terça-feira, 4 de dezembro de 2012

credibilidade e bom senso


Como os mais atentos devem ter reparado, aqui há tempos posteis duas faixas do Jacskon C Frank no formato video de plataforma youtube, a I Want To Be Alone e a Milk and Honey. Ele foi uma pessoa que só fez um disco relevante em 1965. Foi muito influente. O colega de quarto tornou-se uma pessoa famosa (Paul Simon) e produziu-lhe o disco e o Nick Drake inspirou-se muito nele. O disco, todo gravado com uma guitarra acústica, é muito bonito porque quando ele era pequeno a escola dele ardeu e os meninos que brincavam com ele também arderam. O próprio ficou com o corpo todo queimado. Este tipo de coisas são necessárias para se ter intensidade enquanto artista. De onde vem a minha intensidade, que desgraça foi a minha? Eu conto-vos. Natal de 1987. Pedi especificamente um Subuteo. E o que recebo? Um jogo de futebol de salão. Daqueles com um disquinho e bonecos com uma base com disquinho e que se pressionava e o disquinho andava aos salt... não quero pensar mais nisso. A voz de Jackson C Frank. tem um timbre fantástico, o que, espantosamente, é raro na folk. Bob Dylan ou Van Morrison têm vozes horripilantes. Dylan é mesmo insuportável. Van Morrison não, é muito bom, mas não deixa de ter uma voz de pato que está a enxaguar a boca com listerine e a tentar cantar ao mesmo tempo. Nick Drake também tem uma voz de panhonha. Tim Buckley tem uma belíssima voz mas é completamente histérico no uso da mesma. Jackson Frank tem uma contenção nos malabarismos que torna a interpretação muito natural, humilde mas portentosa, cheia de detalhes subtis e que estão em total sintonia com o sentimento da música. Soa profundamente credível e vai fazer vibrar uma corda dentro da pessoa ouvinte desde que ela tenha a corda equivalente pois nem toda gente tem a corda uma vez que nem toda gente sofreu o que eu sofri nesse Natal ou que o Jackson C Frank sofreu com o incêndio.

Aquelas duas músicas que eu postei lá em baixo foram gravadas em 60 e tal, esta aqui foi em 75 e a voz dele já está desfeita pela dependência do álcool e das drogas, outra coisa que também se exige a um artista com intensidade. Nota-se que para cantar ele tem de vencer a resistência da própria voz como se estive preso dentro de si próprio, encerrado num pesadelo, num inferno. O efeito é maravilhoso, genuíno, enfim, o tipo de coisa que dá gosto ouvir no carro à noite quando precisamos de pedir emprestado um bocado de sofrimento para tornar mais poética a fila de trânsito.

restos



Diálogo entre dois robots que eu aparentemente escrevi no sábado à noite às 2 da manha enquanto ouvia New Order.

Robot português aproxima-se de Roboa estrangeira na pista do festival de música electrónica:
- Hello, all right? I've been listening to New Order. Large mesh.
-Excuse me?
- Yes It's a granda sound. I love shaking the helmet. Like blue monday or red tuesday?
-  Is that from google translator?
- Sim. Espera... o wi-fi aqui só tem dois pauzinhos...  Yes it is.
- Forget it. You have to study english if you want to impress a foreign robotess.
- Está bem. -_-  *afasta-se cabisbaixo na pista de dança*



O meu primeiro impulso foi deitar o texto fora. Mas predispus-me a uma análise mais atenta e fiquei entusiasmado. Neste pequeno pedaço de texto, que parece simples, está a metáfora do próprio ser humano. Utilizei robots, que o leitor imediatamente imagina como humanóides apesar de não haver nenhuma instrução do narrador nesse sentido, para tornar essa associação menos evidente. O robot como produto do ser humano é pois mais humano que o seu criador biológico. Depois, trata-se de um robot (o Aurélio, não está no texto, mas o nome dele é Aurélio) que quer impressionar a roboa estrangeira. O que é a vida, se não isto? Homens que querem impressionar mulheres recorrendo a artifícios e atalhos e mulheres que se fazem difíceis. Ao fazerem-se difíceis, o robot vai estudar inglês, metáfora de toda a civilização, pois podia muito bem descobrir a teoria da relatividade, inventar aviões ou compor uma bela sinfonia. Aliás, não me custa imaginar que o próprio Aurélio é uma criação de um Aurélio biológico. Que todos os robots do festival de música electrónica para electrónicos são criações de seres humanos que os programam e controlam à distância. Como o ser humano na internet, com o seus avatares e alter egos dos blogues, facebooks e afins. Metáfora da sociedade e assim, pois os melhores textos, já se sabe, são os que metaforizam a sociedade e os seus problemas e os meus textos são sempre deste tipo, do género 'melhores textos', sempre ambiciosos, mesmo que à primeira vista pareçam apenas o produto de um estado de embriaguez e sono.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

vampirismo

Nos próximos tempos a qualidade do blogue vai descrescer bastante, em virtude de estar a fazer o segundo romance e do vampirismo de inspiração e produção para o mesmo. Tenho um truque que desenvolvi e que consiste em enganar o meu cérebro e fingir que estou a fazer um texto para o blogue. Isso faz-me ser mais espontâneo porque me estou nas tintas. Quando escrevo para romance, o meu subconsciente sabe que estou na verdade a dirigir-me a um juri de prémio literário e críticos que têm certas expectativas de qualidade e então fico sem tesão criativa, como em frente a uma puta impaciente e ríspida com mais que fazer do que conversar um pouco sobre filmes e discos preferidos primeiro. No blogue não. É-me completamente indiferente a vossa apreciação. Isto é de borla. Era o que mais faltava. Não há cá pão para malucos. Se não gostam, olha, fossem ler outros blogues melhores que este. Devem ter muita sorte. O que não falta aí são blogues melhores.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

crítica musical

Fixem este nome: Veronica Falls. E etc. *****

um truque literário

Tenho alguma relutância em partilhar os meus truques, enfim, nisto da escrita há muito de magia, muito de encenação e é preciso dar margem ao leitor para nos imaginar como mais lhe convém. Então cá vai: quando escrevo para o romance  - neste momento trabalho no 2º - tenho em cima da secretária estes dois peluches que comprei no IKEA:
Trata-se do Raposo Extremoso e o Raposinho Rebelde. Se no primeiro romance, que se encontra em apreciação editorial, eu tinha essencialmente uma Plaft imaginária em mente com quem queria  mitigar a minha terrível solidão e desespero existencial que me impelia para um inexorável suicídio lento pelo alcoolismo, neste aqui o público é mais amplo, quer em número, quer em termos de faixa etária. Os mais atentos podem observar que se tratam de raposas. De facto, são raposas, a observação dos mais atentos não é incorrecta. Escolhi estes dois porque vinham juntos e porque após uma breve troca de impressões houve alguma empatia no que respeita a cores favoritas e ao melhor disco dos Beatles (azul, white album). E por cada peluche, há um euro que vai para educar crianças pela fundação do IKEA, o que pode ajudar às vendas pois crianças mais educadas podem ler-me quando forem adultas e eu já for velho e não tiver reforma devido à falência do estado social. É portanto, um investimento. Desenganem-se os que pensam que o livro é um livro infantil. Não há nada de infantil em raposas, podia ter escolhido focas ou pinguins por exemplo, se a ambição fosse essa. Trata-se também de um passo intermédio para um dia eventualmente escrever para "homens". Para já, são os dois do sexo masculino, isso é um avanço. Ao mesmo tempo, não comprometemos totalmente o sexo feminino. É bastante fácil prever que a Plaft ficará curiosa ao observar o Raposo Extremoso a ler o primeiro draft ao Raposinho Rebelde, os dois ora a esfregar a pança de rir, ora a ensopar a pelúcia de  lágrimas amargas de raposa. O golpe decisivo serão os momentos em que o Raposo vai tapar os olhos ao Raposinho e a passar à frente no texto, olhando para mim com ar meio censurador, meio cúmplice e lambão.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

a salvar épocas desde 1906

"Vencer o Benfica pode salvar a época". -  Rui Oliveira e Costa, membro do Conselho Leonino.

É um jogo dificílimo de preparar. Imagino perfeitamente Jorge Jesus a partir a cabeça dos seus técnicos para encontrarem segmentos de vídeos de jogos do Sporting em que a equipe demonstre os seus pontos fortes, o seu desenvolvimento táctico, as suas movimentações ofensivas e defensivas. O ponto forte do Sporting será um certo efeito surpresa na táctica, dependendo dos jogadores que joguem pior nesse dia. No fim, Jesus deve ficar apenas com uma espécie de colectânea de fails de youtube com uns três minutos, perante a qual o seu plantel não consegue conter o riso e concentrar-se. Será difícil responder ao esforço de imaginação que Jesus pede: «aqui assim imaginem a defesa do Sporting a subir em linha» ou «imaginem que os jogadores estão a correr nesta transição defensiva». Dito isto, tudo pode acontecer no jogo. O Benfica tanto pode ganhar por 2-0 e comprometer a época do Sporting como por 5-0 e comprometer ainda mais a época do Sporting.

rituais

Em minha casa sempre se discutiu e muito. É que discutíamos tudo, não havia refeição e telejornal que não acabasse com alguém a levantar-se da mesa (normamente eu) por diferendos de diversa índole, desde ideológicos e metafísicos, às mais corriqueiras desavenças familiares.

- Não é nada disso, vocês é que são uns comunas!
- Tu é que és um fascista meu egoístazeco, quem é que te paga as contas?
- Eu se quiser saio de casa, ouviste?
- Então sai! Mulher, ajuda-o a fazer as malas!
- Nãaaao, o meu fiiiillho!
Depois comia o jantar no quarto, muito amuado. Era giro, de certa forma era uma actividade como outra qualquer. No entanto, tinha noção da disfuncionalidade do meu núcleo familiar uma vez que as famílias dos meus amigos pareciam todas encantadoras e equilibradas e eu sentia-me mal e muitas vezes usava este tema para discussão em casa.
- Estamos sempre a discutir!
- Tu é que estás sempre a discutir!
- Eu sou o filho, vocês são pais, se eu sou assim a responsabilidade é vossa! - e abria velhos livros de psicologia juvenil e pousava-os na mesa com estrondo, com o indicador pousado numa frase que dizia que a criança era o resultado do meio social e familiar ou outra cretinice do género. Tinham sido escritos por hippies nos anos 60, eram completamente imbecis e eu sabia-o, mas fazia-o apenas por provocação. Os meus pais, que os compraram todos entusiasmados, também os começaram a achar desactualizados e irrealistas quando eu cheguei à puberdade. Lembro-me que o meu pai começou a interessar-se por armas medievais nessa altura, até construiu uma besta com um arco em fibra de vidro.
Às vezes eu ia a casa de amigos e ficava muito espantado. Eles tratavam o pai por você e davam um beijinho e reinava principalmente o silêncio durante as refeições, por vezes interrompido por conversa ligeira. A mãe servia a comida sem se queixar constantemente de ter feito o jantar depois de um dia de trabalho. O pai via as notícias e fazia apenas alguns comentários.
- Então como correu o dia?
 - Correu bem, pai. E o seu?
Ficava sempre à espera que qualquer coisa explodisse. Na minha casa, quando se falava pouco à minha mesa é porque alguém estava a engatilhar uma discussão épica, do género o meu pai estar todo fodido porque eu tinha enchido o computador de virus ou a minha mãe de olhos postos no prato de sopa, furibunda por causa das pegadas de lama do meu pai no soalho acabado de encerar. Mas ali na casa dos meus amigos não, eu ficava expectante e nada sucedida. Só anos mais tarde se vinha a saber que o pai tinha uma amante ou que a mãe era internada com uma depressão e divorciavam-se e os meus amigos também ficavam com depressões e mudavam de curso superior constantemente, alguns até iam parar a cinema, enfim, o cúmulo. Na minha casa nunca houve disso, ficaram casados até que a morte os separou. As discussões entre os dois foram esmorecendo devido a cansaço, um pouco como as luzes de uma lanterna com as pilhas cada vez mais fraquinhas. No fim, já só arrebitavam um bocadinho quando eu lá ia aos fins de semana.
- Vens cansado! Andaste nas boites? Gastas o dinheiro todo em porcarias!
Matavam as saudades assim e era duro porque quando eu aparecia lá já não discutiam um com o outro pois tinham tempo de sobra para o fazerem durante a semana. Não, ao fim de semana tinham de aproveitar bem o tempo comigo. Para garantir que tinham bastante tempo, a minha mãe começava por me acordar às 9:00 com o aspirador no meu quarto: 'aspiro sempre às 9 e não vou mudar isso porque o senhor príncipe quer dormir, andaste nas boites, gastas o dinheiro todo em porcarias'. Era muito complicado curar as ressacas naquela casa. 

Agora sou só eu e a minha mãe e então as coisas são mais sossegadas. Eu sento-me no lugar que antes era do meu pai e evito ver o telejornal. Ela não deixa de me enervar com profissionalismo, mesmo operando sozinha, porque decidiu  juntar ao seu arsenal de provocações o cepticismo e o pessimismo militantes que eram próprios do meu pai. Sabemos que dois minutos depois daquele 'humm...' após o nosso relato de algo extremamente injusto que nos aconteceu vai aparecer o tradicional 'tens a certeza que isso é mesmo assim como dizes?'. Por isso parece tão estranho a outras pessoas que um simples 'humm...' da nossa mãe possa originar tal reacção. Estás a exagerar, oiço, tudo porque me levantei da mesa mal ouvi aquele preâmbulo do 'humm' e ameacei ir já para Lisboa a 200 à hora, ouviste mãe, a 200 à hora que é como eu ando quando volto da "boite"  todo alcoolizado, mãe! Depois acalmo-me, a tempo da sobremesa e do café. A minha mãe faz uma excelente mousse de chocolate e eu ofereci-lhe uma Dolce Gusto aqui há tempos que faz um rico capuccino. E despachamos o resto do vinho, falamos de livros e filmes e ela anota as minhas recomendações num papelinho... De fora, isto pode parecer um bocadinho desconcertante, mas é tudo muito normal para nós.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

incompreendidos

Agora ando de bicicleta outra vez, dia sim, dia não. Subo Lisboa toda e quando chego a casa estou todo transpirado, ontem até estava ensopado de chuva e gelado. Sinto-me como se fosse um lenhador a regressar à cabana depois de um dia à mercê dos elementos. A Plaft tem dificuldades em ver isso dessa forma. O que ela vê é uma pessoa a encher o hall de pegadas de botinhas, com uma bicicleta desdobrável com sacola acoplada, vestido com um blusão fluorescente, luvinhas à michael jackson e um capacete de ciclista com uma luz estroboscópica a piscar e a precisar de um banho antes de vir para a mesa. Fiquem agora com esta música muito bonita que me faz pensar em sexo e em como as mulheres gostam de ser tratadas como objectos na cama e não só. Palmadas nesse rabo é pouco para ti, Plaft, é pouco.

antes do 1º café

Demorei uns segundos (tempo demais) a perceber por que motivo a busca por "Céline" no google images me devolveu milhares de fotos horripilantes da Céline Dion.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

é todo um mundo

Não é nada cerebral, escrever é como ser pirómano, uma faísca e essa faísca provoca um incêndio e só temos de arranjar a lenha para ele arder e certificar-nos de que não se apaga. Entretanto ele espalha-se em várias direcções. Por exemplo, hoje sonhei que era físico e que a minha equipa de investigação tinha ganho um prémio, graças a uma ideia que tive. Lembro-me da ideia com todo o detalhe. Consistia em duas fibras helicoidais entrelaçadas uma na outra num fio finíssimo, semelhante a fibra óptica. Contudo, ao invés da fibra óptica que passa apenas 0 e 1's à velocidade da luz, a minha dupla fibra helicoidal gerava um efeito de prisma de refracção da luz e permita a transmissão instantânea de todo o espectro de luz, o que significava uma capacidade infinita de bits, de informação. O efeito era conseguido pela rotação microscópica das fibras para gerar diferentes cores quando um feixe de luz incidia na extremidade da dupla fibra, ao sobrepor zonas com materiais diferentes e densidades diferentes. Um arco íris, milhões de arco íris nas redes de informação e nos próprios chips pois a tecnologia podia ser microscópica. Com isto, não havia mais limitações de débito de informação. E apesar de me sentir orgulhoso pela descoberta (fui entrevistado para o jornal da 1 da RTP1) senti que não era nada assim tão importante, que o débito de informação infinito não resolvia os problemas básicos do mundo e acordei um pouco inquieto. Depois tomei banho, comi torradas, bebi sumo de laranja e um café e fui para o trabalho de bicicleta. Depois voltei para casa ao fim do dia (apanhei uma molha) e ao jantar contei o sonho à Plaft e ela disse-me 'se calhar devias patentear isso' e eu respondi-lhe 'esta tecnologia não resolve os problemas mais importantes do mundo' e ela concordou e depois falámos de outras coisas.

perfect soundtrack for exceis and powerpointes

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

os animais são outros

Classificam na lei um "animal" como uma coisa. Um homem arrasta um cão atado ao pára-choques do carro e deve levar uma multa de 500 euros porque "o estado nestes casos costuma aplicar a coima mínima".

As leis são um reflexo da sensibilidade moral dos povos. A lei actual representa o que os portugueses pensam dos animais? Tenho dúvidas. Esta ideia é católica, a da separação entre homem e do resto dos seres vivos que têm um papel utilitário. Qualquer pessoa que prive com gatos ou cães, tende a colocar de parte estas concepções de homens vs. resto da natureza. Reconhece nos animais exactamente os mesmos sentimentos que no homem: amor, medo, ciúme, alegria, tristeza, capacidade de sonhar... A lei é desfasada e anacrónica daquilo que é o sentimento de moral actual, como são tantos outros dogmas da igreja nos quais muitos católicos, especialmente os mais jovens, não se revêem. Neste momento, a lei considera que um tipo que arraste um cão atado ao carro pela estrada comete um crime inferior a não ter um chip numa matrícula electrónica. Num estado americano como Washington um tipo pode ir parar à cadeia 6 anos por maltratar de propósito um animal. Até quando vamos continuar a ter leis de idade média?

chinatown

A descoberta dos supermercados chineses do martim moniz mudou a minha vida. Há anos que me limitava a fazer aproximações às receitas de pelo menos três livros de cozinha asiática que tenho, incluindo um de clássica chinesa cujas receitas se equiparam, a nivel de dificuldade e tempo de preparação, à melhor nouvelle cuisine francesa (fiz um pato uma vez que me demorou 3 horas a preparar, fumado, cozido a vapor depois panado e frito inteiro). Agora está tudo ali e é genuíno, é a mesma coisa que eles usam, com rótulos incompreensíveis e breves explicações em etiquetas lacónicas coladas aleatoriamente. Finalmente tenho molho de soja escuro e claro, molho hoisin, vinagre de arroz, molho de feijão preto, molho de peixe, óleo de sésamo genuíno, molho de ostra, molho teriyaki, wan ton e giosas congeladas, 500 mil tipos diferentes de noodles, frescas ou instantâneas que metem a porcaria que se vende no pingo doce a um canto, pasta de camarão, peixe seco, bambu seco, cogumelos secos, mistura de 5 especiarias, farinha de arroz, tofu decente... nunca mais acaba! E ainda me metem as compras no saquinho como na mercearia! Viva a imigração é o que vos digo, isto parece um sítio civilizado, uma cidade a sério. Já temos as lojas de conveniência dos pakis que, a preços altamente competitivos, substituíram o monopólio dos overpriced Extras, das bombas de gasolina e rebentaram com o conluio dos bares do bairro alto com a cerveja a 1,5€ em vez dos 2€.

isto está mesmo mal

O DN está a disponibilizar contos gratuitos de autores portugueses: João Tordo, Luísa Costa Gomes, Rui Zink, Inês Pedrosa. Hmm.. Parece-me tão tentador como ler cadernos de publicidade do Expresso. Não queria ser mauzinho porque a minha aspiração de vida é ser colega destas pessoas e participar em conferências com elas sob o tema «A Literatura Portuguesa  e o seu Papel na Sociedade Contemporânea - Reflexo do Tempo ou Universo Paralelo?» e então tenho-me contido. Mas hoje li isto: «Depois de Pedro Mexia, na quarta-feira, será a vez de Fernando Alvim.» Jesus Cristo Virgem Santíssima... eu tento, eu juro que tento...

domingo, 25 de novembro de 2012

rotina

A minha Plaft tem sonhos um pouco infantis, acordei-a com crepes de queijo e chá e hoje sonhou que "era eleita a melhor do mundo, tinha 308 milhões de votos" (especificou o número). "A melhor em quê?" perguntei eu, ensonado. "A melhor", respondeu-me. Depois à tarde, a dormir no sofá (o dia de hoje foi particularmente relaxante por estas bandas) acordou a dizer que tinha ganho um prémio. "Um prémio, Plaft?". Sim, "o da melhor investigadora". Investigadora. Na televisão, o genérico final de um episódio do Crime Disse Ela. Está explicado. Agora estamos a comer biscoitos que ela fez pela primeira vez. São biscoitos de chocolate em forma de coração (comprei-lhe um kit de pasteleiro no ikea, com moldes). Há algumas bolhas nos biscoitos e ela disse-me que eram corações com tumores. Vamos agora ver o Troll Hunter e acabar com o vinho.

estar sozinho


Quando estamos sozinhos há coisas como um corte a fazer a barba, a nódoa de sangue no colarinho, uma pedra de calçada que não encaixou, um rosto bonito e ausente no metro, o gesto com 5000 anos do empregado do bar a pousar o copo, nuvens de fumo a sair da mão, um quarto de hotel num sítio estranho, garrafas vazias atrás da porta, gotas no pára-brisas e angústia de ir para a cama sem estar completamente ko. Há noites em que alguém respira ao teu lado mas é um som semelhante ao da chuva na caixa dos estores.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"O Broche da Loucura", de Vincent Gallo ("Brown Bunny" no original)



"Cada um é como Deus o fez, e muitas vezes até pior" - Cervantes

Gostei muito do Túnel de Ernesto Sábato. Arrumou-me um tema que pensei tratar: o ciúme. É o sentimento humano mais forte e mais interessante. Pus esse projecto de parte e volto aos Guaxinins Neuróticos, a minha especialidade digamos assim (creio que nem Cervantes, nem Shakespeare, nem Homero abordaram o tema dos Guaxinins Neuróticos). Terminei uns contos da Dorothy Parker, é muito boa mas há qualquer coisa de superficial ali, pelo menos nos contos, que a impede de ser comovente mesmo quando tenta. O melhor reside nos retratos irónicos. Por falar em escritores que não conseguem comover muito, voltei a ler uns contos de Nabokov. Ora aí está um senhor Escritor. É uma coisa verdadeiramente impressionante, o domínio das imagens oníricas, a fluidez com que se encaixam metáforas inesperadas de forma completamente natural e como elas nos suscitam imediatamente a impressão certa. Qualquer pessoa que se tenha atrevido a tentar escrever reconhece o quão elegante e eficaz é uma frase como "por volta das quatro desceu para a espaçosa sala de leitura, onde a lareira exalava calor laranja e pessoas invisíveis se afundavam em sofás de couro com as pernas estendidas a saírem de jornais abertos". Continuo, contudo, sem entender para que servem magistrais peças do puzzle se as peças do puzzle nem sempre formam um puzzle comovente. Isso é notório quando os contos se concluem com o tradicional golpe implacável nabokoviano, um fim violento ou cruel que irrompe pela tranquilidade e logo desaparece, deixando atrás de si um rasto de faúlhas como um raio que fulminou uma oliveira. Sentimos que era suposto aquilo perturbar-nos, mas nem sempre isso sucede, o mais frequente é mantermos a mesma frieza intelectual do princípio ao fim. Nabokov em certos contos, mais se assemelha a um pintor do que a  um escritor, com as suas personagens e paisagens suspensas num tempo melancólico e distante como num velho quadro. Nada disto é um defeito, mas dá-se o caso de eu ter uma costela de costureirinha que tem de sentir empatia com o escritor(a) e o Nabokov apenas me parece desumano. É extremamente útil do ponto de vista técnico, mesmo nas traduções - só o li traduzido - porque podemos, com toda a certeza, considerar a frase nabokoviana como a frase perfeita, uma espécie de grau máximo na escala de Richter do que deve ser uma frase, um abalo de talento que dura do principio ao fim, enquanto que outros mortais apenas fazem oscilar nervosamente a agulha do sismógrafo cá em baixo no 2 ou no 3.


unleash the hounds of hell

Eu não sabia quem era o Pedro Arroja até o maradona falar nele. Eu não sei quem são as pessoas malucas que se levam a sério até o maradona falar nelas e é sempre muito divertido quando o faz.

Para resumir, o Pedro Arroja tenta ser espertalhuço com o maradona para responder ao texto que lhe é endereçado e escreve um texto muito estranho em que fala de "um tipo de pessoa" na qual o maradona se insere. Nesse texto, em que aprendemos que o Eduardo Prado Coelho partilha características com o maradona, salienta uns bocados a bold.Tomei a liberdade de copiar os bocados a bold:

«uma agressividade que se exprime por palavras»
«a concentração  é exclusiva em pessoas, não em ideias»
«gostam das palavras pelas palavras, e do efeito que elas produzem»
«gostam de espicaçar e de se sentirem o centro das atenções»
«o que prevalece é a emocionalidade sobre toda a racionalidade»
«o seus alvos são sempre homens»
«nunca abandonam o homem»
«a tendência do espírito para a divagação   » 

Ele não salientou estes bocados a bold por acaso. Fez tudo parte de um plano porque mais à frente diz:

«Comecei por dizer que estas personalidades são sempre homens. Mas, agora, se reparar*, todas as características que salientei em bold, são  características femininas. São homens com espírito de mulher. »

Deixo ao cuidado das gajas tesas o devido processamento de tão retumbante afirmação. Eu por mim acho que ele não tem razão, aquilo que ele mete a bold são as características que encontramos nos poetas, especialmente se interpretarmos o "nunca abandonam o homem" não no sentido de "nunca largam a presa" mas no sentido de fidelidade amorosa que existe nas relações entre o mesmo sexo. Mas é a minha opinião.

*percebi que é normal o Pedro Arroja dirigir-se ao leitor por "tu" ou "você". Acho que o faz porque causa um efeito muito poderoso no leitor, dá-nos a sensação de "meu Deus, ele está a falar para mim em específico, sinto-me hipnotizado" etc. Vi isso num episódio do Dog Whisperer.

o problema do Sporting

O Sporting quando foi campeão pela última vez tinha Beto, Rodrigo Tello, Paulo Bento, Pedro Barbosa, Hugo Viana, João Vieira Pinto, Quaresma e Jardel. Boa sorte.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

chip chip

Passarinhos.

pensamento lateral

Uma das coisas que mais gosto de fazer é começar a falar sem saber o que vou dizer. A única regra que me imponho, a única coisa a que me predisponho, é garantir que tudo o que eu disser vai rimar, mesmo que esteja completamente a parvar. Não pode existir qualquer pausa,  para ser grande a risota que isto na Plaft.. causa. Ficaria certamente melhor dizer "provoca", mas a palavra "causa" também não me choca. É um passatempo muito interessante, praticado pelo urso e pelo elefante, pois é sabido que os animais da floresta não passam a vida toda em festa. Têm momentos aborrecidos ao serão, quando não dá nada de jeito na televisão, então fazem jogos de adivinhas ou jogam à sardinha com as suas patinhas. Ninguém gosta de jogar com o urso, pois da brincadeira já adivinham o curso. O coelho fofinho vai ficar esmagado, o guaxinim completamente triturado, uma vez que o urso joga muito entusiasmado e é grande a força que imprime ao patado. Um dos truques para isto resultar, é saber a priori palavras a evitar, pois algumas parecem impossíveis de rimar, a não ser que se possa inventar. Uma dessas palavras é lâmpada, pois... que.. hmm... raios...

Crónica de uma família sem metáforas - a escola

- Muito bem meninos, vou fazer a chamada! - disse a professora. Tirou o telemóvel da mala e ligou a uma amiga, a combinar um café. Quando desligou, olhou para a turma e contou os meninos. O Carlos e o Luís estavam aos gritos e aos murros. A professora anotou no livro:  Todos presentes, excepto o Carlos e o Miguel que estão passados. Não há futuros. Depois de acalmar Carlos e Miguel, passeou pela sala e passou parte da manhã a distribuir pedacinhos de ferro a cada aluno.
- Pronto meninos, já dei a matéria de hoje. Amanhã dou cobre. Estudaram matemática? Ana, o que é um número ímpar?
- É um número espectacular, muito original. - respondeu Ana.
- Muito bem Ana. Carlos, o que é um número primo?
- É um número que aparece lá em casa no Natal ou na Páscoa e que é mais ou menos da nossa idade.
- Muito bem, Carlos. Luís, o que é um número racional?
- É um número muito ponderado, pensa sempre muito bem antes de fazer coisas.
- E um número natural?
- Não tem conservantes, professora! - responderam os alunos em coro
- Estou muito orgulhosa de vocês, meninos. E agora.... - tirou um embrulho com um laço - Teste surpresa!
Desembrulhou e distribuiu as folhas do teste e avisou: - Não quero canetas correctoras, ouviram?
Os meninos começaram a responder ao teste. O Miguel não resistiu, não tinha estudado nada e tirou a sua caneta correctora do bolso. Começou a responder ao teste. Quanto é 30 a dividir por 5? 
O Miguel escreveu 5 mas a caneta correctora logo lhe segredou ao ouvido: "pssh...é 6, mete 6" e o Miguel riscou e pôs seis. Tudo parecia correr bem, mas nesse dia chegou a casa a coxear muito, com as calças todas rotas no rabo e a sangrar.
- O que aconteceu? - perguntou a mãe ao vê-lo chegar naquele estado
- A professora chumbou-me!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

virgens que engravidam e zombies...


“Maria é um novo início; o seu filho não provém de um homem, mas é uma nova criação: foi concebido por obra do Espírito Santo”, escreveu o Papa (...)O Papa entende que a virgindade de Maria e a ressurreição de Jesus devem ser vistas pelos católicos como “pilares da fé” porque são sinais inegáveis do poder criador de Deus. “Se Deus não tem poder sobre a matéria, então Ele simplesmente não é Deus”, escreveu, segundo a Reuters. 

... o cristianismo é um romance do Eurico Cebolo!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Crónica de uma família sem metáforas

O despertador tocou e Jorge assustou-se bastante quando sentiu o toque no ombro. Acordou Patrícia, disse-lhe que estava na hora, iam para um casamento de um familiar. Patrícia foi para a oficina, apertou uma mão que estava meio solta, colou uma orelha partida e lubrificou as articulações e por fim gritou ‘Já estou arranjada!’ Foram para a garagem. Jorge estendeu a chave ao automóvel mas este deixou-a cair no chão. Jorge voltou a pegar na chave e estendeu-a de novo mas o automóvel voltou a deixar a chave cair no chão. Depois estendeu-lhe a pasta, o casaco, mas nada a fazer, o carro não pegava. Foram para a rua. Jorge estendeu a rede de pesca na faixa do bus e quando um táxi passou ele puxou a rede e apanharam-no. Um pouco adiante, meteu-se um jovem vestido de preto com a cabeça assim de lado e o pé à frente do outro, mesmo em frente ao taxi. ‘Que grande bicha!’ - exclamou o taxista. Depois virou-se para trás e disse-lhes para não se preocuparem pois conhecia muitos atalhos. Encostou o taxi à berma, abriu a janela e disse olá a um atalho. O atalho retribuiu. Uns metros mais à frente cumprimentou outro atalho e depois outro. Conhecia muitos, de facto. Jorge impacientava-se. Foram por uma rua onde as pessoas estavam aborrecidas, sentadas em bancos de jardim com a cabeça apoiada nas mãos, a bocejar. ‘Por aqui está tudo parado, vamos por outro lado’ observou o taxista. Nos Restauradores, onde havia muitas obras de arte antiga e técnicos especializados a trabalhar nelas, meteu-se outro jovem vestido de preto com a cabeça assim de lado à frente do táxi. ‘Apanhámos outra bicha. Isto hoje está imposível, bichas por todo lado, é melhor irem a pé’, disse-lhes o taxista. Pagaram e foram o resto do caminho a pé. Chegaram finalmente à Igreja. Jorge exclamou ‘conheço aquela cara…’ e Patrícia disse ‘eu também, e aquela também’. Eram familiares. Ao entrar na Igreja, Jorge começou a ficar com os olhos um pouco estrábicos, uma mão toda empenada para o lado e uma careta esquisita na cara. Patrícia por sua vez abanava-se e babava-se, arrastando os pés. Consultou o relógio: ‘oh não, estamos atrasados'.