O "sucesso invertido" dos Miúda com o Eu jogo ténis lembra-me um pouco um mix entre o Nyan Cat e um gps com voz portuguesa. Não sei se isso é necessariamente mau, sinceramente, estou a tentar decidir ainda. A linguagem pop deve permitir todo o absurdo. Nem todos, como muito bem diz a Plaft - que rapidamente gravou o seu próprio cover da música do Jogo Ténis no seu iphone e no caso dela, come feijoada e a feijoada tem feijão, arroz e feijão - podem ser o Rui Reininho e safar-se com o non-sense e gostar das pulgas dos cães. Somos levados a crer que nos Miúda não existe a auto-consciência de um Jarvis Cocker que nunca said he was deep but he is profoundly shallow.
Confesso que com o tempo deixei de conseguir ouvir blues, nick cave, radiohead, tom waits, jeff buckley e toda uma série de música alternativa de que gostava. Não a considero má, longe disso, mas não a consigo ouvir, não sei porquê. Oiço coisas muito alternativas, mais alternativas do que as que um taxista experiente num dia de chuva em Lisboa consegue debitar antes de começar a corrida.
Sem contar com o filho autista da minha empregada, nunca consegui partilhar com ninguém o meu interesse por coisas como Konigsforst #5 de Gas.
Mas também comecei a ouvir coisas coisas como Skrillex ou Black Eyed Peas e oiço mais a rádio cidade que a radar. Das duas uma, ou estou a sair do armário, ou então a maturidade musical em mim significa a insensibilidade a certas emoções que antes pedia emprestadas à música. Ai tu bebes e gostas de bares decadentes, Tom Waits? Grande coisa, tenho 3 ressacas por semana pelo menos e vou trabalhar num escritório. Com Powerpoint e Excel. Tens dúvidas existenciais, Tom Yorke? Resolve lá isso por ti, eu tenho um mês para entregar os relatórios a uma big corporation daquelas com departamentos de marketing agressivos e há um problema nos prazos de pagamento porque um fornecedor quer o dinheiro já mas nós só lhes podemos pagar depois do cliente nos pagar a nós o que sucede lá para outubro e até lá são capazes de nos responsabilizar por 4% de juro mensal num montante de 180 mil euros para pagar aos fornecedores deles e a culpa foi minha por isso cala-te com a grande crise que é acordar a chupar um limão (wtf?!), toma um xanax que isso passa.
Gosto muito deste carro.
É tudo relativo. Há coisas impreterivelmente más, como a versão que o Miguel Ângelo dos Delfins fez da música do Morrissey intitulada "Ontem sonhei que alguém me amava" link aqui - CUIDADO, NÃO RECOMENDADO A PESSOAS SENSÍVEIS OU FACILMENTE IMPRESSIONÁVEIS. Mas mesmo as coisas más, têm a sua utilidade. Para além de relativizarem a maldade de coisas um pouco menos más, podem servir diversos propósitos. A música Ontei Sonhei que Alguém me Amava, segundo um relatório da CIA exposto pela wikileaks, é utilizada em Guantanamo para legalizar as simulações de afogamento (wakeboarding) e melhorar a eficácia da tortura. Os guardas e agentes da CIA têm tampões nos ouvidos e metem a Ontem Sonhei Que Alguém Me Amava a tocar. Quando a cabeça do suspeito é submergida à força, ele fica sem ar e pensa que se vai afogar, o que é incorrecto do ponto de vista de direitos humanos. Em compensação, o suspeito deixa de conseguir ouvir a Ontem Sonhei Que Alguém Me Amava de forma tão nítida (só se ouve o baixo e o bombo) o que significa que lhe estão a prestar um favor humanitário. Quando o puxam de volta à superfície ele pode respirar (outro favor humanitário) mas em compensação pode ouvir melhor a música Ontem Sonhei Que Alguém Me Amava, ficando assim numa situação legal do tipo "gato com uma torrada com manteiga presa às costas que fica suspenso no ar porque os gatos caem sempre em pé e as torradas caem sempre com o lado com manteiga para baixo", enfim, não sei ao certo o termo jurídico exacto.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
terça-feira, 31 de julho de 2012
tensão e clímax
Gosto muito dos romances do século XIX em que a corte era assumida desde início. Não havia conversa ente uma Natacha e um Romanovitch sobre a música de Schubert e o direito de Napoleão a ser Imperador que não fosse enquadrada no contexto de se estar a preparar uma proposta de casamento. Há quem diga que isso tira parte do encanto da coisa, ser tão explícito e formal. Eu gosto de histórias assim, tem de haver tensão e um clímax. Não uma sucessão de etapas previsíveis. Hoje em dia é preciso acender a própria fogueira em que nos vamos imolar, ninguém faz isso por nós.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos
Acabei de assistir à cerimónia oficial de início dos jogos olímpicos de Londres, realizada por Danny Boyle. A Plaft está sentada no chão, num canto da sala, apática, a abraçar os joelhos flectidos contra o peito, balançando-se numa mímica autista. Tentei falar com ela para confirmar a minha impressão, mas foi como se não me conseguisse ouvir… os olhos permaneceram fixos num ponto invisível para lá de mim, do mundo. Estou também um pouco confuso e em choque e talvez fosse bom dormir umas horas, apanhar ar, ver o Tejo, antes de escrever. Gosto de ver o Tejo. Relaxa-me. Gosto do sorriso das crianças, dos velhinhos a jogar dominó no jardim, os cafés, o bulício da normalidade conforta-me. Mas por outro lado, pensei que escrevendo agora, conseguia captar com mais intensidade a avalanche de sentimentos ambíguos que me preenche a alma. Tentei evocar outros momentos da minha vida em que me senti assim, para colocar as coisas em perspectiva. Lembro-me de uma matança do porco a que assisti por engano aos 8 anos (“tás a anhar ó quê? Tamos a atá-lo qu’ele muita traquinas, é só na brincadeira” disseram-me eles). Lembro-me também de ver o segundo avião a chocar com o wtc em directo. Recordo-me de uma crónica da Laurinda Alves na Xis, sobre ser boa pessoa. Sim, creio que na vida tive muitos momentos em que aquilo a que assistia era mais do que conseguia processar. Eu tinha dito à Plaft que a cerimónia dos jogos olímpicos de Pequim tinha sido estrondosa e que esta, apesar do orçamento menor e dos vestidos da rainha de Inglaterra, podia ser engraçada. Ela nunca tinha assistido a nenhuma. Olhando para ela agora (continua no canto da sala), penso que terá sido a última cerimónia que vai ver na vida. Talvez… talvez a última coisa que tenha visto na vida.
Vou abster-me de comentar todos os segmentos em concreto, os detalhes, porque ainda é demasiado cedo para me recordar de tudo com nitidez e posso precisar de hipnose regressiva. Lembro-me da rainha de inglaterra e de dois cães e do Beckham num barco no Thames. E de ver o Mike Oldfield a tocar vários instrumentos. E da JK Rowling a ler uma coisa com uns monstros e de aparecer a Mary Poppins. Muitos aleijados também, como num video promocional do pirilampo mágico.
Por vezes, quando é tarde e estou no youtube entorpecido por falta de sono, stress, café e álcool, chego àquela parte… da internet… do youtube... Vocês sabem a que me refiro… clicamos naquele video do fail do programa de metereologia em que a gravata do tipo tem a mesma cor do fundo de croma e fica invisível e depois clicamos no outro do anúncio dos anos 40 a elogiar os benefícios do tabaco e depois no outro com os acidentes mais aparatosos do rally da corsega e depois no outro com o genérico do bay watch e depois outro com o nipple slip da Mariah Carrey nos grammys e passado um bocado estamos a ver um documentário chileno sobre chá verde e três horas depois, a meio de um vídeo de um concurso japonês em que uma apresentadora com orelhas de coelhinha inflige pancadas fortes com um taco de cricket nos genitais dos concorrentes masculinos, sentimos a consciência suficientemente aniquilada para dormir? E dormimos como mortos?
Boa noite, Danny Boyle.
Por vezes, quando é tarde e estou no youtube entorpecido por falta de sono, stress, café e álcool, chego àquela parte… da internet… do youtube... Vocês sabem a que me refiro… clicamos naquele video do fail do programa de metereologia em que a gravata do tipo tem a mesma cor do fundo de croma e fica invisível e depois clicamos no outro do anúncio dos anos 40 a elogiar os benefícios do tabaco e depois no outro com os acidentes mais aparatosos do rally da corsega e depois no outro com o genérico do bay watch e depois outro com o nipple slip da Mariah Carrey nos grammys e passado um bocado estamos a ver um documentário chileno sobre chá verde e três horas depois, a meio de um vídeo de um concurso japonês em que uma apresentadora com orelhas de coelhinha inflige pancadas fortes com um taco de cricket nos genitais dos concorrentes masculinos, sentimos a consciência suficientemente aniquilada para dormir? E dormimos como mortos?
Boa noite, Danny Boyle.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
banda sonora para o verão 2012
video não-oficial para a faixa "Follow" dos DIIV (pronuncia-se Dive) do lp de estreia "Oshin"(2012)
Pela foto dá para ver que os os Diiv são putos extremamente hipsters, mas vendo as coisas pelo lado positivo, as camisolas XXL de lã que a minha avó me tricotava e que eram depois alargadas para XXXXL pelo meu cão, voltaram a estar in... yes...
Pela foto dá para ver que os os Diiv são putos extremamente hipsters, mas vendo as coisas pelo lado positivo, as camisolas XXL de lã que a minha avó me tricotava e que eram depois alargadas para XXXXL pelo meu cão, voltaram a estar in... yes...
quarta-feira, 25 de julho de 2012
common people
O Jarvis Cocker, numa entrevista muito fixe com o Steve Merchant que eu pus ali no meu facebook, diz que depois de cair de uma janela para impressionar uma miúda (todos fizemos algo parecido) e de ficar dois meses no hospital a recuperar numa cadeira de rodas reflectindo no sentido da vida, percebeu que os temas para a sua música estavam mesmo ali debaixo do nariz, na vida das "common people" dos subúrbios.
E agora, para as pessoas de esquerda que lêem este blogue, se clicarem aqui habilitam-se a ganhar um iPad igual ao das pessoas de direita.
E agora, para as pessoas de esquerda que lêem este blogue, se clicarem aqui habilitam-se a ganhar um iPad igual ao das pessoas de direita.
meu querido mês de Agosto
Os meus verões tendem a ser iguais de há uns anos para cá. Os escritórios esvaziam de tudo o que tem crias e responsabilidades familiares enquanto eu fico até Setembro pelo menos. Agosto é sagrado. Dizer a um português para não ir para o
Algarve em Agosto deve ser o mesmo que dizer a um pinguim da antárctica para não marchar. As visitas no blogue caem a pique e fica apenas um resíduo de utilizadores de iPhone e iPad e outros que não tenham responsabilidades familiares. Não desgosto da situação. Durante este período Lisboa fica deserta, o trânsito é rarefeito embora enervante devido às pessoas que conduzem em modo "férias": braço de fora, carro cheio de tralha e/ou crianças, 30 à hora, apatia perante um semáforo verde aberto etc. Também é aborrecido quando todos os cafés e restaurantes de um determinado raio geográfico da cidade fecham todos ao mesmo tempo. Gosto da experiência de testar o que será Lisboa no início de 2014 quando sairmos do euro. Infelizmente este ano as coisas tenderão a ser mais complicadas para o meu lado, a nível de trabalho, pois é o fim de um projecto meu muito importante para uma multinacional localizada numa grande cidade do hemisfério sul que está em pleno período de trabalho, muito activa, e que nos últimos meses me tem enviado pelo menos um e-mail por dia com pedidos que vão desde o "é absolutamente necessário reduzir o prazo da etapa 4 de 15 dias para 2" ao "enviem-nos isso de novo mas agora queremos isso em azul, de trás para a frente e em mandarim". Quando for lá, logo nos primeiros dias de setembro, vou ter três apresentações para três equipas de marketing diferentes, hostis e encarniçadas, daquelas que levam o mundo do trabalho global a sério e não são de todo ursos feiticeiros. A minha motivação também é excelente. Entre layoffs, despedimentos, atraso nos salários e cortes de custos (já nem tenho café de borla) é extremamente provável que a empresa feche em breve. As chaves do carro alemão vão ser devolvidas no fim deste mês. Perguntaram-me se queria comprar o remanescente do leasing. Apesar de achar excelente a ideia de adquirir um reluzente bólide alemão para me reconfortar no desemprego, recusei. Se ficar livre vou ter tempo para mim, desde que resista às oportunidades de emprego e empreendedorismo que não faltam a quem tenha um mindset neoliberal. Mas não queria. Só preciso de um computador, uns tostões para comida e cerveja. Livros já eu tenho, pois acumulei um belo espólio de coisas que ainda não li. São os meus sonhos. Queria começar outra coisa e atirar para o lixo o passado, tirar estas roupas. Gostava de descer até um chão simples, mesmo que modesto e inóspito, e poder ser um urso feiticeiro real ou um pinguim concreto em vez de viver no surrealismo do mundo dos negócios.
terça-feira, 24 de julho de 2012
sou um urso feiticeiro
muahahahaahahh!
Às vezes tento sobreviver aos dias de trabalho stressante, criando um mundo alternativo de fantasia em que sou outra pessoa, neste caso, um urso feiticeiro que foi apanhado numa terrível maldição que o obriga a fingir que é um ser humano que é consultor e faz powerpoints. Então tem de representar o dia todo e observar como os outros agem e imitá-los, enquanto não descobre forma de quebrar o feitiço. É um jogo divertido, embora crie alguns problemas de relacionamento profissional visto que o urso feiticeiro não percebe nada do que faz, só percebe de mel (há muitos tipos de mel), frutos silvestres, florestas, tocas, salmão etc. Também percebe de feitiços mas são feitiços um bocado inúteis nesta situação porque não há aqui salmões vivos sequer. Enfim. Preciso de dormir também.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
«há muitos licenciados a esconder habilitações para arranjar trabalho» - Público
«...mais uma entre muitos recém-licenciados e mestres que têm de omitir habilitações e criar várias versões do curriculum vitae (CV), de forma a garantir que a chamem mais depressa para entrevistas de trabalho...»
«Já me aconteceu numa entrevista dizer que sou licenciada e, do outro lado, responderem-me: "Que pena... se tivesse só o 12.º ano ficava mais baratinha.»
«já foi preterida por ter mais formação do que as pessoas que seriam suas superiores hierárquicas ou colegas»
«já foi mesmo aconselhada por uma empresa de recursos humanos a reduzir o currículo. A mensagem que lhe passaram foi: "Tem de tirar coisas do seu CV".»
- Público
«Já me aconteceu numa entrevista dizer que sou licenciada e, do outro lado, responderem-me: "Que pena... se tivesse só o 12.º ano ficava mais baratinha.»
«já foi preterida por ter mais formação do que as pessoas que seriam suas superiores hierárquicas ou colegas»
«já foi mesmo aconselhada por uma empresa de recursos humanos a reduzir o currículo. A mensagem que lhe passaram foi: "Tem de tirar coisas do seu CV".»
- Público
quarta-feira, 18 de julho de 2012
lá por sermos geeks, não significa que não f**amos com regularidade
Volta e meia oiço a boca. A última vez foi quando abri no escritório, todo excitado, a caixa do Mansions of Madness (inspirado na obra de Lovecraft) e comentei para os curiosos à minha volta: - Vou fartar-me de jogar com a Plaft esta noite! Muaahah vou ser o keeper e mandar-lhe zombies e shoggoths para cima e levá-la à loucura com trauma cards!
É inevitável ouvir o comentário seguinte.
- Há coisas melhores para fazerem, não?
Não sei como é a vida dos outros casais que vivem juntos, mas pelos comentários que oiço, imagino que seja romance, sexo e vida social (ou tudo ao mesmo tempo) 365 dias por ano. Eu sei que levar a Plaft à loucura e ao suicídio pelo intermédio de cartas num jogo de terror é algo que muitos outros casais considerariam pouco romântico e até algo mórbido. Concedo.
Mas nenhuma destas actividades implica uma maior ou menor quantidade de sexy time do que qualquer outra actividade como ver tv ou ir ao shopping.
Aliás, já estamos a pensar em cenários para o Mansions Of Madness (dá para desenvolver os próprios cenários) que envolvam sexo real para criar uma envolvência maior. Deixo aqui o rascunho de um deles, chama-se "The House of The Lesbian Witches".
Este é o intrépido Aschan Pete e entra na mansão com a guitarra e o Bobby.
O Pete quer apenas um sítio para passar a noite e tocar umas do unplugged dos nirvana. Chega lá e dá com um bando de bruxas mal encaradas. Elas não querem nada com o Pete porque são lésbicas e mostram-lhe as mamas para gozarem com ele 'querias disto não é? toma toma, não é para ti muahahahah' e lançam-lhe trauma cards que dão impotência por um turno.
O Pete tem de as encontrar pela casa, com a ajuda do Bobby e de cada vez que encontra uma, deve fazer um teste de destreza e ir-lhe à cona (se estiver na mesma casa) ou, se estiver a uma casa de distância fazer um teste de pontaria e vir-se para as mamas delas. A lésbica fica curada e passa a fazer parte do exército do Pete.
De cada vez que uma bruxa é convertida em boazona, subsitui-se pelo boneco da Jenny Barnes que é especialista a fazer broches ao Pete para lhe restabelecer a energia e dar-lhe tesão para depois o ajudar a converter mais bruxas lésbicas.
É uma ideia bastante básica e ainda está em desenvolvimento, a Plaft discorda do número de jogadoras necessárias e de alguns elementos.
Em retaliação está a desenvolver um cenário em que o Pete entra na House of The José Luís Peixoto Readers.
São zombies gays e o Pete tem de fugir porque eles tentam enrabá-lo e dar-lhe damage tokens no cu. Podem também dar-lhe horror tokens se lerem poesia do José Luís Peixoto a pelo menos 3 casas de distância. Se a sanidade do Pete for reduzida à zero ele fica um zombie também.
O objectivo do Pete seria destruir o próprio José Luís Peixoto, aqui representado pelo boneco mais parecido com ele que eu encontrei.
terça-feira, 17 de julho de 2012
este é praí o meu 14º texto sobre TPM mas...
... a Plaft quando está em vésperas do período chora, do nada. Mas tipo, do nada. Está muito bem e começa a chorar. E eu pergunto-lhe 'o que foi baby? estiveste a ler Schopenhauer outra vez? viste aquele programa da manhã, o da TVI? É horrível não é? A voz da gaja...' e ela diz 'não é nada disso' e eu 'é o quê então?' e ela 'não é nada' e continuam a escorrer-lhe lágrimas tímidas e perfeitas nas faces sardentas de miúda. Fica mesmo sexy assim a chorar, os olhos verdes liquefeitos em esmeraldas fluídas. Eu gosto. Dá-lhe um ar de Bibi Andersen ou outra estrela de filme do Bergman, assim sueco, em que as mulheres choram com elegância. Porque ela é actriz e então as actrizes devem ser assim, nervos à flor da pele, uma alma inflamável como éter. Surpreende-me sempre quando de repente se assoa muito, porque não imaginaria que tal ser etéreo e intangível pudesse ter muco como os meros mortais. Também é um aviso de que devo ser o mais querido e romântico possível e compreensivo e tratá-la com carinho e amor, cozinhar coisas boas, ouvi-la conversar comigo... Dali por dois dias vem o período e é bom aproveitar enquanto dá, depois é aproveitar para descansar um bocado e sair com amigos. Enfim, eu pergunto-lhe 'o que foi?' e ela dá aquelas respostas 'nada' e eu 'quem nada não se afoga ehehe' e quando ela não ri, é porque está com a TPM e o sentido de humor fica afectado.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
expliquem-me isto
Esta dúvida surge-me sempre que vejo anunciar que um veículo eléctrico é livre de emissões de CO2.
Não consigo compreender isto.
Os veículos eléctricos funcionam a electricidade, com baterias.
A electricidade tem de ser gerada. Pode ser fabricada de muitas formas, incluindo formas renováveis, mas nem sempre. Nos países da OCDE a coisa é assim:
Gás: 21,6%
Carvão: 20,4%
Biomassa: 3,4%
Hidro: 2,1%
Nuclear: 11%
Petróleo: 40,8%
Outras: 0,7%
Vou evitar falar no caso concreto de Portugal. Temos 15% de renováveis, sendo 13% hidro e a meta é chegar aos 30% em 2020. Também não vou falar nos impactos ecológicos das barragens que estão muito para além da minha parca compreensão, mas quero apenas frisar que a "emissão de CO2" não é a única coisa má para o ambiente digamos assim.
Todas aquelas fontes de energia, excepto a hidro, nuclear (que tem outros problemas...) e o "outras" geram CO2 ao produzir electricidade.
Fossil Fuel Emission Levels
- Pounds per Billion Btu of Energy Input
Muito bem. Portanto, podemos dizer que em média na OCDE 85% da energia eléctrica produzida emite CO2, sem contar com os 11% do nuclear que daria uns 95% de energia poluente.
Agora falemos de entropia. Produzir energia eléctrica com petróleo num sítio, processar e transportar essa energia eléctrica numa rede imensa cheia de dissipação, consumos ineficientes e desperdícios, carregar uma bateria normalmente mais densa e pesada que o volume equivalente de combustível e que tem um output inferior à energia que recebe e, no final, produzir movimento ou força motora, parece-me algo ineficiente e não sei se compensa o facto do motor eléctrico ser substancialmente mais eficiente que um motor a combustão a nível de utilização da energia. Por ex: o veículo também alimenta a bateria nas travagens ou descidas, algo que não acontece nos veículos a combustível em que tudo é perdido.
Em qualquer caso, parece-me desonesto dizer que não existem emissões de CO2 quando a quase totalidade da energia que faz um veículo eléctrico funcionar é produzida com libertação de C02, a não ser que o proprietário ligue o carro a uma ficha de electricidade de um gerador eólico que tenha no quintal. Se estiver enganado, expliquem-me.
Não consigo compreender isto.
Os veículos eléctricos funcionam a electricidade, com baterias.
A electricidade tem de ser gerada. Pode ser fabricada de muitas formas, incluindo formas renováveis, mas nem sempre. Nos países da OCDE a coisa é assim:
Gás: 21,6%
Carvão: 20,4%
Biomassa: 3,4%
Hidro: 2,1%
Nuclear: 11%
Petróleo: 40,8%
Outras: 0,7%
Vou evitar falar no caso concreto de Portugal. Temos 15% de renováveis, sendo 13% hidro e a meta é chegar aos 30% em 2020. Também não vou falar nos impactos ecológicos das barragens que estão muito para além da minha parca compreensão, mas quero apenas frisar que a "emissão de CO2" não é a única coisa má para o ambiente digamos assim.
Todas aquelas fontes de energia, excepto a hidro, nuclear (que tem outros problemas...) e o "outras" geram CO2 ao produzir electricidade.
Fossil Fuel Emission Levels
- Pounds per Billion Btu of Energy Input
| Pollutant | Natural Gas | Oil | Coal |
| Carbon Dioxide | 117,000 | 164,000 | 208,000 |
Muito bem. Portanto, podemos dizer que em média na OCDE 85% da energia eléctrica produzida emite CO2, sem contar com os 11% do nuclear que daria uns 95% de energia poluente.
Agora falemos de entropia. Produzir energia eléctrica com petróleo num sítio, processar e transportar essa energia eléctrica numa rede imensa cheia de dissipação, consumos ineficientes e desperdícios, carregar uma bateria normalmente mais densa e pesada que o volume equivalente de combustível e que tem um output inferior à energia que recebe e, no final, produzir movimento ou força motora, parece-me algo ineficiente e não sei se compensa o facto do motor eléctrico ser substancialmente mais eficiente que um motor a combustão a nível de utilização da energia. Por ex: o veículo também alimenta a bateria nas travagens ou descidas, algo que não acontece nos veículos a combustível em que tudo é perdido.
Em qualquer caso, parece-me desonesto dizer que não existem emissões de CO2 quando a quase totalidade da energia que faz um veículo eléctrico funcionar é produzida com libertação de C02, a não ser que o proprietário ligue o carro a uma ficha de electricidade de um gerador eólico que tenha no quintal. Se estiver enganado, expliquem-me.
à primeira vista
«Ter sido presidente da assembleia geral de uma Associação de Folclore foi um dos aspetos valorizados na experiência profissional do ministro. Currículo valeu-lhe 160 dos 180 créditos necessários para concluir a licenciatura na Lusófona.» - Expresso
Em janeiro já tinha escrito um aparte sobre Relvas, caracterizando-o como uma daquelas «pessoas que não entendemos bem a necessidade de existirem no nosso televisor».
A expressão facial de Relvas e muito especialmente o olhar, traduz uma enorme tensão / contenção de quem tem intenções férreas e um pragmatismo a toda prova. Uma espécie de desprezo, desprezo por obstáculos aos planos simples cogitados na sua mente em funil, que pensa numa coisa de cada vez. Esta tensão acabou por traí-lo ao ser libertada no caso da jornalista do Público. O facto de ter surgido do nada como número 2 de um governo, quando não se lhe conheciam quaisquer capacidades para lá de usar um telefone, conhecer pessoas, ter um curso na Lusófona e ser presidente de coisas como associação de folclore, é raro e próprio de alguém sem sede de protagonismo público, uma vez que uma maior discrição evita chamar a atenção para coisas menos positivas do passado, como, aliás, tem vindo a acontecer. Os olhos pequeninos são frios e inexpressivos, o que traduz a falta do que se pode chamar de "calor humano" e sentido de humor. O cabelo curto e a escolha de fatos, tudo austero e sem uma marca de vaidade assumida acentuam ainda mais o pragmatismo e a ausência de "alma". A forma do rosto, larga e quadrada, o queixo agressivo, a cabeça atarracada nos ombros, revelam origens humildes ou rurais, uma espécie de labrego com um fato e gravata que lida com o mundo da política como lidaria com uma negociação de ração para porcos, assim com uns esquemas pelo meio. E é isto, um número 2 de um governo português, em 2012.
Em janeiro já tinha escrito um aparte sobre Relvas, caracterizando-o como uma daquelas «pessoas que não entendemos bem a necessidade de existirem no nosso televisor».
A expressão facial de Relvas e muito especialmente o olhar, traduz uma enorme tensão / contenção de quem tem intenções férreas e um pragmatismo a toda prova. Uma espécie de desprezo, desprezo por obstáculos aos planos simples cogitados na sua mente em funil, que pensa numa coisa de cada vez. Esta tensão acabou por traí-lo ao ser libertada no caso da jornalista do Público. O facto de ter surgido do nada como número 2 de um governo, quando não se lhe conheciam quaisquer capacidades para lá de usar um telefone, conhecer pessoas, ter um curso na Lusófona e ser presidente de coisas como associação de folclore, é raro e próprio de alguém sem sede de protagonismo público, uma vez que uma maior discrição evita chamar a atenção para coisas menos positivas do passado, como, aliás, tem vindo a acontecer. Os olhos pequeninos são frios e inexpressivos, o que traduz a falta do que se pode chamar de "calor humano" e sentido de humor. O cabelo curto e a escolha de fatos, tudo austero e sem uma marca de vaidade assumida acentuam ainda mais o pragmatismo e a ausência de "alma". A forma do rosto, larga e quadrada, o queixo agressivo, a cabeça atarracada nos ombros, revelam origens humildes ou rurais, uma espécie de labrego com um fato e gravata que lida com o mundo da política como lidaria com uma negociação de ração para porcos, assim com uns esquemas pelo meio. E é isto, um número 2 de um governo português, em 2012.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Fantasia de Fausto
Segunda feira passada (9 de Julho) fui com a Plaft ao São Luiz ver o Fantasia Fausto do Peter Stein que dispensa apresentações. Também já leram o Fausto do Goethe e o original do Marlowe e o Faust do Mann, ou de outro modo seria impossível apreciarem devidamente o Tolan a sua arte épica, clássica, mítica, seminal e canelónica. Eu e a Plaft às vezes por brincadeira recitamos partes do Fausto do Goethe (em alemão) mas com uma palavra trocada, ela diz um verso, tipo 'euch ist bekannt, was wir bedürfen' e eu tenho de dizer o verso seguinte, mas com uma troca de palavra, tipo 'wir wollen stark Getränke estrünfen!' e partimo-nos a rir :))))) - não é estrunfen (como sabem), é schlürfen, tipo duh...
De qualquer forma, no teatro de São Luiz havia legendas por cima do palco para quem não compreendesse o poema em alemão. Também havia um pianista a tocar a acompanhar o poema e tive pena de não colocarem outra legenda electrónica com a partitura da música que ele estava a tocar para quem não saiba de música como é o caso da Plaft que só sabe cantar e tocar tambor. Gostei muito do espectáculo. O Fausto do Goethe é daquele tipo de obras que mexe mesmo com uma pessoa que saiba apreciar as coisas devidamente. Cada versadela, uma minhoca. Verso a verso enche a alminha o papo. A moral é quem tudo quer, tudo perde. E cuidado com o mafarrico.
com o tempo
O que os outros pensam de nós vai perdendo importância. É por isso que as pessoas mais velhas parecem um bocado chanfradas. Sem aquele impulso de querer ser compreendido (ou incompreendido) que atinge o pico na adolescência, as idiossincrasias apuram. E começamos a perceber que todas as músicas compostas pelo Burt Bacharach são perfeitas, porque começamos a ouvir os clássicos na Star FM. Suponho que sou cada vez mais conservador. Nem sou conservador, sou regressivo e recessivo, como a economia e a democracia. Ficam aqui dois exemplos de perfeição bacharachiana e um bom dia a todos, muito obrigado pela atenção.
terça-feira, 10 de julho de 2012
segunda-feira, 9 de julho de 2012
mais bem disposto
É verdade, não cumpri a promessa de escrever todos os dias, quebrei logo a promessa no dia a seguir. Isto de se fazer promessas cria muita ansiedade. É sempre melhor quebrar as promessas rapidamente do que ficar a anhar muito tempo para depois quebrar na mesma, numa altura em que toda gente se habituou à promessa e a levou a sério. Os políticos aprendem isto na escola de políticos. A escola dos políticos é muito boa, dá competências para governar o país e 32 equivalências (no mínimo) em qualquer curso. Há bastantes médicos que fizeram a escola de política. "Tome estes comprimidos que vai ver que fica bom" e o paciente "obrigado doutor!" e uns dias depois "lamento muito, mas temos mesmo de lhe amputar qualquer coisa ou morre. Se calhar um braço. Ou os dois, pelo sim pelo não. A culpa não é minha, o médico anterior é que se enganou, amputou-lhe as pernas, um disparate nestes casos..."
Entretanto, eu e a Plaft temos desenvolvido telepatia conjugal e ganhamos todos os jogos de tabuleiro com amigos, até contra gémeos que supostamente têm estas coisas assim genéticas. Se jogamos ao pictionary ela faz um risco e eu digo "seringa" e acerto. Se jogamos à mímica eu faço assim com os braços para cima ela diz Homem Vitruviano, Leonardo Da Vinci, 1490, nem preciso de fazer os braços na diagonal e para o lado. Já aconteceu no tabu a palavra ser Robbie Williams e ela só diz "homem da terra de sua majestade" e eu digo logo Robbie Williams e acerto. Porque não dizer Elton John ou David Bowie? Mistério. Mas é assim que as coisas são, para quê questionar?
Também tem os seus lados negativos, esta coisa da telepatia conjugal porque podemos ter discussões sem falar. Às vezes estamos no sofá a ver um filme e ela resolve provocar-me mentalmente por causa de uma coisa qualquer que a aborreceu, como ter-me esquecido que ela fazia anos ou pegar fogo (sem querer) à blusa preferida dela por causa de um pequeno percalço na execução de um flambée na cozinha, e eu respondo-lhe da mesma moeda e ficamos assim a olhar de lado um para o outro. Só que aquilo vai acumulando e às tantas ficamos mesmo zangados, sem sequer falar, um suspira e o outro abana a cabeça. O raio de telepatia é mais ou menos 10 metros, a partir daí o sinal fica mais fraco. Se nos afastarmos um pouco, podemos interromper discussões. Só que a casa é pequena e ela tem de ficar na varanda da sala e eu pendurado no estendal da roupa que fica do outro lado da casa. A alternativa é usarmos os capacetes de folha de alumínio, não é mau, mas também prejudica a imagem na televisão, faz assim uma espécie de interferência.
Entretanto, eu e a Plaft temos desenvolvido telepatia conjugal e ganhamos todos os jogos de tabuleiro com amigos, até contra gémeos que supostamente têm estas coisas assim genéticas. Se jogamos ao pictionary ela faz um risco e eu digo "seringa" e acerto. Se jogamos à mímica eu faço assim com os braços para cima ela diz Homem Vitruviano, Leonardo Da Vinci, 1490, nem preciso de fazer os braços na diagonal e para o lado. Já aconteceu no tabu a palavra ser Robbie Williams e ela só diz "homem da terra de sua majestade" e eu digo logo Robbie Williams e acerto. Porque não dizer Elton John ou David Bowie? Mistério. Mas é assim que as coisas são, para quê questionar?
Também tem os seus lados negativos, esta coisa da telepatia conjugal porque podemos ter discussões sem falar. Às vezes estamos no sofá a ver um filme e ela resolve provocar-me mentalmente por causa de uma coisa qualquer que a aborreceu, como ter-me esquecido que ela fazia anos ou pegar fogo (sem querer) à blusa preferida dela por causa de um pequeno percalço na execução de um flambée na cozinha, e eu respondo-lhe da mesma moeda e ficamos assim a olhar de lado um para o outro. Só que aquilo vai acumulando e às tantas ficamos mesmo zangados, sem sequer falar, um suspira e o outro abana a cabeça. O raio de telepatia é mais ou menos 10 metros, a partir daí o sinal fica mais fraco. Se nos afastarmos um pouco, podemos interromper discussões. Só que a casa é pequena e ela tem de ficar na varanda da sala e eu pendurado no estendal da roupa que fica do outro lado da casa. A alternativa é usarmos os capacetes de folha de alumínio, não é mau, mas também prejudica a imagem na televisão, faz assim uma espécie de interferência.
sábado, 7 de julho de 2012
vamos continuar a tentar...
Decidi escrever aqui todos os dias, mesmo que não me apeteça nada. Talvez me comece a apetecer a pouco e pouco. Pode também ser interessante, para todos nós, ver o que a minha cabeça produz num estado de total ausência de inspiração. Tanto pode ser uma espécie de ruído branco indistinto como um quadro abstracto, aquelas salganhadas de salpicos do Pollock. Às vezes leio blogues de outras pessoas e fico deprimido. A culpa nem sempre é das pessoas. Estamos condenados a ficar presos num ciclo eterno, desinteressante e estéril. Como as notícias do trânsito que oiço no rádio todos os dias de manhã, informações que o locutor diz com um entusiasmo que não parece fingido, especialmente quando há um acidente num ponto específico da rede rodoviária portuguesa a quebrar a monotonia da enumeração dos engarrafamentos de Lisboa e Porto. Ontem fui beber copos para a zona do Cais do Sodré, não ia lá há anos, aquilo está muito diferente e também me deprimiu. Os bordéis que eram tão interessantes transformaram-se em bares da moda. Os chulos e traficantes à coca nas esquinas e as putas rascas foram substituídas por jovens bonitos. A rua cheia de gente, intrusa, turística, uma espécie de pastiche Las Vegas de uma zona marginal que, nos meus tempos de explorador do submundo, era a zona proibida. Tinha-se medo, porra. Medo. Era emocionante. Acho que preciso de dormir, o problema é esse.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
o maior sinal de decadência dos tempos modernos...
...e que devia preocupar o Pacheco Pereira, são as citações de motivação e espiritualidades constantemente atribuídas a gente do tipo Fernando Pessoa, Albert Einstein ou Pablo Neruda, inocentes, que já morreram e tudo, e que não se podem defender das constantes calúnias nos mails e status do facebook que lhes atribuem coisas escritas por e para leitores de Paulo Coelho. Eu prefiro não acreditar que o Albert Einstein disse coisas como "Se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor... Lembre-se. Se
escolher o mundo ficará sem o amor, mas se escolher o amor com ele você
conquistará o mundo." As pessoas que dizem este tipo de coisas são primeiras a atropelar e
esmagar crianças e velhinhos num cenário de pânico num incêndio ou a atiçar uma matilha de advogados contra um(a) ex ou a subscrever uma limpeza étnica no bairro enquanto condenam a do Ruanda ou então são brasileiros bem intencionados desejando ajudar você a ser feliz :) E se o Einstein disse mesmo aquilo? Apesar de não aparecer em nenhum site de citações mais oficial (e há lá centenas), pode ser, acontece, as pessoas ficam senis, mas porquê escolher essa citação? O Einstein disse coisas como "deve ser possível explicar as leis da física a uma empregada de bar". Gosto desta citação, não sei qual o contexto mas gosto de imaginar que era uma espécie de desculpa esfarrapada à mulher ao chegar a casa a horas impróprias, a cheirar a perfume rasca e cerveja.
recomeçar a escrever
devagarinho. É fácil. Escrever é como andar de bicicleta, depois de aprender-mos, nunca se esquece.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
o primeiro passo é reconhecer que se tem um problema
Quero deixar aqui o meu testemunho. Olá, sou o Tolan e sou viciado em Magic. Depois de ter estado numa clínica de reabilitação de Magic The Gathering no final dos anos 90, enquanto era (tentava ser) estudante, passei mais de uma década sóbrio e limpo, focado em vícios inocentes como black jack, poker e álcool. O Magic é considerado o "crack" dos jogos. Os danos que o Magic me causou no período universitário foram graves e irreversíveis no que respeita à minha actividade académica, ao meu rendimento disponível para comprar uma alimentação rica em vitaminas e nutrientes e, muito especialmente, à minha vida sexual. Retirava mais prazer erótico em abrir um pacotinho novo de cartas do que um soutien. A meio de qualquer interacção com o sexo oposto, sentia falta de instant spells como "Enchant female creature. Enchanted female creature performs sex with you".
Também comecei a entender, já no fim do curso, que ser um bom jogador de Magic não era considerado uma característica atraente para mulheres per si.
Como em tudo na vida, o importante são as companhias. A Plaft é uma jogadora compulsiva, sofre de hiperactividade, ADD e tem a consciência do vazio e da dor primordial a que se resume toda a existência. Somos, portanto, muito compatíveis e era impossível não nos apaixonarmos muito, uma vez que fazemos uma espécie de processo de feedback contínuo informação -> processamento -> avaliação -> reacção -> informação etc. Mas tudo tem limites. Tomar xanax fora do prazo e misturar com vodka enquanto temos sexo com pinturas tribais na cara feitas com o sangue do período ao invocar ktulu enquanto ela me estrangula com uma corda de seda é uma brincadeira nossa totalmente inocente, jogar Magic é uma actividade mais perigosa e sinistra.
Para muitos, um rupo de nerds a jogar cartas. Para outros... uma terrível batalha entre poderosos magos e feiticeiros pelo domínio do universo
Tudo isto começou de forma inocente. Saiu um jogo para playstation, um jogo de magic e eu disse assim à Plaft: "olha, se calhar ias gostar deste" e comprei o jogo mais na expectativa de que ela gostasse daquilo e jogasse muito. É bom quando isso sucede porque, pela observação dos homens casados, percebi que eles acham excelente quando a mulher está fortemente entretida com algo. Liberta-lhes espaço para serem maus maridos e relaxarem um pouco. Nesta fase, evidentemente, não necessito dessa liberdade porque acho entretenimento suficiente e divertido vê-la no sofá a ver televisão ou a franzir as sobrancelhas quando algo a intriga ou com a língua de fora quando está concentrada em qualquer coisa. Mas nem sempre é assim. Também vi muitos filmes do Bergman e sei que os casais costumam acabar em choro convulsivo no meio de uma sala de jantar toda partida, com ela deitada no chão com o vestido rasgado e o lábio a sangrar e ele com uma pistola apontada à própria cabeça a gritar Jag hatar dig! jag hatar dig!
Ora, uma relação é como um bom baralho de magic, tem de ter o equilíbrio certo de terrenos, criaturas, feitiços e artefactos e o que se faz na fase do namoro é construir um baralho suficientemente forte para o casamento e a paternidade, altura em que será testado em condições reais. A experiência resultou bem, infelizmente. Ela adorou o jogo e ficou viciada. O problema é que eu também experimentei e fiquei agarrado outra vez, uma enorme recaída. Meti-me no magic the gathering online para PC e voltei ao crack. A minha colecção vai já em quase 3000 cartas e começo a sofrer do síndrome do jogador de Magic de novo. Sonho com combos fatais, viro cartas de mana imaginárias sempre que quero fazer algo, divido o mundo físico real em artefactos, feitiços e criaturas, organizo as pessoas em grupos como orcos, fadas, zombies ou dragões e dou comigo a pensar instintivamente em cartas para representar acções. No outro dia, um pedinte pediu-me um cigarro e eu, enquanto dava o cigarro, pensava "sacrifice one cigarette to ban beggar creature". A Plaft também sofre de alguns dos sintomas mas tem consciência do que está acontecer e decidiu agir antes de ser tarde demais.
Apareceu no escritório (onde eu estava a meio de um torneio online com o meu baralho zombie tipo aggro vs. um blue wizards deck do tipo control) com o xanax, a vodka e um penso usado e disse-me aquelas palavras fatais: "não me dás atenção". Reflecti muito depois disso.
O primeiro passo é reconhecer que se tem um problema. Já reconheci o problema e já identifiquei a solução. Não consegui ganhar ao gajo dos cabrões dos wizards porque preciso de 4 Zombie Apocalypses neste baralho: Return all Zombie creature cards from your graveyard to the battlefield tapped, then destroy all Humans.
Nem imaginam a quantidade de vezes que sonho com esta carta no dia a dia no trabalho, a ver o telejornal, no trânsito... E quanto à Plaft, o essencial é voltar a outro vício menos grave e equilibrar tudo. O blogue parece-me uma boa opção. Está a resultar. Penso menos em magic, a cada minuto que passa.
ps: e logo à noite é o jogo. Espero que Portugal jogue com um combo deck, espanha deve jogar com um control deck. Portugal tem a rare creature Cristiano Ronaldo:
CR7 - Creature
Flying
CR7 can't block and is unblockable.
*/1: tap mountains to charge CR7
If Cristiano Ronaldo is targeted by stupid trolls chanting "Messi Messi" , double the damage to target
"when hell flames unleashed their child, he came to earth to rule upon humans and win le balon d'or" - Mourinho, Wizard of Soccer
quinta-feira, 21 de junho de 2012
crítica literária séria: Nas Montanhas da Loucura - H.P. Lovecraft
Se googlou por uma crítica séria a este livro, veio ao lugar certo. Neste blogue fazem-se importantes críticas literárias, muito influentes. Aqui um exemplo do que sucedeu às vendas de camiões e automóveis depois de uma crítica minha favorável aos camiões em 1992. Gostava muito mais de camiões do que de carros em 1992. Em 2006 mudei de ideias e depois em 2008 voltei a dizer que os camiões e os carros eram bons.
Esta aqui é a capa do livro que vou criticar hoje, talvez já a tenham visto porque nos últimos dias tenho almoçado a ler o livro e reparei que algumas pessoas olharam para a capa. Se forem uma dessas pessoas, era eu que estava a ler este livro. Os outros ficam a saber que a capa do livro é assim.
É uma capa muito suí generis.Vamos então ao livro. Vou tentar poupar-vos aos detalhes biográfios de H.P.Lovecraft, podem procurar na wikipedia ou noutros sítios da Internet por informação sobre o mesmo. Eu descobri que não posso fazer isso antes de escrever uma crítica séria ou não consigo escrever nada porque fico bloqueado com tanta informação e pontos de vista diferentes. É o problema das pessoas com cultura, que sabem coisas, normalmente começam a resignar-se ao silêncio e a citações, um problema de que os taxistas não padecem.
O Stephen King diz que o Lovecraft é o maior escritor de terror do século XX e realmente, assim parece ser. Contudo, apesar de formalmente perfeito e com aura de clássico, este livro sofre de pequenos problemas que se prendem com ser um bocado datado e o efeito no sistema límbico (o medo) ficar assaz neutralizado. Parece ter sido escrito pelo cruzamento de um geólogo com um arqueólogo com imaginação fértil. Está pejado de detalhes científicos. Estes detalhes são essenciais para a construção da atmosfera. Um grupo de investigadores vai explorar a Antárctica, continente até então muito desconhecido, como o era na época (1931). O homem sempre projectou no desconhecido os seus mitos e medos. Toda a mitologia ligada ao mar e aos descobrimentos é um exemplo. O blogue Abrupto do Pacheco Pereira é outro. No livro, uma civilização muito anterior à nossa veio do espaço, montou a base em montanhas na Antárctica e gerou toda a vida na terra de forma artificial. Isto é o exorcismo da ciência, da crueza e horror da ciência que, com a teoria da evolução de Darwin, deixou de permitir uma concepção antropocêntrica do universo. Não só não fomos criados por Deus e descendemos dos macacos, como somos o resultado de experiências científicas para a criação de escravos miseráveis, por civilizações muito mais avançadas e seres muito mais poderosos. Se considerarmos a época em que este romance foi escrito, podemos perceber porque é um clássico, visto que contém uma miríade de elementos que ainda hoje são usados em qualquer história do género. Não pude deixar de me lembrar do The Thing de 1982 de John Carpenter.
Nas montanhas da Loucura temos "acreditar"no facto de existirem montanhas muito mais altas que o Evereste na Antárctica e isso, sendo descrito de forma meticulosa e científica. Sei que parece um detalhe, mas a base do romance é a atmosfera. Os detalhes científicos, biológicos, antropológicos, históricos e geológicos são atirados para credibilizar a ficção e destinados a um tipo de leitor que, na época do livro, acreditaria nisso. É um bocado o mesmo princípio que torna obras como o Código Da Vinci profundamente datadas a curto prazo se descobrirem, graças a poderosos instrumentos de datação de carbono, que Jesus não só não era casado nem teve filhos, como era gay e tinha, com Judas, adoptado um pretinho.
Este tipo de livro acaba por sobreviver ao teste do tempo por um motivo diferente da intenção que o gerou. Deixa de ser um livro de terror, mas um livro sobre os terrores daquela época, é como ver o RTP memória e ver um programa de debate sobre a CEE. Tal como no Dracula de Bram Stoker (este sim, resiste ao teste do tempo e continua a ser arrepiante), é fascinante o contraste entre o estilo contido, científico, objectivo e algo "formal" (profundamente anglófilo) destes narradores que são quase sempre cavalheiros cientistas /médicos e que lidam com o grotesco das fronteiras do desconhecido e do horror inominável. Um bocado como eu me sinto quando oiço pessoas de esquerda falar de "economia" ou leio blogues femininos. E pronto, obrigado por lerem esta crítica, espero que tenham aprendido qualquer coisa. O livro é bom, era o que eu queria dizer.
Esta aqui é a capa do livro que vou criticar hoje, talvez já a tenham visto porque nos últimos dias tenho almoçado a ler o livro e reparei que algumas pessoas olharam para a capa. Se forem uma dessas pessoas, era eu que estava a ler este livro. Os outros ficam a saber que a capa do livro é assim.
É uma capa muito suí generis.Vamos então ao livro. Vou tentar poupar-vos aos detalhes biográfios de H.P.Lovecraft, podem procurar na wikipedia ou noutros sítios da Internet por informação sobre o mesmo. Eu descobri que não posso fazer isso antes de escrever uma crítica séria ou não consigo escrever nada porque fico bloqueado com tanta informação e pontos de vista diferentes. É o problema das pessoas com cultura, que sabem coisas, normalmente começam a resignar-se ao silêncio e a citações, um problema de que os taxistas não padecem.
O Stephen King diz que o Lovecraft é o maior escritor de terror do século XX e realmente, assim parece ser. Contudo, apesar de formalmente perfeito e com aura de clássico, este livro sofre de pequenos problemas que se prendem com ser um bocado datado e o efeito no sistema límbico (o medo) ficar assaz neutralizado. Parece ter sido escrito pelo cruzamento de um geólogo com um arqueólogo com imaginação fértil. Está pejado de detalhes científicos. Estes detalhes são essenciais para a construção da atmosfera. Um grupo de investigadores vai explorar a Antárctica, continente até então muito desconhecido, como o era na época (1931). O homem sempre projectou no desconhecido os seus mitos e medos. Toda a mitologia ligada ao mar e aos descobrimentos é um exemplo. O blogue Abrupto do Pacheco Pereira é outro. No livro, uma civilização muito anterior à nossa veio do espaço, montou a base em montanhas na Antárctica e gerou toda a vida na terra de forma artificial. Isto é o exorcismo da ciência, da crueza e horror da ciência que, com a teoria da evolução de Darwin, deixou de permitir uma concepção antropocêntrica do universo. Não só não fomos criados por Deus e descendemos dos macacos, como somos o resultado de experiências científicas para a criação de escravos miseráveis, por civilizações muito mais avançadas e seres muito mais poderosos. Se considerarmos a época em que este romance foi escrito, podemos perceber porque é um clássico, visto que contém uma miríade de elementos que ainda hoje são usados em qualquer história do género. Não pude deixar de me lembrar do The Thing de 1982 de John Carpenter.
Nas montanhas da Loucura temos "acreditar"no facto de existirem montanhas muito mais altas que o Evereste na Antárctica e isso, sendo descrito de forma meticulosa e científica. Sei que parece um detalhe, mas a base do romance é a atmosfera. Os detalhes científicos, biológicos, antropológicos, históricos e geológicos são atirados para credibilizar a ficção e destinados a um tipo de leitor que, na época do livro, acreditaria nisso. É um bocado o mesmo princípio que torna obras como o Código Da Vinci profundamente datadas a curto prazo se descobrirem, graças a poderosos instrumentos de datação de carbono, que Jesus não só não era casado nem teve filhos, como era gay e tinha, com Judas, adoptado um pretinho.
Este tipo de livro acaba por sobreviver ao teste do tempo por um motivo diferente da intenção que o gerou. Deixa de ser um livro de terror, mas um livro sobre os terrores daquela época, é como ver o RTP memória e ver um programa de debate sobre a CEE. Tal como no Dracula de Bram Stoker (este sim, resiste ao teste do tempo e continua a ser arrepiante), é fascinante o contraste entre o estilo contido, científico, objectivo e algo "formal" (profundamente anglófilo) destes narradores que são quase sempre cavalheiros cientistas /médicos e que lidam com o grotesco das fronteiras do desconhecido e do horror inominável. Um bocado como eu me sinto quando oiço pessoas de esquerda falar de "economia" ou leio blogues femininos. E pronto, obrigado por lerem esta crítica, espero que tenham aprendido qualquer coisa. O livro é bom, era o que eu queria dizer.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
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