quarta-feira, 21 de março de 2012

lição de moral



Tenho um super-poder que se tem desenvolvido com a idade e a experiência. Quando tenho um impulso a minha consciência alerta-me para o erro do impulso e aparece um impulso oposto, anulando o primeiro. Estou a tender para o zero.
Estava a brincar com a história do “super-poder”, é até bastante comum, chama-se maturidade e é por isso que os homens a sério tendem a falar pouco. Eu falo muito ainda, muito, muito, muito… Às vezes não me calo.

É muito injusta a apreciação que fazem de mim às vezes mas já nem reajo, suponho que será injusta a apreciação que eu faço dos outros ao achar que me apreciam mal. Viram? Foi um exemplo da anulação de que eu falava. Tenho medo de me anular num buraco negro. Mas também descobriram que afinal havia informação a sair dos buracos negros, na forma de raios gama. Talvez possa irradiar coisas!

Estou ficar incapacitado para lidar com o mundo do dinheiro. Cada vez me custa mais. Sinto-me como um psicopata mas ao contrário, ando a dar o dinheiro como raios gama. No outro dia dei um cigarro a um pedinte que me pediu um cigarro e que depois me ofereceu um lacinho cor de rosa com um alfinente e, quando me afastava cheio de pressa, ele gritou:
ISTO FOI UMA LIÇÃO DE MORAL!

Não sei o que quis dizer com aquilo. Afastei-me com pressa e com a desconfiança de que me fosse aborrecer mais. Ele pressentiu o meu desconforto e repreendeu-me à frente de uma dúzia de transeuntes? Ou gostou do cigarro e foi um agradecimento? Ambos? Zero.

CGTPop


GREVE GERAL, 2012
serigrafia
62x60cm
Colecção Berardo CCB

Tolan, agora em 3D







dain fagerholm

terça-feira, 20 de março de 2012

oração

Estou a ler o teu livro à beira do Douro, num banco num cais isolado, foi a Plaft que me o ofereceu pelos anos, mas ela também não te conhecia, tentou ler-te e atrofiou um bocadinho. Está sol mas está muito vento e tenho de pôr o capuz, a minha toca portátil. Para acender um cigarro tenho de fazer uma espécie de tenda com o casaco e aninhar-me todo torcido como os cães quando estão com frio.
A livraria colocou um poema da Florbela Espanca no meio do teu livro, por cortesia, parece que fazem isso em todos os livros que vendem. No Porto têm destas manias, são castiços e condenados à falência. Não li o poema, só vi que era da Florbela Espanca e, como se o vento soubesse da minha relação com a poesia, assim que abri o livro uma rajada levou a folha para a corrente forte do Douro. Que faça bom proveito ao mar.
Felizmente, foi o poema a voar e não o envelope com o salário da Plaft. Ela esqueceu-se do cheque num envelope dentro do livro. Quando vi o cheque pensei que era uma prenda para mim (a verdadeira prenda) e que o teu livro era um preâmbulo da prenda a sério - apesar do seu salário de pessoa de esquerda me dar vontade de rir.
Depois ligou-me muito aflita a perguntar se não havia um envelope com um cheque lá dentro e eu disse-lhe que sim por reflexo, podia ter dito que não.
Não percebo bem o teu livro, tenho de ser sincero, nem eu nem a Plaft, embora perceba uma nota de fundo e me estejas a ensinar qualquer coisa. Acho que o papel de certas coisas na arte, coisas mais radicais na forma, é o de expandir os limites das coisas mais consensuais que se farão amanhã.
Mas tens de nos dar desconto. A Plaft nunca revelou sequer um décimo do entusiasmo por qualquer coisa “cultural” ou “artística” como manifesta por uma francesinha especial ou uma coisa que são uns cachorrinhos que têm queijo e molho picante. Uma vez tinha tanta fome que parecia que ia chorar quando começou a comer. Eu nunca a fiz chorar com as cartas mais bem escritas que podes imaginar, a não ser quando ela já estava emocionalmente fragilizada com qualquer coisa (por exemplo, a tasca dos cachorrinhos estar fechada por ser domingo) e eu vou e aproveito para testar coisas literariamente comoventes que sirvam de elemento catártico para uma dor que não fui eu que pus lá.
E eu, eu tenho os meus preconceitos contra escrita que tem frases que as pessoas não dizem assim no dia a dia. Eu escrevo mais ou menos como falo. Mentira: comecei a falar como escrevo, inclusive, com a pontuação (particularmente as vírgulas) todas mal postas.
Também temos desconfiança de coisas muito sofridas , somos muito desconfiados disso. Tive um cão que tinha medo de ciganos, por exemplo. Há uma idade para a angústia existencial, costuma ser a adolescência, às vezes nas pessoas precoces é a própria infância. Se carregarmos essa sensação até à idade adulta então a profundidade dos abismos pode crescer ao infinito porque já não temos aquela esperança que, ao fim e ao cabo, reside nos corações dos jovens adolescentes, mesmo os mais desesperados, nem que seja o próprio corpo mudar para melhor como por magia e ficar mais bonito no espelho.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Rio de Janeiro



Fui ao Rio pela primeira vez na vida, num avião da Barraqueiro lá do brasil. Logo a chegar pelo ar percebi que era tudo um bocado absurdo, aquelas montanhas verdes, o mar, a água, não percebi muito bem o que ia lá fazer assim de fato e com um computador, não me parecia o género de sítio onde as pessoas levam o trabalho a sério. Também havia muitas casinhas, tipo milhões e milhões de casinhas com aspecto castiço, pareciam cabaninhas de lenhador.

Aterrámos e fiz o percurso Santos Dumont - Leblon, dentro de um confortável taxi com ar condicionado, um táxi "oficial". Paguei 70 reais. Depois de feitos os negócios e contadas as notinhas na mala, voltei para o aeroporto num táxi amarelo, daqueles com os quais sequestram pessoas e paguei apenas 35 reais, apesar de ter dado uma volta muito maior. Pedi ao taxista do taxi amarelo para me levar por "copabacana" (é copacabana, ficam a saber), ipanema e assim e vi aquilo. Foi giro. Vi o Pão de Açucar e o Cristo Rei lá ao longe. Eta mulher bonita, por todo lado. Praia, praia, praia, água de côco, o Arrumadinho a fazer jogging no Calçadão, enfim, tudo muito bonito e com aspecto de paraíso.

Falei com o taxista que era pretinho e honesto, não me assaltou nem sequestrou nem nada, fiquei muito agradecido. Era até bem disposto embora cheio de opiniões políticas de esquerda, preferia a qualidade de vida ao ritmo acelerado de São Paulo (yeah, tipo os alentejanos a criticar Lisboa...), contra a copa do mundo (tinha o argumento absurdo que os governos estoiram dinheiro em estádios e obras megalómanas hiper-inflaccionadas pelos prazos irreais destes eventos e pareceu-me desconhecer os exemplos de sucesso do nosso Euro e dos jogos olímpicos gregos, mas enfim...) e fazia acção social com música nas favelas. À procura de um ponto em comum entre nós, disse-lhe que havia de gostar de conhecer a Plaft que faz cenas desse tipo assim de esquerda e com artes.

Falámos de favelas, perguntei-lhe porque é que eu não tinha sido assaltado ainda e ele disse-me que a vida lá é normal, que o problema é a ostentação, usar fio de ouro e relógio caro é como botar minhoca na água. Disse-me que ali era seguro mas que mais para norte ficava o complexo do alemão e eu perguntei-lhe se esse complexo tinha alguma coisa a ver com a falta de colonialismo na devida altura como o resto dos povos europeus que resolveram esse assunto nos séculos XVI e XVII ou se era da vergonha do que fizeram aos judeus em meados do século XX. Não me respondeu, eles às vezes não percebem o que uma pessoa diz, temos de imitar o sotaque deles.

Ele explicou-me tudo sobre o Rio e as pessoas do Rio e pronto, risca mais uma cidade.

e para festejar os 500 fãs e o meu regresso à Pátria

terça-feira, 13 de março de 2012

e se minha escrita agora aparenta laivos de brasileirismo

... é porque estou lendo Clarice Lispector, a conselho da Plaft Sílvia. É raro ler mulheres ou ler autores sul americanos. Aqui é um dois em um. A ironia, é que gosto muito, combina bem. Talvez o que me enerve seja um homem escrever com aquele jeito de enrolar e inventar frases luxuriantes cheias de apalpadelas e coisas macias. Uma mulher está bem, eu deixo, mas só se for inteligente como a Clarice Lispector. Quando uma mulher deixa de ser inteligente, mas continua a escrever como uma mulher, acaba por escrever como o José Luís Peixoto e não queremos isso.

Homem que é homem, escreve como um americano ou um russo.

Um pequeno exemplo:


Clarice, no conto "O ovo e a galinha": «E eis que não entendo o ovo. Só entendo ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indirecto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem já viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver. Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe casca e forma. A partir deste instante exacto nunca existiu um ovo.» 


Bukowski: «Fiz uma omelete e estava bem boa.»

segunda-feira, 12 de março de 2012

tropicalia

Hoje na cidade frenética de São Paulo rebentou granizo e uma trovoada monstra com arranha céus em pano de fundo. Abriguei-me num boteco onde bebi uma cerveja. Caiu dilúvio bíblico de trinta minutos que não arrefeceu o calor húmido nem um pouco (amanhã deixo a gravata sossegada na gaveta). As ruas transformaram-se em rápidos e os carros correram mais lentos até a civilização fazer uma breve pausa. Serviu para me lembrar em que continente estou. Isso e a vegetação, verde escura e cerosa, que cresce por onde pode e retesa as fibras com a chuva, como se a cidade fosse um combate contra o chão fértil e misterioso povoado de fantasmas de índios que se esgueiram pelo asfalto e o betão. A luz do crepúsculo é muito bonita, depois de uma chuvada assim. Limpa o ar da poluição intensa e do pó e tudo brilha com muita nitidez.

sábado, 10 de março de 2012

vou ter saudades do carro

Beautiful Girl's reaction - part 2 - 1300hp twin turbo Corvette Z06

emel, não te metas com um passivo-agressivo procrastinador

Sou tão novinho e já tenho duas viaturas alemãs (uma não é exactamente minha e a outra foi o meu pai que me deu metade). A minha rua foi reclamada pela emel e a minha autorização de estacionamento da viatura que é minha expirou sem eu dar por isso. Descobri agora que expirou há uns meses e que fui coleccionando multas a pensar que era publicidade no pára-brisas. Nunca me ocorreu parar para ver que papéis vermelhos eram aqueles, só pensava "a Vodafone está mesmo desesperada, o que é que eles querem de mim!?" de cada vez que passava pelo carro. O outro, o mais potente e bonito, não tem a autorização da emel porque dá trabalho, tem de se tirar senha e esperar e eu não gosto de esperar. Então de vez em quando apanha uma multa se me deixo dormir de manhã e não o tiro da rua antes da emel atacar. É uma espécie de incentivo para acordar cedo. Tenho agora duas unidades de recebimento de multas no activo a competir uma com a outra. Três se contar com a da Plaft, Sílvia que já sofreu um ataque da emel pelo qual me responsabilizei. Como sou de direita, acho muito bem que a emel multe os carros e organize as coisas, desde que não tenha meios para me obrigar a pagar. Eventualmente, a emel fará as contas e compreenderá que pode realizar 20 ou 30% do seu orçamento anual se me aparecer à porta de casa com a PSP e um terminal de multibanco. Até lá, vamos encarar as coisas pela positiva.

Vou para o Brasil amanhã, São Paulo e Rio (em trabalho, claro) e tive de tirar os dois carros daqui da rua e deixá-los no único sítio num raio de 2km onde a emel não entra: o bairro social dos ciganos. Despedi-me das minhas viaturas com ternura e um até sempre e fui-me embora, acendendo um cigarro. Antes de virar a esquina ainda espreitei por cima do ombro. O meu carro alemão velhinho até parecia sossegado e pronto a dormir a sesta, mas o de 200cv tinha os faróis angustiados, entalado entre um 206 kitado e uma Ford Transit branca de 1995.

às vezes não consigo

Isto não é uma apreciação política, é meramente pessoal. Cavaco Silva é um homem anacrónico sem ser clássico, é primário sem ser simples, insensível, não tem humor e nunca brinca mas não é sério, não tem humanismo, defeitos interessantes ou qualidades para lá das que teria um homem remediado e respeitado pelas beatas da aldeia. É um provinciano mesquinho, tacanho, vaidoso, empertigado e ressentido. Pose de estado em frente ao espelho, não consegue existir nem descontrair, tem medo e, diz quem sabe, ele e a mulher chegam mesmo a ser dois azeiteiros sem mundo; duas caras de bacalhau seco, com apertos de mão indiferentes e contrariados, olhares baços, sem uma centelha de humildade e curiosidade. Não é rico, mas gostava de ser pobre só que não o deixam e quando diz que é pobre, todos ralham com ele de forma injusta. O coração, cheio de uma fé vazia. O Requiem de Mozart é uma dor de cabeça ligeira, um enfado, uma sonolência de domingo no sofá com naperons oferecidos pelo rancho folclórico. Cheira a incenso de capelas de Nossa Senhora, a naftalina de bandeiras nacionais bem dobradas na gaveta debaixo da gaveta dos peúgos e das ceroulas, a after shave do minipreço e a flores mortas.

sexta-feira, 9 de março de 2012

quando os matemáticos modernos conversam


─ Que rico lanchinho. Não sobrou nem uma Oreo. E falta pouco para o Dragon Ball, vou meter a gravar.
─ Acho que bebi demasiado ice tea, isto deve ter cafeína, começo com palpitações... O que se passa, Ludovico? Pareces mais stressado que um material com baixa termoelasticidade sujeito a fricção.
─Ontem falei com a tua irmã e disse-lhe que um dia ia descobrir a demonstração da conjectura de Poincaré e ela vai e diz-me “claro que vais, estás no bom caminho, é só procurares na direcção oposta de uma vagina”.
─ Deixa a minha irmã, é uma rapariga, elas não entendem. Devias esquecê-la. Já viste bem a pauta de notas dela? Parece um número binário... 1, 0, 1, 1 ,0... Esquece-a.
─ Eu não me consigo esquecer de nada. Lembras-te daquela vez que só por piada vimos o calendário no computador e andámos muitos anos para a frente?
─ Ainda te lembras de todos os dias da semana?
─ Sim! Até 2068, ainda bem que desviei a cara.
─ 30 de Julho de 2058?
─ Terça Feira. No outro dia quis ver se o rosto da tua irmã obedecia às proporções do número de ouro para perceber se era objectivamente bonita e ela deu-me um safanão quando lhe aproximei a régua e o esquadro da cara.
─ A minha irmã é completamente assimétrica! Se a tua pancada é simetria, porque não preferes antes a Inês lá da escola, é completamente simétrica.
─ E pesa 90 quilos, o rácio altura peso dela é claramente distorcido. Pelo menos não sou tarado por fractais, como o Flávio.
─ O que é que tens contra fractais?
─ Nada, nada, continua a ver o Dragon Ball.
─ Estás mesmo apaixonado, isso é extremamente preocupante. Olha que as olimpíadas são para a semana. Se não consegues ver que a minha irmã é assimétrica, como esperas ter objectividade perante os problemas de…
─ Não é nada assimétrica! Aposto contigo que os olhos estão no ponto intermédio do comprimento da cara, aquilo é claramente um rectângulo de proporção Phi, e a boca e o nariz estão nas secções de de ouro da distância entre os olhos e a base do queixo. É a mulher da minha vida! E aposto contigo a minha colecção de cartas de Magic contra a tua HP gráfica!
─ Os olhos ainda vá, mas o nariz nem penses, muito longe de 1,618 aquela proporção...
─ Não interessa. Eu acho a tua irmã bonita e quero casar com ela.
─ “Achas” Ludovico!? “Achas”? Como é que sabes que é a mulher da tua vida se não fizeste as contas? Não dizias que a Tânia era bonita e depois o Flávio mediu-lhe o rosto e aquilo dava 1,70 logo na forma da cara? Conta-lhe Flávio, conta ao Ludovico quando tu mediste a…
─ Tu mediste o rosto da Tânia?!
─  Eu queria ver se aquilo era um fractal, nem sequer me passou pela cabeça procurar simetria.
─Como pudeste fazer isso? Sem me contar! Eu até a tentei medir à distância com o Nível Topográfico do meu irmão que é topógrafo mas ela viu-me no meio dos arbustos e fugiu.
─ De qualquer forma ela mudou de escola, não sei porquê, não se adaptou à nossa.
─ Ludovico, não tens hipóteses com a minha irmã, mesmo que ela fosse simétrica, ela é tão primitiva que só come pão integral. Ela acha que uma derivada é tipo o queijo que é derivado do leite. Ela gosta de homens mais velhos e mais maduros. Tens de ser homem. Se tivesses barba como eu até podias ter hipóteses...
─ Tu tens barba? Tens um buço de pêlos tão fininhos que nem com um teorema de cauchy somavam um grama!
─ Claro que tenho barba! E se for preciso vou ali buscar a minha lâmina de barbear para vos calar!






(a pedido do vareta)

quinta-feira, 8 de março de 2012

quando as raparigas modernas conversam

Ontem foi o dia internacional da Matemática. Alguém se ralou? Não, pois não? Então agora tomem.


- Eu gosto muito destes modernos pensos.
- Eu também Dina, são tão francamente mais confortáveis do que a palha que a minha querida avó usava e certamente mais práticos que ir à capoeira apanhar pintainhos.
- Eu este mês sangrei profusamente. Estive vai não vai para espremer um destes para uma panela e fazer um arrozinho de cabidela para as visitas de domingo. Veio a casa o Padre Inácio, imaginem só.
- O Padre Inácio no sermão diz que não se pode confiar num animal que sangra e não morre.
- O Padre Inácio não percebe nada de raparigas modernas, minha querida, só de meninos de coro.
- Estes pensos são fabulosamente macios e absorventes, não me assam as bordas da cona como aquela marca mais barata.
- Não te esqueças que uma destas custa 15 escudos e as outras podem adquirir-se por módicos 8 escudos. A minha mãe quer que use a de 8 escudos, que para ela serve perfeitamente, mas a velha está na menopausa, tanto lhe faz... digo eu.
- Passa-me um cigarro minha querida.
- Toma. Celeste, trouxeste a vodka? Ai, graças a Deus, estou a precisar.
- Olhem, descobri uma coisa meninas, é uma lâmina de barbear própria para mulheres, para podermos depilar as pernas para estas apresentarem uma superfície suave e imaculada.
- Qual é a diferença para as lâminas deles?
- Nenhuma acho eu. É cor de rosa.
- Então vou continuar a usar a lâmina do meu irmão. O idiota pensa que tem uma barba forte porque vê aquilo cheio de pêlos e nem se recorda que só faz o buço uma vez por semana.




imagem retirada daqui

cheque mate

Podem assistir em directo e a cores ao Anão Gigante a dar-me uma tareia no xadrez. Por enquanto a igualdade material esconde uma óbvia vantagem posicional do micro desproporcionado que certamente se resolverá numa desvantagem material para o meu lado. Vamos ver. Se ele pensa que eu tenho medo de fazer a troca de rainhas está muito enganado. E vou fazer roque do lado da rainha nem que sacrifique uma peça. Levei duas tareias monumentais de um leitor do blogue que tem um rating de 1700 e tal . Devo dizer, contudo, que tenho 72% de vitórias e um rating de 1524 por enquanto, o que me deixa satisfeito. Ganhei a pessoas de diversas nacionalidades, alemães, ingleses e a um indiano pobre que jogava de um webcafé. Ao contrário do futebol, no xadrez não existe aquilo da surpresa do futebol, aquilo da bola ser redonda. Um jogador melhor ganha sempre a não ser que cometa um erro. E o erro retira o gozo à vitória do vencedor mais fraco. A magia só acontece entre dois jogadores do mesmo nível. Vem isto a propósito dos 5 golos do Messi contra o Bayern e da possibilidade do Benfica encontrar o Barcelona nos quartos. Coitado do Barcelona.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Namorar com uma actriz

Cena #5
─ O quê!?!? ESTÁS A BEIJÁ-LO!
─ Entornaste as pipocas todas!!
─ OLHA! OLHA AQUI! LÁBIOS A TOCAR EM LÁBIOS!
─ Estás encher o ecrã de dedadas. Ajuda-me a apanhar pipocas, está uma no meio das almofadas.
─ Olha o sentimento todo, olha tens as mãos na cintura dele e ele agarrou-te o pescoço aqui aos 32 minutos e 45 segundos, olha aqui as mãos e olha aqui as tuas, era necessário? Olha-me a tua cara de apaixonada! DIZ-ME QUE ISTO É 3D DIGITAL!
─ Tira isso do pause.

Cena #29
─ Estás a mentir. Não? Como é que eu sei? És actriz, podes fingir tudo. Estás mesmo chateada por ter dito aquilo? Desculpa... Mas estás mesmo chateada? Estás a fingir… não? Como é que eu sei? É a tua profissão, podes fingir tudo! Ok, estás mesmo chateada… Espera, volta para a cama! EU TAMBÉM ESTAVA A FINGIR QUE SOU PARVO! Ah ah, estava a brincar, estava a fing... VOLTA!

Cena #34
─ PÁRA TUDO! PÁRA TUDO! * Tolan sobe ao palco do teatro* PÁRA TUDO! Tu, tiras as patas de cima dela ou levas no focinho, não quero cá beijos e tu que estás a fingir que és pai dela, trataste-a mal na cena quatro do segundo acto, não voltas a falar-lhe nesse tom, ensaia lá isso melhor e com mais jeitinho *Tolan volta-se para o público* O que foi? Estão a olhar para onde!? Vão para casa! Não têm nada de melhor para fazer do que pagar bilhete para espiolhar a vida das pessoas?

estava a ver lixo no youtube e encontrei o video do baile de finalistas do meu curso de matemática aplicada



:')

segunda-feira, 5 de março de 2012

escrevi isto a ouvir em loop uma música (a arkansas do damien jurado) que postei no meu facebook mas a letra nem sequer tem nada a ver, é só a música e, tipo, o sentimento.

Às vezes a rever o romance tenho a sensação que aquilo que sou mesmo bom é em ter um blogue e, por exemplo, postar sobre rever um romance. O facto de escrever um romance dá um carácter sério a tudo isto digamos assim. Há dias, li uma citação do Henry James no On Writing do John Gardner a dizer que qualquer ficção longa na primeira pessoa é uma barbárie. E o John Gardner concorda. E chorei muito. É por isso que vou demorar 2 anos a ler o On Writing. Cada parágrafo abala todos os fundamentos da minha fé e preciso de… ahahah estou a brincar.

Mas a sério, não era preciso todo um capítulo sobre aquela cena da vaca da Helena de Tróia que gostava de ver os homens à porrada por causa dela como a Inês no recreio da primária. Não creio que o aspirante a escritor queira estar especialmente consciente da grandeza da Ilíada e de Homero. Foda-se. Isso é um pouco o mesmo que passarem youtubes do Maradona aos juvenis de uma equipa de futebol para os “motivar”. Ok, eu li as cenas todas do Homero (duas cenas). São fixes no sentido épico mas aquilo que mantém uma pessoa à tona da água são os 99% de coisas que se publicam. É disso que precisamos, a mediocridade amiga. O Homero, por exemplo, nem ganhou o prémio Saramago, era mesmo bom. Mas nem era disso que queria falar.
Queria falar de um quarto de hotel, do monstro das pringles, de levar um empurrão violento quando penso que estou acordado e quieto mas estou a ressonar, de um jardim romântico com uma gruta para patos, de peles coladas de suor que magoam quando se separam, de champanhe barato e morangos com nutela, de dois vultos ao longe varridos de um pontão por ondas gigantes enquanto tiravam fotos com iPhone, de patos a ensaiar as formações em ‘V’ e de orgamos de falar francês com tom de voz grave enquanto ela prova uma vieira caramelizada.
A cidade torna-se um musical e uma comédia quando estamos de mão dada ou então é o céu e as nuvens que fazem aquela cena bíblica dos raios a sair das nuvens no mar e eu penso tenho de me lembrar disto quando chegar a minha hora. Porque eu penso nisso às vezes, sem medo, mas mesmo assim um bocado aborrecido disto acabar nem que seja porque o sol vai inchar daqui a milhões de anos e engolir tudo isto numa bola de fogo mesmo que a ciência descubra o truque genético da imortalidade - apenas ao alcance da carteira das pessoas como eu (que escolheram o curso certo e nunca fazem greve). Eu gosto muito de vocês todos *

Bukowski disneyland

Koudlam : 'Alcoholic's Hymn' from Jamie Harley on Vimeo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

...e por falar nas portuguesas mais bonitas e no amor e na solidão

testosterona, he has it!

É claramente a Pipoca que veste as calças lá em casa por isso não entendo como é que ele se safa de levar uma sova e uma carta do advogado, com com posts destes que até começam com um "e não é que assim do nada tive a oportunidade da minha vida e fiquei pregado ao chão" a propósito da partilha recente de um espaço físico com a Luísa Beirão que considera a mulher mais bonita de portugal. É que esse post está para uma relação como ir para uma jaula de tigresas esfomeadas barrado de bife tártaro está para a integridade física. Se eu escrevesse 1/10 disso teria provavelmente a minha roupa a voar pela janela ao chegar a casa. À minha casa. Com o cachecol do Benfica a arder, meio carbonizado aos meus pés e a Plafty à janela, pelo meio de fumo de mais merdas minhas a arder, coisas com valor sentimental e que fossem combustíveis.

Nem é correcto dizer que a Luísa Beirão é a nº1 no campeonato da beleza objectiva portuguesa. Objectiva porque, como se trata de uma modelo, é apenas isso que transmite e podemos assumir que não podemos ter sentimentos platónicos por modelos (embora os possamos ter por actrizes, cantoras ou deputadas do bloco de esquerda). No campeonato das modelos, a Helena Coelho por exemplo é a mulher mais brut... mais engraçadinha vá, a Plaft é muito mais gira.

Eu sei que não sou perito em relações embora a culpa não seja minha pois não as deixaram frequentar os workshops ideais para aprenderem a não me desiludir. Contudo, gosto de pensar em mim como um macho alfa que não se deixa subjugar e é espontâneo, viril e livre, até porque a Sílvia Plaft gosta dos homens assim e têm de ser assim todos os dias, 24h por dia ou ela zanga-se e quando ela se zanga é mau e eu tenho medo e tenho de ir a correr meter-lhe rape drugs no vinho.

Fico sempre deprimido quando vejo que estou para o Arrumadinho como o Manuel Luís Goucha está para o Homem de Neandartal no que respeita à masculinidade.

Eu identifico-me com o Bukowski. Eu esforço-me a sério para cultivar a minha misoginia militante e um niilismo afectivo e depois vem um homem que escreve sobre cremes, dietas, escritores tipo ken follet, revistas metrosexuais e sonha com ténis e acessórios de moda e chega ali e tungas, consegue rebentar a escala de i dont give a fuck bitch com uma candura, inocência e espontaneidade só ao alcance dos génios que fingem que são exactamente o oposto.

caixa de correio

Há uma caixa de correio a transbordar de publicidade no rés do chão, é a minha, sempre a vomitar cartas. Entre a publicidade há cartas importantes, das finanças, da emel, da edp, da epal…
Odeio a caixa de correio. Quatro ou cinco vezes por ano abro a caixa de correio e cai-me um chorrilho de publicidade aos pés. Compra-me! Paga-me! Desconto! Saldos! Oportunidade!

Já fiquei sem luz, sem gás, sem net e sem água, umas quantas vezes. Já me aconteceu ligar a água quente e ela não vir e pensar “ok, tenho de contactar a lisboa gás ou que raio é” e encaro isso com normalidade e resignação.

Em dias bons, depois de ler livros de auto-ajuda, vou lá abaixo e faço a triagem pacientemente, com dois sacos de plástico, um para as cartas que interessam e as outras que são para a reciclagem, a publicidade, os catálogos da la redoute, do ikea, as cartas dos inquilinos que já morreram ou que já partiram. O desespero dos filhos da puta que distribuem publicidade é tão grande que às tantas já enfiam os panfletos à força pelas goelas da minha caixa de correio aos murros. Panfletos da worten amarrotados, fliers da remax a perguntar se quero vender a minha casa meio rasgados pelo ódio. O ódio é recíproco.

E as cartas do Estado para o meu avô que já morreu ou da PT para a minha ex que já foi. E tenho de explicar tudo? Tenho de explicar que algures numa base de dados certos nomes deviam ser substituídos pelo meu? Para quê? Vou morrer! Eles também.

As cartas que interessam (que me pedem cenas de dinheiro de diversa índole) vêm sempre num filho da puta de um crescendo cronológico.

Estimado cliente, encontra-se a pagamento a factura referente ao período de xis a xis

Estimado cliente, na ausência de pagamento até xis seremos forçados a cortar o fornecimento de xis

Etc. e por aí adiante.

Oh como os odeio e aos papeis, às cartas. Eu pago tudo. Eu pago para não me chatearem. Não me chateiem. Eu sou um contribuinte líquido para o PIB português, eu ainda agora vendi uma cena para o estrangeiro, dinheiro em caixa para Portugal. Façam de conta que não existo, tomem o meu código do multibanco.

Tenho a sensação que um dia tudo vai cair de repente. Estou a fazer amor e arrombam a porta e sou levado pela PSP num carro patrulha algemado e espreito pela janela e ela diz-me adeus, em roupão, na rua e na esquadra espancam-me e eu dou o nib e o pin e o puk e o paf e o plim, só quero que não me chateiem, eu compro, eu pago, eu aproveito a promoção, tomem, só quero que não me chateiem.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

header novo, vida nova

Gostam do novo header do blogue? Mesmo que não gostem, azar, o departamento de marketing deste blogue aprovou por unanimidade. Foi obra de um generoso cidadão anónimo que prefere manter-se como tal (generoso). O meu departamento de marketing também exige que a minha escrita mude em função deste header, para manter a consistência. Também agradecia que vocês participassem nesse esforço nos comentários neste blogue, na medida em que todos devemos estar à altura de um header assim tão profissional e bonito. Agradeço antecipadamente a vossa compreensão e espírito de cooperação.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

começou tudo aqui, num anúncio de pisang ambon



- Ó pai, ó pai, o que é que o senhor escreveu naquele bilhetinho à senhora?
- Sei lá... "dava-te uma que até choravas"
- Dava-lhe uma quê, pai?
- Pschiu, cala-te, vai começar a 2ª parte do filme.
- Mas dava-lhe uma quê pai? Porque é que ela ficou assim?
- Sei lá. Vá, cala-te pá, vem aí a mãe.
- Alors, la segunda parte já començou? Fiz pipoques!
- Maman, o pai diz que o senhor disse à senhora do anúncio que lhe dava uma que ela chorava.
- !?
- Epá, o puto está parvo, vá, vê o filme.
- Mas dava-lhe uma quê, maman?
- O papá.. n'est pas trés romantique.
- Foda-se, eu vou ao café do Rui.

 *Tolanito tira notais mentais:
1) pode-se escrever coisas às mulheres e perturbá-las.
2) o verde é a cor da aventura.
3) comprar pisang ambon.
4) escrever "dava-te uma que até choravas" num bilhete
5) dar 5 paus ao Chamuça ou ao Chico Cigano para que levem o copo de pisang ambon e o bilhete à Inês no recreio da escola.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

o meu estado de espírito está a limitar-me a amplitude estilística

Saí do táxi e entrei no frio da noite. Chovia e a baixa estava deserta. Fiquei um pouco mais sóbrio assim que o sopro gelado de norte me trespassou o velho sobretudo. Tentei acender um cigarro com um fósforo, depois outro, depois outro. O vento e a chuva apagava-me a chama e eu não a conseguia proteger com o meu corpo, com as minhas mãos. Então apareceu um Urso Rezingão muito grande e com as suas patas Tal como não a conseguira proteger. Dormiria esta noite no fundo do Tejo, na quietude total, por minha culpa. Caminhei pelas ruas onde o lixo arrastado pelos coelhinhos de limpeza aos saltos  pela água chuva para as sarjetas me recordava tudo o que eu já não era e queria esquecer. Precisava de um chazinho com mel da guaxinoa uma bebida forte e de jogar à sardinha com o esquilo generoso poker no casino. A minha vida acabara e eu sabia-o. O meu coração feliz que batia contente tralalala  de pedra iria definhar e esboroar-se como as fachadas dos prédios devolutos, coberto de compota de maçã acabadinha de preparar pela ursa grizzly tags e grafitis feitos por putos, filhos da rua, que iam dançar sobre o meu cadáver. A chuva parou e no asfalto negro as poças de água brilhavam como estrelinhas a cantar de mãos dadas e a sorrir :) diamantes de gelo...

foda-se...

*acende um cigarro*

*DLING DLONG*

É ELA É ELAAAA! :D