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Agradecido!
quinta-feira, 30 de maio de 2013
hey, ciências da educação, leave those kids alone
Como sou do género de falar sem saber, é um facto que o Plano Nacional de Leitura já inclui uma lista bastante extensa de autores muito diversificados (embora, graças a Deus, sejam leituras facultativas). Claro que poderia questionar porque motivo estão lá três livros do Manuel Alegre, incluindo o essencial livro de crónicas O futebol e a vida - Do Euro 2004 ao Mundial 2006. Ou cinco livros do Mia Couto (há assim tão poucos escritores para preencher o slot africano lusófono?) Ou um livro do portento que é o Gonçalo Cadilhe que está para a literatura de viagens como a Filipa Vacondeus para a gastronomia mundial. Pelo meio, não falta a nova literatura portuguesa incontornável e os seus incontornáveis nomes, lado a lado com os irmãos mais velhos Eças e os Pessoas, todos no cestinho do incontornável que, como se sabe, é infinito e eterno, pois o tempo nunca apaga escritores que nas respectivas épocas são amplamente consagrados e incluídos em listas organizadas por comissões de especialistas governamentais, como sucedeu com os eleitos Pessoa, Eça ou Camões, amplamente reconhecidos pelos Planos Nacionais de Leitura das suas épocas, pelo gosto do público da época e pelos prémios Camões da época. A lista é engrossada com a farinha maizena de uma quantidade surpreendente de autores juvenis portugueses lado a lado com nomes como JK Rowlings que, como se sabe, se não fosse o Plano Nacional de Leitura e a capacidade dos ministérios em identificar autores talentosos e obscuros, seria completamente desconhecida do público português. É bonito o fairplay e deixar que autores estrangeiros possam também ter alguma hipótese aqui.
Mas nem era disso que queria falar, até porque uma lista é sempre subjectiva. Quem sou eu para sugerir para a mesma o primeiro livro de crónicas do António Lobo Antunes ou um de primeiras crónicas do Miguel Esteves Cardoso, por exemplo, por troca com as crónicas do Alegre? Ninguém. O Alegre tem uma dimensão Simbólica / Histórica que dá matéria simbólica para reflectir sobre o presente, na perspectiva da
denúncia e dela extrair uma moralidade que sirva de lição para o futuro. Aprendi a dizer isto porque li uma Síntese da matéria para um exame de português do 12º ano e fiquei a saber que lendo o Memorial do Convento do Saramago, os meninos têm de caracterizar uma dimensão Simbólica/Histórica
e responder que no Memorial do Convento há uma
intenção de interferência do passado com o presente, com a
particularidade de conseguir utilizar a reinvenção da História como
estratégica discursiva para olhar a actualidade. A história torna-se
matéria simbólica para reflectir sobre o presente, na perspectiva da
denúncia e dela extrair uma moralidade que sirva de lição para o
futuro.
Tão pequeninos e já têm de se exprimir na novilíngua Orweliana dos políticos. E a propósito de Orwel... não, não falo mais na lista.
Confesso que isto me passou ao lado quando li o Memorial do Convento e se calhar por isso é que apreciei o livro. Mas pelos vistos, Fernando Pessoa é o prato forte do 12º ano. Que o Fernando Pessoa é incontornável, estamos todos de acordo. Digamos que o Peixoto e o Valter da lista do Plano Nacional de Leitura são como que um encosto de Nissan Vanete na traseira de um Opel Corsa comercial a ocupar uma faixa da direita no IC19. Por enquanto não são incontornáveis porque não estão no programa, só na lista do PNL. Em fazendo pisca e metendo a mão de fora da janela, dá para mudar de faixa e seguir em frente. Mas o Pessoa é uma espécie de acidente épico no tabuleiro da ponte poética portuguesa. Não dá para passar por ele a tempo de também espreitar outros poetas. Não, fica-se ali horas preso no carro, a esmiuçar-lhe os heterónimos todos e ainda a Mensagem e saber que a 3ª fase de Álvaro de Campos se caracteriza por ter Traços estilísticos:
Verso livre em geral muito longo
Assonâncias, onomatopeias, aliterações
Grafismos expressivos
Mistura de níveis de língua
Enumerações excessivas, exclamações, interjeições e pontuação emotiva
Desvios sintácticos
Estrangeirismos e neologismos
Subordinação de fonemas
Construções nominais, infinitivas e gerundivas
Metáforas ousadas, oximoros, personificações, hipérboles
Estética não aristélica na fase futurista ...
livros nas escolas
Cresci com uma biblioteca, em casa. Na escola, sabia que aqui em Portugal se estudava Gil Vicente e
que noutro país se estudava
Molière e noutro Shakespeare. Que aqui líamos Pessoa e noutros
países seria Puchkin ou então Neruda. Percebi que
havia escritores um pouco por todo o mundo e que desses, eu ia gostar de
uns e não gostar nada de outros e que o conceito de "literatura portuguesa" era uma convenção, que o que contava é a literatura que temos à nossa disposição numa língua compreensível, na nossa biblioteca, na biblioteca municipal, à venda nas livrarias que estão à mão e, em 2013, pela Internet. Parecia-me um pouco desonesto que os franceses impingissem franceses às crianças francesas só porque são franceses e que os portugueses impingissem lusófonos aos portugueses só porque são lusófonos e que no meio disso, cada país fizesse esforços oficiais para impor uma visão muito parcelar, definida por burocratas e políticos sem qualquer cultura ou erudição e pela pior promiscuidade com o "meio literário", sempre moderada pelo politicamente correcto ou pela visão do regime ou por interesses de editoras.
O que se pretende, quando se divulgam e estudam autores, numa escola, nas aulas de português? Desenvolver curiosidade pelos livros e gosto pela leitura, explorando um pouco o sentido crítico e o gosto, de uma forma que é difícil de conseguir fora da escola? Já sabemos que fora da escola existe um mercado livre, que há autores que são mais lidos do que outros, tendo mais ou menos sucesso, maior ou menor marketing. Na escola, o relevante poderia ser expor os putos a uma diversidade de coisas e eles que escolhessem e experimentassem. Se falamos de literatura portuguesa ou lusófona, então temos aqui um problema. Portugal tem poucos grandes escritores capazes de apelar ao público mais jovem. Haverá alguns, certamente (penso no Eça), mas não temos um Twain, um Salinger, Rudyard Kipling, um Jack London, um Michel Tournier, um Hemingway, uma Emily Bronte, um Camus, um Boris Vian, um Tolkien, um Maupassant, um Oscar Willde, um Stendhal, um Kerouaq, uma Marion Zimmer Bradley, Kenneth Grahame, Bram Stoker, Stephen King, Sue Townsend etc. etc. O problema ainda se agrava mais quando pensamos na literatura mesmo juvenil ou infantil. Não temos um Hans Christian Andersen ou uma Selma Lagerlöf, um Saint-Exupery, nem um Lewis Carol. Cresci com o fenómeno Isabel Alçada, mas já havia Enid Blyton / Mary Pollock e Isabel Alçada era uma versão deslavada e moderada do original. Basta percorrer o portal do Plano Nacional de Leitura para perceber que talvez, digo eu, não tenhamos qualquer tradição de livros infantis de qualidade, sejam dos ilustrados ou dos outros. Notem que eu não tenho nada contra qualquer pessoa fazer um livro infantil e editá-lo e divulgá-lo. O que me faz um pouco de confusão é criar uma coutada no Plano Nacional de Leitura, privando os miúdos de obras melhores, nem que seja por terem passado o teste do tempo ou terem alguma consagração crítica (que, pasme-se, também é relevante num livro infantil e ilustrado).
Poderemos estar a começar a ter outra noção, pelas traduções, pela globalização, até por filmes e desenhos animados inspirados em histórias clássicas a que a minha geração começou a ser exposta e pela consciencialização das novas gerações de pais para a importância dos filhos lerem. Tudo isto são coisas que certamente não existiam tão generalizadas em Portugal há 3 décadas quando eu era puto. O país vai arejando, é difícil combater o tempo e as brechas que se abrem graças à globalização. É pena que algumas janelas teimem em abrir.
Poderemos estar a começar a ter outra noção, pelas traduções, pela globalização, até por filmes e desenhos animados inspirados em histórias clássicas a que a minha geração começou a ser exposta e pela consciencialização das novas gerações de pais para a importância dos filhos lerem. Tudo isto são coisas que certamente não existiam tão generalizadas em Portugal há 3 décadas quando eu era puto. O país vai arejando, é difícil combater o tempo e as brechas que se abrem graças à globalização. É pena que algumas janelas teimem em abrir.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Prémio Camões
(...)
Mia Couto se aplica com capricho numa ficção irritantemente mediana, à altura de um leitor cujo perfil retrata um sujeito apto a, graças à tolerância da mobilidade social, “acessar” essas obras belamente sumariadas pelos suplementos culturais.
Ao mesmo tempo, apesar da advertência do editor, reputando Mia Couto como “um dos maiores nomes da literatura africana de língua portuguesa”, algo do estilo do moçambicano entra na conta inflacionária do literário em tom pastel ou bege, que tem como maior virtude a de combinar com o que quer que se encontre na sala do cidadão cultivado e humanista de classe média alta. Por sua vez, mesmo a poesia ― um pouco cansada, talvez, de se mostrar sempre intratável ―, e que até há pouco era “preservada” de tais circunstâncias, já agora começa a se sentir enfronhada e prestigiada nos debates onde as coisas são decididas, naturalmente, jamais levando em consideração os seus interesses. Mas isso é irrelevante, o que importa é cair dentro.
(...)
aqui
PS: atenção, há opiniões positivas:
Pela originalidade do seu estilo e pela densidade dos seus argumentos, a obra de Mia Couto impôs-se desde muito cedo no mundo de língua portuguesa - Aníbal Cavaco Silva
aqui
aqui
PS: atenção, há opiniões positivas:
Pela originalidade do seu estilo e pela densidade dos seus argumentos, a obra de Mia Couto impôs-se desde muito cedo no mundo de língua portuguesa - Aníbal Cavaco Silva
aqui
terça-feira, 28 de maio de 2013
segunda-feira, 27 de maio de 2013
cachorro quente
Não me recordo se estava com papeira ou com febres reumáticas, mas sei que a companhia de um cão quente, a suspirar-me para cima nos intervalos das sonecas, ajudou bastante. Tenho saudades de poder faltar à escola por estar doente e ficar de cama a ler, com a minha mãe tomar conta de mim e de ter um cão feito botija de água quente e urso de peluche, a ressonar ao meu lado. Não queria estar demasiado doente, apenas o suficiente para não poder ir à escola. Não era fácil conseguir esse equilíbrio. A maior parte das vezes, após um breve e desconfiado diagnóstico maternal, era-me negado esse privilégio e tinha de ir tomar banho e vestir-me. Era muito raro adoecer como deve ser, de modo a que a convalescença fosse agradável. A papeira foi um martírio. A varicela, se tirar o choque de me ver coberto de borbulhas, foi excelente; não me doeu nada e garantiu-me uma semana de reclusão. É certo que ao fim de uns dias começava a nascer-me uma ansiedade, fosse por faltar às aulas e perder matéria, fosse por temer que os meus amigos, às tantas, se habituassem à minha ausência e se divertissem na mesma, ou mais até.
Infelizmente uma pessoa depois cresce e torna-se difícil conseguir uma doença adequada. As que nos deixam de cama são normalmente mesmo muito más. Recordo-me de um fim de dia em Santa Apolónia em que me arrastei para a cama a tremer de febre, assim que cheguei do trabalho. Vivia sozinho, a casa era velha, cheia de pó, fendas e correntes de ar. Os autocarros sacudiam o soalho e chocalhavam as vidraças sujas de cada vez que passavam na rua apertada, como se todo o prédio também tivesse febre. E ali, sozinho, senti uma falta do cão quente, da canja da mãe... Fui à cozinha comer atum directamente da lata e deitei-me cedo. No outro dia estava no trabalho, como de costume.
domingo, 26 de maio de 2013
a quente...
... mas sem animosidade, Jorge Jesus deve sair. Voltou a descaracterizar a equipa no final, por querer "defender o resultado". Se isso era discutível contra o FCP, com o Vitória de Guimarães adquiriu contornos de ridículo, não só por ser um adversário substancialmente mais fraco, mas também porque após uma época cheia de desilusões, o Benfica deveria ter cavalgado para uma goleada, uma festa. Poderia ter conseguido um parco 2-0, mas deveria ter tentado o 4 ou 5 a zero. Era essa a atitude necessária, essa alegria, esse pequeno prémio aos adeptos. Jorge Jesus é o rosto do medo e da confusão, não distingue um Bayern de um Porto, um Vitória de um Barcelona. Pode ser explicado pelo trauma de que falei uns posts abaixo, o trauma do bad beat que também existe no poker. Quando o azar (porque o Benfica sem dúvida teve azar nos jogos decisivos) nos escolhe como alvo prioritário, uma e outra vez, isso provoca em nós um sobre-ajustamento, uma adaptação que depois, na prática, acaba por parecer atrair ainda mais azar, quando na realidade é a própria adaptação a suscitar os erros. Os adeptos também o fizeram. Como explicar que aos 82 minutos, após o 2-1 do Vitória, tenha ocorrido uma debandada geral do estádio? Paira no ar este espírito do "já sabia". Noutro contexto, os adeptos puxariam pela equipa até à última. Mas muitos já sabiam. Jorge Jesus já sabia. Os jogadores já sabiam e se não sabiam bastava olharem para a cara de Jorge Jesus ou para as bancadas a esvaziar. E eu tanto já sabia que me compraram bilhete para a taça e recusei depois da derrota com o FCP. Até me prontifiquei a pagar os 20 euros no caso de não se arranjar outro comprador (entretanto arranjaram). Simplesmente, é como se já estivesse a ver o filme todo. Não me orgulho disso e vai daqui um abraço de solidariedade aos meus amigos e aos grandes benfiquistas que foram ao estádio. Agora, vamos ter umas merecidas férias de bola e para o ano, seria muito bom começar com uma folha em branco, porque esta é demasiado triste. Continuando na onda do "já sabia", acho que Jorge Jesus não vai querer ficar.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
eh eh
Achei muito engraçada a revelação de que o Desbocado é um jovem de 15 anos, quando uns posts abaixo, a esmagadora maioria dos leitores o situava entre os 30 e 40, numa média de 34.4 anos :)
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Farturinhas! (e livros)
Vai começar a Feira do Livro, um dos poucos eventos que consegue meter roulotes com farturas e churros no acessível centro de Lisboa, convenientemente perto de livros. Gosto muito de massajar certos livros depois de lubrificar as mãos com óleo fula, açúcar esfoliante e perfumá-las com canela. Este ano, para além de massajar as orelhas do José Rodrigues dos Santos e o ego do João Tordo, vou untar muito bem os livros que tenham na capa coisas como "A nova literatura portuguesa passa obrigatoriamente por aqui". Pobre literatura portuguesa, com tanta obrigação de passar por aqui e por ali, lembra o projecto do TGV Lisboa Porto. Ou um jogo de geocaching planeado por uma toupeira cega. Chega, deixem lá a nova literatura portuguesa passar por onde ela quer que ela já tem idade para se emancipar e decidir o seu futuro. Mas nem só de farturinhas vive a feira do livro. É na feira do livro que compro 80% do meu stock de livros anual, pois fica mais em conta e despacha-se tudo de uma vez. Os livros não são um bem perecível como os iPhones ou os abacates (curioso, quando compro abacates estão sempre verdes, verdes, verdes, dia após dia, e depois, de um dia para o outro ficam-me podres, isto também acontece com vocês?). Como um esquilo que se prepara para os rigores do inverno recolhendo o máximo de avelãs para a sua toca, também eu faço o mesmo com livros, temendo o inverno da falência das editoras que vendem os livros que eu quero. Este ano vou com o meu trolley de velhinha que a Plaft comprou para ir ao supermercado e vou stockar muita coisa na dispensa, como um bom preper intelectual. Pensam que isto é paranóia? Já vi um dos meus livros preferidos desaparecer, o Bela do Senhor, do Albert Cohen, editado, creio eu, pela Contexto. Se um livro como o Bela do Senhor pode desaparecer, santo Deus, nenhum bom livro está a salvo do autocarro literário simplesmente deixar de parar no seu apeadeiro.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
banda sonora #1
Partilho aqui uma playlist (em desenvolvimento) para ouvir no carro em viagens longas (+50km) e à noite, idealmente em condições de chuva e pouca visibilidade, fuga à polícia, choque emocional, vontade de pegar fogo a coisas etc. Não é uma playlist facilmente partilhável com outra pessoa no interior da viatura, mas é possível, desde que esteja devidamente amordaçada na bagageira :)
(os links vão para youtubes)
ghost rider - Suicide
fat city - Alan Vega, Alex Chilton, Ben Vaughn
hot freaks - Guided by voices
down on the stret - The Stooges
pablo picasso - Modern Lovers
roadhouse blues - The Doors
oh yeah - Can
dead and lovely - Tom Waits
good morning, captain - Slint
drunken butterfly - Sonic Youth
milk and honey - Jackson C.Frank
damaged goods - Gang of Four
friction - Television
leaders of men - Joy Division
monkey gone to heaven - Pixies
pausa para paragem na estação de serviço, comprar whisky, tabaco e gomas (as caveiras de pirata são as melhores, mas podem ser ursinhos se não houver mais nada)
murder weapon - Tricky
rising son - Massive Atack
(...)
(os links vão para youtubes)
ghost rider - Suicide
fat city - Alan Vega, Alex Chilton, Ben Vaughn
hot freaks - Guided by voices
down on the stret - The Stooges
pablo picasso - Modern Lovers
roadhouse blues - The Doors
oh yeah - Can
dead and lovely - Tom Waits
good morning, captain - Slint
drunken butterfly - Sonic Youth
milk and honey - Jackson C.Frank
damaged goods - Gang of Four
friction - Television
leaders of men - Joy Division
monkey gone to heaven - Pixies
pausa para paragem na estação de serviço, comprar whisky, tabaco e gomas (as caveiras de pirata são as melhores, mas podem ser ursinhos se não houver mais nada)
murder weapon - Tricky
rising son - Massive Atack
(...)
as raparigas não gostam de magia
A propósito deste post do Mak, lembrei-me que também eu passei pela fase magia quando era criança. O meu pai, que tinha um sentido de humor um pouco retorcido, dizia-me que eu conseguia mover objectos se me concentrasse muito neles, o que lhe garantia um pouco de sossego enquanto eu ficava especado a tentar mover um dedal de costura ou um copo de água horas a fio, só com o poder da minha mente. Para garantir que eu não me desencorajava, às vezes dizia-me "epá, isso mexeu agora mesmo" e eu "mentira, não mexeu nada" e ele "mexeu mexeu, foi só um bocadinho mas eu vi" e depois continuava a ler o jornal e a fumar o seu cachimbo sossegado.
Depois deram-me um livro com truques de magia. Alguns eram bons e outros péssimos. Os péssimos, para mim, envolviam mentir. Coisas como dizer "isto é um aro normal, sólido" e o aro não ser sólido ou "vou escolher uma pessoa ao calhas" e ter combinado com alguém... não suportava esse tipo de truques em que o mágico mente. Os meus preferidos eram truques honestos que podiam ser feitos de improviso em qualquer ocasião em que fossem úteis, como num encontro romântico por exemplo. Só fiz isso uma vez. Acho que foi o primeiro encontro a que fui na vida, no Movies do Monumental, que para mim na altura era o cúmulo do requinte. O encontro não estava a correr muito bem porque ela não sabia quem eram os Pixies. Não sei o que me deu, mas tive como que uma ideia brilhante e recordei um truque de magia da minha infância. Quando ela foi ao WC retocar a maquilhagem, eu masquei e colei uma pastilha na parte de baixo do tampo da mesa do restaurante, depois colei uma moeda de cinquenta escudos à pastilha, mas não demasiado colada, apenas ao de leve, para se desprender facilmente. Quando ela voltou, eu mostrei-lhe outra moeda de cinquenta escudos e disse "e agora o el grande Tolan vai passar esta moeda pela mesa!" e pousei a moeda no tampo da mesa, mais ou menos por cima da moeda colada por baixo do tampo, tapei-a com o guardanapo e disse "abracadabra" e dei uma palmada forte no guardanapo, suficientemente forte para, com o impacto, fazer tremer a mesa e desprender a moeda de cinquenta escudos colada na parte de baixo do tampo. Tadaaa! A moeda atravessou a mesa, caiu no chão e rolou pela alcatifa do movies, por entre os pés das pessoas. Tive de me levantar e, quase de gatas, recuperar a moeda. O jantar continuou normalmente. Ela nem quis saber como é que eu fiz o truque. Começou a falar de outra coisa, depois de uns momentos de silêncio pesado. E eu, durante o jantar todo, não pude usar o guardanapo que estava a tapar a moeda número dois e fiquei o tempo todo atrofiar com a hipótese de ter a boca suja de molho.
terça-feira, 21 de maio de 2013
não sou um robot, juro
Se me dissessem, quando tinha 10 anos, que um dia a tecnologia iria evoluir ao ponto de me pedir para "provar que não sou um robot" como sucede nas caixas de comentários... provavelmente acreditava sem grande dificuldade, pois lia muita ficção científica. Em qualquer caso, é estranho ter de fazer pequenos testes como reconhecer palavras escritas de forma quase ilegível, números em fotos desfocadas e resolver pequenas operações aritméticas para provar que não somos uma máquina.
Sente-se uma tensão entre duas forças, de um lado os tais robots (neste caso de spam) que se tornam cada vez mais complexos e evoluem no sentido de consegui fazer o que nós conseguimos e, do outro, as defesas e testes que os informáticos humanos desenvolvem para se defenderem dos robots que outros informáticos desenvolvem.
Prevejo um futuro em que as nossas campainhas de prédio necessitarão de dispositivos para nos proteger dos jeova bots e ciber-vendedores de tv cabo...
*dling dlong*
Boa noite. Já é cliente Meo?
segunda-feira, 20 de maio de 2013
um cientista
I am a scientist - i seek to understand me
All of my impurities and evils yet unknown
I am a journalist - i write to you to show you
I am an incurable
And nothing else behaves like me
All of my impurities and evils yet unknown
I am a journalist - i write to you to show you
I am an incurable
And nothing else behaves like me
se eu tivesse uma cauda...
...abanava de satisfação a ouvir o novo Like Clockwork dos Queens Of Stone Age.
cafés
Café típico da baixa, extenso balcão de alumínio com bolos tristes sob
luzes néon, um patchwork colorido de chocolates, chupa-chupas e pastilhas, bebidas espirituosas em prateleiras de vidro, o Correio da Manhã e o Record que às 9:00 já têm as páginas amarfanhadas pelos taxistas e comerciantes, uma televisão na TVI com o Goucha a saracotear-se de blazer lilás e cartões das deixas na mão e a outra, a que tem a voz mais estridente que já me foi dada a ouvir, a debitar observações jocosas em tom de revista à portuguesa, deixando a plateia de donas de casa a rir e os empregados do café hipnotizados. Tento, sem grande sucesso, pedir um café no fim, é sempre a mesma coisa... Um café, por favor. A minha voz muito grave não deve ser perceptível no caos acústico da reverberação ampliada por tanta superfície lisa e fria, faltou-me falar no chão de azulejo, enfim. Procuro o olhar dos dois empregados, um distrai-se a negociar com um distribuidor, o outro divide a atenção entre a tv ou o balcão que precisa de ser polido pelo pano, ou uma moeda de 10 cêntimos que caiu para o meio dos compais do expositor frigorífico. Olhe, era um café, se faz favor. Nada, sentir-me-ia invisível não fosse dar-se o caso de ter chamado a atenção de todos os três ou quatro clientes habituais. Um deles até se volta para trás, sentado que está ao balcão, vira-se para o empregado e hesita em ajudar-me, mas volta a mergulhar nas importantes notícias do Metro. Então solto o meu "OLHE, UM CAFÉ SE FAZ FAVOR!" no tom de voz de Manuel Alegre a declamar poesia revolucionário num comício de jovens raparigas de esquerda. O café sobressalta todo e o empregado até faz um esgar de elá, também não é preciso. Como uma criança que estava a provocar o pai e lhe esgotou a paciência e fica sentida com aquela brusca mudança de tom, dirige-se para a máquina. Pergunta-me 'é cheio, não é?' e digo que sim, mas só porque não o quero curto e nos primeiros meses ele trazia-me o café curto convencido que estava a satisfazer um capricho de um cliente habitual. Só percebi que era propositado e não sovinice quando, certa vez, encontrando-se a limpar uma mesa longe da máquina do café, completou a minha declamação "OLHE, ERA UM CAFÉZINHO!" com a instrução "e é curto para o senhor!" para o colega que se encontrava de serviço perto da máquina. Hoje desisti de pedir de café ali, há outro perto e cujo café não é mau. Assim que acabei a torrada, levantei-me e fui pagar e eles perguntam-me os dois muito tristes e muito espantados: "então hoje não bebe cafezinho?" e eu respondi "Não." Um não seco e curto. E foi assim. Paguei com uma nota de 5 euros nova e tudo, para verem que não foi por falta de trocos. Ia tomar o pequeno almoço no tasco com três metros quadrados, mas hesitei antes de entrar.
Um dos empregados, um jovem suburbano tatuado, do sporting, imitava uma
galinha desajeitada por entre os carros cá fora, para dar as boas
vindas a um chofer de presidente que eu sei que é do benfica porque se envolve em discussões inúteis com aqueles empregados, todos os dias. Pelos
vistos terá cantado de galo. Lá dentro a discussão ia animada.
sábado, 18 de maio de 2013
"melhor será a piada"
Expresso: Investe num tipo de humor arriscado.
Nilton: Não gosto do óbvio. O cliché, o sexo, os homens e as mulheres... detesto isso. O humor são equações. Numa equação, há a soma de dois números que dá um resultado final, o humor também é isso: uma soma de uma set up com uma punch line. O humor não deve ser dado de bandeja e eu gosto de dificultar sempre essa equação: quanto mais antagónicas forem as conexões entre os dois pontos, maior será a surpresa e melhor será a piada.
Nilton: Não gosto do óbvio. O cliché, o sexo, os homens e as mulheres... detesto isso. O humor são equações. Numa equação, há a soma de dois números que dá um resultado final, o humor também é isso: uma soma de uma set up com uma punch line. O humor não deve ser dado de bandeja e eu gosto de dificultar sempre essa equação: quanto mais antagónicas forem as conexões entre os dois pontos, maior será a surpresa e melhor será a piada.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
o diabo está nos detalhes (update)
Era preciso chamar a isso coadoção? Mesmo? E com o acordo ortográfico em cima e tudo? Não podia ser "adopção", não? Demoraram muitas horas a chegar a acordo?
- Aceitamos que pais do mesmo sexo acolham crianças e as eduquem como pais para toda a vida desde que... não lhe chamem adopção. Isso é que não. Propomos coacção. As crianças não podem escolher, são coagidas a terem pais homossex... Não? Então coadoção, pronto. Última oferta!
Já estou a ver os os miúdos, daqui a uns anos, a ouvirem a revelação da parte dos pais:
- Filho, temos uma coisa importante para te dizer... és coadotado.
-Que horror! Sempre pensei que fosse adoptado!
Ai Portugal, Portugal...

PS: entretanto informaram-me nos comentários que não é o mesmo que adopção e fica aqui o esclarecimento (obrigado a.i.) o que está em causa são apenas situações em que as crianças já vivem num familia gay, mas que apenas tem vinculos de filiação/adopção com um deles e não com o outro, limitando-se a alargar a possibilidade de adopção a(o) companheira(o) da sua mãe/pai (adoptante ou biológica), está apenas a salvaguardar as situações de facto que já existem, e em que os laços afectivos na familia já estão criados.
E sim, isto era só uma desculpa para meter o gif, não tem nada a ver mas...
- Aceitamos que pais do mesmo sexo acolham crianças e as eduquem como pais para toda a vida desde que... não lhe chamem adopção. Isso é que não. Propomos coacção. As crianças não podem escolher, são coagidas a terem pais homossex... Não? Então coadoção, pronto. Última oferta!
Já estou a ver os os miúdos, daqui a uns anos, a ouvirem a revelação da parte dos pais:
- Filho, temos uma coisa importante para te dizer... és coadotado.
-Que horror! Sempre pensei que fosse adoptado!
Ai Portugal, Portugal...
PS: entretanto informaram-me nos comentários que não é o mesmo que adopção e fica aqui o esclarecimento (obrigado a.i.) o que está em causa são apenas situações em que as crianças já vivem num familia gay, mas que apenas tem vinculos de filiação/adopção com um deles e não com o outro, limitando-se a alargar a possibilidade de adopção a(o) companheira(o) da sua mãe/pai (adoptante ou biológica), está apenas a salvaguardar as situações de facto que já existem, e em que os laços afectivos na familia já estão criados.
E sim, isto era só uma desculpa para meter o gif, não tem nada a ver mas...
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