quarta-feira, 31 de agosto de 2011
A Pequena Sereia
À noite depois de jantar brinco ao escritor dos anos 50. Fumo, bebo e observo a jovem mãe que, como num quadro de Hopper, se passeia pela cozinha do prédio em frente em camisa de noite. À uma da manhã, com tudo a dormir, costuma surripiar gelado e comê-lo às escondidas, à janela. E oiço oldies e tenho a tv no mute e escrevo. Até me fartar de brincar ao escritor americano e ficar com soninho.
Então vou para a caminha com o meu panda de peluche e o barrete de dormir. Leio-lhe sempre histórias ou então, quando estou cansado demais para ler em voz alta, ponho o livro de maneira que os dois consigamos ler. Às vezes tenho de voltar atrás porque ele é muito lento a ler mas ele critica-me por ler na diagonal às vezes e discutimos e ele pergunta detalhes e eu não me lembro de nada e volto atrás.
Há dias lemos de uma assentada o conto A Pequena Sereia de Hans Christian Andersen.
A Pequena Sereia, a mais jovem das irmãs, apaixona-se por um príncipe no primeiro dia em que lhe é autorizado vir à superfície. Salva-o de um naufrágio e leva-o para uma praia, onde ele é depois recolhido por outra jovem que o ajuda. Obcecada pelo príncipe e pela hipótese de ter uma alma eterna, a Pequena Sereia pede a uma bruxa má que lhe dê pernas em vez da cauda de peixe e que lhe conceda uma alma humana eterna caso consuma o casamento com o príncipe, uma vez que as sereias solteironas vivem 500 anos mas só têm uma existência subaquática.
Em troca ela tem de cortar a língua, ficar sem voz e passar a sentir agulhas e facas espetadas nas pernas de cada vez que anda, uma excelente metáfora do casamento. Ela aceita mesmo assim. E suporta todas as provações. Ou seja, torna-se mulher.
Acaba por viver no castelo com o príncipe mas este considera-a apenas uma amiga. Fica ali na friend zone. O príncipe apaixona-se pela outra que ele julga, erradamente, ser a heroína que o salvou. E pelo menos essa fala sobre bandas e livros. A sereia dança e encanta o príncipe mas não é suficiente. Sem voz, ela não consegue comunicar e o amor e a verdade, pelos vistos, dependem de algo tão inerte e falso como a capacidade de falar.
A bruxa propõe que ela mate o príncipe, se o fizer pode voltar a ser sereia. Mas ela recusa. Presa no seu sofrimento silencioso e abnegação, morre, transforma-se em espuma no mar na noite em que o príncipe casa. Apesar de tudo, arranjam-lhe uma espécie de acordo em que pode ascender à eternidade em função do número de crianças boas e más que há no mundo.
Moral, meninas:
a) precisam de pernas (e sexo) se querem que um tipo goste de vocês
b) têm de usar saltos altos e sofrer ao andar
c) se forem tímidas e esquisitas, não são aulas de dança do ventre que vos vão safar
d) os homens são príncipes e tudo gira à volta deles e a vossa função é salvá-los e não o contrário
e) a vida terrena não é importante, no céu serão recompensadas
f) não existe felicidade verdadeira, ela assenta sempre em enganos, existe apenas verdade no sofrimento
g) se tens cauda de peixe e vives no mar, deixa-te estar quieta, apaixona-te antes por um atum.
Posso dizer que o panda se comoveu com isto, ele é muito sensível. Disse-me que achava muito triste o conto e que deve ser muito difícil ser mulher e perguntou-me se eu não era capaz de casar com a pequena sereia tal como ela era, com a cauda de peixe e tudo... Disse-lhe que não e apaguei a luz. Ele demorou muito a adormecer.
Então vou para a caminha com o meu panda de peluche e o barrete de dormir. Leio-lhe sempre histórias ou então, quando estou cansado demais para ler em voz alta, ponho o livro de maneira que os dois consigamos ler. Às vezes tenho de voltar atrás porque ele é muito lento a ler mas ele critica-me por ler na diagonal às vezes e discutimos e ele pergunta detalhes e eu não me lembro de nada e volto atrás.
Há dias lemos de uma assentada o conto A Pequena Sereia de Hans Christian Andersen.
A Pequena Sereia, a mais jovem das irmãs, apaixona-se por um príncipe no primeiro dia em que lhe é autorizado vir à superfície. Salva-o de um naufrágio e leva-o para uma praia, onde ele é depois recolhido por outra jovem que o ajuda. Obcecada pelo príncipe e pela hipótese de ter uma alma eterna, a Pequena Sereia pede a uma bruxa má que lhe dê pernas em vez da cauda de peixe e que lhe conceda uma alma humana eterna caso consuma o casamento com o príncipe, uma vez que as sereias solteironas vivem 500 anos mas só têm uma existência subaquática.
Em troca ela tem de cortar a língua, ficar sem voz e passar a sentir agulhas e facas espetadas nas pernas de cada vez que anda, uma excelente metáfora do casamento. Ela aceita mesmo assim. E suporta todas as provações. Ou seja, torna-se mulher.
Acaba por viver no castelo com o príncipe mas este considera-a apenas uma amiga. Fica ali na friend zone. O príncipe apaixona-se pela outra que ele julga, erradamente, ser a heroína que o salvou. E pelo menos essa fala sobre bandas e livros. A sereia dança e encanta o príncipe mas não é suficiente. Sem voz, ela não consegue comunicar e o amor e a verdade, pelos vistos, dependem de algo tão inerte e falso como a capacidade de falar.
A bruxa propõe que ela mate o príncipe, se o fizer pode voltar a ser sereia. Mas ela recusa. Presa no seu sofrimento silencioso e abnegação, morre, transforma-se em espuma no mar na noite em que o príncipe casa. Apesar de tudo, arranjam-lhe uma espécie de acordo em que pode ascender à eternidade em função do número de crianças boas e más que há no mundo.
Moral, meninas:
a) precisam de pernas (e sexo) se querem que um tipo goste de vocês
b) têm de usar saltos altos e sofrer ao andar
c) se forem tímidas e esquisitas, não são aulas de dança do ventre que vos vão safar
d) os homens são príncipes e tudo gira à volta deles e a vossa função é salvá-los e não o contrário
e) a vida terrena não é importante, no céu serão recompensadas
f) não existe felicidade verdadeira, ela assenta sempre em enganos, existe apenas verdade no sofrimento
g) se tens cauda de peixe e vives no mar, deixa-te estar quieta, apaixona-te antes por um atum.
Posso dizer que o panda se comoveu com isto, ele é muito sensível. Disse-me que achava muito triste o conto e que deve ser muito difícil ser mulher e perguntou-me se eu não era capaz de casar com a pequena sereia tal como ela era, com a cauda de peixe e tudo... Disse-lhe que não e apaguei a luz. Ele demorou muito a adormecer.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
o homem mais inteligente do mundo
Em 2006, Grigori Perelman, o matemático russo, provou a conjectura de Poincaré, um dos sete problemas mais complexos e importantes da matemática, por resolver há quase um século. Esse e outros avanços que conseguiu, foram considerados como dos mais significativos de sempre na matemática do último milénio.
Recusou o prémio Millennium de um milhão de dólares e a Fields Medal (a mais alta condecoração matemática) e outros prémios de topo. Da European Mathematical Society diz que não têm competências suficientes para lhe dar um prémio. Recusa dar entrevistas. Recusa ofertas para as melhores universidades do mundo, prefere ficar em São Petersburgo, a viver com a mãe, sobrevivendo não se sabe bem como. Também toca violino.
"o prémio era completamente irrelevante para mim. Toda gente percebeu que a prova estava correcta, então nenhum outro reconhecimento é necessário. Não estou interessado em fama ou dinheiro. Não quero estar exposto como um animal no zoo. Não sou um herói da matemática. Nem sequer sou assim tão bem sucedido; é por isso que não quero toda gente a olhar para mim'" - Perelman
Os outros problemas por resolver, caso queiram ganhar um milhão de dólares (o do poincaré já não vale):
- P versus NP problem
- Hodge conjecture
- Poincaré conjecture (solved, see solution of the Poincaré conjecture)
- Riemann hypothesis
- Yang–Mills existence and mass gap
- Navier–Stokes existence and smoothness
- Birch and Swinnerton-Dyer conjecture
Eu cá acho que passo. Para já, não compreendo os enunciados (excepto um pouco do primeiro, o do P versus NP). Não compreendendo os enunciados, só com muita sorte é que acertava na solução. Licenciei-me em matemática mas fiz o curso todo sem conseguir fazer uma única demonstração. Os testes tinham uma parte prática e outra teórica para quem quisesse ter mais de 16. Simplesmente, eu e 95% dos alunos, nunca dominámos a matemática como "língua" ou "música", apenas como uma ferramenta, um bocado como quem conduz um automóvel sem ter de perceber o funcionamento do motor de combustão. Pela prática, intuitivamente, compreendíamos os fundamentos: era matemática; mesmo assim bem menos complexa do que a relacionada com os 7 problemas do Millennium Prize.
Apesar de ainda ter pesadelos ocasionais com certas disciplinas (acordo a meio da noite a pensar que me falta ainda Análise Matemática IV ou Econometria III), nunca deixei de achar a matemática a mais pura e bela das ciências.
Ninguém consegue explicar a leigos as implicações da solução da conjectura de Poincaré (ainda não encontrei, pelo menos, e gostava de perceber). Para já, parece que Perelman está a trabalhar noutro problema e não diz qual é.
técnica artística #235: "enlatados de melancolia"
Sabemos que a arte de cortar os pulsos é levada mais sério do que outros tipos de arte (especialmente a comédia). Assim, o Warhol facilmente é desconsiderado como fútil, mas um Francis Bacon ou uma Frida Kahlo têm aquela aura.
O quadro mais famoso do Picasso é o Gernica, inspirado no massacre na referida cidade, e não este aqui de um duplo nipple slip de duas inglesas histéricas em Quarteira.
Do José Luís Peixoto ao António Lobo Antunes, todos praticam a arte de escrever coisas de cortar os pulsos (no caso do José Luís Peixoto, ele consegue induzir essa vontade a toda a gente, fãs ou detractores).
Um dos problemas do artista é fazer coisas assim de cortar os pulsos quando, na verdade, ele até teve um dia um pouco cansativo, a cerveja está fresca e o Benfica ganhou. Não conseguimos imaginar o Munch a tentar pintar O Grito depois de uma patuscada com amigos pois não?
É aí que entram os "enlatados de melancolia". São aquelas músicas que ficam associadas a coisas que eram muito boas e que agora são tristes ou desapareceram. Só por si, isso já induz uma realista sensação de melancolia.
Note-se que o que interessa é apenas o sentimento abstracto em si. Um adepto do Sporting pode, por exemplo, pensar na ex namorada ao ouvir aquela música dos Coldplay, e escrever uma crónica comovente sobre os tempos do Jardel no Sporting.
E é só de carregar no play no mp3. Depois é aproveitar e criar qualquer coisa. Repetir em loop se necessário, até acabar o poema, o texto ou o quadro.
Beach House - You Came to Me from Bella Union on Vimeo.
O quadro mais famoso do Picasso é o Gernica, inspirado no massacre na referida cidade, e não este aqui de um duplo nipple slip de duas inglesas histéricas em Quarteira.
Do José Luís Peixoto ao António Lobo Antunes, todos praticam a arte de escrever coisas de cortar os pulsos (no caso do José Luís Peixoto, ele consegue induzir essa vontade a toda a gente, fãs ou detractores).
Um dos problemas do artista é fazer coisas assim de cortar os pulsos quando, na verdade, ele até teve um dia um pouco cansativo, a cerveja está fresca e o Benfica ganhou. Não conseguimos imaginar o Munch a tentar pintar O Grito depois de uma patuscada com amigos pois não?
É aí que entram os "enlatados de melancolia". São aquelas músicas que ficam associadas a coisas que eram muito boas e que agora são tristes ou desapareceram. Só por si, isso já induz uma realista sensação de melancolia.
Note-se que o que interessa é apenas o sentimento abstracto em si. Um adepto do Sporting pode, por exemplo, pensar na ex namorada ao ouvir aquela música dos Coldplay, e escrever uma crónica comovente sobre os tempos do Jardel no Sporting.
E é só de carregar no play no mp3. Depois é aproveitar e criar qualquer coisa. Repetir em loop se necessário, até acabar o poema, o texto ou o quadro.
Beach House - You Came to Me from Bella Union on Vimeo.
oração das zebras felizes
Esta oração é a que recomendo para quem sofre insónias, assombramentos ou pesadelos. Resulta muito bem. Deitados na caminha, experimentem por-se de barriga, unam as mãos, fechem os olhos e digam assim:
Oh Zebra Feliz a dançar
minha doce companhia,
não me deixes atrofiar
nem de noite nem de dia
Livrai-me dos pesadelos
e das melgas e mosquitos
quero sonhos muito belos
cheios de m&m's e conguitos
Oh Urso Pardo ressonador
dai-me o ressonar consolado
quero-o antes do estupor
que dorme ao meu lado
ou vou ficar eu acordado
todo lixado e irritado
Oh Guaxinins Neuróticos
deixai-me dormir descansadinho
pois não tomei narcóticos
nem bebi dois litros de vinho
Santo Ratinho da Floresta
meu zeloso roedor
nos sonhos espero que seja desta
que o queijo revele seu esplendor
Com pulgas me deito
com pulgas me levanto
com a graça do Panda
e do Kanguru santo
Ó cachorro da minha guarda,
Que me protege e fareja
Ajuda-me todo o dia
a ter um pêlo de fazer inveja.
E pronto. É a oração das Zebras Felizes. Espero que vos seja útil e tenham uma santa noite.
Oh Zebra Feliz a dançar
minha doce companhia,
não me deixes atrofiar
nem de noite nem de dia
Livrai-me dos pesadelos
e das melgas e mosquitos
quero sonhos muito belos
cheios de m&m's e conguitos
Oh Urso Pardo ressonador
dai-me o ressonar consolado
quero-o antes do estupor
que dorme ao meu lado
ou vou ficar eu acordado
todo lixado e irritado
Oh Guaxinins Neuróticos
deixai-me dormir descansadinho
pois não tomei narcóticos
nem bebi dois litros de vinho
Santo Ratinho da Floresta
meu zeloso roedor
nos sonhos espero que seja desta
que o queijo revele seu esplendor
Com pulgas me deito
com pulgas me levanto
com a graça do Panda
e do Kanguru santo
Ó cachorro da minha guarda,
Que me protege e fareja
Ajuda-me todo o dia
a ter um pêlo de fazer inveja.
E pronto. É a oração das Zebras Felizes. Espero que vos seja útil e tenham uma santa noite.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
é impressão minha, ou este é o melhor desde o Michel Georges Jean Ghislain Preud'Homme?
Depois da época passada em que 88% (pelas minhas contas) dos golos sofridos, directa ou indirectamente, se deveram a Roberto, é uma espécie de euforia ver este senhor na baliza. Nem é apenas pelas defesas impossíveis que todos os guarda-redes, mesmos os maus, podem fazer às vezes (Moretto) - se bem que ele as faz mesmo muitas vezes e mesmo muito impossíveis. É sobretudo por aquele trabalho regular: as saídas aos cruzamentos, o jogo com os pés, a colocação da bola em jogo para contra-ataque, a segurança nas defesas 'fáceis', o entrosamento com os centrais e um semblante que transmite um "I AM A MACHINE AND MY COMMANDS ARE TO DEFEND THIS GOAL". Está a ser um arranque de época de Benfica forte no ataque mas com falhas na defesa e seria fatal, como foi o ano passado, ter sofrido certos golos. Teríamos sido eliminados contra o Twente e perdíamos o jogo com o Feirense, com outro guarda-redes. Espero que o seu trabalho se vá tornando mais discreto na Liga, seria bom sinal. Mas na Champions, é preciso mãos.
elas andam aí
Eu com as mulheres e as suas belezas, é um bocado como as bandas, os filmes ou os livros, sou um bocadinho hipster. Quando uma coisa é mainstream, tenho tendência a desvalorizar ou a ignorar... mas pelos vistos é um mecanismo de defesa.
Aqui há dias houve um casting aqui por perto e então havia um ajuntamento improvável de jovens arrasadoras, dessas modelos. Fui lanchar e ainda vinha com os beiços sujos do rissol de leitão e entretido a lamber os dedos quando dei com aquele rebanho e fiquei paralisado. Estavam todas a sair do casting para a rua e encurralaram-me. Uma jovem dessas é suficiente para me causar algum mal estar e desconforto, mas só vejo uma por semana, talvez mais se passear pelo Chiado ou for ao Lux, o que é raro, mas eram aí umas 20 e apanharam-me de surpresa, ao ponto de perder o equilíbrio e ficar com tonturas. Era uma coisa surreal, excessiva, parecia que algo as tinha atraído ali como a sopa dos pobres em Santa Apolónia atrai os vagabundos e drogados.
Estavam paradas no passeio e eu pensei em mudar de passeio, mas achei que era ridículo e que ia dar mais nas vistas. Então fui em frente, penteei-me pela primeira vez nesse dia, avancei, concentrando-me em andar com um pé de cada vez e não com os dois ao mesmo tempo (o típico "síndrome do kanguru" de que sou acometido neste tipo de situação) e passei no meio delas, mas sem lhes tocar.
Cheiravam a cremes e perfumes e maquilhagem e as mini-saias sobre as pernas bronzeadas rodopiavam quando se riam. E riam-se, e era só dentes e bocas e cabelos longos e curtos, tudo cintilava como diamantes ao sol e eu só tentava demonstrar que não tinha medo.
Cheguei ao escritório pálido e a cambalear, tive de ir ao WC lavar a cara. Os meus colegas estavam todos empoleirados à janela a olhar cá para baixo. As colegas, por outro lado, não pareciam muito entusiasmadas com aquilo.
Aqui há dias houve um casting aqui por perto e então havia um ajuntamento improvável de jovens arrasadoras, dessas modelos. Fui lanchar e ainda vinha com os beiços sujos do rissol de leitão e entretido a lamber os dedos quando dei com aquele rebanho e fiquei paralisado. Estavam todas a sair do casting para a rua e encurralaram-me. Uma jovem dessas é suficiente para me causar algum mal estar e desconforto, mas só vejo uma por semana, talvez mais se passear pelo Chiado ou for ao Lux, o que é raro, mas eram aí umas 20 e apanharam-me de surpresa, ao ponto de perder o equilíbrio e ficar com tonturas. Era uma coisa surreal, excessiva, parecia que algo as tinha atraído ali como a sopa dos pobres em Santa Apolónia atrai os vagabundos e drogados.
Estavam paradas no passeio e eu pensei em mudar de passeio, mas achei que era ridículo e que ia dar mais nas vistas. Então fui em frente, penteei-me pela primeira vez nesse dia, avancei, concentrando-me em andar com um pé de cada vez e não com os dois ao mesmo tempo (o típico "síndrome do kanguru" de que sou acometido neste tipo de situação) e passei no meio delas, mas sem lhes tocar.
Cheiravam a cremes e perfumes e maquilhagem e as mini-saias sobre as pernas bronzeadas rodopiavam quando se riam. E riam-se, e era só dentes e bocas e cabelos longos e curtos, tudo cintilava como diamantes ao sol e eu só tentava demonstrar que não tinha medo.
Cheguei ao escritório pálido e a cambalear, tive de ir ao WC lavar a cara. Os meus colegas estavam todos empoleirados à janela a olhar cá para baixo. As colegas, por outro lado, não pareciam muito entusiasmadas com aquilo.
zombie
Um dos sintomas de privação de nicotina é perda de quase toda a actividade mental durante uns tempos. Quase toda. Sobra ainda um pouco para irritação e ódio ao mundo em geral. Sinto-me como um daqueles zombies do resident evil 3. Já experimentei mascar chiclete mas pareço o Jorge Jesus a fazê-lo.
domingo, 28 de agosto de 2011
o cão ressonento
Estou no campo, em casa da minha mãe. É difícil concentrar-me com uma cadela a ressonar copiosamente no sofá. Acho que já percebi porque motivo os escritores têm gatos normalmente. É que isto do cão ressonento dá uma soneira monumental, este roncar intercalado por um ou outro suspiro pacífico que parece querer dizer "estou tão bem a dormir agora" ou por umas hesitações no ronco, como se o coelho do sonho se atrevesse a fugir-lhe.
É só meia noite e meia, já estou a cair para o lado. Ares do campo e ressonares de cão. Vou dormir -_- Pessoas com insónias, que eu sei que as há, arranjem um cão de médio / grande porte.
É só meia noite e meia, já estou a cair para o lado. Ares do campo e ressonares de cão. Vou dormir -_- Pessoas com insónias, que eu sei que as há, arranjem um cão de médio / grande porte.
sábado, 27 de agosto de 2011
1985
O conceito de moda juvenil da minha mãe era muito próprio dela. Ela achava que estar bem vestido era ter peças de roupa a condizer, por exemplo, calças verdes com camisola verde e kispo verde ou calças castanhas, camisola castanha e casacão castanho, calças de ganga e camisa de ganga e blusão de ganga. Eu parecia sempre uma manchinha de cor triste. Também desisti do gorro com pompom em cima. Na Bélgica era algo perfeitamente banal, os gorros de lã tinham um pequeno pompom em cima, mas ali naquela aldeia não se podia usar pompom no gorro ou ele serviria de alvo a torrões e fisgas de grampos, mesmo que estivéssemos com o gorro na cabeça a fugir.
Para ajudar ainda mais à minha integração social, minha avó enviava-me camisolas da Bélgica, roupa que ela própria tinha tricotado, em lã espessa, com padrões apalhaçados, sempre demasiado largas e compridas e que eu só usava dentro de casa porque a minha mãe sentia-se mal se eu nem sequer as vestisse.
Não sei que imagem é que a minha avó tinha de mim, talvez pensasse que com o exercício físico do campo eu tivesse crescido muito. As mangas eram tão compridas que tinha dificuldades em agarrar nos talheres. Às vezes, quando tentava ver as horas, o Galão pensava que o meu braço a agitar a manga era eu a convidá-lo para brincadeira e ele mordia a manga e não me largava. Quase que me desfazia a camisola quando eu tentava fugir.
-- Mãaae! Olha o Galão! Está a comer a camisola da avó!
Tinha de vir a minha mãe distraí-lo com um bocado de fiambre. Acho que o Galão deduzia que quando eu puxava pela manga com muita força, estava a brincar com ele. A minha mãe interrompia a brincadeira e o Galão e eu ficávamos envergonhados, ele a cuspir pequenos fiapos de lã com a língua e o focinho arreganhado e eu a recompor a camisola. Nunca conseguimos destruir nenhuma, eram resistentes. A minha avó sabia fazê-las, não há dúvida.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Pedro Soares dos Santos, o presidente executivo da Jerónimo Martins, diz que degusta todos os produtos do Pingo Doce, para garantir a qualidade
Alimento Seco para Cão ActivPet Mix
À base de várias carnes, tais como carne de vaca e frango, resulta numa deliciosa refeição. Contém ainda uma grande variedade de legumes e cereais, contribuindo para uma alimentação equilibrada. ActivPet Mix é rico em vitamina A, D3 e E.
Só no Pingo Doce.
não estou deprimido, não estou sequer triste
O meu método é assim
Tralalala, duridudiduridum dum, hoje vou cozinhar uma pizza congelada… será que ainda há? Ohh, esta é das minhas preferidas! Peperoni cheese! Yey! Uma cervejinha fresca agora, duridumdum, forno 200º circulação, 10 minutos, pizza dentro de forno… meow meow meow meeeoow vamos para a sala… ligar tv… vou escrever um post enquanto a pizza está a fazer
Acender cigarro. Coloca a medalinha de ouro do S. Jorge para me proteger dos espíritos deles.
Espíritos, ó espíritos dos poetas e dos escritores suicidas e decadentes, ó fantasmas angustiados, invoco-vos nesta nuvem de fumo!
toma morte saudade beber sexo
e também faca adeus noite poker dinheiro amor frio
com inferno ferida cripta fogo naufrago seiva
sem esquecer concha ouro mártir corte
um pouco de sempre muito nunca
chora odeia esquece ama cospe
Obrigado espíritos! Obrigado! Mais mais!
agora loucura ausência cancro caixão
com corda pérola vinho solidão
e orelhas de gato focinho de cão
*PIIIIIIP*
Pizza! Está pronta.
Obrigado espíritos de poetas e escritores suicidas, até amanhã! :) Acho que este ficou fixe, é um daqueles que elas gostam!
De nada Tolan. Tens a certeza que não queres mesmo juntar-te a nós? Hoje era uma boa noite. Temos muitos poetas e escritores mas por aqui ninguém percebe de blogues.
Ainda não. Tenho de escrever pelo menos três romances, depois logo se vê. E o Benfica este ano está com uma boa equipa. Se me tivessem dito isso quando jogava o Martin Pringle....
Ok, abraço. A vida é sofrimento.
A vida é sofrimento! Abraço.
Ufa :P Já posso tirar medalhinha. Por hoje já escrevi muito. Meaow meaow meaaaow Hmm que cheirinho a pizza de autêntico forno de lenha!
Tralalala, duridudiduridum dum, hoje vou cozinhar uma pizza congelada… será que ainda há? Ohh, esta é das minhas preferidas! Peperoni cheese! Yey! Uma cervejinha fresca agora, duridumdum, forno 200º circulação, 10 minutos, pizza dentro de forno… meow meow meow meeeoow vamos para a sala… ligar tv… vou escrever um post enquanto a pizza está a fazer
Acender cigarro. Coloca a medalinha de ouro do S. Jorge para me proteger dos espíritos deles.
Espíritos, ó espíritos dos poetas e dos escritores suicidas e decadentes, ó fantasmas angustiados, invoco-vos nesta nuvem de fumo!
toma morte saudade beber sexo
e também faca adeus noite poker dinheiro amor frio
com inferno ferida cripta fogo naufrago seiva
sem esquecer concha ouro mártir corte
um pouco de sempre muito nunca
chora odeia esquece ama cospe
Obrigado espíritos! Obrigado! Mais mais!
agora loucura ausência cancro caixão
com corda pérola vinho solidão
e orelhas de gato focinho de cão
*PIIIIIIP*
Pizza! Está pronta.
Obrigado espíritos de poetas e escritores suicidas, até amanhã! :) Acho que este ficou fixe, é um daqueles que elas gostam!
De nada Tolan. Tens a certeza que não queres mesmo juntar-te a nós? Hoje era uma boa noite. Temos muitos poetas e escritores mas por aqui ninguém percebe de blogues.
Ainda não. Tenho de escrever pelo menos três romances, depois logo se vê. E o Benfica este ano está com uma boa equipa. Se me tivessem dito isso quando jogava o Martin Pringle....
Ok, abraço. A vida é sofrimento.
A vida é sofrimento! Abraço.
Ufa :P Já posso tirar medalhinha. Por hoje já escrevi muito. Meaow meaow meaaaow Hmm que cheirinho a pizza de autêntico forno de lenha!
ele gosta delas mandonas
"Admiro-a e estou muito orgulhoso pela forma como se reclina e dá ordens aos líderes árabes... Leezza, Leezza, Leezza. Amo-a muito. Admiro-a e sinto-me orgulhoso porque é uma mulher negra de origem africana." - Kadhafi, à Al Jazeera em 2007 (conferir aqui)
não tenham pena de mim
deram-me este livro e com uma dedicatória que dizia "um beijo" e não foi de um gajo, como costuma ser, mas sim de uma miúda gira.
(aqueles poetas monosexuais estão-me sempre a dar livros a ver se eu fico monosexual)
(aqueles poetas monosexuais estão-me sempre a dar livros a ver se eu fico monosexual)
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
o amor, o amor
'Tens de mudar' disse-me ela. 'Tenho de mudar' concordei. Depois disse-me 'estou a falar a sério' e eu também concordei. Já sabia que ela estava a falar a sério logo da primeira vez. Quando ela falava a sério, cruzava os braços e ficava em pé, muito direita, às vezes em frente à televisão e então eu morria se estivesse a jogar playstation, a um jogo de guerra online em que nem dá para fazer pause. Mas não protestava por ter dado cabo do meu score.
'Nunca saímos, nunca vemos pessoas' disse-me ela. 'Temos de sair e ver pessoas' sugeri como solução. Pensei que era o que queria ouvir. Mas não devia ser isso porque se pôs muito direita e cruzou os braços. Depois disse-me 'então na próxima sexta feira vens comigo ao aniversário da Vera'. 'Quem é a Vera?' perguntei, a sentir-me nervoso. 'É uma amiga do trabalho, ela fica chateada se eu não for'. Então disse que sim, para irmos lá ao aniversário da Vera, mas não devo ter sido credível porque ela insistiu no tema 'nunca saímos, nunca vemos pessoas'. Não percebo porque motivo eu tinha de ver pessoas. Ela não podia ir ver as pessoas dela em paz? Então disse-lhe 'a vida é minha, sabes? não é a Vera que dispõe do meu tempo. Nem tu'. Saiu da sala, foi para o quarto e fechou a porta. Sabia que ela estava a chorar um bocadinho porque quando ia para o quarto era quando ia chorar um bocadinho, sentada na cama. Comecei a sentir-me culpado e a cerveja já nem me estava a saber bem. Nessa sexta feira acabámos por ir ao aniversário da Vera. Até foi agradável e no caminho de volta até lhe disse 'foi agradável, temos de repetir'. Mas nunca mais fui a nenhum.
'Nunca fazemos amor, não pode ser' disse-me ela. 'Temos de fazer amor então, vai para o quarto e prepara-te' disse-lhe, com a melhor das intenções. Mas ela cruzou os braços e pôs-se direita, a mordiscar as bochechas, como que a conter raiva. Não me parecia lá muito excitada e com vontade de fazer amor. Então perguntei-lhe 'O que foi? Queres que ponha música? Queres que te diga coisas queridas como da outra vez?'
'Qual outra vez?' perguntou ela com a voz a falhar. Lembrava-me de lhe ter dito coisas queridas e achei aquilo um bocado injusto. Lembrei-me de uma coisa que lhe tinha dito: 'Estou apaixonado por ti, quero viver contigo para sempre, quero estar dentro de ti todos os dias, quero fazer-te vir sempre para mim e que sejas minha e ser teu.' Era mais ou menos assim, citei de memória. Foi para o quarto e fechou a porta. Ainda hesitei. Tinha ido chorar sentada na cama ou o meu discurso tinha surtido efeito e queria fazer amor? Nunca soube.
Então um dia quando cheguei a casa ela estava a fazer as malas. E estava a chorar e nem era só dentro do quarto e sentada na cama, era pela casa toda. Eu conseguia perceber porque estava a fazer as malas, mas não conseguia perceber porque estava a chorar outra vez. 'Muito choras tu' disse-lhe. Também reparei que estava a arrumar alguns livros que acho que eram meus mas não lhe disse nada, deixei-a levar aqueles livros. Até fiz mal porque um deles era de uma editora que depois faliu e nunca mais o vi à venda.
Depois saiu e bateu com a porta e a casa ficou silenciosa e muito quieta. Sentei-me no sofá mas não liguei a televisão. A noite caiu sem eu dar por isso e tudo começou a ficar escuro e não me levantei para acender as luzes. Começou a chover. Começou a chover ainda mais. Chovia tanto que já entrava água pela fresta na janela da varanda e ouvia o som de pneus de carros a fazer ondas em poças de água na rua. Depois saí à rua e fui comprar cerveja e um mcmenu e voltei para casa, todo encharcado, mas contente por ter conseguido sair à rua. Fui só espreitar ao quarto, pelo sim, pelo não. Não estava lá. Sentei-me na cama. Estava fria.
'Nunca saímos, nunca vemos pessoas' disse-me ela. 'Temos de sair e ver pessoas' sugeri como solução. Pensei que era o que queria ouvir. Mas não devia ser isso porque se pôs muito direita e cruzou os braços. Depois disse-me 'então na próxima sexta feira vens comigo ao aniversário da Vera'. 'Quem é a Vera?' perguntei, a sentir-me nervoso. 'É uma amiga do trabalho, ela fica chateada se eu não for'. Então disse que sim, para irmos lá ao aniversário da Vera, mas não devo ter sido credível porque ela insistiu no tema 'nunca saímos, nunca vemos pessoas'. Não percebo porque motivo eu tinha de ver pessoas. Ela não podia ir ver as pessoas dela em paz? Então disse-lhe 'a vida é minha, sabes? não é a Vera que dispõe do meu tempo. Nem tu'. Saiu da sala, foi para o quarto e fechou a porta. Sabia que ela estava a chorar um bocadinho porque quando ia para o quarto era quando ia chorar um bocadinho, sentada na cama. Comecei a sentir-me culpado e a cerveja já nem me estava a saber bem. Nessa sexta feira acabámos por ir ao aniversário da Vera. Até foi agradável e no caminho de volta até lhe disse 'foi agradável, temos de repetir'. Mas nunca mais fui a nenhum.
'Nunca fazemos amor, não pode ser' disse-me ela. 'Temos de fazer amor então, vai para o quarto e prepara-te' disse-lhe, com a melhor das intenções. Mas ela cruzou os braços e pôs-se direita, a mordiscar as bochechas, como que a conter raiva. Não me parecia lá muito excitada e com vontade de fazer amor. Então perguntei-lhe 'O que foi? Queres que ponha música? Queres que te diga coisas queridas como da outra vez?'
'Qual outra vez?' perguntou ela com a voz a falhar. Lembrava-me de lhe ter dito coisas queridas e achei aquilo um bocado injusto. Lembrei-me de uma coisa que lhe tinha dito: 'Estou apaixonado por ti, quero viver contigo para sempre, quero estar dentro de ti todos os dias, quero fazer-te vir sempre para mim e que sejas minha e ser teu.' Era mais ou menos assim, citei de memória. Foi para o quarto e fechou a porta. Ainda hesitei. Tinha ido chorar sentada na cama ou o meu discurso tinha surtido efeito e queria fazer amor? Nunca soube.
Então um dia quando cheguei a casa ela estava a fazer as malas. E estava a chorar e nem era só dentro do quarto e sentada na cama, era pela casa toda. Eu conseguia perceber porque estava a fazer as malas, mas não conseguia perceber porque estava a chorar outra vez. 'Muito choras tu' disse-lhe. Também reparei que estava a arrumar alguns livros que acho que eram meus mas não lhe disse nada, deixei-a levar aqueles livros. Até fiz mal porque um deles era de uma editora que depois faliu e nunca mais o vi à venda.
Depois saiu e bateu com a porta e a casa ficou silenciosa e muito quieta. Sentei-me no sofá mas não liguei a televisão. A noite caiu sem eu dar por isso e tudo começou a ficar escuro e não me levantei para acender as luzes. Começou a chover. Começou a chover ainda mais. Chovia tanto que já entrava água pela fresta na janela da varanda e ouvia o som de pneus de carros a fazer ondas em poças de água na rua. Depois saí à rua e fui comprar cerveja e um mcmenu e voltei para casa, todo encharcado, mas contente por ter conseguido sair à rua. Fui só espreitar ao quarto, pelo sim, pelo não. Não estava lá. Sentei-me na cama. Estava fria.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
moules aux frites, alguém?
e falam
Recentemente fiz mais uma viagem de 3 horas de comboio para o Porto e sentaram-se quatro brasileiros, dois homens e duas mulheres, nos seus 50/60 anos, turistas de classe média alta (cada vez mais frequentes devido ao boom económico e valorização do real).
Conversaram em voz alta três horas consecutivas.
Umas vezes falava um para os outros três. Outras os três falavam para um apenas. Às vezes um falava para um e o outro falava para o outro. O que é certo que é falavam todos para mim, que estava sentado atrás deles.
Apesar de se conhecerem obviamente há muito tempo (dois eram irmã e irmão e estavam acompanhados pelos respectivos esposos), não lhes faltou tema, desde novelas, destino de actores, histórias pitorescas disto e daquilo, doenças etc. e tudo num tom suficientemente elevado para que metade da carruagem pudesse desfrutar do seu interessante diálogo. Juro que em três horas não ocorreu uma única pausa nem sequer de um segundo, como é natural de acontecer, aquelas pausas em que todos se calam e um aproveita para dormitar e os outros falam mais baixo ou em que ninguém sabe o que dizer.
Era sobre-humano, o tom era relativamente estável e constante, como que um chilrear instintivo, assim que um terminava de dizer algo, outro havia que reagia imediatamente, mudando de tema ou respondendo. Imaginei uma carruagem toda cheia de pessoas assim e tive um vislumbre do inferno, mas depois pensei que se calhar era menos grave porque ficaria apenas aquele ruído ensurdecedor mas indistinto que se ouve nos transportes em Espanha... Sim, porque os espanhóis são os campeões dos decibéis, puta que os pariu que eles falam aos gritos literalmente.
E pronto, foi o meu post xenófobo do dia :) Espero que tenham gostado. Amanhã vou postar sobre os hábitos de gorjetas dos turistas judeus.
Conversaram em voz alta três horas consecutivas.
Umas vezes falava um para os outros três. Outras os três falavam para um apenas. Às vezes um falava para um e o outro falava para o outro. O que é certo que é falavam todos para mim, que estava sentado atrás deles.
Apesar de se conhecerem obviamente há muito tempo (dois eram irmã e irmão e estavam acompanhados pelos respectivos esposos), não lhes faltou tema, desde novelas, destino de actores, histórias pitorescas disto e daquilo, doenças etc. e tudo num tom suficientemente elevado para que metade da carruagem pudesse desfrutar do seu interessante diálogo. Juro que em três horas não ocorreu uma única pausa nem sequer de um segundo, como é natural de acontecer, aquelas pausas em que todos se calam e um aproveita para dormitar e os outros falam mais baixo ou em que ninguém sabe o que dizer.
Era sobre-humano, o tom era relativamente estável e constante, como que um chilrear instintivo, assim que um terminava de dizer algo, outro havia que reagia imediatamente, mudando de tema ou respondendo. Imaginei uma carruagem toda cheia de pessoas assim e tive um vislumbre do inferno, mas depois pensei que se calhar era menos grave porque ficaria apenas aquele ruído ensurdecedor mas indistinto que se ouve nos transportes em Espanha... Sim, porque os espanhóis são os campeões dos decibéis, puta que os pariu que eles falam aos gritos literalmente.
E pronto, foi o meu post xenófobo do dia :) Espero que tenham gostado. Amanhã vou postar sobre os hábitos de gorjetas dos turistas judeus.
corrigi
corrigi o post anterior que estava giro só que eu não sabia o que era um bildumnsroman e meti as patas da frente pelas patas de trás com a mania que sei as coisas.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
great technical difficulties e figura de urso
ATENÇÃO: Peço muitas desculpas aos meus leitores que, estranhamente, sabem o que é o Bildungsroman e eu não sabia, pelo que este meu post não faz grande sentido. Dado que comentaram entretanto e que sei que os vossos corações são sensíveis, não apago e fica aqui, ainda acrescento a seguinte nota tidada da wikipedia: É designado com o termo alemão Bildungsroman (romance de aprendizagem ou formação) o tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.
A propósito do Adolescente, um livro de Dostoiévski com um narrador na primeira pessoa (incomum em Dostoiévski e considerado por alguns críticos como um livro mais fraco mas eu vou mostrar que não depois de o ler até ao fim), este blogger estrangeiro escreve isto:
«In a bildungsroman [romance na primeira pessoa], the narrator of the story knows the end before the beginning, and must withhold this information from the reader, both on the level of plot and incident, and on the level of self knowledge. At the same time, the illusion of developing awareness, of evolving consciousness must be self-consciously created.
The first person narrative limits the omniscience and interest of the narrative voice. Other characters’ motivations cannot be examined, other scenes in which the narrator is not present cannot be described, without the risk of breaking the illusion of a central viewpoint. The risk of boring the reader without a breath of fresh air provided by a change of scene or character is very great.
At the same time a first person narrative raises all sorts of questions about narrative provenance: is the story being told to the reader, or written down and ‘discovered’ by the reader? What is the gap in time between the events described and the writing/telling?
The genre is therefore fraught with great technical difficulties.»
Nem um género nem outro é melhor ou pior por princípio, mas reconheço facilmente que o bildumgsroman é menos popular e tem menos potencial de sucesso de vendas e mesmo crítico. Contudo, acho o bilbobaginsroman mais natural. O Kerouac pode escrever o blimungsroman do On The Road todo de uma assentada, mas dificilmente faria um não-blinmunsroman de uma assentada. Até porque ele é mau escritor (desculpem) e mesmo assim o On the Road não deixa de ser interessante e poderoso se encontrar a consciência certa. Os diários que se tem na adolescência, as cartas e e-mails que se enviam ou os blogues, são pedaços de blidungsruman. Contamos e escrevemos coisas limitados à nossa consciência e experiência. O esforço de ficção é criar uma consciência nova ou derivações da nossa consciência ou projectar a consciência em experiências novas. Exige voz. Um tipo formidavelmente chato consegue escrever romances não-blidensgruminan e o oposto é completamente falso. Ainda vou no inicio do Adolescente e gosto muito. O Dosto é tudo menos chato e tem sempre truques na manga. Vamos ver.
domingo, 21 de agosto de 2011
E ainda perguntam como é possível que pessoas de classe média alta tenham sido identificadas e presas nos riots de Londres?
Podia-me ter acontecido a mim :(
- O quê?! Jesus, tanto preto! E vêm todos a correr direito a mim! Por amor de Deus não me façam m... Oh, arrombate the shop of telemobiles? Yeah! Lets all go in this... shop... of telemobiles... and show we are angry against system! YEAH! FUCK! YEAH brohters! ai f##%"-se não me empurrem... yeah we are inside the shop, so many evil things here, racist things made by white corporations! ups estes dois gajos são brancos afinal e um está a olhar para mim de lado No, they evil telephonies angainst all races, white, black, yellow, jew!... deixem-me sair da loja agora, com licença excuse me... No! No! I wasnt leaving! I very angry against this shop! I burn this, let me get my isqueiro... merda, não consigo sair daqui, tenho reunião na sede da Merrill Lynch às 16h, vou chegar atrasado... olha um iPhone, se calhar ninguém dá pela falta dist... Oh sorry! take it brother, sorry! take it! Dont hit me! Nice baseball bat... ufa.... como é que estes gajos não morrem de calor todos enfaixados com estes gorros e lenços a tapar a cara... hei, aquilo ali ao canto no tecto é uma câmara? Estará ligada?
- O quê?! Jesus, tanto preto! E vêm todos a correr direito a mim! Por amor de Deus não me façam m... Oh, arrombate the shop of telemobiles? Yeah! Lets all go in this... shop... of telemobiles... and show we are angry against system! YEAH! FUCK! YEAH brohters! ai f##%"-se não me empurrem... yeah we are inside the shop, so many evil things here, racist things made by white corporations! ups estes dois gajos são brancos afinal e um está a olhar para mim de lado No, they evil telephonies angainst all races, white, black, yellow, jew!... deixem-me sair da loja agora, com licença excuse me... No! No! I wasnt leaving! I very angry against this shop! I burn this, let me get my isqueiro... merda, não consigo sair daqui, tenho reunião na sede da Merrill Lynch às 16h, vou chegar atrasado... olha um iPhone, se calhar ninguém dá pela falta dist... Oh sorry! take it brother, sorry! take it! Dont hit me! Nice baseball bat... ufa.... como é que estes gajos não morrem de calor todos enfaixados com estes gorros e lenços a tapar a cara... hei, aquilo ali ao canto no tecto é uma câmara? Estará ligada?
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