Quando agregamos uma série de discos de artistas diferentes, produzidos pelo mesmo grande produtor, notamos uma coerência. Essa coerência é da exclusiva responsabilidade do produtor, a sua trade mark digamos assim. Pode revelar-se pela escolha de certos arranjos, sintetizadores, efeitos... Alguns são tão pros que todos os artistas das grandes discográficas de uma era querem trabalhar com ele. A responsabilidade é muita, não há margem para amadorismos e então procuram exclusivamente o melhor. Contudo, o produtor tem também de oferecer algo que soe novo. Isto é extremamente importante na pop, ainda hoje. O som tem de ser diferente do som que existia antes, mais moderno, de alguma forma. Como consequência, esses produtores acabam por contribuir para definir boa parte do som de uma determinada era. Um exemplo é Nile Rogers, um gajo que é frequentemente incluído em qualquer discussão de produtores como um dos 10 melhores de sempre.
O caso de David Bowie é paradigmático, pois dá a sensação que David Bowie, um artista extremamente inteligente, em constante mutação e um magnífico produtor também, pediu a Niles Rogers para lhe fazer um disco... à Niles Rogers. E ele produziu-lhe o álbum Let's Dance, o que mais vendeu na carreira de David Bowie. Sucedeu o mesmo com os Duran Duran, o single The Reflex de 1984 (uma canção que eu por acaso abomino e por isso não colo aqui) também foi o que mais vendeu na carreira naquela banda.
Deixo aqui quatro exemplos de músicas / discos que ele produziu. Apesar de serem artistas de estilos muito diferentes, há uma
marca própria do Niles Rogers, algo que lembra um som funk / soul, com sintetizadores e guitarras a fazerem ataques muito curtos e sincopados. Por exemplo, o Upside Down da Diana Ross e o Let's Dance do David Bowie têm praticamente o mesmo efeito de delay nos sintetizadores de cordas / guitarras e acabam por ter essencialmente a mesma base rítmica.
Diana Ross - Upside Down (1980)
David Bowie - Let's Dance (1983)
Madonna - Like a Virgin (1984)
E por fim, o primeiro álbum a solo do Mick Jagger, o She's The Boss, onde podemos observar a voz de Mick Jagger descontextualizada dos Rolling Stones e metida em canções produzidas pelo Niles Rogers. Pessoalmente, não acho o efeito muito positivo, mas foi um grande sucesso de vendas na mesma.
Para além destes, produziu INXS (Original Sin), Depeche Mode (Route 66), Grace Jones (Inside Story), The B52's (Cosmic Thing)...
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
aos 2:43
(dedicado aos defensores da supremacia da raça humana, incluindo os seus espécimes mais asquerosos)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
produtores
Uma das coisas que me mais me agrada neste disco do Andy Stott (post abaixo) é reconhecer nele a destilação / evolução de ideias que há uns anos estavam (ainda mais) extremadas no trabalho de visionários, em direcção a algo progressivamente mais friendly. Dentro de dez anos, ouviremos pop mainstream com alguns destes elementos e então serão toques de telemóvel.
A produção é um processo muito semelhante ao da pintura. Os pintores têm tanto de inovação e experimentação técnica como de criatividade estética. As técnicas marcam uma evolução e estão condicionadas pela tecnologia, se bem que a pintura não se compara à música nessa relação. A escrita, por exemplo, pode evoluir de muitas formas, mas a tecnologia não muda rigorosamente nada de fundamental. A música, pelo contrário, dependeu sempre da engenharia de som, dos instrumentos que existiam nas respectivas épocas e culturas. Com a gravação em estúdio, desenvolveram-se técnicas e aparelhos de produção, gravação e transformação do som que são, do ponto de vista criativo, tão complexos com a própria música que transformavam. Nem sempre eram tecnológicos, aliás, mesmo hoje em dia há produtores que recorrem a efeitos bastante primitivos. Os fantásticos Man Man gravam sons de coisas a cair no chão e a escangalharem-se todas para conseguir ter aqueles apontamentos de "caos" nas suas músicas. Reza a lenda que Aphex Twin teve várias fitas pós-produzidas por um dos seus gatos que as desenrolou das bobines e as arranhou.
Um exemplo de 1956, da importância da produção. Elvis Presley não ficou contente com o som "seco" da sua voz na primeira versão do Heartbreak Hotel. Então foi ele próprio que sugeriu abrirem uma porta para uma grande escadaria nas traseiras, meter lá um amplificador e um microfone para captar o eco. Depois misturaram essa gravação com a da voz original e voilá, um dos sons mais distintivos da história do rock: a voz de Elvis no heartbreak hotel.
No campo dos produtores experimentais que se tornam artistas, um bom exemplo é o de Martin Hannett nos Joy Division e noutros bandas da Factory (Orchestral Manoeuvres in the Dark, A Certain Ratio, The Durutti Column). Os Joy Division eram bastante limitados nos recursos técnicos, os tais punks de que estou sempre a falar, com energia e vontade, mas sem os meios. According to Hannett: "There was a lot of space in [Joy Division's] sound. They were a gift to a producer, because they didn't have a clue. They didn't argue. "
Foi Hannet quem criou o som Joy Division, misturando tecnologia disponível na época, alguns gadgets de topo, outros rascas e fanhosos e técnicas tão simples como as do Elvis - gravar coisas em escadas ou telhados ou desmontar uma bateria para lhe incorporar peças retiradas de uma retrete. De facto, é impossível dissociar os Joy Division da textura da música deles.
Em minha opinião, a produção nos Joy Division tem tanto peso como as próprias composições e performance, para criar a distópica atmosfera austera, futurista, angustiante e industrial, onde a voz de Ian Curtis se assemelha à de um homem perdido no vácuo espacial, metáfora sonora da mais profunda solidão humana.
A produção é um processo muito semelhante ao da pintura. Os pintores têm tanto de inovação e experimentação técnica como de criatividade estética. As técnicas marcam uma evolução e estão condicionadas pela tecnologia, se bem que a pintura não se compara à música nessa relação. A escrita, por exemplo, pode evoluir de muitas formas, mas a tecnologia não muda rigorosamente nada de fundamental. A música, pelo contrário, dependeu sempre da engenharia de som, dos instrumentos que existiam nas respectivas épocas e culturas. Com a gravação em estúdio, desenvolveram-se técnicas e aparelhos de produção, gravação e transformação do som que são, do ponto de vista criativo, tão complexos com a própria música que transformavam. Nem sempre eram tecnológicos, aliás, mesmo hoje em dia há produtores que recorrem a efeitos bastante primitivos. Os fantásticos Man Man gravam sons de coisas a cair no chão e a escangalharem-se todas para conseguir ter aqueles apontamentos de "caos" nas suas músicas. Reza a lenda que Aphex Twin teve várias fitas pós-produzidas por um dos seus gatos que as desenrolou das bobines e as arranhou.
Um exemplo de 1956, da importância da produção. Elvis Presley não ficou contente com o som "seco" da sua voz na primeira versão do Heartbreak Hotel. Então foi ele próprio que sugeriu abrirem uma porta para uma grande escadaria nas traseiras, meter lá um amplificador e um microfone para captar o eco. Depois misturaram essa gravação com a da voz original e voilá, um dos sons mais distintivos da história do rock: a voz de Elvis no heartbreak hotel.
No campo dos produtores experimentais que se tornam artistas, um bom exemplo é o de Martin Hannett nos Joy Division e noutros bandas da Factory (Orchestral Manoeuvres in the Dark, A Certain Ratio, The Durutti Column). Os Joy Division eram bastante limitados nos recursos técnicos, os tais punks de que estou sempre a falar, com energia e vontade, mas sem os meios. According to Hannett: "There was a lot of space in [Joy Division's] sound. They were a gift to a producer, because they didn't have a clue. They didn't argue. "
Foi Hannet quem criou o som Joy Division, misturando tecnologia disponível na época, alguns gadgets de topo, outros rascas e fanhosos e técnicas tão simples como as do Elvis - gravar coisas em escadas ou telhados ou desmontar uma bateria para lhe incorporar peças retiradas de uma retrete. De facto, é impossível dissociar os Joy Division da textura da música deles.
Em minha opinião, a produção nos Joy Division tem tanto peso como as próprias composições e performance, para criar a distópica atmosfera austera, futurista, angustiante e industrial, onde a voz de Ian Curtis se assemelha à de um homem perdido no vácuo espacial, metáfora sonora da mais profunda solidão humana.
origem das tempestades
As coisas mais interessantes devem transmitir a sensação de estarem incompletas e cheias de espaços vazios, silêncios e enigmas, onde se podem projectar sonhos. Devem ser como esponjas, capazes de absorver ideias líquidas nos espaços vazios e elásticos do seu interior. Um dos segredos para o sucesso no mainstream é ser-se um lago com dois dedos de profundidade, um espelho de água, perfeito, onde ninguém se perde à deriva e onde nunca há tempestades. O outro segredo, é ser consistente e coerente como uma linha de montagem de automóveis.
domingo, 13 de janeiro de 2013
bola
No rescaldo do jogo Benfica 2- 2 Porto...
1- não entendi porque Olah John não jogou. Se algum estratega de futebol me fizer o favor de explicar, agradeço (sem ironia).
2- não entendi a ideia de meter Carlos Martins + Aimar em campo, em vez de meter Aimar (ou Carlos Martins) + Olah John, pelas mesmas substituições (Lima e Enzo).
3- Jorge Jesus pode dizer que este jogo não decidia nada. Por um lado tinha razão. Não decidia, são só três pontos e ainda vamos na primeira volta. Mas não tenho dúvidas que se o FCP vencesse hoje na luz, podíamos dizer adeus ao título. E se vencêssemos, estávamos lançados. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Como jogámos em casa, é pior para nós do que para o FCP. Podemos queixar-nos de ter sofrido um golo com um erro infantil de Artur e de ter falhado o 3-2 a dez minutos do fim. Mas fica a sensação de que fizemos pouco e de que a equipa quebrou na 2ª parte, após as mexidas de Jorge Jesus.
4- Izmailov. Perdão, Izmaylov. Infantil, Vitor Pereira a colocá-lo em jogo. Não tem justificação possível. Fez aquilo que era expectável, ou seja, nada
5- Matic.
1- não entendi porque Olah John não jogou. Se algum estratega de futebol me fizer o favor de explicar, agradeço (sem ironia).
2- não entendi a ideia de meter Carlos Martins + Aimar em campo, em vez de meter Aimar (ou Carlos Martins) + Olah John, pelas mesmas substituições (Lima e Enzo).
3- Jorge Jesus pode dizer que este jogo não decidia nada. Por um lado tinha razão. Não decidia, são só três pontos e ainda vamos na primeira volta. Mas não tenho dúvidas que se o FCP vencesse hoje na luz, podíamos dizer adeus ao título. E se vencêssemos, estávamos lançados. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Como jogámos em casa, é pior para nós do que para o FCP. Podemos queixar-nos de ter sofrido um golo com um erro infantil de Artur e de ter falhado o 3-2 a dez minutos do fim. Mas fica a sensação de que fizemos pouco e de que a equipa quebrou na 2ª parte, após as mexidas de Jorge Jesus.
4- Izmailov. Perdão, Izmaylov. Infantil, Vitor Pereira a colocá-lo em jogo. Não tem justificação possível. Fez aquilo que era expectável, ou seja, nada
5- Matic.
ironia das ironias
Posso ter atraído alguns maluquinhos com o meus posts sobre animais, é sempre inevitável porque este tipo de posts acaba por ser replicado e colado em vários sítios, mas o Daniel Oliveira está a ter a vida mais difícil. Comentário ao post dele:
Isabel
Eu, democrata cristã, concordo com tudo o que escreveu.
Os humanos são seres inteligentes e estão acima de todos os outros irracionais.
Não se comparam, estão em planos diferentes.
Pelas razões que invocou, sou contra o aborto, a eutanásia e logicamente contra a pena de morte.
Já vi o fanatismo pela causa dos animais, chamar-lhes "meninos" ou "bébés".
É chocante.
Será este fanatismo alimentado por um tentáculo do ateísmo????
Será que colocar pessoas e animais no mesmo plano, conduzirá à naturalização e normalização da esterilização, eutanásia e pena de morte para os humanos?
Declaro aqui que gosto imenso de animais.
Por isso acho execrável que se tenham cães, gatos ou coelhos, que precisam de correr, de espaço e de ar, em apartamentos ou gaiolas, fechados em casa o dia todo.
Porque o ambiente em que vivem não é natural as probabilidades de terem comportamentos agressivos aumentam.
Alguém (importante) disse que "quando tratarmos os animais como pessoas passaremos a tratar as pessoas como animais"...
Os humanos são seres inteligentes e estão acima de todos os outros irracionais.
Não se comparam, estão em planos diferentes.
Pelas razões que invocou, sou contra o aborto, a eutanásia e logicamente contra a pena de morte.
Já vi o fanatismo pela causa dos animais, chamar-lhes "meninos" ou "bébés".
É chocante.
Será este fanatismo alimentado por um tentáculo do ateísmo????
Será que colocar pessoas e animais no mesmo plano, conduzirá à naturalização e normalização da esterilização, eutanásia e pena de morte para os humanos?
Declaro aqui que gosto imenso de animais.
Por isso acho execrável que se tenham cães, gatos ou coelhos, que precisam de correr, de espaço e de ar, em apartamentos ou gaiolas, fechados em casa o dia todo.
Porque o ambiente em que vivem não é natural as probabilidades de terem comportamentos agressivos aumentam.
Alguém (importante) disse que "quando tratarmos os animais como pessoas passaremos a tratar as pessoas como animais"...
Eh eh eh eh :')
sobre os Pitbulls e a petição
Sobre o caso prático, não concordo com a petição, vem num contexto polémico e provocador que prejudica a defesa dos direitos dos animais, uma defesa que, em Portugal, tem mesmo muito por onde pegar e agir. Em Portugal, é a própria liga de defesa dos direitos animais que o avança, são abatidos mais de 100 mil animais em canis. Neste contexto, faz sentido fazer de um pitbull que matou uma criança, a bandeira de uma causa? Com que intuito? Provocar? Não me choca que o animal seja abatido. O que choca é que o dono não seja responsabilizado por homicídio por negligência, como seria um homem que deixa uma arma de fogo carregada ao alcance de uma criança. Considero que certas raças, nomeadamente o Pitbull, deveriam ser equiparadas a armas de fogo. Querem ter um? Deviam ter cadastro limpo e ser sujeitos a um processo. No Reino Unido, é proibido ter pitbulls, a não ser em casos excepcionais. Fizeram isso em resposta a uma moda cada vez mais espalhada entre os mitras. A propósito disso, o sítio onde vi mais pitbulls foi quando vivi perto de Alfama e sempre, no outro extremo da trela, um chungoso qualquer de brinco, cabelo oxigenado e boné. Uma amiga minha teve o seu cocker spaniel quase morto por um pitbull.
Coincidência ou não, o dono desse cão era um refinado sacana. Depois do
acidente, intimidou-a com ameaças de morte caso fizesse queixa e continuou a soltar o cão nas traseiras do prédio, onde crianças brincavam. Intimidação é o principal motivo da escolha do Pitbull. No caso de uma família com um bebé em casa, só consigo pensar em irresponsabilidade extrema. Num estudo levado a cabo pelo US Governement Centers For Disease Control, 32% de todos os ataques mortais nos EUA são causados por Pitbulls, no entanto os Pitbulls constituem apenas 2% do total de cães. Dessas mortes, 70% são crianças. Podem vir todos os criadores à tvi e sic garantir que o Pitbull é um cão como outro qualquer e procurar garantir o seu lucrativo negócio com o clássico argumento do "as armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas", mas os factos são estes. Os pitbulls são o resultado de cruzamentos dirigidos pelo homem para criar um cão excepcionalmente poderoso e agressivo. Como tal, também vai ter mais tendência a atrair um certo tipo de donos e de contexto social. Em si, o cão até pode ser mentalmente mais estável que um cocker spaniel, mas as consequências dos desvios são trágicas. Tal como não existe, na maior parte dos casos, justificação para um particular ter armas de fogo, também não existe justificação para a posse de um certo tipo de raças que sejam estatisticamente mais propensas a acidentes letais.
radicais (reescrito)
«Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. Tendo tido (e continuando a ter) quase sempre animais domésticos (de que gosto imenso), parece-me haver em muitos defensores mais radicais dos direitos dos animais um discurso que relativiza os direitos humanos. Porque não compreendem a sua absoluta excepcionalidade. - Daniel Oliveira.
Sobre o caso do cão que matou o miúdo de 18 meses, não subscrevo a petição contra o seu abate, mas de qualquer forma, é só uma petição e isto num país onde há touradas. A minha família já abateu um cão violento. Mordeu muita gente. A mim rasgou-me um dedo e arrancou-me uma unha, eu devia ter oito ou nove anos. A gota de água foi ter-se atirado à cara de uma vizinha idosa, podia tê-la morto. Foi o meu próprio pai que o matou com uma injecção de pentotal e foi um dos dias mais tristes na nossa história familiar. Tudo, na vida, são problemas práticos. Era um perigo constante, para mim, outras crianças, vizinhos. Evidentemente, eu era miúdo e não concordei, nem mesmo quando me arrancou a unha. Em vez de odiar o cão, fiquei foi a odiar a vizinha por ter entrado em casa sem bater à porta quando sabia que tínhamos um cão completamente doido. Fiquei-lhe com um pó durante anos. Um dia ela virou-se para mim e perguntou-me "estás de mal comigo?" e eu respondi-lhe "não" e senti-me bestialmente mal por lhe querer mal e passou-me tudo. A vida é muito confusa.
Não trocava a vida de qualquer dos meus cães pela vida dos tais seres humanos mais asquerosos teóricos de que fala o Daniel (no caso dele serão George Bush? Milton Friedman? Margaret Tatcher?) O Daniel Oliveira trai-se em dois pontos no parágrafo. O primeiro é dizer que gosta imenso do seus animais domésticos. Nenhum dono de cão ou gato se refere a ele genericamente como "um animal doméstico", sem sequer especificar se é cão, gato, cágado ou periquito e dar-lhe um nome. E segundo, não se gosta imenso. Gosta-se imenso de uma mala Chanel ou de uma t-shirt do Che Guevara. Um animal doméstico, ama-se. Ama-se como se fosse um membro da família, um melhor amigo, um companheiro. E o Daniel trai-se ao dizer que não compreendemos a absoluta excepcionalidade da vida humana. Temos católicos nos sítios mais inesperados, ocorre-me dizer, até no Bloco de Esquerda. Pensar que a vida humana é, à partida, mais excepcional que outras formas de vida, parece-me um radicalismo absoluto.
Em qualquer caso, as pessoas da petição não estão, ao contrário do que Daniel Oliveira parece acusá-los, a defender a troca de vida de inocentes pela vida do cão. Estão talvez a remar contra procedimentos automáticos e imediatos que a justiça e a sociedade tem para com os animais em Portugal, um país onde ainda são torturados em rituais bárbaros e onde a lei os considera "coisas", muito por culpa desse antropocentrismo religioso e de insensibilidade. Infelizmente, nem com Darwin fomos lá e se não fosse Copérnico, ainda era o Sol que girava à volta do Daniel Oliveira e o seu carácter absolutamente excepcional.
Sobre o caso do cão que matou o miúdo de 18 meses, não subscrevo a petição contra o seu abate, mas de qualquer forma, é só uma petição e isto num país onde há touradas. A minha família já abateu um cão violento. Mordeu muita gente. A mim rasgou-me um dedo e arrancou-me uma unha, eu devia ter oito ou nove anos. A gota de água foi ter-se atirado à cara de uma vizinha idosa, podia tê-la morto. Foi o meu próprio pai que o matou com uma injecção de pentotal e foi um dos dias mais tristes na nossa história familiar. Tudo, na vida, são problemas práticos. Era um perigo constante, para mim, outras crianças, vizinhos. Evidentemente, eu era miúdo e não concordei, nem mesmo quando me arrancou a unha. Em vez de odiar o cão, fiquei foi a odiar a vizinha por ter entrado em casa sem bater à porta quando sabia que tínhamos um cão completamente doido. Fiquei-lhe com um pó durante anos. Um dia ela virou-se para mim e perguntou-me "estás de mal comigo?" e eu respondi-lhe "não" e senti-me bestialmente mal por lhe querer mal e passou-me tudo. A vida é muito confusa.
Não trocava a vida de qualquer dos meus cães pela vida dos tais seres humanos mais asquerosos teóricos de que fala o Daniel (no caso dele serão George Bush? Milton Friedman? Margaret Tatcher?) O Daniel Oliveira trai-se em dois pontos no parágrafo. O primeiro é dizer que gosta imenso do seus animais domésticos. Nenhum dono de cão ou gato se refere a ele genericamente como "um animal doméstico", sem sequer especificar se é cão, gato, cágado ou periquito e dar-lhe um nome. E segundo, não se gosta imenso. Gosta-se imenso de uma mala Chanel ou de uma t-shirt do Che Guevara. Um animal doméstico, ama-se. Ama-se como se fosse um membro da família, um melhor amigo, um companheiro. E o Daniel trai-se ao dizer que não compreendemos a absoluta excepcionalidade da vida humana. Temos católicos nos sítios mais inesperados, ocorre-me dizer, até no Bloco de Esquerda. Pensar que a vida humana é, à partida, mais excepcional que outras formas de vida, parece-me um radicalismo absoluto.
Em qualquer caso, as pessoas da petição não estão, ao contrário do que Daniel Oliveira parece acusá-los, a defender a troca de vida de inocentes pela vida do cão. Estão talvez a remar contra procedimentos automáticos e imediatos que a justiça e a sociedade tem para com os animais em Portugal, um país onde ainda são torturados em rituais bárbaros e onde a lei os considera "coisas", muito por culpa desse antropocentrismo religioso e de insensibilidade. Infelizmente, nem com Darwin fomos lá e se não fosse Copérnico, ainda era o Sol que girava à volta do Daniel Oliveira e o seu carácter absolutamente excepcional.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
a moral do Polegarzinho, explicada
Sinopse da wikipedia:
Um pobre lenhador tinha sete filhos, e o caçula era tão pequenino que o chamavam Pequeno Polegar. Mas, apesar do tamanho, era um menino muito esperto. Como a Europa passava por um período de muita fome, o pai decidiu abandonar os filhos na floresta. Depois de muito andar, as crianças avistaram um lindo castelo e para lá se dirigiram em busca de abrigo e alimento. Um ogro malvado, que ali residia, resolveu que iria devorá-los. Mas Polegar, percebendo a intenção do malvado, durante a noite, trocou o seu chapéu e os chapéus dos irmãos pelas coroas das filhas do ogro, que as devorou pensando que fossem os rapazes. Eles tiveram então que fugir do castelo, e o Pequeno Polegar calçou as botas encantadas do ogro enquanto ele dormia, e assim ajudou os irmãos a voltarem para casa. Com o auxílio das botas de sete-léguas, Polegar trabalhou para um rei, conseguiu muito dinheiro e pode finalmente voltar para sua casa e nunca mais passaram fome.
Ok... por onde começar... Temos uns pais que, numa europa em crise, dominada por Troikas e FMIs, decidem abandonar os filhos em Monsanto, todos de uma vez, crianças que já de si eram muito pequeninas e indefesas. Penso que é uma excelente ideia advertir um filho pequeno desta possibilidade. Enfim, explicar-lhe que temos sempre a hipótese de o largar na floresta e que é bom que esteja muito agradecido por não o fazermos. Depois fartam-se de andar e vêm um lindo castelo, um castelo mais bonito que o nosso T2 em Massamá. Pois que fique sabendo que em cada castelo há uma Casa Pia. Quer comida e abrigo, mas encontra um ogro Bibi... Ao Polegarzinho não lhe bastava fugir ou esconder-se. Tem de arranjar um esquema que implique o ogro devorar as próprias filhas, por engano. É isso. Não te limites a escapar, miúdo. Se não der para a pessoa comer os próprios filhos, rega superfícies inflamáveis com gasolina, pega fogo a tudo e afasta-te da cena com explosões em slow motion atrás de ti. Precisas é de umas botas encantadas que te permitam fugir e trabalhar para um rei e ganhar muito dinheiro. É evidente que nos estamos a referir a chuteiras nike iguais às do Cristiano Ronaldo e a jogar no Real Madrid. Vê lá se fazes isso, miúdo. E depois voltas milionário para casa dos pais que te abandonaram na floresta e nunca mais passamos fome. Hmm, que tal? Bela história, hein? Dorme bem, pequenote. Vou apagar a luz agora, boa noite.
Um pobre lenhador tinha sete filhos, e o caçula era tão pequenino que o chamavam Pequeno Polegar. Mas, apesar do tamanho, era um menino muito esperto. Como a Europa passava por um período de muita fome, o pai decidiu abandonar os filhos na floresta. Depois de muito andar, as crianças avistaram um lindo castelo e para lá se dirigiram em busca de abrigo e alimento. Um ogro malvado, que ali residia, resolveu que iria devorá-los. Mas Polegar, percebendo a intenção do malvado, durante a noite, trocou o seu chapéu e os chapéus dos irmãos pelas coroas das filhas do ogro, que as devorou pensando que fossem os rapazes. Eles tiveram então que fugir do castelo, e o Pequeno Polegar calçou as botas encantadas do ogro enquanto ele dormia, e assim ajudou os irmãos a voltarem para casa. Com o auxílio das botas de sete-léguas, Polegar trabalhou para um rei, conseguiu muito dinheiro e pode finalmente voltar para sua casa e nunca mais passaram fome.
Ok... por onde começar... Temos uns pais que, numa europa em crise, dominada por Troikas e FMIs, decidem abandonar os filhos em Monsanto, todos de uma vez, crianças que já de si eram muito pequeninas e indefesas. Penso que é uma excelente ideia advertir um filho pequeno desta possibilidade. Enfim, explicar-lhe que temos sempre a hipótese de o largar na floresta e que é bom que esteja muito agradecido por não o fazermos. Depois fartam-se de andar e vêm um lindo castelo, um castelo mais bonito que o nosso T2 em Massamá. Pois que fique sabendo que em cada castelo há uma Casa Pia. Quer comida e abrigo, mas encontra um ogro Bibi... Ao Polegarzinho não lhe bastava fugir ou esconder-se. Tem de arranjar um esquema que implique o ogro devorar as próprias filhas, por engano. É isso. Não te limites a escapar, miúdo. Se não der para a pessoa comer os próprios filhos, rega superfícies inflamáveis com gasolina, pega fogo a tudo e afasta-te da cena com explosões em slow motion atrás de ti. Precisas é de umas botas encantadas que te permitam fugir e trabalhar para um rei e ganhar muito dinheiro. É evidente que nos estamos a referir a chuteiras nike iguais às do Cristiano Ronaldo e a jogar no Real Madrid. Vê lá se fazes isso, miúdo. E depois voltas milionário para casa dos pais que te abandonaram na floresta e nunca mais passamos fome. Hmm, que tal? Bela história, hein? Dorme bem, pequenote. Vou apagar a luz agora, boa noite.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
o lugar da infância
Ando a ler a Maravilhosa de Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlof. Há uma coisa que me apela muito neste tipo de narrativas, especialmente as nórdicas e alemãs, de Hans Christian Andersen aos irmãos Grimm. Por um lado, o estilo com descrições minimalistas ao serviço de uma narrativa simples e linear, capaz de ser entendida por uma criança. Por outro lado, poderosas imagens, absurdas, poéticas e inesperadas, com elementos emprestados a folclore que lhes dão uma carga mítica, como se num tempo distante aquelas coisas fossem possíveis. Autores como Knut Hamsun (no Pan), Dino Buzzati ou mesmo o Mishima (no Tumulto das Ondas) têm um estilo que podia ser aplicado a fábulas infantis. Ao lê-los temos a sensação de reencontrar um tom primordial e poderoso. Outro aspecto é a crueldade dos temas (não parece ser o caso deste Nils Holgersson), especialmente se os analisarmos à luz da pedagogia moderna e da narrativa infantil mainstream americana ou da publicidade que definiu o novo standard. Um exemplo deste novo standard de que já aqui falei é a transformação da história da Pequena Sereia pela Disney numa coisa que pelo menos não deixe as crianças traumatizadas como o original de Andersen. Para a Pixar, um ogre como o Shreck é simpático e não um vilão, enquanto nos tempos idos um ogre comia crianças e era para isso que servia. Assustar as crianças com um "mal" impenetrável e impossível de descodificar, um mal que existe e é tão puro e indomável como a morte ou uma violenta tempestade, não é de todo pedagógico. Até o Darth Vader tem de ser explicado. A própria fealdade do Shreck é uma opção e a bela princesa também se torna num ogre, enquanto que num conto como a Cinderela, é a beleza ímpar que a torna especial e objecto de identificação da criança (e por falar em crueldade, na versão dos irmãos Grimm, de acordo com a wikipedia, as irmãs malvadas ficam cegas ao terem seus olhos furados por pombos). Hoje, pensaríamos duas vezes antes de escrever uma história sobre uma jovem muito bonita, a mais bonita de todo o reino, porque ao fazê-lo estaríamos talvez a excluir crianças que não são as mais bonitas ou a induzir uma epidemia de anorexia (esse é o papel da publicidade). A versão da Disney (o primeiro é de 1950) chega a ser menos cor de rosa que a versão Cinderela para adultos, o Pretty Woman, filme em que a prostituição de Julia Roberts é descrita de forma tão optimista e leve que, de acordo com um documentário a que assisti, originou um afluxo de jovens raparigas a Hollywood para se prostituirem em busca do seu Richard Gere. Jesus Cristo, sempre de olho nos meninos a ver se se portam bem e não vão parar ao inferno, pregado na cruz com a sua coroa de espinhos sanguinolenta, em representações mórbidas penduradas nas paredes das casas da aldeia da minha infância, foi sendo progressivamente substituído pelo Pai Natal vermelho da Coca Cola. Talvez o equivalente à moral do Capuchinho Vermelho no século XXI sejam os mitos urbanos na Internet, da seringa com sida no banco do cinema à bebida do estranho e o rim a menos no dia seguinte. O lado negro é amplamente difundido, a começar pelos media cheios de sensacionalismo, mas não na forma de "contos infantis" que os pais contem às crianças intencionalmente, o que seria bastante cruel e traumático, diga-se. Parece que muitas histórias infantis do passado tinham como mensagem base o mundo é mágico e fabuloso, mas o sofrimento e a crueldade fazem parte dele: prepara-te e não desejes coisas. Hoje, a negra lição é escondida de acordo com as boas regras da pedagogia, o que gera como que dois mundos paralelos, aquele da felicidade em que vivemos e o da desgraça que colide connosco quando menos o esperamos, na forma de diagnóstico no IPO ou de faróis em sentido contrário na nossa faixa. Como abordar um tema tão prosaico como o desemprego e a pobreza, uma tema que reflecte apenas e somente o facto de ninguém parecer precisar de nós e das nossas capacidades, quando até ali nos transmitiram o contrário, sempre? As Jonets e os César das Neves (por exemplo) vêem nas desgraças o natural cumprir das profecias das fábulas que ouviram toda a vida. Em certo sentido, são resistentes como baratas.
acho que os die antwoord não apreciam lady gaga
update:
... e acho mal, como esclareceu a última bolacha: Acontece que a própria Lady Gaga se assumiu como fã dos Die Antwoord (falta um r no título), tanto que os convidou para lhe abrirem os concertos. Este video foi "a resposta". ouuuu... eles aceitaram o convite.... e mesmo assim gozaram com ela...
update 2:
Em resposta ao update: não aceitaram e a senhora ficou terrivelmente ofendida com este vídeo, até os acusou de racismo por causa da Yo-landi aparecer toda pintada de preto (?). Compreende-se, nenhuma gaja quer ter bichos daquele tamanho a saírem-lhe da pachacha.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
gerador de números aleatórios
Tenho uma piada muito boa preparada para quando o Eric Clapton morrer: uma foto do Eric Clapton com uma caption por cima a dizer will he know his name?
:)
Mas não era sobre isso que queria falar. Enquanto não me lembro do que era, hoje estava a ler os Cadernos da Casa Morta numa tasca, ao almoço, quando uma mulher se chega por trás de mim (ouvi saltos) e me pousa a mão no ombro e se inclina e diz "olá" num sopro perfumado, pronta para me dar um beijo. Levanto os olhos do Dosto e vejo umas pernas em meias escuras, uma mini-saia crepe, um casaco de peles tigresse e por fim uma morena com trinta e poucos que não consegui reconhecer. Quando me viu ficou atrapalhada e desdobrou-se em desculpas. Confundiu-me com o tipo que observava a cena a rir-se de uma mesa mais adiante e que a chamou. Também percebi que parte da surpresa teve origem no pensamento reflexo que o amigo passara de sapo para príncipe num passe de mágica. Até lhe notei alguma desilusão quando viu o amigo na mesa e foi ter com ele, às arrecuas, a pedir desculpa. Eu fiquei impassível. Estou estou sempre à espera que isto me aconteça quando leio livros de qualidade em locais públicos e só me surpreende o facto de não acontecer mais vezes. Ouvi comentários jocosos de outras mesas e às tantas todos comentavam o casaco parecido com o meu (e não igual como comentou o empregado, o meu é da Pepe Jeans e o do tipo era todo roskoff, como diria Dosotiévski). Voltei a ler os Cadernos da Casa Morta, tentando recuperar a solenidade e a concentração e mergulhar de novo na prisão siberiana e no dia a dia dos reclusos, uma coisa que me diz muito pois trabalhei alguns anos num instituto público. Já me lembrei. Aquilo de que queria falar, já me lembrei. Tinha a ver com um post do Alf. Já não metia aqui um link para um post do Alf há algum tempo. Ele até já desistiu de linkar o meu quando diz "Tolan" num post, às tantas os senhores do google ainda iam desconfiar que isto é uma tramóia qualquer de spam de links cruzados para subir nos rankings dos motores de busca.
Era para dizer que sou licenciado em Matemática (aplicada à Economia e Gestão, mas essa parte é menos fixe e às vezes omito-a) e para dizer coisas sobre isso. Como tenho muitas coisas a dizer sobre isso, saliento apenas algumas para não maçar os outros. Os melhores alunos eram rapazes, em geral, mas os piores também costumavam ser rapazes e os mais preguiçosos de todos, o grupo em que me incluo, eram sempre rapazes. Fiz o curso com muito sofrimento. Nunca me esquecerei das primeiras aulas em que no quadro desfilavam demonstrações intermináveis e incompreensíveis que se assemelhavam a coisas que eu só vira em pesadelos antes. Então, com a excepção de uma pequena minoria de gajos que tinham caído no caldeirão de Descartes em pequenos, o curso para pessoas como eu e a maioria dos alunos transformava-se em algo um bocadinho pantomineiro. Como explicar isto... imaginem que estão num bar no Japão e não sabem falar japonês, mas ouvem um tipo da mesa do lado a dizer ao empregado "nama biru futatsu" e a seguir pousam-lhe uma cerveja gelada em frente. Então vocês dizem ao empregado "ó chefe, nama biru futatsu se faxavor" e o emprego pousa uma cerveja gelada à vossa frente. Parabéns, aprenderam a pedir cerveja no Japão. Assim se tira um curso de matemática.
O problema acontece quando, num exame de análise matemática IV, é preciso pedir uma caneca de 500cl de cerveja preta sem álcool. Mas se isso não valer mais de 10 valores, um tipo sobrevive. Há muitas coisas divertidas e fascinantes, mesmo assim. Lembro-me de ficar extremamente perturbado com a impossibilidade de programar um verdadeiro e genuíno gerador de números aleatórios, de como tudo isso era falso, tudo uma ilusão, na origem, sempre um conjunto de condições lógicas determinadas e traduzíveis em binário e linguagem máquina e que apenas nos pareciam aleatórias devido à complexidade da multiplicidade de combinações possíveis... Se há coisa que se aprende ali, é a subjugação constante do ego a uma avaliação lógica objectiva e implacável. É uma coisa que me impressiona em muitos licenciados em letras, acham que o mundo é misteriosamente injusto ou mal feito, a começar pela matemática. Dá-me a sensação que os alunos de letras com QI acima da média sofrem horrores nas faculdades de letras e humanidades onde se sentem mais deslocados que um Dostoiévski numa prisão siberiana. No outro dia li todo um artigo no DN, redigido por um jornalista licenciado, sobre condenados alcoólicos americanos que queriam processar fabricantes de "licor" por não avisarem que o licor que adquiriam nas "lojas de licor" era viciante. Muita ginginha se deve beber nos EUA. Ora bem, se um um matemático fizer um erro destes, uma ponte cai ou um avião despenha-se ou um banco vai à falência ou uma central nuclear entra em meltdown... Se um matemático cometer a imprudência de dividir por zero, pode criar uma singularidade do espaço-tempo capaz de engolir 30% da nossa galáxia. São coisas sérias. E é por isso que existem programas de televisão em que escritores e poetas conversam uns com os outros e assumem, por entre lol's, que não percebem nada de matemática sem que isso belisque o seu estatuto de pessoas inteligentes, sensíveis e até sábias. Muito pouca gente parece ter vergonha em admitir que não percebe nada de matemática e até, que a odeia, e no entanto, de literatura, poesia, violinos de Chopin e livros do Thomas Moore Mann, bons entendedores é que não faltam.
:)
Mas não era sobre isso que queria falar. Enquanto não me lembro do que era, hoje estava a ler os Cadernos da Casa Morta numa tasca, ao almoço, quando uma mulher se chega por trás de mim (ouvi saltos) e me pousa a mão no ombro e se inclina e diz "olá" num sopro perfumado, pronta para me dar um beijo. Levanto os olhos do Dosto e vejo umas pernas em meias escuras, uma mini-saia crepe, um casaco de peles tigresse e por fim uma morena com trinta e poucos que não consegui reconhecer. Quando me viu ficou atrapalhada e desdobrou-se em desculpas. Confundiu-me com o tipo que observava a cena a rir-se de uma mesa mais adiante e que a chamou. Também percebi que parte da surpresa teve origem no pensamento reflexo que o amigo passara de sapo para príncipe num passe de mágica. Até lhe notei alguma desilusão quando viu o amigo na mesa e foi ter com ele, às arrecuas, a pedir desculpa. Eu fiquei impassível. Estou estou sempre à espera que isto me aconteça quando leio livros de qualidade em locais públicos e só me surpreende o facto de não acontecer mais vezes. Ouvi comentários jocosos de outras mesas e às tantas todos comentavam o casaco parecido com o meu (e não igual como comentou o empregado, o meu é da Pepe Jeans e o do tipo era todo roskoff, como diria Dosotiévski). Voltei a ler os Cadernos da Casa Morta, tentando recuperar a solenidade e a concentração e mergulhar de novo na prisão siberiana e no dia a dia dos reclusos, uma coisa que me diz muito pois trabalhei alguns anos num instituto público. Já me lembrei. Aquilo de que queria falar, já me lembrei. Tinha a ver com um post do Alf. Já não metia aqui um link para um post do Alf há algum tempo. Ele até já desistiu de linkar o meu quando diz "Tolan" num post, às tantas os senhores do google ainda iam desconfiar que isto é uma tramóia qualquer de spam de links cruzados para subir nos rankings dos motores de busca.
Era para dizer que sou licenciado em Matemática (aplicada à Economia e Gestão, mas essa parte é menos fixe e às vezes omito-a) e para dizer coisas sobre isso. Como tenho muitas coisas a dizer sobre isso, saliento apenas algumas para não maçar os outros. Os melhores alunos eram rapazes, em geral, mas os piores também costumavam ser rapazes e os mais preguiçosos de todos, o grupo em que me incluo, eram sempre rapazes. Fiz o curso com muito sofrimento. Nunca me esquecerei das primeiras aulas em que no quadro desfilavam demonstrações intermináveis e incompreensíveis que se assemelhavam a coisas que eu só vira em pesadelos antes. Então, com a excepção de uma pequena minoria de gajos que tinham caído no caldeirão de Descartes em pequenos, o curso para pessoas como eu e a maioria dos alunos transformava-se em algo um bocadinho pantomineiro. Como explicar isto... imaginem que estão num bar no Japão e não sabem falar japonês, mas ouvem um tipo da mesa do lado a dizer ao empregado "nama biru futatsu" e a seguir pousam-lhe uma cerveja gelada em frente. Então vocês dizem ao empregado "ó chefe, nama biru futatsu se faxavor" e o emprego pousa uma cerveja gelada à vossa frente. Parabéns, aprenderam a pedir cerveja no Japão. Assim se tira um curso de matemática.
O problema acontece quando, num exame de análise matemática IV, é preciso pedir uma caneca de 500cl de cerveja preta sem álcool. Mas se isso não valer mais de 10 valores, um tipo sobrevive. Há muitas coisas divertidas e fascinantes, mesmo assim. Lembro-me de ficar extremamente perturbado com a impossibilidade de programar um verdadeiro e genuíno gerador de números aleatórios, de como tudo isso era falso, tudo uma ilusão, na origem, sempre um conjunto de condições lógicas determinadas e traduzíveis em binário e linguagem máquina e que apenas nos pareciam aleatórias devido à complexidade da multiplicidade de combinações possíveis... Se há coisa que se aprende ali, é a subjugação constante do ego a uma avaliação lógica objectiva e implacável. É uma coisa que me impressiona em muitos licenciados em letras, acham que o mundo é misteriosamente injusto ou mal feito, a começar pela matemática. Dá-me a sensação que os alunos de letras com QI acima da média sofrem horrores nas faculdades de letras e humanidades onde se sentem mais deslocados que um Dostoiévski numa prisão siberiana. No outro dia li todo um artigo no DN, redigido por um jornalista licenciado, sobre condenados alcoólicos americanos que queriam processar fabricantes de "licor" por não avisarem que o licor que adquiriam nas "lojas de licor" era viciante. Muita ginginha se deve beber nos EUA. Ora bem, se um um matemático fizer um erro destes, uma ponte cai ou um avião despenha-se ou um banco vai à falência ou uma central nuclear entra em meltdown... Se um matemático cometer a imprudência de dividir por zero, pode criar uma singularidade do espaço-tempo capaz de engolir 30% da nossa galáxia. São coisas sérias. E é por isso que existem programas de televisão em que escritores e poetas conversam uns com os outros e assumem, por entre lol's, que não percebem nada de matemática sem que isso belisque o seu estatuto de pessoas inteligentes, sensíveis e até sábias. Muito pouca gente parece ter vergonha em admitir que não percebe nada de matemática e até, que a odeia, e no entanto, de literatura, poesia, violinos de Chopin e livros do Thomas Moore Mann, bons entendedores é que não faltam.
#21
Gosto muito da minha bicicleta. Gosto muito de descer a Almirante Reis ou a Fontes Pereira de Melo destravado, com as minhas luvinhas para não ter frio nas patas e o meu blusão amarelo fluorescente impermeável nos dias de chuva. Gosto do meu capacete de ciclista. Gosto de parar num semáforo com o pé no pedal, pronto a disparar no verde. Gosto de cronometrar o tempo que demoro a ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa e comparar com o metro e ver que a diferença vai em mais de 5 minutos, favorável à bicicleta. Registo as mudanças em que vou nas subidas, um dia é uma 3ª, no outro a 4ª e agora já vou em 5ª. Gosto de ir a abrir no Chiado, a pedalar muito rápido e a assustar as bichas e os hipsters que ficam horrorizados pelo clarão amarelo fluorescente e outro tipo de equipamento ergonómico e funcional que uso em total sintonia com a minha bicicleta alemã enquanto que eles andam em pasteleiras retro que pesam 10 toneladas envoltos em cachecóis à intelectual com o cestinho das compras à frente. Dá gosto ver o amortecedor alemão da minha roda da frente a trabalhar absorvendo as pancadas da calçada. É divertido mudar de faixa em ruas com carris do eléctrico, temos de saltar com as duas rodas no ar para que não se enfiem nos carris, aprendi o truque depois do pequeno acidente em Alcântara e dá imenso estilo. Gosto passar os semáforos vermelhos depois de olhar com muita atenção, hábito que adquiri depois de outro pequeno acidente. Quando não tenho espaço para passar entre os carros, gosto de saltar para cima do passeio por entre as pessoas que se desviam quando faço trring trring e voltar à estrada toda desimpedida depois do semáforo ou do engarrafamento. Gosto de assustar velhinhas nas passadeiras ao fazer-lhes razias que lhes deixam os saquinhos de compras e as saias a balançar e a cabeça a abanar de um lado para o outro em censura. Gosto de voar em frente às paragens de autocarro e eléctrico onde as pessoas desesperam à espera e fazer woooosh com a deslocação do ar. Se não vou suficientemente rápido faço woooosh com a boca, discretamente. O grande clarão amarelo fluorescente de Lisboa sou eu. O Lightning Bolt. O Yellow Thunder. O Fluorescent Kamikaze.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
também faço poesia
tu nunca tens nada
tudo é passageiro e fugaz
a vida escorre-te por entre os dedos
como a água da nascente
resta-te ser a estrada
do que passar por ti
como o esquilo do bosque
espalmado no asfalto
pelo pneu do camião
do amor
(é só meter muitos parágrafos!)
tudo é passageiro e fugaz
a vida escorre-te por entre os dedos
como a água da nascente
resta-te ser a estrada
do que passar por ti
como o esquilo do bosque
espalmado no asfalto
pelo pneu do camião
do amor
(é só meter muitos parágrafos!)
identificação
Tenho uma identificação forte com grande parte da boa literatura americana. Como me diz um amigo, um bocadinho em provocação tendo em conta a minha admiração por Bukowskis e Fantes, parecem livros escritos por pessoas que não leram livros. Eu próprio já disse que muitos estão para a literatura como os punks para música: têm muita vontade de fazer coisas mas não têm a técnica, então coisas divertidas acontecem. Claro que isto é um exagero, Bukowski leu muita coisa que pôs de lado com nojo, incluindo Tolstóis, Prousts e Joyces, mas o certo é que escreve dando a sensação que não leu outra coisa que não pulp fiction de aeroporto e poesia de porta de casa de banho. O Cormac McCarthy no Suttree está numa classe aparte, existe uma qualidade literária na prosa que o coloca noutro nível, mas mesmo assim pertence à família do romance americano de que eu gosto e com o qual me identifico. Já agora deixo aqui o link para a apreciação do Suttree pelo Henrique Fialho. E no meio disto, acabei por apagar um post gigantesco com considerações diversas sobre literatura portuguesa, um post que andava para a frente e para trás há dias, a ramificar-se em contradições e paradoxos, generalizações abusivas e infundadas. Apercebi-me que foi bom escrevê-lo, mas mais como conjunto de notas e de interiorização de manifestos pessoais que só importa materializar pela criação da ideia, uma vez que é completamente espúrio o esforço de martelar cabeças indo directo ao assunto, como se explicar a diferença entre uma boa piada e uma má piada melhorasse o sentido de humor de alguém. Estas hesitações começaram a afligir-me há coisa de dois, três anos. Tenho opiniões categóricas e devidamente infundadas sobre muitas coisas mas é como se tivesse o pressentimento que o ideal é estar calado, até um dia. Até lá, estou sempre disponível, magnânimo e assertivo, para debater e discutir à volta de umas cervejas, com um punhado de amigos. Uma última nota, ainda bem que li o Suttre na excelente tradução do Paulo Faria. Decidi há tempos deixar de ler tantos originais em inglês. Já sei que sei ler originais em inglês, boa para mim. Mas assim, pelo menos, leio livros em português, o que é importante. E não, não vou falar de literatura portuguesa.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
boneco todo torto e Cormac McCarthy
Uma criança apresenta ao pai um boneco todo torto que o representa e o pai gostará muito do desenho, se for preciso considerará geniais as desproporções entre pés, cabeça e mãos e a aparente aleatoriedade cromática... mas depois é capaz de lhe dar um livro com umas noções de desenho e pintura, a ver se desenvolve o talento. Sou assim com o Autor, quando ele tenta escrever coisas. Amor, perdão, mas também alguma pedagogia cuidadosa à mistura. Mostro-lhe coisas como o Suttree do Cormac McCarthy, como se fossem entretenimento e sei que ele inevitavelmente tomará as devidas notas para futura referência. A verdadeira coragem é ter consciência plena dos perigos, das tragédias e dos erros e mesmo assim avançar. Em cada beijo há uma solidão, em cada manhã solarenga, a morte à espreita e em cada gargalhada, o choro. E isso não o deve impedir de beijar, acordar e rir. Ainda ontem o Autor teve um ataque existencialista em pleno Aki, equanto escolhia pistolas de cola e serrotes de metal. Antes davam-lhe esses ataques nas discotecas às 5 da manhã, agora é no colombo ao fim de semana. Quem sou eu? O que estou a fazer? Já agora, as editoras recebem dezenas de drafts por semana. Não fazia ideia que Portugal tivesse tantos aspirantes a escritor, seres invisíveis que não perdem tempo com blogues e a partilhar as angustias, vão logo direitinhos ao assunto que interessa. É sempre chato ser rejeitado. O Autor descobriu isso quando foi chamado para um processo de selecção para uma multinacional. Só foi lá pela curiosidade, mas depois meteram-lhe jogos à frente, perguntas, testes... e começou a entusiasmar-se com a brincadeira. Não queria o raio do emprego, até pagavam mal, mas queria ganhar o processo de selecção porque sim. Éramos uma dúzia e ficámos para o fim, mais uma gaja, mas depois ligaram-nos a dizer que a escolheram a ela e ficámos aborrecidos.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
a ditadura dos clichés de clichés de clichés
Soube pelo amigo Manuel Domingos (que, já agora, tem um novo projecto editorial, a Medula, vão lá e façam like) que o Vini Reilly dos Durutti Column estava a passar fome na penúria mais completa e o sobrinho dele lançou o alarme nas redes sociais, nem foi o próprio, a pedir ajuda. Faz-se scroll down e sabemos que a resposta ao pedido de ajuda foi tão entusiástica que o sobrinho pouco tempo depois disse que não eram preciso mais donativos, o que também é em si muito curioso. Para uns, a bondade salva cada vez menos, para outros, como o Henrique Raposo (não há link, foi no Expresso) a Internet impõe uma cada vez maior ditadura do politicamente correcto, enfim, a Internet, raios, a Internet, meu Deus, até falou nas petições on-line por tudo e por nada, essas terríveis petições que mandam abaixo governos e mudam leis todos os dias, qualquer dia não se pode fumar em lado nenhum à força de tanta petição. Adiante.
Aos meus amigos, bom fim de semana.
Aos meus amigos, bom fim de semana.
paciência
Enviei o meu romance a meia dúzia de editoras hoje ao fim da tarde e ainda não me responderam a dizer que me querem editar. Já é quase uma e meia da manhã. Produtividade portuguesa.... a mais baixa da UE... isto não me surpreende. Acho que me vou deitar, parece-me que hoje não vou ter respostas. Tenho de estar atento ao caixote do lixo. Recebo muitos e-mails de editoras a quererem publicar-me e às tantas começam a ir parar ao folder do spam... Já deixei aqui uma nota para verificar isso amanhã de manhã, depois do despertador tocar às 5:00, a hora a que costumo acordar todos os dias. Em todo o caso, até recebo os e-mails no telemóvel uns segundos antes de chegarem à caixa do gmail na internet (fiz o teste agora, a diferença é de quase 2 segundos) por isso acho que o alarme de e-mail com a Dança das Valquírias do Wagner que eu configurei agora no blackberry me vai acordar caso haja algum editor a precisar de uma resposta positiva a meio da noite.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
não há problema Palmier
Vou-te só tirar o link do meu blogue, mas sem ressentimentos nenhuns. Já tinha decidido. Fiz uma lista aqui há tempos daqueles blogues que ia tirar da minha lista de blogues e... só estava lá mesmo o teu, por coincidência. A Plaft no nosso primeiro encontro também se virou para mim e disse "o
Peixoto tem um belo poema sobre o amor" e eu não tive qualquer
preconceito por causa disso depois de ir ao WC do bar, lavar a cara,
respirar fundo e tomar dois roofies. O que tu fizeste, comprar um livro do José Luís Peixoto, fez-me a minha mãe este Natal e ainda por cima com uma justificação atabalhoada e envergonhada de "tu está sempre a dizer mal delle, tive curiosidada de lire um livre delle para ver se era une merde assim tão grande". Mas a minha mãe, que tem quase 70 anos, disse-me que era chato e pretensioso. Não me disse aquilo apenas porque eu cozinhei espuma de couve flor com caviar, salmão em crosta de sésamo e saladinha de ovas na passagem de ano. Sei que é verdade porque dois minutos depois de se deitar com o referido livro no quarto do andar de cima ouvi-a ressonar copiosamente com a luz acesa. Nunca a vi fazer aquilo. Podem dizer-me "foi do vinho branco, do tinto e/ou do champanhe". Pois podem.
os meus problemas com os impostos, explicados
Já temos título (não é Balbúrdia no Oeste embora... bom, vamos pensar), revisão, críticas do tipo "liked it" ou "it was ok" como convém num primeiro romance e um tipo não ficar convencido que é alguma coisa de liked it alot ou amazing e contactos, tudo segue o plano, em 2013 temos livro nem que o Autor pague a edição secretamente a si próprio. Raios, ele quer poder escrever "escritor" nas biografias resumo para as revistas e jornais em vez de consultor ou outra coisa do género chato. Faz toda a diferença. Talvez com "escritor" na caixinha o convidem finalmente para escrever uma crónica paga algures. Se lhe pagassem e dessem um limite de caracteres, eu escrevia as melhores crónicas desde o primeiro volume de crónicas do Lobo Antunes e sobre o que o jornal quisesse, menos política. Adorava escrever para uma revista feminina, isso é que era. Palavra de honra, era bestial, punha as leitoras doidas a comprar revistas como se não houvesse amanhã, com uma voz que eu cá sei. Só que não precisam de ninguém, as revistas femininas, já vendem imenso. As masculinas, essas, estão condenadas ao fracasso enquanto não vierem com uma página dupla com a Soraia Chaves nua, mas mesmo nua, não é naqueles planos de perfil com elas em cima da cama, a ver-se uma nádega e depois a imaginação que faça o resto. Um homem paga é para não ter de usar a mesma dose de imaginação que utiliza no dia a dia. O Autor não se importava de ter uns caracteres bem aconchegados numa revista assim Mas tudo bem, continuem com as vossas Ritas Pereiras em catálogos de lingerie da La Redoute que vão longe. Posto isto, avançamos no segundo romance com muito ânimo e uma saudável sensação de que merda é esta. Depois o que se faz é recorrer a pensamento lateral para resolver os problemas, nomeadamente, um título que se pode acrescentar no fim do mesmo e dar a ilusão de que tudo foi planeado de início, como este post. Dou um exemplo assim de repente que é para vocês verem, imaginem isto em tempo real: na minha mesa neste momento tenho um telefone, um telemóvel e uma caneta pousada em cima de uma carta das finanças. O telemóvel acabou de se virar o para o telefone e disse-lhe ele já não precisa de ti, o que é que estás aqui a fazer na mesa? Desaparece, és completamente arcaico! e o telefone vai-te foder pá tu e as tuas modernices, é por causa de modas como os telemóveis que este país está como está e a caneta vá vá, não sejam assim, cada um tem a sua utilidade, também preconizaram o meu fim há séculos e ainda aqui estou e o telefone ai é? Qual é que foi a última vez que ele te utilizou? Já viste a letra dele? Já o viste a tentar usar-te? Parece que tem paralisia cerebral quando pega em ti. Ele perde as canetas todas e vai-te perder a ti também, está-se nas tintas para ti caneta, foste um brinde num congresso de marketing, vinhas num saco com panfletos que foram directos para a reciclagem, só serves para ele te enfiar no cú do telemóvel para lhe fazer o reset quando ele está a atrofiar todo. A caneta ficou muito irritada e desatou a riscar a carta das finanças toda, de cima abaixo e a gritar não sirvo para nada é? Olha para mim a riscar isto tudo! Olha! e o telemóvel vê o que fizeste, puseste a caneta toda irritada, telefone, tu só serves para chamadas locais e o telefone arrebitou o auscultador e devolveu e tu és 96 ó palhaço, 96, experimenta fazer uma chamada para um 91 ou um 93 e fazemos as contas. E nisto, mais uma carta das finanças ilegível, completamente ilegível, completamente riscada, não sei como isto aconteceu, mais vale atirá-la para o caixote do lixo.
assim também consigo ser crítico
Não confiem muito nos meus ratings no Good Reads, apercebi-me que dou classificações diferentes ao mesmo livro conforme a edição e o estado de espírito, mas é só por 1 estrela de diferença. Gosto muito da escala do Good Reads porque é assim:
1- didn't like it
2 - it was ok
3 - liked it
4 - liked it alot
5- it was amazing
É bestial. Em vez de ser uma escala de qualidade objectiva (sempre subjectiva, evidentemente) e de um gajo se esforçar por ser justo e pensar nas coisas, só temos de pensar em que medida o livro nos agradou. Uma estrela é a única classificação verdadeiramente negativa. Assim, tenho qualquer problema em correr o Ulysses, o Under The Volcano, o A La Recherche do Temps Perdu ou o Trópico de Cancer a uma estrela. Não gostei deles, nem os acabei. Não interessa o grau, se é 1 ou 2 estrelas. Por outro lado, certos livros que gostei muito não me causaram a sensação de It Was Amazing. Muitas vezes nem sequer são os melhores livros a provocar-me essas sensações. Aliás, nem sequer costumam ser livros a arrancar-me os it was amazing e a Plaft sabe o que quero dizer com isto. Consigo avaliar seja o que for com aquela escala. Depois hei de limpar a minha base de dados, retirando os duplicados. Não posso é fazer nada quanto às oscilações de classificações, especialmente entre o 4 e o 5. É assim, um tipo acorda e naquele dia parece-lhe que o Post Office do Bukowski foi amazing, no outro dia acha que só likou dele alot porque comparando com o Ham On Rye é nitidamente inferior e a escala deveria reflectir essa diferença. E depois corro tudo a foram amazings quando estou chateado com os intelectuais anglófilos. Não sei como é a escala dos críticos, os profissionais que dão classificações. Conheço um que trabalha para essas coisas e o sistema dele é tão complicado que não percebi nada do que ele me explicou. Mas a julgar pelas classificações que vejo, os críticos portugueses são pessoas felizes, gostam sempre muito do que lêem ou ficam maravilhados com o quão amazing a experiência foi.
1- didn't like it
2 - it was ok
3 - liked it
4 - liked it alot
5- it was amazing
É bestial. Em vez de ser uma escala de qualidade objectiva (sempre subjectiva, evidentemente) e de um gajo se esforçar por ser justo e pensar nas coisas, só temos de pensar em que medida o livro nos agradou. Uma estrela é a única classificação verdadeiramente negativa. Assim, tenho qualquer problema em correr o Ulysses, o Under The Volcano, o A La Recherche do Temps Perdu ou o Trópico de Cancer a uma estrela. Não gostei deles, nem os acabei. Não interessa o grau, se é 1 ou 2 estrelas. Por outro lado, certos livros que gostei muito não me causaram a sensação de It Was Amazing. Muitas vezes nem sequer são os melhores livros a provocar-me essas sensações. Aliás, nem sequer costumam ser livros a arrancar-me os it was amazing e a Plaft sabe o que quero dizer com isto. Consigo avaliar seja o que for com aquela escala. Depois hei de limpar a minha base de dados, retirando os duplicados. Não posso é fazer nada quanto às oscilações de classificações, especialmente entre o 4 e o 5. É assim, um tipo acorda e naquele dia parece-lhe que o Post Office do Bukowski foi amazing, no outro dia acha que só likou dele alot porque comparando com o Ham On Rye é nitidamente inferior e a escala deveria reflectir essa diferença. E depois corro tudo a foram amazings quando estou chateado com os intelectuais anglófilos. Não sei como é a escala dos críticos, os profissionais que dão classificações. Conheço um que trabalha para essas coisas e o sistema dele é tão complicado que não percebi nada do que ele me explicou. Mas a julgar pelas classificações que vejo, os críticos portugueses são pessoas felizes, gostam sempre muito do que lêem ou ficam maravilhados com o quão amazing a experiência foi.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
o urso
Quando era puto achava o meu pai um solitário extremo. Os pais dos outros iam para caçadas ou pescarias em grupo e o meu pai, que também as fazia assim no início, com direito a patuscadas, começou a ser mais solitário. Via-o fazer os preparativos da pesca submarina e da caça e partir sozinho como um urso esquivo, acompanhado por um cão de companhia histérico por poder mandar a civilização às urtigas. Uma vez, quando eu o repreendi por ser tão anti-social e ainda por cima misógino e lhe tentei fazer ver como era bom eu ter a minha imensa família de amigos em Lisboa (naquela fase da vida universitária em que precisamos dos amigos como de pão para a boca e achamos que é assim para toda a vida) disse-me que era uma fraqueza precisar de amigos e mulheres dessa maneira. Exagerava um bocadinho, como sempre, mas passado uns anos dei comigo a percorrer as mesmas pegadas no deserto no momento em que talvez mais precisasse de pessoas, embora com as minhas variantes de jovem moderno do século XXI, com o distanciamento lúcido e inevitavelmente narcisista que caracteriza quem se observa a si próprio constantemente pela escrita. Até já pensei em comprar a merda de uma cana de pesca para aproveitar os dias sem ondas de jeito, tamanha é a força dos genes que me leva a ficar especado em frente às montras de equipamento de pesca das lojas do Cais do Sodré. O verdadeiro urso não comunica com o exterior, desaparece e aparece. Por vezes, nos momentos de ursidão, deslizamos para um estado de delírio em que os pensamentos se calam porque fazem demasiado ruído na catedral da cabeça. De vez em quando fazemos uma paragem num ancoradouro qualquer da civilização, pequenos rituais práticos como cozinhar uma refeição ou quando um empregado de restaurante nos interpela a perguntar se queremos mais uma cerveja. É em momentos de ursidão que a memória dele me surge mais nítida e que me sinto mais perto do sítio para onde ele foi. A campa dele é no mar, na vinha onde correm perdizes, no suspiro de um cão velhote a ressonar ao pé da lareira e a tremelicar das patas enquanto recorda em sonhos as caçadas com o dono que nunca mais chegou a casa e que se chegasse teria exactamente a mesma festa que se se tivesse ausentado umas horas, na bandeira vermelha que desafiávamos como se fossemos touros a responder a uma provocação marinha, no som do machado a cortar lenha num tronco, no cheiro a diesel da moto-serra que veio depois do pequeno acidente com o machado, na terra molhada, na chama de um velho candeeiro de petróleo... Soube depois, por uma vizinha que brincara com ele em criança, que o meu avô, que nunca conheci, o espancava impiedosamente quando era miúdo. Nunca falava no passado, também isso era um sinal de fraqueza. Eu posso certamente queixar-me de algumas coisas, aquele tipo de porrada psicológica do tipo "moderno" digamos assim, necessária para moldar personalidades ao fim e ao cabo, mas nada de especial, porque no lado prático, na realidade, cresci com uma espécie de chão sólido, paredes espessas e tecto protector que estaria sempre lá. Parece que o estou a ver a olear a Beretta automática, toda desmontada, e depois a alinhar a mira e a dizer-me que se me fizessem mal, ele matava o gajo logo, ia atrás dele e matava o gajo, quais tribunais e advogados, isso é para os fracos... É fixe ouvir isso de um pai, digo-vos já. Tenho de conversar com a Plaft mais um bocado sobre estas coisas. Pode ser pouco pedagógico, concedo, mas para um puto de 7 ou 8 anos, é muito fixe.
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