011 (sem ordem específica) #1

Degeneration Street dos The Dears... pop rock, as good a it gets.

serviço de aluguer de prendas de Natal para as crianças

Ao tomar café tive uma ideia fixe para a Fnac, Toys R'Us, Worten,etc. neste contexto de crise em que não há dinheiro nem subsídio de Natal.

Podiam ter um serviço de aluguer de prendas. Os pais pagavam um valor reduzido, por exemplo, 5% do valor total do brinquedo ou livro, embrulhavam-lhes aquilo e podiam levar para casa mas tinham de devolver no dia 26 de Dezembro. Desta maneira as lojas faziam algum dinheiro com os seus brinquedos e as crianças podiam ter um Natal mais parecido com os anteriores. É importante que as crianças não saibam do serviço de aluguer, para a felicidade ser genuína. O pequeno Miguel teria direito à felicidade de abrir um embrulho e ver lá uma playstation e a Inês uma Barbie, ainda que só por umas horas. A fase seguinte seria um pouco delicada, o ideal é aproveitar quando estão a dormir para arrumar os brinquedos nas embalagens de origem - que convém não estragar na abertura da prenda - e colocar tudo na mala do carro para depois levar à loja cedinho antes de acordarem.

-Foi uma excelente ideia Jorge, estão tão felizes. Não estraguem as embalagens!
-Sim Bárbara, olha para eles... não desconfiam de nada. Inês, cuidado, não rasgues a embalagem!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

cozinha quântica

Existe este blogue que já leio há algum tempo o Debaixo do Fogão. Não quis falar dele antes mas hei, hoje sinto-me generoso para com os homens que lêem isto. Não é só das coisinhas bem escritas que se encontra por aí, também confere aos leitores algumas vantagens competitivas importantes em certos domínios como a competição sexual. Um homem que cozinhe estas coisas e perceba de livros e assim, tem boa parte do trabalho feito, só precisa de tomar banho de vez em quando (não sei se o autor toma mas fica aqui o conselho). A piada é que as receitas são daquelas da cozinha molecular, uma coisa que, evidentemente, vou começar a praticar. Fazer um caviar de vinagraitte ou uma mousse de ostras e servir um malibu com esferas de coca-cola, é daquelas coisas que, imagino, deve deixar uma mulher boquiaberta e rendida. É preciso não exagerar nisto porque pode parecer gay e o autor compensa isso indo a restaurantes onde come comida de homem, grelhados e coisas dessas.

Por enquanto eu pratico mais a cozinha biológica, cuja ciência reside em perceber se a quantidade de micro-organismos em pedaços de frango assado deixados fora do frigorífico dois dias em agosto é suficiente para causar mal estar físico aos comensais (que, evidentemente, não sabem deste facto).

agora para mudar de tema e falar de coisas sérias

Hoje, 9 de Novembro, é o Dia Internacional do Fascismo e do Anti-Semitismo. A 9 de Novembro de 1938 os Nazis partiram as janelas todas às lojas dos judeus. Essa noite ficou conhecida como "Kristallnacht" e é vista como o início simbólico do Holocausto que vitimou 6 000 000 de judeus (provavelmente um número arredondado ao milhar pelo menos).

Aos 7 anos de idade fiquei impressionado com os volumes da II Guerra Mundial que tinha em casa, especialmente com as fotografias da iconografia das SS, as caveiras e as suásticas que causavam tanto medo e que se assemelhavam aos orcos do Senhor dos Anéis, ao Greyskull do He-Man ou ao Império do Star Wars.

Não percebia bem o que eram "6 milhões de judeus". O número era absurdo e "judeu" para mim era um conceito um tanto ou quanto abstracto também. O único judeu que conhecia era o Woody Allen e achava-o engraçado e custava-me a acreditar que tinham morto seis milhões de Woody Allens, porque é que alguém havia de fazer isso?

Tanto fiquei impressionado com as suásticas que convenci dois amigos a pintarmos uma série delas nas paredes da nossa aldeia, durante a noite. Armados com um balde de tinta vermelha e trinchas, pintámos suásticas bastante tortas e a escorrer tinta, o que lhes dava um aspecto "sangrento" que até ficou fixe. Por isso, em 1984, uma pacata aldeia rural da zona oeste acordou decorada por um Joseph Goebbels de 7 anos e dois capangas da Gestapo. Para além das suásticas, o M. também pintou uma piça na paredes da garagem do tractor do senhor L.

Não deu assim grande bronca, os conhecimentos de história dos aldeões eram parcos e a indignação resumiu-se termos sujado as paredes que tiveram de ser caiadas de novo. Não havia judeus lá aldeia, imagino que se houvesse uma família judia, não teriam achado piada nenhuma.

Maior bronca deu a minha acção greenpeace radical para salvar as rãs do riacho que estava a secar no verão: tirei as rolhas dos ralos dos tanques de água para rega em todo o vale para inundar o rio. Resultou, por umas horas, o rio voltou a secar e as rãs ficaram tristes outra vez. O efeito mais significativo foi ter obrigado uma dúzia de agricultores septuagenários a acartarem canecos de água em carrinhos de mão até às primeiras chuvas de outono e eu evitar sair de casa durante quase todo o verão.

Conheci o primeiro judeu no curso de matemática (óbvio). Um judeu mesmo judeu em Portugal é muito raro porque a Igreja os converteu amavelmente há séculos. Em Portugal há mais daquelas pessoas que dizem que são judias como dizem que são liberais de direita ou anglófilas, só para chatear as pessoas do PCP. Mas este era mesmo judeu a sério, um tipo extremamente inteligente, de óculos redondos, muito agarrado ao dinheiro como eles são e que queria especializar-se em gestão de derivados nos EUA.

Ao pé dele sentia-me culpado não sei bem de quê, eventualmente do episódio das suásticas na minha infância. Estava-lhe sempre a pedir desculpa por tudo e por nada, ganhava-lhe uma mão à espadinha e pedia-lhe desculpa, sentava-me antes dele e pedia-lhe desculpa, apontava para qualquer coisa ao longe e temia fazer algo como uma saudação hitleriana, recolhia o braço e pedia desculpa e às tantas comecei a evitá-lo porque me fazia sentir triste e culpado. Só que isso não resolveu o problema, ainda o agravou.

Um dia, já meio bêbedo da happy hour numa quinta feira, enquanto ele contava moedas daquelas escuras dos cêntimos que tinha apanhado do chão, ganhei coragem cheguei-me ao pé dele e disse-lhe: «em nome de todas as pessoas, queria-te pedir desculpa por termos morto seis milhões dos teus». Ele não me respondeu mas tirei um enorme peso de cima. Sugiro-vos que façam o mesmo a um judeu hoje, peçam desculpa, vão ver que tiram um peso de cima. E já que estamos nisto, peçam desculpa a um comunista pelo fascismo também. Se encontrassem um judeu comunista até podiam despachar logo tudo de uma vez, mas isso não deve ser muito comum em Portugal.

Dito isto, resta-me desejar um bom dia internacional do anti-semita e do fascista a todos vós e que sejam tolerantes.

é oficial!

É oficial, informado por um comentador anónimo porque não vi o telejornal hoje, acabei de saber isto: o recorde da maior onda do mundo, jamais surfada, acabou de ser batido, não em Waimea, Mavericks ou Jaws, mas sim na Nazaré, Praia do Norte, por Garret McNamara, no ZON North Canyon Show.


The three were surfing in Praia do Norte off the coast of Nazaré, Portugal. McNamara has been spending quite some time here once he discovered the magic of the spot. The coast of Nazaré is home to one of the only deep water canyons that runs all the way to shore. He has been working with the Portuguese Hydrographic Institute to understand how the waves reach such an abnormal height.

According to the Portuguese Hydrographic Institute, “the proximity of the ‘Nazaré Canyon’ to Praia do Norte creates a situation that greatly increases the swells intensity. The conditions of the swell and wind direction observed on this day exemplify this phenomenon”. “By 9:00 AM, the monitor on the buoys registered a swell with around 8 m near Nazaré. With a WNW swell direction with favorable wind, it is reasonable to conclude that this wave had a significant swelling effect, which is characteristic of this place.”

“I feel so blessed and honored to have been invited to explore this canyon and its special town. The waves here are such a mystery”, said Garrett.


Aqui, uma entrevista da RTP ao Garret McNamara.

E aqui o video da onda no jornal da SIC.

domingo, 6 de novembro de 2011

fuuusão


Vem aí uma revista de Artes e assim, onde o autor do Autor do Tolan escreve com um pseudónimo que os pais dele inventaram, chamada, muito apropriadamente, Salazar.
O autor do Autor, quando ligou à mãe a contar, teve dificuldades em justificar o nome da revista, ela ficou horrorizada. Consta que essa revista será editada em papel a sério, não é uma coisa de brincar como este blogue do Tolan. Os seus textos serão ilustrados pelo Z que é um artista que faz fotografias a sério e não daquelas que se sacam da internet e depois se diz que fomos nós que as fizemos. O primeiro texto já está online.


sábado, 5 de novembro de 2011

o Google Buzz vai ser descontinuado (mas vai poder manter os seus artigos)

Ohhh nãaaaao. Ohhhh. Vai ser descontinuado. Como vou viver sem o Google Buzz, não sei. É isso e o Google +. Espero que não descontinuem o Google + porque se o fizerem, é o fim.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

apaixonados

Quando estamos apaixonados ficamos vulneráveis a constipações porque os nossos glóbulos brancos também ficam apaixonados pelos glóbulos brancos dela (li na Science) e então ficam aparvalhados, sentados nas margens das células, a molhar os pézinhos nos rios de plasma sanguíneo e os micróbios vão e atacam à vontade. Por isso não devemos apaixonar-nos nunca sem uma alimentação cuidada, vegetais, citrinos ou guronsan.

Também se dão beijos na boca e se ela tiver uma constipação é muito provável que apanhemos também e nesta altura do ano então, significa que as probabilidades de nos constiparmos aumentam para o dobro, isto já sem contar com a debilidade do sistema imunitário descrita no ponto acima, ainda agravada com uma coisa que me esqueci de dizer que é que as pessoas quando estão apaixonadas dormem mal e isso prejudica o sistema imunitário. Mas nada disto é preocupante porque quando apanhamos a constipação dela pensamos que pelo menos ficámos com qualquer coisa e a cada espirro, sorrimos embevecidos.

Se por um lado uma pessoa fica sem defesas contra organismos patogénicos, por outro fica com uma resistência formidável contra as manchetes nos quiosques e olha indiferente para os sintomas de colapso económico do mundo, fica-lhe apenas uma pergunta: porque é que não se dão bem? porque são maus? Porque é que as cimeiras do G20 ou da UE ou a UN ou da OCDE não deviam decorrer num ambiente mais propício a um envolvimento amoroso?

Em vez daquelas alcatifas azuis devia haver tapetes aveludados, talvez vermelhos. Em vez das águas, que tal um bom vinho do Douro? Em vez dos hinos, música de pretinhos: Barry White, Stevie Wonder, Marvin Gaye... o Papandreous e a Merkel ao som do Sexual Healing, a trocar uns olhares, a Merkl a sorrir, tímida e casta e na mesa ao lado o Berlusconi e o Paulo Portas, a mão de Berlusconi a roçar a de Paulo Portas quando verifica a agenda do dia... Podia ser tudo tão mais simples e bonito.




Este texto ficou um pouco desconexo, a certa altura perdi-me e agora não me apetece rever isto e em vez de guardar em draft, vai assim.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Spielberg, por favor, se não consegues combater a senilidade, imita o George Lucas e está quieto, tu não és um Clint Eastwood

Há uma diferença fundamental entre "comics" americanos e a bd europeia. Personagens como Batman ou Superman são uma espécie de conceito que pode ser recriado por diferentes artistas, quer na BD quer no cinema, podem sempre ser reinventados, melhor (Burton) ou pior (Schumacher). Os comics são mais descontraídos nisso, é como um franchise que é emprestado a artistas. E é uma honra poder desenhar, escrever ou filmar determinado nome da mitologia de comic americano.

Outra coisa totalmente diferente é a BD de autor. Não há 242 Tintins, há 1, o de Hergê. Por isso Alan Moore sempre recusou que fizessem um filme do seu Watchmen e recusou ser associado ao filme. Por isso o Bill Waterson sempre recusou fazer um franchise a la Garfield do seu Calvin & Hobbes.

Fazer um Tintin apalhaçado em 3D está ao mesmo nível que ter o Michael Bay a fazer um filme de acção do Dom Quixote com moínhos em 3D e gigantes digitalizados e explosões (hmm... era capaz de ser giro...). Não percebo porque optou por animação, só por aí é totalmente imbecil a escolha e um erro que felizmente poucos realizadores cometem quando se metem nisto. Isto é macaquear uma obra, é uma palhaçada.

Spielberg, o cineasta da minha vida, tem-se revelado um imbecil de primeira com a idade, um pouco à semelhança de Tim Burton mas ainda mais grave (não tão grave como George Lucas que ficou senil num ápice mas ao menos não chateou muito). Ele sempre fez merda de vez em quando (Lista de Schindler, Cor Purpura etc.) mas era intermitente e nos últimos anos até fez um Minority Report, um Catch Me if you Can, ou aquele dos aliens a invadir a terra e que eu acho que está brutaaaal (a sério).

Acho que o exemplo mais flagrante da intermitência de merda que o Spielberg é capaz de fazer é o final do A.I, obra que tem uma primeira parte fabulosa (feita com o Kubrick ainda vivo) e depois um final totalmente imbecil, spielberesco, a carregar na tecla da redenção e do sentimentalismo de pacotilha até a partir. Penso que ele às vezes pensa que o espectador médio é algo com um QI próximo de um de um americano médio. No Indiana Jones e a Caveira de Cristal conseguiu a proeza de banalizar a sua própria criação sagrada e agora estende as manápulas de judeu ganancioso a tudo o que se mexe. Qualquer dia faz-me um ET - O Regresso, todo digital e em 3D e eu mato-o.

O único filme bom de adaptação de BD europeia que foi o Asterix e Cleópatra (o 2º filme de Asterix) de Alain Chabat. Mas o próprio Asterix em BD também já era um franchise desde a morte de Goscinny em 77.

é legalmente permitido tatuar uma criança de seis ou sete anos? E se formos pais dela?

domingo, 30 de outubro de 2011

a Kapital

Depois do deprimente post de Tolan sobre o tal “Limbo”, gostaria de falar de um sítio onde saía bastante, no final dos anos 90, com os meus amigos do ragueby ou da tuna: o sítio era a Kapital. Suponho que a maior parte de vocês não conhece a Kapital a não ser de fora, porque era um daqueles sítios que era exigente na selecção das pessoas que podiam entrar ou não. A zona de Santos estava a bombar naquela época, com o Kremlin (um pouco mais chunga) e o Plateau para quem gostasse do género rock mais alternativo dos anos oitenta. Também havia a zona dos bares, do qual o Vacas Loucas era o mais sofisticado. Por isso achei que seria interessante para vocês que nunca lá entraram, perceber como aquilo era lá dentro.
Havia fila para quem não conhecesse ninguém mas no meu grupo de amigos do ragueby havia um que conhecia toda gente e entrávamos sempre. Às vezes um de nós estava sem sapatos de vela e camisa e íamos a casa de um, buscar outro par e ele calçava, nem que os sapatos fossem um ou dois números abaixo e andasse o resto da noite a coxear (aconteceu-me uma vez). Depois lá dentro havia dois pisos e era tudo muito luminoso e branco, cheio de gente bonita e saudável. Se quisessemos música mais alternativa tinha-se o piso de baixo, onde passavam êxitos de música de dança. No piso de cima a música era mais pop e acessível. Quando vou a uma discoteca para sair e me divertir só peço uma coisa: que a música não seja daquela muito barulhenta e esquisita ou então que não seja daquela que ninguém conhece e que não dá para dançar e que enxota as raparigas bonitas. Já me aconteceu estar duas horas no piso de baixo do Lux sem conseguir reconhecer uma única música, encostado ao balcão, tudo porque um amigo meu, um forcado de Vila Franca, contou umas histórias ao pessoal que no Lux havia muitas estrangeiras. No piso de cima do Lux ainda se está bem e melhorou substancialmente nos últimos 10 anos.
Uma das coisas mais agradáveis na Kapital era o sentimento de pertença, reconhecíamos que as pessoas à nossa volta eram pessoas como nós. E as mulheres eram as mais bonitas da noite de Lisboa. Vestiam-se bem, arranjavam-se, tinham brincos de argolas e colares com cruzes e muito bronzeadas, mesmo no Inverno, o que indicava que iam passar férias na neve e praticavam desportos, o cabelo era loiro e tinham os dentes brancos.
Voltei à Kapital há alguns anos mas achei que a média de idades tinha decrescido ou então eu é que estou mais velho, não me senti lá muito bem e por isso tenho ido para o BBC. É pena no BBC não serem tão selectivos à entrada como eram na Kapital, mas creio que isso tem a ver um pouco com a crise. Quando vou ao BBC faço a contagem de calças de ganga azuis com camisa branca. Se for inferior a 75%, vou-me embora, quer dizer que a noite está a ficar para o xunga e não tarda nada há facadas e tiros.
Alguém mais gosta da Kapital?

Saudades de ouvir isto... :)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Limbo



No Bairro Alto havia um sítio, o Limbo. Não sei se alguém alguma vez aproveitou o Limbo. Alguém? O Limbo era escuro e frequentado essencialmente por góticos. Eu tinha uma amiga meio gótica, pálida, com cicatrizes de tentativas de suicídio nos pulsos e neonazi, era fixe. Não pensem que era neonazi mesmo, era uma coisa que dizia que era, como eu quando digo que sou neoliberal e sou apenas liberal. Tinha o cabelo curto à rapaz, espetadinho e tatuagens e era incapaz de me tratar por "tu", tratava toda gente por você. Chorava quando ouvia músicas tristes no meu velho ford às voltas por Lisboa comigo com os copos e sem saber bem o caminho para casa. A pista de dança tinha uma teia de aranha gigante no tecto, o que me deixava um pouco desconfortável, mas suponho que era uma decoração gótica. Era inocente aquela teia, era uma espécie de helloween permanente. No piso de cima havia uma mesa de matraquilhos. E os góticos pareciam monstrinhos simpáticos que corriam da criptas para aquele sítio, fugindo a luz e da família, escondendo a cara coberta de base branca na gola dos sobretudos de cabedal e não os conseguia imaginar num transporte público. No escuro (era mesmo escuro o sítio) ninguém reparava na minha indumenta de beto surfista. O bartender e a bartender (deviam ser um casal) estavam cobertos de tatuagens e vestiam cabedal justo e eram simpáticos. E o dj, num trono decorado com autocolantes de sinais de radioactividade, passava Joy Division, New Order, Smiths, Cure, Depeche Mode e muitas coisas industriais e pesadas que não conseguia identificar. E ficávamos sentados encostados à parede, no escuro, a beber vodkas que brilhavam nas luzes negras e os góticos pareciam-me guaxinins eriçados, a dançar aos sopetões na pista e havia amor, digo-vos meus amigos, havia amor pela música naquele sítio como nunca mais vi em lado nenhum. Depois fechou.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Outono!

Não me soube muito bem comer castanhas de t-shirt e óculos escuros, há coisas que não são naturais. Este Outono chegou de repente, nem deu tempo para uma pessoa se habituar e a julgar pelas sirenes dos bombeiros no domingo à noite, muita coisa foi apanhada de surpresa. Parece que estamos noutra cidade, noutro país, noutra latitude. O trânsito fica mais caótico, parece que de repente há muito mais carros, como se ocorresse um fenómeno com a água da chuva e os carros do género gremlins. E gosto de como em Lisboa há poças de água. Noutras cidades em que chove torrencialmente é raro ver poças de água mas aqui há poças de água nas estradas e nos passeios e podemos chapinhar nelas com os sapatos e ficar de meias molhadas e podemos ser refrescados por um 46 a passar a toda a velocidade na faixa do Bus. Perto de uma casa em que vivi havia uma misteriosa poça de água no passeio que nunca secava o ano todo. As pedras da calçada submersas tinham algas e víamos seres unicelulares a evoluírem na poça, uma espécie de the poss of life. Mas era devido a uma fuga de um esgoto. Se déssemos tempo suficiente às amibas para evoluírem, não me admirava de ver sair de lá um palmípede ou um militante do PCP numa bela manhã de Outono. É bom este tempo, estes dias mais escuros e tristes, porque o que estava a acontecer com a crise económica e os dias de praia em Outubro é que o cenário não colava bem ao argumento, como querer filmar um filme de terror nas Bahamas ou um filme romântico no Pólo Norte.

- Amo-te Pikatti, percorri estes glaciares gelados para te trazer este peixe, agora namora comigo.
- Oh Akiak! Meu herói...


*nariz com nariz
(entra música romântica e épica)

domingo, 23 de outubro de 2011

The Tree of Life, Malick


Ontem, em vez de alugar o tradicional filme de terror à meia noite de sábado, optámos (eu e O Autor) pelo Tree of Life que finalmente ficou disponível no meo. Gostei muito do filme e as duas horas e pouco passaram a correr, com choraminguice nossa pelo meio. Há um ramo na minha árvore que não é necessariamente universal, mas que aparece intacto no filme, o que também me faz ter alguma dificuldade em apreciá-lo objectivamente ou, pelo menos, partilhar uma opinião. Mas é muito bonito, um dos filmes mais bonitos que já vi. Tirando a última sequência em que Malick força um bocadinho a barra com uns planos um pouco esotéricos, é um filme perfeito. Lembrou-me o 2001 Space Odissey do Kubrick, mas ao contrário. A par de Lynch, acho que ninguém filma tão bonito hoje em dia como Malick. Depois também há a questão de Deus e de ser um filme evangelizador de acordo com alguns críticos ressentidos que me lembro de ter lido. Suponho que também devem sentir o seu íntimo violentado de cada vez que apanham com obras de Bach, Dostoiévski ou Michelangelo. Há uma ideia que só reverbera em nós com a abertura do espírito a algo que transcenda o mundo conhecido e a finitude da existência. Um equilíbrio pode ser uma espécie de ateísmo intermitente, uma fé na fé dos outros, emprestada por momentos, seja ao Malick, seja a uma personagem de Dostoiévski que se redime. Deus pode ser uma metáfora do mistério, do belo, ou da dependência de um destino insondável para as coisas fundamentais da nossa vida, como o amor, o nascimento e a morte. Ia escrever sobre não ser um filme para pensar mas sim para sentir, só que isso é um bocadinho complicado de se fazer. A crítica ideal seria uma que também não desse para ler, mas só para sentir, por exemplo, um boneco, umas frases soltas. É o que se arranja.

sábado, 22 de outubro de 2011

sobre amor

Olá a todos.
O meu nome é Tolan. Bem vindos a este espaço que se pretende repleto de boa disposição e cultura. O meu Autor disse-me que só poderia comer cheetos e beber cerveja se falasse de um assunto bonito. Escolhi o assunto "amor" e fiz então uma pesquisa no motor de busca google por frases bonitas sobre amor. As imagens também fui eu que escolhi. Espero que gostem todos e reflictam muito.

"Nada é pequeno no Amor. Aqueles que esperam por grandes ocasiões para demonstrar a sua ternura não sabem amar."



"Um momento não é tudo... Mas você é tudo em um só momento."




"Nada de grande no mundo é feito sem paixão."



"Quando duas pessoas se amam, elas não se submetem e não se dominam, apenas se completam."


"Não sei se dentro de você existe um pouco de mim, mas dentro de mim existe muito de você." 




Fixem particularmente esta última, é um subtil elogio para dar ao vosso homem durante o intercurso.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

comunicado

Caros leitores,
Antes de mais, agradece-se as visitas a este espaço de social media, bem como a fidelidade e boa disposição de todos os participantes. Também se agradece ao Tolan a sua perseverança e esforço ao longo deste tempo.

Pretende-se com este comunicado d'O Autor clarificar alguns pontos, tendo em vista a clarificação de todos os intervenientes neste espaço de social media.

Gostaria, primeiro, de me distanciar totalmente de todos os conteúdos deste blogue que consideraram ofensivos, aborrecidos ou medíocres. Esses foram da autoria exclusiva do Tolan. Por outro lado, pretendo reclamar a autoria de todos os conteúdos que consideraram acertados, entretenidores e de insofismável valor literário.

Uma vez que os social media são interactivos, a apreciação entre um grupo de conteúdos e outro pode variar de indivíduo para indivíduo, deixo à interactividade e ao vosso critério a correcta segmentação dos mesmos e a respectiva atribuição ao respectivo autor.

O Tolan é uma criação minha e a mim deve a sua existência e bons momentos. Também criei outras bastante mais interessantes e elaboradas, mas que não obtiveram por parte do público os desejáveis índices vulgarmente utilizados para aferir do sucesso de um meio de comunicação de Social Media. Estou em crer que tal se prende com a degradação do gosto e exigência do público português, bem como outros factores conjunturais, como seja a falta de investimento do Estado numa política cultural consistente.

Para usar uma metáfora, podemos considerar o sucesso relativo do Tolan como uma mutação resultante de um acidente nuclear. A energia nuclear é bem intencionada mas às vezes faz das suas e deixa as pessoas com alopécia num raio de trezentos quilómetros. Contudo, entre desgraças e mutações genéticas, pode acontecer uma que seja divertida, como uma vaca que em vez de dar leite, dá cerveja e que em vez de mugir, ladra. Nesses momentos, é preciso tirar o melhor partido daquilo que se tem. Pode-se ter a vaca de guarda e substituir o cão ou, no inverno, deixá-la uma hora ou duas na rua e depois ter cerveja fresca. Foi isso que se pretendeu com a exibição do Tolan neste espaço, resguardando a dignidade do Autor.

Voltando à nossa vaca, o Tolan, pretende-se que todos saibam que o mesmo foi admolestado pelos conteúdos de mau gosto que frequentemente têm causado problemas e que prometeu portar-se melhor e voltar a incluir gatinhos entre parágrafos, bem como incluir alguns conteúdos culturais, no sentido de educar e fazer reflectir, quiçá, substituindo o papel que deveria ser do Estado.

Também se vem reiterar que o Tolan não é O Autor e no entanto, inúmeras vezes, como podem certamente comprovar pelos seus acessos de orgulho, narcisismo e egocentrismo, reclama para si coisas que não são dele, mas sim minhas, como o bonito carro alemão ou os fatos da Labrador nos quais, devo dizer, o Autor é uma pessoa bastante digna.

Queria só deixar uma nota relativamente à questão da emigração. É certamente provável que o Autor emigre, uma vez que considera ser necessário um contexto materialmente estimulante e uma viatura luxuosa de 180 cavalos, no mínimo, para a prossecução dos seus objectivos artísticos e literários. Contudo, o Tolan ficará em Portugal em qualquer caso, nem que seja para engolir as coisas que disse a propósito da actual crise que, claramente, não está a levar a sério, uma vez que vive às minhas custas e tem a sensação que essa situação é imutável.

Sem mais, despeço-me com amizade e espero que a admolestação privada e comunicado público sejam produtivos na nossa estratégia conjunta de sucesso e criação de valor artístico e cultural.

O Autor

no lusco-fusco

E aquele estado de espírito impreciso em que não se sabe o que se tem ou o que se pode perdeu, se estamos felizes ou tristes, ou ambos, e em que qualquer caminho parece improvável e provável e só conseguimos ficar a olhar para uma chávena de café a fumegar até alguém falar connosco sobre as declarações do Cavaco sobre equidade fiscal? Vocês sabem do que estou a falar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ajudem o Tolan a decidir

Não sou grande fã de mulheres com “opiniões políticas” e só queria fazer aqui o aviso às leitoras deste blogue. Não levem a mal. Não me choca nada que as mulheres possam votar e emitir opiniões engraçadas, mas nem todas podem compensar noutras coisas como ser a Joana Amaral por exemplo. Gosto que pensem sobre poesia, arte, moda, acho isso bonito como o canto do passarinho que me acorda a chilrear à minha janela, ao Sábado de manhã. Sabe-me sempre bem ouvir uma mulher a falar de coisas e a querer impressionar-me. Mas sobre política e economia, não sei, faz-me um bocado de confusão, como aquelas que querem ser administradoras de empresas e depois vestem tailleurs e tentam fumar charutos no camarote do estádio e tossicam aborrecidas com aquilo. Penso que dentro da política há certamente áreas em que foram úteis, nos anos 60, nas revoluções cívicas pela europa civilizada, como poder usar mini-saia e decotes, coisas com que concordo.

Dito isto, abro a caixa de comentários e perguntava o que acham da situação na Grécia que, pelo que tenho lido, parece estar para a extrema-esquerda como o dia do juízo final para os católicos. E se estão confortáveis com acontecer uma coisa que a extrema-esquerda e/ou os católicos desejam ardentemente para eles e todos os outros. E se acham que isto pode acontecer em Portugal. Obrigado, espero que participem, porque preciso de decidir se emigro ou não. Peço só que identifiquem o sexo a que pertencem logo no início do comentário, por uma questão de comodidade.

o monstrengo

o seguinte texto é escrito no seguinte tom


O meu melhor amigo é um monstrengo imaginário. Sei que é imaginário porque já perguntei a pessoas se o vêem e elas dizem que não. Perguntei poucas vezes e de forma discreta e no meio de outras perguntas ou de uma conversa. O monstrengo gosta de cerveja e cheetos e é imbecil. Estou a conduzir e ele diz-me "buzina a essa gaja que está no meio de duas faixas" e eu buzino por reflexo, a senhora pede desculpa e eu sinto-me mal. O monstrengo refastela-se no banco e ri-se com as mãos na pança redondinha e peluda. Estou no escritório e tenho trabalho para fazer e abro os ficheiros e o monstrengo diz-me "joga aos blogues" e eu digo-lhe "agora não, monstrengo" e ele puxa-me a manga do fato e desvia-me o ponteiro do rato e cometo erros imbecis, "joga àquilo de seres escritor" e eu dou-lhe um berro que faz os meus colegas darem um salto na cadeira. Tento concentrar-me e ele está sempre a coçar-se e a sacudir as orelhas com flap flap flaps sonoros e despudorados. Ao almoço, no restaurante, vira-me as páginas do livro com as patas sujas de óleo do rissol de camarão que pedi para ele, às vezes antes de eu ter acabado de as ler. Ele não lê rápido, ele simplesmente não lê, vê só os padrões geométricos das letras ou começa a contar quantas vírgulas há naquela página. Depois de almoço deixa-me sossegado, dorme debaixo da secretária no meio dos cabos ou faz bonecos na parte de trás de folhas com prints velhos e esquecidos. Tenho de o levar ao colo para o carro e ele adormece com o para-arranca do eixo norte-sul e o update das notícias da crise no rádio.

À noite fazemos concursos de bebida os dois. Temos um jogo que é assim: eu tenho de beber o mesmo que ele. É só isso o jogo e tem acabado sempre num empate.