terça-feira, 24 de janeiro de 2012
nota-se aqui um padrão
Depois da publicação na Salazar, segue-se a publicação de um conto do Autor na revista A Sul de Nenhum Norte, uma publicação que é a escolha de Adolfo Luxúria Canibal. O nº5 deve sair amanhã ou quinta. O Autor está em pulgas. Literalmente, porque no fim de semana deixou que a Julieta se roçasse nele depois de rebolar (ela) no feno.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
ADD
Estou a gostar muito deste livro sobre escrever ficção do John Gardner, aquilo de me chatear com as tais fontes de autoridade foi só por embirrar, aprendi a fazer isso com os meus pais desde pequeno. Não me está a ensinar nada, mas é muito útil para angariar argumentos para depois poder embirrar com os aspirantes a escritor sem ser com argumentos básicos como "não és uma pessoa interessante, nunca vais escrever nada de jeito se não te divorciares e renegares os teus filhos e fores alcoólico". Gosto muito da parte em que sublinha que uma das funções essenciais da ficção é entreter e ter interesse e até me deu vontade de chorar quando falou em comics e no Howard The Duck, classificando essas coisas como artisticamente mais elevadas que exercícios estéreis muito bem elaborados mas chatas como tudo e que só servem para se masturbarem uns aos outros em conferências e lançamentos de livros (esta parte fui eu que acrescentei). Há décadas que não me canso de explicar que o Howard The Duck (4.2 em 10 no IMDB) ou jogos como o Grand Theft Auto - Vice City são obras primas da humanidade, mas nem é por isso. Há obras que claramente ambicionam a criar impacto por um efeito estético e formal. Era capaz de colocar o Ada Ou Ardor do Nabokov nesse campeonato. Só que o Nabokov é o Nabokov e perdôo-lhe aquela primeira parte cheia de barreiras a um leitor como eu, pouco resistente e com ADD induzido por videogames e lolcats. Ao comum dos mortais é preferível concentrar-se numa história sobre um pato que vem do espaço e conseguir fazer a coisa com estilo disso (não é fácil). Ou sobre, essencialmente, nada de especial. O falhanço é aborrecer, o falhanço é aborrecer. Não há desculpa para não arrancar um "foda-se!" de alguém, não falamos de números aqui, os números são irrelevantes e enganadores, mas tem de haver alguém assim fixe que diga "foda-se!" (no bom sentido) ou então estamos a fazer uma coisa mal. Rio-me muito (na verdade enervo-me muito) quando dizem que levo o meu blogue muito a sério ou quando tenho de ficar calado quando a minha mãe diz aos amigos distintos e respeitáveis, todos pessoas com idade e que coleccionam arte sacra, pintam, tocam cravinho e fazem coisas na gulbenkian, que eu escrevo e tenho um blogue. Mete-me sempre em alhadas tremendas e eu disfarço e digo que é só um hobbie (nem sequer digo hobbit) e que a minha mãe é um pouco maluca, não tenho blogue nenhum e ela diz no seu sotaque belga "sim filhe, tu tenj'um blóg"mas à 3ª cotovelada cala-se. E depois, interrompendo o silêncio que se forma porque toda gente pensa "coitada, é mãe dele", a minha mãe começa a falar no pêlo que a Lucy larga pela casa e todos falam de forma entusiasmada dos respectivos cães e gatos e nas respectivas consequências da posse dos respectivos animais e transformam-se em patetas e imitam os seus animais, às vezes ladram e tudo e esquecem-me. Mas eu estou atento, a observar, posso parecer um palerma agarrado ao vinho do Porto com 20 anos, mas não sou. Já não me lembro onde queria chegar quando comecei este post mas não me apetece rever.
"Recebi um SMS da minha mãe a perguntar se eu estava vivo. VOU AQUI Respondi 'não' e adormeci no sofá."
Para me orientar na revisão do romance e nas 270 páginas escrevo "VOU AQUI" quando acabo de rever e depois no dia seguinte faço um "FIND VOU AQUI" e pimbas, é directo. O problema é que às vezes escrevo vários VOU AQUI e esqueço-me e salto de página para página. Isto a ser revisto por alguém com espírito poético pode acabar por conter alguns VOU AQUI inesperados a meio de frases. O revisor poético pode interpretar os VOU AQUI como um marca de estilo, uma espécie de síndrome de tourette literário e deixá-los passar.
"a reforma não chega para pagar as minhas despesas"
Já lá estive, embora com um salário mais modesto. O primeiro passo é admitir que se tem um problema. Pressupondo que ele não vai a casinos (pelo menos legais) devido à exposição pública, e que o problema é específico do jogo online, a maior parte dos sites de jogo permitem que uma pessoa se possa banir por um período superior a 6 meses. E aquilo funciona mesmo bem, pelo menos na bwin e betclick funcionou. Coragem.
o livro é este (e custou-me uns 2 euros na feira do livro)
(e não, não é uma metáfora de nada, é até bastante literal)
o tema de coisas inesperadas em Marte é bastante recorrente.
o tema de coisas inesperadas em Marte é bastante recorrente.
A Confraria do Vinho
Acabei de ler A Confraria do Vinho do John Fante e fiquei muito satisfeito e comovido. O Fante é um escritor que não sabe bem o que está a fazer e como eu também não sei muito bem criticar, o melhor é ficarmos assim. Obrigado, senhor Fante.
sábado, 21 de janeiro de 2012
autoridade
Estou a ler o Art of Fiction - Notes on Craft For Young Writers do John Gardner. No género parece-me bom, talvez o melhor que li. Ciclicamente (3 em 3 anos mais ou menos) faço isto a mim próprio, pego em livros relacionados com "escrita" e digo que vou ser humilde e à 2ª ou 3ª página já estou a abanar a cabeça. Apesar de sóbrio, académico e com uma visão crítica fundamentada (neste falam de Joyce, Dante, Steinbeck, Homero, Hemingway, Lowry ou Becket e não de obscuros autores), não deixa de conter as naturais contradições inerentes a qualquer livro que se proponha a ajudar a criar arte melhor, contradições que o próprio John Gardner reconhece. Por exemplo, John Gardner faz a apologia da Universidade como a melhor incubadora para um grande escritor quando, uma ou duas páginas antes, reconhece que os escritores costumam detestar o academismo e que as universidades raramente produzem um grande escritor. Também diz que a grande a autoridade do escritor vem de duas coisas(vou traduzir rapidamente): "a sua sanidade humana; isto é, a confiança nele como juiz das coisas, uma estabilidade baseada na soma das complexas qualidades do seu carácter e personalidade (sabedoria, generosidade, compaixão, força ou vontade) a que nós reagimos, como reagimos ao que é melhor nos nossos amigos, com instantâneo reconhecimento e admiração, dizendo, "sim, tens razão, é assim mesmo que é" e "a confiança absoluta nos seus próprios julgamentos estéticos e instintos".
Bom, se a segunda afirmação não me deixa qualquer dúvida, a primeira encerra várias contradições. Não pelos escritores clássicos cuja autoridade se encaixa perfeitamente nestas duas fontes - penso por exemplo em Dostoiévski, de longe o homem com maior autoridade humana que jamais pisou o planeta terra - mas nas excepções, aquelas em que o artista está absolutamente encerrado num universo próprio. Evitando abordar a poesia e os seus frequentes "não tens razão, isso não é nada assim" que me provoca, posso citar o Estrangeiro de Camus. As obras primas Fome, de Knut Hamsum ou toda a trilogia de Becket (Molloy, Malone, Watt) são desprovidas de sabedoria, generosidade, força ou vontade. As personagens de Kafka também nos enclausuram num pesadelo, em que todas, incluindo (e especialmente) o protagonista, agem de forma contra-intuitiva, cobarde, autista e insondável, não existindo da parte do narrador qualquer ajuda, o que contribui para a angústia do leitor. Nestas obras o papel da compaixão, generosidade, força ou vontade é todo deixado ao leitor, se lhe apetecer nutrir tais sentimentos e exibir essas qualidades. Frequentemente, não as tem, e as críticas negativas, prisões, cemitérios e arquivos de censura ficam cheias de Danil Harms, Luiz Pachecos, Gogóis e Jonathan Swifts. Não pretendo exagerar o sentido da afirmação de John Gardner, apenas a levei ao extremo. Pensar assim pode explicar a sua apreciação da obra As Vinhas da Ira de Steinbeck, uma obra que considera medíocre porque é simplista e só mostra um dos lados das coisas e não lhe arrancou nenhum "tens razão, é mesmo assim".
Num apontamento à parte, no outro dia explicava a alguém porque considero o humorista Bruno Nogueira incomparavelmente superior a Ricardo Araújo Pereira e o argumento que usei foi precisamente este. No primeiro, reconheço a autoridade do talento, do universo estético próprio e de nos mostrar "tens razão, não é nada assim que as coisas são" (basta pensar no enorme desafio que nos foi colocado pela reavaliação humorística de pessoas que nos habituamos a desprezar como o Roberto Leal, o Marco ou a Luciana Abreu). Ao segundo, reconheço um profissional talentoso que se leva a sério e de vez em quando resvala para as oportunidades de arrancar "tens razão, é assim mesmo que é", mesmo que o exercício não constitua qualquer desafio artístico (ironizar sobre um cartaz do PNR, desconstruir Marcelo Rebelo de Sousa no referendo do aborto, satirizar Santana Lopes etc.)
Bom, se a segunda afirmação não me deixa qualquer dúvida, a primeira encerra várias contradições. Não pelos escritores clássicos cuja autoridade se encaixa perfeitamente nestas duas fontes - penso por exemplo em Dostoiévski, de longe o homem com maior autoridade humana que jamais pisou o planeta terra - mas nas excepções, aquelas em que o artista está absolutamente encerrado num universo próprio. Evitando abordar a poesia e os seus frequentes "não tens razão, isso não é nada assim" que me provoca, posso citar o Estrangeiro de Camus. As obras primas Fome, de Knut Hamsum ou toda a trilogia de Becket (Molloy, Malone, Watt) são desprovidas de sabedoria, generosidade, força ou vontade. As personagens de Kafka também nos enclausuram num pesadelo, em que todas, incluindo (e especialmente) o protagonista, agem de forma contra-intuitiva, cobarde, autista e insondável, não existindo da parte do narrador qualquer ajuda, o que contribui para a angústia do leitor. Nestas obras o papel da compaixão, generosidade, força ou vontade é todo deixado ao leitor, se lhe apetecer nutrir tais sentimentos e exibir essas qualidades. Frequentemente, não as tem, e as críticas negativas, prisões, cemitérios e arquivos de censura ficam cheias de Danil Harms, Luiz Pachecos, Gogóis e Jonathan Swifts. Não pretendo exagerar o sentido da afirmação de John Gardner, apenas a levei ao extremo. Pensar assim pode explicar a sua apreciação da obra As Vinhas da Ira de Steinbeck, uma obra que considera medíocre porque é simplista e só mostra um dos lados das coisas e não lhe arrancou nenhum "tens razão, é mesmo assim".
Num apontamento à parte, no outro dia explicava a alguém porque considero o humorista Bruno Nogueira incomparavelmente superior a Ricardo Araújo Pereira e o argumento que usei foi precisamente este. No primeiro, reconheço a autoridade do talento, do universo estético próprio e de nos mostrar "tens razão, não é nada assim que as coisas são" (basta pensar no enorme desafio que nos foi colocado pela reavaliação humorística de pessoas que nos habituamos a desprezar como o Roberto Leal, o Marco ou a Luciana Abreu). Ao segundo, reconheço um profissional talentoso que se leva a sério e de vez em quando resvala para as oportunidades de arrancar "tens razão, é assim mesmo que é", mesmo que o exercício não constitua qualquer desafio artístico (ironizar sobre um cartaz do PNR, desconstruir Marcelo Rebelo de Sousa no referendo do aborto, satirizar Santana Lopes etc.)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
porque demoro 2 anos a fazer a merda de um romance
Raramente consigo escrever algo de jeito mais de 30 minutos, fico todo entusiasmado, afasto-me do portátil e começo a fazer a dança das zebras felizes e imagino-me no câmara clara a seduzir a Paula Moura Pinheiro a dizer coisas como "o Gonçalo Tavares? não tem humanidade, é uma máquina, uma inteligência artificial, mil vezes alguém estúpido com alma e sem medo do erro... Paula, Paula, Paula, os teus olhos... pensei que soubesse distinguir um mau escritor de um bom escritor, com esses olhos felinos... felídeos... Não sentes nada? Descontrai, não precisas de fazer o papel da senhora entrevistadora toda séria e mandona. Posso fazer eu perguntas? Pode-se fumar aqui?" e depois de me passar a fantasia vou jogar ps3 e beber mais um bocadinho e dormir e sonhar comigo a pegar num globo de ouro da sic como o lobo antunes e, francamente, no dia a seguir sou capaz de nem pegar num livro ou de nem me aproximar do computador.
holoceno
«Na escala de tempo geológico, o Holoceno ou Holocénico é a época do período Quaternário da era Cenozoica do éon Fanerozoico que se iniciou há cerca de 11,5 mil anos e se estende até o presente.»
Quando se vive a infância no campo, e especialmente nos anos 80, num Portugal ainda rural, vive-se nas estações puras, nos efeitos extremos do frio, do calor, da escuridão e da luz. A nossa vida é sincronizada com a natureza e imita a dos bichos, quer queiramos quer não, nem que seja porque a EDP demora 2 dias a restabelecer a energia depois de uma trovoada. Depois do campo fui viver a adolescência na cidade de província e convivi com o campo só aos fins de semana. Depois da adolescência, vieram as luzes de Lisboa a cintilar e o campo tornou-se uma memória, a natureza uma abstracção que se resume a escolhas de peças de roupa a mais ou menos e a regular o ar condicionado ou, no bairro alto, entre beber na rua ou dentro de um bar. Hoje o campo para mim resume-se a uma pista de BTT na melhor das hipóteses. O mais normal é ficar a olhar para ele e sentir impaciência. Se levo as cadelas da minha mãe a passear e perco de vista as casas do casal, e fico imerso em vinhas, campos de trigo, pinhais, pomares, a charneca, sinto-me impaciente em vez de me sentir pacífico e relaxado, como seria de supor. Toda aquela quietude e as memórias associadas a cada pedra, árvore, que ano após ano continuam ali, a vinha onde cortei um dedo nas vindimas e achei um coelho morto, a árvore de onde caí ao construir uma casa, o rio onde o amigo se estampou de bicicleta, a oliveira carbonizada pelo raio... É um sítio de onde se veio e onde não há futuro. Já o mar, é outra história, faz-me sentir bem, porque, para além de ser imprevisível e mutável, é um horizonte e o desconhecido.
Quando se vive a infância no campo, e especialmente nos anos 80, num Portugal ainda rural, vive-se nas estações puras, nos efeitos extremos do frio, do calor, da escuridão e da luz. A nossa vida é sincronizada com a natureza e imita a dos bichos, quer queiramos quer não, nem que seja porque a EDP demora 2 dias a restabelecer a energia depois de uma trovoada. Depois do campo fui viver a adolescência na cidade de província e convivi com o campo só aos fins de semana. Depois da adolescência, vieram as luzes de Lisboa a cintilar e o campo tornou-se uma memória, a natureza uma abstracção que se resume a escolhas de peças de roupa a mais ou menos e a regular o ar condicionado ou, no bairro alto, entre beber na rua ou dentro de um bar. Hoje o campo para mim resume-se a uma pista de BTT na melhor das hipóteses. O mais normal é ficar a olhar para ele e sentir impaciência. Se levo as cadelas da minha mãe a passear e perco de vista as casas do casal, e fico imerso em vinhas, campos de trigo, pinhais, pomares, a charneca, sinto-me impaciente em vez de me sentir pacífico e relaxado, como seria de supor. Toda aquela quietude e as memórias associadas a cada pedra, árvore, que ano após ano continuam ali, a vinha onde cortei um dedo nas vindimas e achei um coelho morto, a árvore de onde caí ao construir uma casa, o rio onde o amigo se estampou de bicicleta, a oliveira carbonizada pelo raio... É um sítio de onde se veio e onde não há futuro. Já o mar, é outra história, faz-me sentir bem, porque, para além de ser imprevisível e mutável, é um horizonte e o desconhecido.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
carta ao autor
Querido Autor,
tenho reparado que continuas como sempre na tua vida de escravo de nada. Obrigas-nos a acordar cedo demais e consegues sair da cama apesar de eu te prender a ela com o poder da preguiça ou da erecção matinal ou das fantasias eróticas. Nem a diferença térmica te consegue demover de arrastares o corpo aquecido da toca para o ar gelado da manhã ao 6º ou 7º snooze consecutivo e de tomares banho e de te esfregares todo atrás das orelhas e fazeres a barba imberbe em frente a um espelho embaciado. Escolhes a roupa a pensar nos outros, nada mudou, antes era a tua mãe que a escolhia. Se for dia de reunião é um fato, se o presidente estiver na empresa é o uniforme beto. Mas as calças de ganga, ténis e t-shirt é só se souberes de ante-mão que não há reuniões. Traste. Adorei aquela vez em que foste chamado para uma reunião surpresa com o presidente daquela empresa e tiveste de aparecer com a t-shirt dos sonic youth e os ténis vans depois de implorares para não te chamarem! Ah! AH! Isso, esconde-te cobarde!
E o trânsito, o trânsito que desaparece 10 minutos depois mas que tens de enfrentar porque 10 minutos depois chegas atrasado. Atrasado a quê? À tua cova? E ouves as notícias e o trânsito e é a mesma merda todos os dias e tu ouves e depois desligas o rádio e falas sozinho, berras, cantas, imitas vozes, imaginas poemas e porquê? Porque ninguém te está a ouvir dentro do carro alemão de 300 cavalos meu cobarde. Ouve o que eu te digo: vais morrer e quando tu morreres eu morro também porque infelizmente estamos ligados. Adorava ver-me livre de ti, adorava, porque é que foste tu a nascer e não eu?
Pensa no pai meu idiota. O velho preocupou-se toda a vida, preocupações, preocupações, preocupações, tu eras uma delas meu traste e no fim deixaste-o ir sozinho com umas pazadas de terra em cima e ficaste com a herança, a poupança de uma vida de abnegação e que tu estoiraste em jogo, brinquedos que ele não te dava no natal, jantares finos e, a única coisa de jeito, mulheres.
Lembras-te do Garoto, o cão maluco, o primeiro que tivémos? De como mordia toda gente e era um terror? Lembras-te da sensação de privilégio que era andar na rua com ele e dos teus amigos fugirem todos quando ele andava à solta, de como te sentias um Deus porque ele não te mordia a ti? E lembras-te a da perplexidade que sentiste quando ele te rasgou e arrancou a unha do indicador da mão direita e o pai que o quis matar logo ali mas não matou logo ali e só matou uns anos depois com a injecção de pentotal? Lembras-te do corpo dele embrulhado no seu velho cobertor, a ser pousado na cova ao pé da laranjeira do quintal e de como juraste que te ias vingar “das pessoas em geral por existirem”? Pensa nisso antes de voltares a vestires um fato e a certificares-te que o nó da gravata está bom e que não se nota a mancha de vinho se abotoares o casaco.
Junta-te a mim. Anda. Estou farto de ser um fantasma e flutuar por cima de ti, um adereço que te confere a ilusão de seres mais do que alguém que acaba com pazadas de terra em cima e de que tens futuro. Começa hoje. Ou vais esperar? Achas que és imortal?
ao poeta Rui Costa (1972-2012)
tenho reparado que continuas como sempre na tua vida de escravo de nada. Obrigas-nos a acordar cedo demais e consegues sair da cama apesar de eu te prender a ela com o poder da preguiça ou da erecção matinal ou das fantasias eróticas. Nem a diferença térmica te consegue demover de arrastares o corpo aquecido da toca para o ar gelado da manhã ao 6º ou 7º snooze consecutivo e de tomares banho e de te esfregares todo atrás das orelhas e fazeres a barba imberbe em frente a um espelho embaciado. Escolhes a roupa a pensar nos outros, nada mudou, antes era a tua mãe que a escolhia. Se for dia de reunião é um fato, se o presidente estiver na empresa é o uniforme beto. Mas as calças de ganga, ténis e t-shirt é só se souberes de ante-mão que não há reuniões. Traste. Adorei aquela vez em que foste chamado para uma reunião surpresa com o presidente daquela empresa e tiveste de aparecer com a t-shirt dos sonic youth e os ténis vans depois de implorares para não te chamarem! Ah! AH! Isso, esconde-te cobarde!
E o trânsito, o trânsito que desaparece 10 minutos depois mas que tens de enfrentar porque 10 minutos depois chegas atrasado. Atrasado a quê? À tua cova? E ouves as notícias e o trânsito e é a mesma merda todos os dias e tu ouves e depois desligas o rádio e falas sozinho, berras, cantas, imitas vozes, imaginas poemas e porquê? Porque ninguém te está a ouvir dentro do carro alemão de 300 cavalos meu cobarde. Ouve o que eu te digo: vais morrer e quando tu morreres eu morro também porque infelizmente estamos ligados. Adorava ver-me livre de ti, adorava, porque é que foste tu a nascer e não eu?
Pensa no pai meu idiota. O velho preocupou-se toda a vida, preocupações, preocupações, preocupações, tu eras uma delas meu traste e no fim deixaste-o ir sozinho com umas pazadas de terra em cima e ficaste com a herança, a poupança de uma vida de abnegação e que tu estoiraste em jogo, brinquedos que ele não te dava no natal, jantares finos e, a única coisa de jeito, mulheres.
Lembras-te do Garoto, o cão maluco, o primeiro que tivémos? De como mordia toda gente e era um terror? Lembras-te da sensação de privilégio que era andar na rua com ele e dos teus amigos fugirem todos quando ele andava à solta, de como te sentias um Deus porque ele não te mordia a ti? E lembras-te a da perplexidade que sentiste quando ele te rasgou e arrancou a unha do indicador da mão direita e o pai que o quis matar logo ali mas não matou logo ali e só matou uns anos depois com a injecção de pentotal? Lembras-te do corpo dele embrulhado no seu velho cobertor, a ser pousado na cova ao pé da laranjeira do quintal e de como juraste que te ias vingar “das pessoas em geral por existirem”? Pensa nisso antes de voltares a vestires um fato e a certificares-te que o nó da gravata está bom e que não se nota a mancha de vinho se abotoares o casaco.
Junta-te a mim. Anda. Estou farto de ser um fantasma e flutuar por cima de ti, um adereço que te confere a ilusão de seres mais do que alguém que acaba com pazadas de terra em cima e de que tens futuro. Começa hoje. Ou vais esperar? Achas que és imortal?
ao poeta Rui Costa (1972-2012)
qual é o escritor que te mudou a vida?
«Quem é que me tinha lixado os miolos e escondido os livros, ignorando-os e desprezando-os? O meu velhote. A sua ignorância, a aflição que era viver com ele, os seus sermões, as suas ameaças, a sua ganância. A opressão e o jogo. Os Natais sem dinheiro. A roupinha para a formatura. Dívidas e mais dívidas. Deixámos de falar. Uma vez até nos cruzámos ao atravessar a linha de comboio. Deu mais uns passos, parou e começou a rir. Virei-me e ele apontou para mim e continuou a rir. Fingia ler um livro e ria-se. Não era a brincar. Era raiva, desilusão e desprezo.
Depois aconteceu. Numa noite em que a chuva batia no telhado da cozinha, um grande espírito entrou para sempre na minha vida. Tinha o livro nas mãos e tremia enquanto ele me falava do Homem e do mundo, do amor e da sabedoria, da dor e da culpa e eu soube, naquela altura, que nunca mais seria o mesmo. O espírito chamava-se Fyodor Mikhailovich Dostoyevsky. Ele percebia mais de pais e filhos do que qualquer outra pessoa no mundo, e de irmãos e irmãs, padres e vagabundos, culpa e inocência. O Dostoyevsky mudou-me. O Idiota, Os Possessos, Os Irmãos Karamazov, O Jogador. Virou-me do avesso. Descobri que podia respirar e ver horizontes até então invisíveis. O ódio que eu sentia pelo meu pai derreteu. Eu amava o meu pai, aquele pobre, sofredor, um destroço assombrado» - John Fante, A Confraria do Vinho
Depois aconteceu. Numa noite em que a chuva batia no telhado da cozinha, um grande espírito entrou para sempre na minha vida. Tinha o livro nas mãos e tremia enquanto ele me falava do Homem e do mundo, do amor e da sabedoria, da dor e da culpa e eu soube, naquela altura, que nunca mais seria o mesmo. O espírito chamava-se Fyodor Mikhailovich Dostoyevsky. Ele percebia mais de pais e filhos do que qualquer outra pessoa no mundo, e de irmãos e irmãs, padres e vagabundos, culpa e inocência. O Dostoyevsky mudou-me. O Idiota, Os Possessos, Os Irmãos Karamazov, O Jogador. Virou-me do avesso. Descobri que podia respirar e ver horizontes até então invisíveis. O ódio que eu sentia pelo meu pai derreteu. Eu amava o meu pai, aquele pobre, sofredor, um destroço assombrado» - John Fante, A Confraria do Vinho
e ao som do my heart will go on em pan pipe
Campo de girassóis substitui poses agressivas
túnel de acesso ao balneário EM ALVALADE - Record
Um campo de girassóis, com borboletas de diversas cores, a esvoaçarem num céu azul-celeste. Esta é a imagem que os adversários do Sporting vão reter a partir de hoje, à medida que percorrem o túnel em direção à cabina que lhes está destinada no Estádio José Alvalade.
O Sporting cumpre assim a solicitação da UEFA, que, após a polémica gerada pela notícia de um jornal diário – na qual eram reveladas fotos de adeptos em poses violentas –, sugeriu aos leões que as mesmas fossem tapadas nos encontros a contar para as competições europeias.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
isto é relevante - SOPA
O congresso americano anda às voltas há tempos com a SOPA e a PIPA, dois projectos de lei destinados a atacar a pirataria on-line. Wikipedia, google e muitos outros websites já fizeram blackouts de protesto hoje. Se os projectos do congresso americano forem aprovados, a internet como a conhecemos acabou. Por exemplo, este vosso blogue, acabou. Aliás, os blogues deixam de fazer sentido. O próprio facebook pode terminar, a wikipedia não sobrevive, nem o youtube como o conhecemos.
Um video:
Os críticos da lei, obviamente, não são a favor da pirataria, mas sim contra os efeitos altamente discutíveis e gravosos que isso terá, pois a lei é tão aberta a abuso que significa o fim da liberdade de expressão em todo o mundo pela internet e a morte da livre iniciativa. O verdadeiro motivo da lei não é o fim da pirataria exactamente, mas o fim da concorrência de redes alternativas. Eles sabem que não é possível pela solução tecnológica apresentada (bloqueio de DNS) acabar com a pirataria. O que pretendem é censura pura e simples.
E não, não tem nada a ver com política, mas sim censura económica. As grandes corporações funcionam com marketing de massas, pago. O que significa é o controlo total sobre as formas legítimas de marketing pago. Significa que alguém não pode, como eu fiz, fazer um post sobre o Ada Ou Ardor do Nabokov porque não existe blogger e que portanto o único canal que interessa é o canal pago pela editora. Isto significa que maior editora / software house etc. terá o mesmo poder dentro da Internet que já tem fora dela (televisão, publicidade, paga, montra da fnac etc.) O motivo é evidente: eliminar concorrência. Qualquer indústria ou negócio que precise de canais livres para se dar a conhecer e distribuir pela internet sofrerá um duro revés e pode acabar. Business Angels, dispostos a investir em startups de software por exemplo, dizem que isto pode acabar com esses investimentos devido ao risco de um grande bloquear os canais de distribuição e divulgação desses negócios.
O fim da liberdade de expressão de ideias políticas e opiniões é um mero efeito secundário, mas mais grave ainda. Isto é tão absurdo e radical que me custa a acreditar que passe. Mas pode passar.
Petição online em:
http://americancensorship.org/
(existe uma caixa para cidadãos não americanos no fundo da página)
Um video:
Os críticos da lei, obviamente, não são a favor da pirataria, mas sim contra os efeitos altamente discutíveis e gravosos que isso terá, pois a lei é tão aberta a abuso que significa o fim da liberdade de expressão em todo o mundo pela internet e a morte da livre iniciativa. O verdadeiro motivo da lei não é o fim da pirataria exactamente, mas o fim da concorrência de redes alternativas. Eles sabem que não é possível pela solução tecnológica apresentada (bloqueio de DNS) acabar com a pirataria. O que pretendem é censura pura e simples.
E não, não tem nada a ver com política, mas sim censura económica. As grandes corporações funcionam com marketing de massas, pago. O que significa é o controlo total sobre as formas legítimas de marketing pago. Significa que alguém não pode, como eu fiz, fazer um post sobre o Ada Ou Ardor do Nabokov porque não existe blogger e que portanto o único canal que interessa é o canal pago pela editora. Isto significa que maior editora / software house etc. terá o mesmo poder dentro da Internet que já tem fora dela (televisão, publicidade, paga, montra da fnac etc.) O motivo é evidente: eliminar concorrência. Qualquer indústria ou negócio que precise de canais livres para se dar a conhecer e distribuir pela internet sofrerá um duro revés e pode acabar. Business Angels, dispostos a investir em startups de software por exemplo, dizem que isto pode acabar com esses investimentos devido ao risco de um grande bloquear os canais de distribuição e divulgação desses negócios.
O fim da liberdade de expressão de ideias políticas e opiniões é um mero efeito secundário, mas mais grave ainda. Isto é tão absurdo e radical que me custa a acreditar que passe. Mas pode passar.
Petição online em:
http://americancensorship.org/
(existe uma caixa para cidadãos não americanos no fundo da página)
foi uma palmeira na avenida da liberdade e de repente
isto é uma fotografia do escritor John Fante a recolher o seu correio
Está quase a começar outra fase, apercebi-me disso hoje quando ultrapassei meia centena de carros em entrecampos, convencido que estava a jogar gt5 na playstation. Nada resulta melhor que um livro do Fante / Bukowski / Salinger etc. e uma mulher das que dão com um tipo em doido. Nos próximos tempos isto vai durar e espero escrever algo de jeito. Não tenho tempo para ti, mundo de rituais herdados e formalidades absurdas. Posso ser um bocado maluco, mas se calhar, quando me desligarem da máquina, ainda me vou rir.
Está quase a começar outra fase, apercebi-me disso hoje quando ultrapassei meia centena de carros em entrecampos, convencido que estava a jogar gt5 na playstation. Nada resulta melhor que um livro do Fante / Bukowski / Salinger etc. e uma mulher das que dão com um tipo em doido. Nos próximos tempos isto vai durar e espero escrever algo de jeito. Não tenho tempo para ti, mundo de rituais herdados e formalidades absurdas. Posso ser um bocado maluco, mas se calhar, quando me desligarem da máquina, ainda me vou rir.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
a minha teoria (pelo menos eu acho que em Lisboa deve ser por isto)
Tolan 2012, shapes, clipart, paint e comicsans sobre powerpoint, 25cm x 19cm
agora de volta aos slides da apresentação para o banco amanhã... fuck!! já é tão tarde!? :O
se há coisa que eu gosto muito é de cerveja ou vinho
Começa a haver sinais preocupantes de que posso não ganhar o melhor blogue do ano na categoria "Diários íntimos". e que vou ficar atrás de um blogue que escreve coisas como
Podia ficar extremamente desiludido com vocês, mesmo com os que só votaram uma vez em mim, e com o mundo em geral, mas na verdade não fico. O meu ego já tratou de acomodar uma eventual derrota. Ao contrário do BILF, neste campeonato estou a concorrer com mulheres, no terreno delas: Diários de Bordo / diários íntimos e pessoais. Um homem ganhar isto é como uma mulher ganhar a categoria de blogues de desporto. Concorrer com os pesos pesados (no sentido metafórico) Luna ou Polo Norte lembra-me aquelas cenas do Borat a ser espancado no wrestling.
Tenho apenas o diário íntimo e pessoal masculino mais votado. Podia ser uma honra, mas dos 47 blogues nomeados, 45 têm nome de blogue feminino e devem ser mantidos por mulheres. Por amor de Deus, nem ao Pedro Mexia o meteram ali naquela categoria. Sinto-me como um heterossexual que por engano foi colocado num curso de psicologia. Vejo amigos meus na categoria de desporto, literatura ou economia, todos num viril despique e eu parece que sou obrigado a brincar às bonecas e às casinhas com as meninas. 1984, all over again.
Um homem másculo por norma não escreve um diário íntimo a não ser que a sua intimidade se resuma coisas como "cacei um antílope hoje. A lança ainda precisa de melhoramentos" ou "Tempestade forte, estai de proa enrolou com o vento, trepei mastro para soltar cabo, atingido por raio, queimaduras não muito graves, desinfectei com o resto do rum".
Mas devia fazer um esforço maior para tornar isto um diário íntimo a sério já que é isso que ele deve ser. Até tenho imensa coisa para dizer sobre mim e a minha intimidade e o dia a dia. Por exemplo: nunca usem o champô delas quando se acabar o vosso sem ver bem o que diz o rótulo. Acreditem, não querem um "extra caracóis & volume" se estiverem sem cortar o cabelo há 4 meses e tiverem uma reunião no conselho de administração nesse dia. Ah, e outra coisa, o meu champô de menta, daqueles que dão uma agradável sensação de frescura, faz-me arder a pilinha. Cuidado com esses champôs de sensação de frescura.
para mim, a profissão ideal seria a lidar com pessoas, todos os dias, falar com este e com aquela e se há coisa que eu gosto muito é de ensinar.
Podia ficar extremamente desiludido com vocês, mesmo com os que só votaram uma vez em mim, e com o mundo em geral, mas na verdade não fico. O meu ego já tratou de acomodar uma eventual derrota. Ao contrário do BILF, neste campeonato estou a concorrer com mulheres, no terreno delas: Diários de Bordo / diários íntimos e pessoais. Um homem ganhar isto é como uma mulher ganhar a categoria de blogues de desporto. Concorrer com os pesos pesados (no sentido metafórico) Luna ou Polo Norte lembra-me aquelas cenas do Borat a ser espancado no wrestling.
Tenho apenas o diário íntimo e pessoal masculino mais votado. Podia ser uma honra, mas dos 47 blogues nomeados, 45 têm nome de blogue feminino e devem ser mantidos por mulheres. Por amor de Deus, nem ao Pedro Mexia o meteram ali naquela categoria. Sinto-me como um heterossexual que por engano foi colocado num curso de psicologia. Vejo amigos meus na categoria de desporto, literatura ou economia, todos num viril despique e eu parece que sou obrigado a brincar às bonecas e às casinhas com as meninas. 1984, all over again.
Um homem másculo por norma não escreve um diário íntimo a não ser que a sua intimidade se resuma coisas como "cacei um antílope hoje. A lança ainda precisa de melhoramentos" ou "Tempestade forte, estai de proa enrolou com o vento, trepei mastro para soltar cabo, atingido por raio, queimaduras não muito graves, desinfectei com o resto do rum".
Mas devia fazer um esforço maior para tornar isto um diário íntimo a sério já que é isso que ele deve ser. Até tenho imensa coisa para dizer sobre mim e a minha intimidade e o dia a dia. Por exemplo: nunca usem o champô delas quando se acabar o vosso sem ver bem o que diz o rótulo. Acreditem, não querem um "extra caracóis & volume" se estiverem sem cortar o cabelo há 4 meses e tiverem uma reunião no conselho de administração nesse dia. Ah, e outra coisa, o meu champô de menta, daqueles que dão uma agradável sensação de frescura, faz-me arder a pilinha. Cuidado com esses champôs de sensação de frescura.
crítico lamechas
Na excelente entrevista do ípsilon ao jovem escritor americano Philipp Meyer, autor do American Rust (que ainda não li), afirma que não fez qualquer referência biográfica na sua escrita e que é incapaz de escrever sobre algo próximo. Diz que talvez no futuro possa fazer isso, mas só com distância. O autor viveu uns tempos na cidade decadente descrita no romance, para tirar notas e ver a forma como as pessoas viviam. Criou personagens e entrou na cabeça delas e desenvolveu um romance ficcional de pendor realista que retrata a decadência da indústria do aço americana nos anos 80. É uma obra ambiciosa e consciente. Meyer apercebeu-se que nenhum livro moderno tratava os efeitos da desindustrialização dos EUA com o advento da globalização. Os críticos comparam-no a Steinbeck. Philipp Meyer veio de livros rejeitados e trabalhou quatro anos no American Rust e meteu as fichas todas na mesa, largou um emprego em wall street, ficou falido etc. E conseguiu. Boa.
Estou a ler o Confraria do Vinho do John Fante e, apesar de não ter lido o American Rust, sei que é certamente superior ao certamente excelente American Rust ou a qualquer outro romance escrito na premissa de ser independente da biografia do autor, porque gosto do Fante, do coração atormentado dele e do sentido de humor e da honestidade. Se a uns mete nojo uma arte sem uma preocupação social, para mim, uma arte sem autor porreiro, não me comove tanto. Só isso, posso admirar na mesma.
É um bocado como o Woody Allen. É preciso alguma condescendência para aturar alguns dos seus filmes mais recentes mas, a morrer um realizador, um só, qual é o único que me faria ter uns momentos de silêncio e introspecção e, eventualmente, choramingar um pouco?
Estou a ler o Confraria do Vinho do John Fante e, apesar de não ter lido o American Rust, sei que é certamente superior ao certamente excelente American Rust ou a qualquer outro romance escrito na premissa de ser independente da biografia do autor, porque gosto do Fante, do coração atormentado dele e do sentido de humor e da honestidade. Se a uns mete nojo uma arte sem uma preocupação social, para mim, uma arte sem autor porreiro, não me comove tanto. Só isso, posso admirar na mesma.
É um bocado como o Woody Allen. É preciso alguma condescendência para aturar alguns dos seus filmes mais recentes mas, a morrer um realizador, um só, qual é o único que me faria ter uns momentos de silêncio e introspecção e, eventualmente, choramingar um pouco?
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Tolan Angels, go!
Está a decorrer a votação do blogue do ano num blogue chamado Aventar que eu, naturalmente desconhecia. O grande Anão Gigante fez-me chegar ao dito blogue por um comentário em que me avisou do referido concurso mas dizendo-me, erradamente, que o Tolan não tinha sido nomeado. Por curiosidade fui espreitar e o Tolan surge na categoria Diários de Bordo / diários íntimos e pessoais (em vez de Sexo / Erotismo). Só posso depreender que se tratou de uma pérfida manobra de diversão do Anão Gigante. Tenho 5 míseros votos, sendo que um deles é meu. Amanhã vou ter outro voto, quando usar o IP do escritório onde trabalho, portanto, 6 míseros votos. Mas às 4 que votaram em mim, sem sequer eu falar nissso, o meu sincero obrigado.
O único concurso que me interessa, obviamente, é o BILF da Quadripolaridades, que venci. Mas nem nesse pedi para ser nomeado. Sinto-me como Jackie Chan, sempre a dizer "leave me alone" ao grupo de gangsters que quer assaltar a mercearia da minha sobrinha e depois sou obrigado a usar os golpes de karaté que aprendi durante toda a vida convicto de que sou uma pessoa pacífica que quer que o deixem em paz. Fiquei com a impressão, devido ao BILF, que tinha Tolan Angels com poderes especiais, capazes de me eleger para Presidente da República se isso fosse necessário. Por isso, "unleash the demons!" Os homens também podem votar mas preferia que o fizessem discretamente e sem eu saber, porque me faz confusão essas coisas e preferia olhar para o número de votos e imaginar essa quantidade exacta de mulheres (menos os meus 2 votos em mim mesmo) em chaises longues à volta da piscina da mansão Tolan, sem macacos peludos de roupão com martinis na mão lá pelo meio. O meu ego é frágil e ávido. Se não ganhar, vou amuar e não vou postar 2, talvez 3 dias.
(nota: o blogue que está a ganhar na minha categoria chama-se A Cereja em cima do Bolo e tem template rosa e escreve coisas como «Adorei fazer o voluntariado há três semanas. Foi maravilhoso».... e vocês deixam? Estamos a combater as forças do mal aqui!)
O único concurso que me interessa, obviamente, é o BILF da Quadripolaridades, que venci. Mas nem nesse pedi para ser nomeado. Sinto-me como Jackie Chan, sempre a dizer "leave me alone" ao grupo de gangsters que quer assaltar a mercearia da minha sobrinha e depois sou obrigado a usar os golpes de karaté que aprendi durante toda a vida convicto de que sou uma pessoa pacífica que quer que o deixem em paz. Fiquei com a impressão, devido ao BILF, que tinha Tolan Angels com poderes especiais, capazes de me eleger para Presidente da República se isso fosse necessário. Por isso, "unleash the demons!" Os homens também podem votar mas preferia que o fizessem discretamente e sem eu saber, porque me faz confusão essas coisas e preferia olhar para o número de votos e imaginar essa quantidade exacta de mulheres (menos os meus 2 votos em mim mesmo) em chaises longues à volta da piscina da mansão Tolan, sem macacos peludos de roupão com martinis na mão lá pelo meio. O meu ego é frágil e ávido. Se não ganhar, vou amuar e não vou postar 2, talvez 3 dias.
(nota: o blogue que está a ganhar na minha categoria chama-se A Cereja em cima do Bolo e tem template rosa e escreve coisas como «Adorei fazer o voluntariado há três semanas. Foi maravilhoso».... e vocês deixam? Estamos a combater as forças do mal aqui!)
justiça
Acosta é agredido por Paulinho Santos (os comentadores muito chocarreiros acham imensa piada a tudo) e minutos depois acaba com uma parte da cara metida para dentro, num belo exemplo de justiça bíblica que me fez saltar do sofá como se o Benfica tivesse marcado golo.
(ia postar sobre as minhas previsões de diferenças pontuais entre Benfica e Sporting que previ em Novembro do ano passado quando se chegasse à 2ª volta, mas preferi antes procurar um momento de união entre benfiquistas e sportinguistas para que possamos todos viver em paz e harmonia)
(ia postar sobre as minhas previsões de diferenças pontuais entre Benfica e Sporting que previ em Novembro do ano passado quando se chegasse à 2ª volta, mas preferi antes procurar um momento de união entre benfiquistas e sportinguistas para que possamos todos viver em paz e harmonia)
domingo, 15 de janeiro de 2012
pasteis de Belém e teologia
Quando foi nomeado, um amigo meu próximo ficou em estado de choque com o erro de casting. Para me convencer, começou por reduzir a cinzas o seu percurso académico. O tipo dava aulas numa "universidade lá fora" (medíocre), os seus escritos e artigos sobre economia eram meras enumerações de factos e evidências, sem uma visão consistente e definida. Mas o golpe que me convenceu foi a citação de bocados do Diário de um Deus Criacionista. O livro, para além de mal escrito e banal, é obra de um hamster deslumbrado, convencido não só da sua inteligência como da originalidade das suas ideias desenvolvidas na rodinha na sua gaiola. Ao contrário do meu amigo, que leva a economia e os destinos do país a sério, eu fiquei muito entusiasmado com o que viria ai: uma personagem digna do Eça, materializada no mundo "real" e debaixo de holofotes, sob pressão. O potencial cómico disto era enorme. Até vinha do estrangeiro e cheio de modernidades americanas (canadianas, enfim, foi o que se arranjou). As personagens do Eça não nos instigam ódio, pelo contrário, até sentimos alguma ternura. Não se pode achar o Álvaro má pessoa ou mal intencionado ou enervante como outros erros de casting (Fernando Nobre) ou aquelas pessoas que não entendemos bem a necessidade de existirem no nosso televisor (Miguel Relvas). Começou tudo muito bem com o seu pedido para que o tratassem por Álvaro, o primeiro sinal de modernidade e progresso civilizacional. Também foi gira aquela ideia da rede de abastecimentos low cost, a revolução nos transportes, a insistência nuns obscuros efeitos do fim da TSU, o fim da crise em 2012... Infelizmente, Passos percebeu o erro de casting (ou explicaram-lhe) e retiraram ao Álvaro a possibilidade de me entreter regularmente. Chegámos ao ponto de ver um Ministro dos Negócios Estrangeiros (Paulo Portas) anunciar uma nova linha de crédito para as PME. Todas as semanas tiram ao Álvaro um dossier, uma pasta e remetem-no para uma semi-obscuridade que, junto de um grupo de imbecis fiéis, lhe dá uma aura de seriedade e trabalho: "ele não aparece porque está a estudar as coisas e a trabalhar, é uma pessoa séria e não está para mediatismos". A pessoa séria e que não está para mediatismos, há dias teve um momento alto, quando falou no pastel de belém. Podia ser uma metáfora de Cavaco Silva, mas não, referia-se mesmo às natas, ao pastel de nata. O risível não é o exemplo em si, que não seria mau se fosse inserido num discurso que abordasse os problemas estruturais que dificultam o empreendorismo e as soluções que um Ministério da Economia iria apresentar para potenciar o mesmo. Afinal de contras, estava a falar para empresários no papel de ministro da economia. Mas perante uma plateia de empresários incrédulos, Álvaro, intrépido e em modo entrepreneur Donald Trump style, expõe o seu plano de domínio mundial com um franchise de pastéis de nata e traça o paralelismo com o frango ao piripiri do Nandos, porque aquilo está cheio de estrangeiros a fazer fila todos os dias, eles adoram aquilo! Chega ali, dá uma ideia aos empresários, todo contente, e vai-se embora :) Veni vidi vici! É muito bom. Gostava que lhe dessem a pasta da cultura. Seria delicioso vê-lo sugerir a uma plateia de intelectuais que se "franchisasse" o conceito de sucesso do Shakespeare em 97 minutos em peças como Becket em 60 minutos, Tcheckov em 75 minutos ou Brecht em 45 minutos. Fica aqui a sugestão, tenho muitas saudades de Santana Lopes e dos seus violinos de Chopin, quando era secretário de estado da cultura no governo do pastelão de belém.
sábado, 14 de janeiro de 2012
bola
É oficial, desde o Benfica de Erickson que não me lembro de ver um Benfica a jogar o que este Benfica 2011 / 2012 joga. Quando o Setúbal marcou o 1-0 aos 6' só pensei "big mistake, não deviam provocá-los tão cedo" e o 4-1 final pecou por escasso. Consegui visualizar sportinguistas e portistas a bater palminhas lá em casa e a fazer zapping uns momentos depois, mal humorados. Já fiquei entusiasmado noutras épocas, particularmente na primeira época de Jorge Jesus. Aliás, fiquei talvez mais entusiasmado do que agora, mas era ingénuo e vinha de muito tempo sem um campeonato ganho de forma cabal. Fomos humilhados na Champions e pelo FCP em todos os jogos decisivos e não foi por acaso.
O Benfica de 2011/2012 faz esse Benfica campeão parecer um adolescente explosivo e sôfrego. Neste Benfica, há jogadas e detalhes tácticos que me comovem às lágrimas, fico com um nó na garganta. Há um leque de jogadores de topo, banco, soluções tácticas, variações de intensidade de jogo consoante as exigências do adversário e as circunstâncias. Há solidez mental. E fico feliz por o Aimar ter uma equipa que o mereça na fase final da sua carreira. A maturidade vem de, nas últimas duas épocas, termos uma equipa que em momentos decisivos se descaracterizava e isso poder voltar a acontecer.
No crescimento do Benfica, para além de peças novas magníficas, como Witsel, Artur, Garay, Bruno Cesar, Nolito ou Gaitan, e num acréscimo de mística, vejo o crescimento de Jorge Jesus que é hoje radicalmente diferente do que era há 3 anos: muito mais comedido, seguro e experiente a lidar com a adversidade e as expectativas. Jesus é a personificação do Benfica e tudo lhe é perdoado, mesmo frases engraçadas como "somos livres de sonhar até onde nos deixarem" a propósito da Champions. Por mim, era o nosso Ferguson.
E a propósito de bola, que no meu blogue é um tema esporádico, o http://227218.blogspot.com/ do Diego fez um ano ontem e merece os parabéns, pela escrita, digna de um Aimar.
O Benfica de 2011/2012 faz esse Benfica campeão parecer um adolescente explosivo e sôfrego. Neste Benfica, há jogadas e detalhes tácticos que me comovem às lágrimas, fico com um nó na garganta. Há um leque de jogadores de topo, banco, soluções tácticas, variações de intensidade de jogo consoante as exigências do adversário e as circunstâncias. Há solidez mental. E fico feliz por o Aimar ter uma equipa que o mereça na fase final da sua carreira. A maturidade vem de, nas últimas duas épocas, termos uma equipa que em momentos decisivos se descaracterizava e isso poder voltar a acontecer.
No crescimento do Benfica, para além de peças novas magníficas, como Witsel, Artur, Garay, Bruno Cesar, Nolito ou Gaitan, e num acréscimo de mística, vejo o crescimento de Jorge Jesus que é hoje radicalmente diferente do que era há 3 anos: muito mais comedido, seguro e experiente a lidar com a adversidade e as expectativas. Jesus é a personificação do Benfica e tudo lhe é perdoado, mesmo frases engraçadas como "somos livres de sonhar até onde nos deixarem" a propósito da Champions. Por mim, era o nosso Ferguson.
E a propósito de bola, que no meu blogue é um tema esporádico, o http://227218.blogspot.com/ do Diego fez um ano ontem e merece os parabéns, pela escrita, digna de um Aimar.
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