sexta-feira, 7 de outubro de 2011

"I know our posters say 'Think Differently,' but our real slogan is, 'No refunds.'"

A citação do título é retirada de um polémico episódio dos Simpsons sobre a Apple e o Steve Jobs. Os adoradores da Apple são retratados como uma espécie de membros de uma seita que adora um Steve Jobs - “like a God who knows what we want.”

 Homer Simpson tem algumas dificuldades em lidar com os produtos Apple, não é what he wants)

A certa altura no episódio, Bart agarra no microfone e fala por cima da voz de Steve Jobs, com um discurso que enfurece a seita:

“You think you're cool because you buy a $500 phone with a picture of a fruit on it... Well guess what? They cost eight bucks to make and I pee on every one,” (...) “I've made a fortune off you chumps, and I've invested it all in Microsoft,Now my boyfriend Bill Gates and I kiss each other on a pile of your money.”


Confesso que sempre nutri pela Apple uma certa embirração e que se confirma com a consternação global pela morte do empresário Jobs. Penso que há algo aqui que está mal direccionado. A filosofia de Jobs, inspirada no minimalismo zen budista de que era seguidor, era a de fazer produtos muito bons em qualquer coisa, com design minimalista e apelativo. E não há dúvida que o conseguia fazer. Eu de facto babo-me a ver o MacBook Air na Fnac e sentia realmente orgulho de cada vez que sacava do novíssimo MacBook Pro numa reunião, algo que não acontece quando uso um vulgar Toshiba (a que voltei). No avião, uma miúda saca do iPad e o comissário de bordo interrompe o seu trabalho para lhe perguntar "é o dois?" ao que ela responde que sim e ficam ali os dois a falar de iPads e que ele comprou o dele em Nova Iorque. Uma facebook machine bem cara.

A Apple para mim simbolizava uma inovação e génio aplicado ao puro consumismo. É como transformar uma máquina que cumpre uma determinada função num objecto de luxo ou de afirmação pessoal, uma espécie de acessório do século XXI, algo sensual e íntimo. Sem dúvida que foram feitos com a máxima "think different". Sem Jobs, é possível que os computadores e a electrónica ainda estivessem no domínio dos obscuros geeks que querem apenas uma coisa que faça coisas depressa e bem (longe vão os tempos em que a novidade no mercado era um novo processador com montes de gigahertz e uma motherboard com muita ram).

Não discuto que Steve Jobs era um génio e um visionário. Mas questiono um pouco a adoração desta aplicação do génio e da visão a algo que não é assim tão relevante para a humanidade, digamos assim, e que ainda por cima é perene. É ridículo que o iPad 2 seja anunciado como tendo o dobro da velocidade de processamento do iPad 1, quando este último saiu há apenas um ano. Nem sequer podemos incluir a sua criação nos domínios da arte, porque a electrónica por definição envelhece rápido e torna-se obsoleta. No fundo, é entretenimento na forma de gadget. O impacto no progresso da humanidade ou na produtividade é quase nulo, uma vez que estas novas categorias que Apple cria, limitam-se a absorver riqueza. De repente, precisamos um tablet PC, mesmo que ele não satisfaça qualquer necessidade que se tivesse antes dele existir. Mas quando inventaram o frigorífico, por exemplo, podemos admitir que a necessidade de conservar alimentos existia desde sempre, assim como as necessidades satisfeitas pela  penincilina (não morrer de uma infecção qualquer) ou pelo avião(deslocação).

Apple também é a sua exclusividade: são produtos premium, estão para os gadgets como a BMW para os carros, caso contrário eu não me sentiria orgulhoso ao tirar o MacBook Pro da empresa numa reunião.

Mas ninguém muda o mundo com produtos premium. A história demonstra-o: as grandes revoluções na área do consumo (Ford T, livro impresso, frigorífico etc.) vão sempre no sentido da democratização de um bem ou de uma tecnologia. Há mais "revolução" nos computadores de marca branca a 300€ num hiper, do que num Macbook Pro. Houve mais revolução no sony walkman do que no iPod

No âmbito da electrónica / software, aprecio mais os génios invisíveis da Google porque o seu processo de inovação é mais semelhante ao da ciência na sua tentativa / erro e vai tendo implicações fundamentais na forma como vivemos as nossas vidas e vemos o mundo. Está despido de adornos e o minimalismo do que faz parece fruto de uma racionalidade espontânea e não algo de intencional e resultado de um esforço consciente de síntese de design e ergonomia. O impacto na forma como vivemos a vida é global e democrático: os seus produtos são gratuitos. Utilizamos o google, o gmail ou o google maps de borla ou com custos marginalmente nulos. Isto sim foi revolucionário como modelo económico, esta economia do gratuito e da escala global. Também se pode dizer que o Facebook é revolucionário, na medida em que satisfaz como nunca algo satisfez, uma necessidade humana: a de estar em contacto. E é de borla. Ou a Wikipedia que satisfaz a necessidade de conhecimento e o democratiza. Basta pensar nos preços obscenos da Itunes (que arruínam Lisa no dito episódio) e no seu formato fechado, para ver que a perspectiva da Apple era bem mais old school e que a caricatura feita pelos Simpsons era certeira.



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ser fixe e assim

Ora bem, estamos em 1990 e tal e eu descubro que os Crash Test Dummies não são fixes numa conversa com uma rapariga (ela era fixe) que me fala de Pixies. Não sabem o que são os Crash Test Dummies, não faz mal, não procurem. Tinham uma música com o refrão que era "mmm mmmm mmmm mmmmmmm" etc. e eram canadianos. Foi o primeiro cd que comprei.
Depressa percebi que na escola havia dois grupos de rapazes. Então havia os fixes e outros todos que, por diversos e variados motivos, não eram fixes. Ou porque eram maçarros (cresci na província), ou porque eram pobres, ou porque eram muito totós e gostavam de Crash Test Dummies ou por qualquer outro motivo. Esta questão obcecou-me durante muito tempo, porque os fixes ficavam com as raparigas mais giras e a mim só me calhavam as mais sensíveis e inteligentes, que é como quem diz, as menos giras.

E então meti na cabeça que devia ser fixe, porque a minha função de utilidade atribuía mais utilidade à "chearleader" loira de olhos azuis do liceu, que constava que fazia broches a todos menos a mim, do que à rapariga sensível que me acompanhava até casa e me falava de Kafka, ajeitando os óculos e apertando os dossiers e livros contra o peito tímido. E nisto, tinha vergonha dos meus amigos e amigas que não eram fixes, e quando passava uma miúda gira, fingia que não os conhecia e afastava-me um pouco, de forma discreta para que não percebessem.

O meu esforço começou primeiro por querer deixar crescer o cabelo e usar roupa 3 números acima e de aspecto de lenhador americano, para imitar aquele que era o Deus dos fixes, o Kurt Cobain. O máximo que consegui foi parecer um sem-abrigo que tinha encolhido à chuva. Devo dizer que tinha 1,80 na altura, embora fosse magro e bastante desconjuntado no geral. Tinha jeito para o basket e para guarda-redes de andebol, mas o futebol que era uma das disciplinas que fazia os rapazes serem fixes, estava fora do meu alcance, excepto a potência e colocação do remate. Um dos motivos pelos quais gosto muito do Cardozo é porque o Cardozo seria exactamente o jogador que eu seria se fosse muito bom dentro das minhas limitações, numa qualquer realidade paralela. É por isso que me sinto na pele no Cardozo quando vejo jogos do Benfica e ele é assobiado pelos próprios adeptos, porque perdeu desastradamente um lance ao tentar um drible patético. E acontecia-me o mesmo com o Mats Magnusson na altura, de quem se dizia, "ficar o jogo todo à mama". As pessoas não admiravam quem, dentro da sua "tosquice", fosse eficaz. Queriam a finta fixe.

Para além do futebol, havia mais formas de ser fixe. Ter roupas e aspecto fixe, ser muito conhecido por algum motivo, normalmente associado a problemas disciplinares e gostar de coisas fixes. Esta última parece relativamente fácil e barata de conseguir, mas na altura não era. Era necessário ouvir horas de rádio com o leitor de cassetes sempre pronto para gravar, quando começasse a dar uma música que fosse considerada fixe e não havia rádios fixes assim a dar com um pau, muito menos na província em que as músicas fixes eram frequentemente interrompidas por anúncios de rações ou por um locutor que gostava de cantar por cima da música. Tenho cassetes com o Creep dos Radiohead interromido por anúncios às rações Valouro.

Existe um grupo de pessoas que depois dos 20, às vezes mesmo pelos 30 adentro, continua a coleccionar coisas fixes (músicas, filmes, livros etc.) e a falar delas, porque registaram esta lição dos seus tempos de adolescência. Por exemplo, não há um único bom crítico que tenha perdido a virgindade antes dos 25, 26 anos. As coisas são como são. Felizmente, com a progressão na vida, as pessoas vão encaixando num universo mais específico e confortável e rodeiam-se de pessoas um pouco mais semelhantes. A escola, que tem como único critério agregador o ano de nascimento de uma pessoa, acaba por juntar indivíduos de proveniências e feitios diferentes. Hoje, o único contacto que tenho com os fixes do liceu, é quando vou ao talho do supermercado ou pago o depósito de gasolina numa bomba da autoestrada.

de acordo com o meste Butch Vig (produtor do Nevermind dos Nirvana, cérebro dos Garbage) a primeira canção "grunge"



Referem muitas vezes uma espécie de dicotomia Beatles vs Rolling Stones como Good boys vs Bad boys, mas nunca ouvi uma música dos "bad boys" com semelhante carga sónica e, talvez correndo o risco ser polémico (lol) diria que só gosto do som dos Rolling Stones, a nível de produção, ao vivo e cru, porque em estúdio, almejavam as massas num rock relativamente formal e ortodoxo, hiper produzido e sólido, contido e de riffs monolíticos. Quanto a bad boys, os Stooges já existiam.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

vou ser pai

Estou muito contente porque finalmente resolvi a questão dos filhos. Vou ser pai. É verdade. Ainda não escolhi a mãe e não concebi crianças, mas tomei a decisão de ser pai num futuro próximo. O título talvez tenha sido enganador, lamento.

Acho que ser pai é uma experiência literária positiva e necessária e creio que para melhorar certos aspectos do meu estilo preciso de passar por essa experiência, uma vez que sou uma pessoa essencialmente fútil e pouco em contacto com a natureza humana e essas cenas. E já percebi que não só não vale a pena pensar em casar, como não vale a pena pensar em arranjar uma companheira. Ou até se pode fazer isso, mas já sabe o que acontece. Portanto, queria começar uma coisa num regime de divorciados, que é uma relação bem mais estável (é muito raro divorciados voltarem a casar um com o outro). Às vezes até dá uma certa pica e tudo.

Faz-se o filho (até se pode ir passar umas férias num sítio qualquer e dar um ambiente romântico e assim) e depois cada um vai à sua vida, encontramo-nos na maternidade, tiram-se apontamentos e fotos e depois eu espero uns anitos, talvez 8 ou 9 anos, que é quando eles começam a jogar decentemente playstation. Claro que pago as despesas e ajudo no que puder e não envolva a minha presença física.Idealmente esperaria até terem 13-14 anos, para poderem praticar desportos comigo. A mãe até fica feliz, tem o bebé só para ela, elas desde pequenas brincam com aqueles nenucos, está-lhes no sangue. E depois, os homens são uns ogres, uns chimpanzés, pioram com a idade, ficam chatos e estúpidos e chateiam-nas até à morte e assim elas podem viver descansadas.

A vantagem de não haver casamento e depois divórcio é que não há clima de tensão e discussões fúteis por facturas e despesas, nem aquele em grande FAIL que é ter "divorciado" no BI. Aliás, felicito a lei portuguesa de inspiração católica por obrigar os divorciados a terem "DIVORCIADO" no BI, acho que é uma excelente medida e é uma vergonha que noutros países abandalhados uma pessoa volte a ter "solteiro" no BI e assim engane pessoas honestas, por exemplo, empregados bancários, que não fazem ideia que aquela pessoa que quer abrir conta é divorciada.

Eu só preciso de garantir duas coisas na educação deles:
1) nascem do benfica
2) tiram um curso científico ou técnico (engenharias, matemáticas, programação, economias etc. nada de letras / humanidades)

E pronto. A mãe tem de ser asseada, bons genes, querer ser mãe, não pode ser promiscua, tem de apresentar declarações do IRS dos últimos 3 anos para avaliar a sua capacidade económica, não pode ser de "esquerda" naquele sentido "bloco de esquerda" e tem de saber ler e escrever.

Nem sou muito exigente :]

sábado, 1 de outubro de 2011

Alberto João Jardim, uma análise 'darwiniana'



O caso de Alberto João Jardim e do povo do arquipélago do PSD foi já amplamente estudado por biólogos e antropólogos. O próprio Charles Darwin, ao voltar da Patagónia, passou pelo Funchal e relata nos seus apontamentos as observações que fez:


«O elo que faltava entre o homem e uma forma de vida primitiva pode residir nos espécimes que observei num comício do PSD na ilha do Funchal. Em nenhuma ocasião anterior a este comício do PSD Madeira, me foi dado a observar um número tão elevado de caucasianos com traços tão semelhantes, evidentemente fruto de consanguinidade, a mesma que encontramos na Papua Nova-Guiné ou nos nativos da Amazónia.


Aqui, o processo de selecção natural não parece ter tido lugar, uma vez que estas gentes vivem protegidas das ameaças normais que afectam os outros povos, como a pobreza e a fome, as invasões militares, liberdade de imprensa ou as condenações jurídicas. Explicam-me que Portugal financia este habitat, transferindo riqueza e recursos para a sua defesa, impedindo que os habitantes sejam exterminados por uma espécie mais desenvolvida. Não encontrando qualquer explicação para este facto, julgo pois tratar-se de uma grande e onerosa experiência científica. Não posso deixar de ficar preocupado. A humanidade contraria frequentemente o processo de eliminação natural. Construímos asilos para os imbecis e os doentes, ajudamos os pobres e a ciência médica faz o impossível para salvar os fracos nos hospitais. Assim, os elementos inferiores da espécie humana propagam a sua fraqueza e impedem o refinamento da raça. Aqui, em nome da ciência, aplicam este princípio a toda uma ilha povoada por militantes do PSD Madeira que, de acordo com as minhas observações, podem muito bem constituir o elo que faltava entre a raça humana e uma forma de vida um pouco mais evoluída que o chimpanzé. Esta conclusão não é final, pois o espécime que tem aqui o estatuto de xamã ou líder tribal, Albertus Joannis Jardinus, parece ser mesmo uma forma de vida inferior aos gorilas mais sofisticados do Zoo de Londres.



Levanta-se a questão do próprio gorila ou do  chimpanzé ser o elo entre o homem ocidental e o militante do PSD Madeira e não o oposto. Uma coisa parece ser clara: num contexto em que é garantida subsistência a uma espécie e lhe é garantida protecção de todas as ameaças, a espécie dotada de características como a apetência para a corrupção e a pantomina simiesca, pode dominar e procriar com mais velocidade, uma vez que está mais adaptada a um contexto em que as normais ameaças não se fazem sentir. 


Apesar da minha preocupação quanto ao resultado final desta onerosa experiência científica, admito que a observação desta ilha me forneceu dados tão ou mais interessantes que os recolhidos na Patagónia. Espero que a experiência e as suas consequências se limitem ao estado português. Felizmente, os povos mais evoluídos do norte da Europa não serão afectados por mecanismos tenebrosos do tipo "comunidade económica e financeira" ou, algo ainda mais absurdo, uma "moeda única". Fica aqui, contudo, o meu agradecimento ao estado português e ao povo de Portugal, pelo bem da ciência.» - Charles Darwin, 1833

*_*



*tolan apaga o último cigarro e vai dormir

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

experiência científica


Descobri da pior maneira que aquilo dos Mentos e da Diet Coke é verdade, resulta mesmo. Agora estou num dilema. Uma rápida passagem com a esfregona não parece ter sido suficiente para evitar o efeito peganhento e a empregada só vem na próxima quarta feira. Podia tentar usar água quente e talvez um pouco de detergente, mas tenho medo que estrague o sofá de pele, o tapete de lã e o portátil. Ela normalmente sabe sempre o que fazer, percebi isso quando as manchas de vinho na parte de baixo do armário do lavatório desapareceram misteriosamente. E dessa vez nem foi em nome da ciência, não encontrava o saca rolhas e só tinha um martelo e uma chave de fendas. Penso que desta vez lhe vou colocar um desafio à altura.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

o meu mundo desabou

1- O Elmo é uma marioneta.

2- É um pretinho que controla o Elmo e faz a voz do Elmo.



Aposto que ele inventou o Elmo e faz aquilo para distrair as pessoas, enquanto um colega lhes rouba discretamente as carteiras e os telemóveis.

O mundo não é um lugar próprio para uma criança ingénua e de boa fé. O que vem a seguir? O Misery Bear é um "urso de peluche" manipulado por ciganos romenos?

o mundo é um lugar estranho

Desde muito cedo que fui exposto a orgãos de informação, muito antes de ter capacidade de entender o que se passava. Achava os telejornais e os jornais muito confusos e misteriosos. Logo a começar por se referirem a eles como "orgãos de informação". Para mim orgãos ou eram partes do corpo como o nariz ou as orelhas ou então como o orgão eléctrico em que se aprendia a tocar piano. Quando falavam de Inglaterra, era sempre os "conservadores" e os "trabalhistas" e eu realmente ficava confuso porque se é verdade que os trabalhistas eram os que trabalhavam, os conservadores seriam responsáveis pelas latas de atum e sardinha de que eu gostava bastante. E pensava que a sociedade inglesa se dividia entre esses dois tipos de pessoas. Achava que a Inglaterra era um país estranho e ainda por cima ameaçado pelo IRA que era uma coisa que metia medo, chamava-se IRA, podia ser RAIVA ou AMUO ou ARRUFO mas era mesmo IRA! Metia medo, como o Irão! O Irão era assim uma Ira muito grande e era de onde vinham muitos terroristas. Eu pensava que os terroristas eram realizadores de filmes de terror que queriam subsídios do governo para fazer filmes e como não tinham subsídios faziam as cenas de forma amadora, sem efeitos especiais e no mundo real. Os americanos tinham democratas e republicanos. Aqui não era menos confuso. Os democratas eram os que defendiam a democracia, o que fazia dos republicanos os maus da fita, se bem que a República era uma coisa supostamente boa porque em Portugal até tínhamos um presidente disso, que era o Ramalho Eanes. Na Rússia só havia comunistas, estes eram fáceis de entender, eram aqueles que nunca achavam nada de especial e não se impressionavam com nada, era tudo muito comum, faziam as coisas todas comuns e diziam aos designers e aos engenheiros para inventarem coisas muito comuns. Quem fizesse algo especial era enviado para a Sibéria (o que também era muito comum). O meu pai não gostava de comunistas mas também não gostava daqueles de quem os comunistas não gostavam (o meu pai não gostava de ninguém que aparecesse na TV, excepto jogadores do Benfica e o Ericksson). Estava sempre a dizer "estes reaccionários!" quando apareciam padres na tv. Eu achava que reaccionário era alguém com muito bons reflexos ou então uma pessoa que reagia mal a certas substâncias. Também não compreendia porque chamavam direita aos "centristas" do CDS. Ainda hoje não compreendo isso. Os centristas seriam os que estavam no centro. Então pensei que se calhar eram como aqueles da inquisição, os que chateavam o Galileu Galilei e que achavam que estavam no centro do universo, só que era um universo sem lado direito, só esquerdo. A minha mãe dizia que era de esquerda e que o capitalismo era mau. Aí concordava com ela porque também me parecia errado que houvesse capitalistas que defendessem Lisboa e Paris e que se concentrasse tudo nas capitais. E quem defendia a minha aldeia? Eu queria ser aldealista. Mas não existia isso. O mundo era um sítio extremamente confuso em que toda gente tinha de ser qualquer coisa. Eu secretamente queria ser ditador como o Hitler porque detestava escrever com a caneta (não havia computadores na altura) e devia ser o cúmulo do fixe poder ditar coisas a milhões de pessoas em vez de ter de ser eu a escrever! E podia ditar parvoíces à vontade, as pessoas só tinham era de escrever o que eu dizia e mais nada. E se não prestassem atenção, iam parar aos "campos de concentração" para se concentrarem e não serem distraídos como os judeus. Quando perguntava ao meu pai: "o que é que eu sou?" ele respondia "adoptado". Também não ajudava.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

um cão na estrada

Estou cheio de pressa pela a8 e depois de Torres Vedras vejo um cão na berma da autoestrada. É dia de caça, é comum nos dias de caça aparecerem cães perdidos. Parece-me um setter irlandês, tem o pêlo sujo de lama e está parado e confuso na faixa de segurança. Vou a 140km/h travo e ligo as luzes de emergência, tento sinalizar aos carros atrás de mim para abrandarem. O cão continua parado, a olhar para o outro lado da estrada, tem o focinho branco e o pêlo das orelhas cheio de pequenos cardos da vegetação rasteira. Passo por ele e hesito, devia encostar, mas tenho um carro atrás de mim, imagino o cão a fugir de mim para o meio da estrada e eu a ser o responsável pela sua morte e por um acidente grave. Enquanto hesito já avancei uns 500 metros é impossível voltar atrás e perco o cão do retrovisor numa curva, ele está no mesmo sítio, a olhar para a outra berma.

Passo o resto da viagem sentindo-me um cobarde. Abro o porta luvas, está lá o colete. Visualizo-me a ter o reflexo rápido de abrandar até parar, se possível antes do cão, na berma, vestir o colete e depois aproximar-me dele lentamente. Ficar a uma distância segura. Conheço muito bem os cães, cresci com cães. Não quero que se assuste, tem de ser ele a avançar para mim. Imagino-me ali a chamá-lo com voz doce.
- Anda, anda, vem...
Ele avançaria, uma pata, depois a outra pata no asfalto quente. Tem as patas feridas e doridas de andar perdido o dia inteiro. Estico a mão para ele se aproximar e cheirar. De vez em quando tem um sobressalto, como quando passa um grande camião. Está cada vez mais perto. Quando está ao meu alcance, lanço-lhe a mão à coleira. Ele assusta-se, mas depressa o agarro contra mim e levo-o para dentro do carro, que fica cheio de lama e pêlo. Por fim sossega, fica quieto e adormece. De vez em quando abre os olhos e vê-me a conduzir, depois fecha os olhos outra vez, está exausto. Digo-lhe palavras num tom de voz meigo e calmo.
- Então? Estavas perdido meu pateta? Ias sendo esborrachado. Não sei se a minha mãe te vai querer aceitar, ela já tem lá três cadelas em casa, duas delas também eram vadias como tu...
Saímos da autoestrada e entramos na sinuosa estrada de caminho à aldeia. Abro um pouco a janela e o cão fareja o ar, não parece reconhecer os cheiros, não deve ser da zona. Seja como for, nem me vou preocupar em devolvê-lo ao dono. É um cão bonito e inteligente e vê-se que está habituado a andar dentro do compartimento das pessoas e não num reboque. Ainda não sei, naquele momento, mas a minha mãe não pode ficar com mais um cão e que é uma enorme confusão com as três cadelas que costumam ter o cio sincronizado e acabo por ficar com ele e levá-lo para Lisboa. Como não tenho vida para ter cão, despeço-me do emprego e vou viver para um sítio onde possa passear com ele e sou muito feliz.

Mas nada disso é real, deixei o cão, abandonei-o naquela berma e, ao almoço, enquanto como a sopa e provo os bons vinhos, não falo muito, não me apetece falar da semana, das viagens ao brasil, da vida. Não conto o sucedido à minha mãe porque ela tende a chorar quando se fala de histórias tristes com cães (muito mais do que com pessoas). Em torno da mesa, cães deitados aguardam pela sua refeição.

está mesmo ali

domingo, 25 de setembro de 2011

domingos

De ressaca e em boxers fumo um cigarro à janela, num domingo à tarde. Não consigo escrever, nem sequer pensar. No quintal do vizinho crianças jogam à bola. Há uma baliza e eles chutam e jogam de forma caótica. De cada vez que a bola entra, o que acontece de 30 em 30 segundos, ouve-se um GOOOoOOOOooOOOOooOOoOOOLOOOOOooÓóóóó
As modulações de volume e tom prendem-se com o facto do marcador correr histérico de braços abertos em direcção aos canteiros de rosas, suponho que é onde está o topo sul e a claque. Fascina-me a capacidade de, a cada golo, terem a mesma alegria e surpresa, como se fosse a primeira vez. Pequenos imbecis. "Isso não é real!" apetece-me gritar da janela num acesso de ressentimento. Volto para a cama, preciso de dormir por cima desta, foi das pesadas. Enquanto adormeço ao som do golóóós abafados pelas janelas fechadas penso na minha própria correria pela casa no golo do Gaitan ao FCP e de como os cães começaram a ladrar 10 segundos antes, devido ao delay do jogo na net face às sportvs legítimas do bairro. Ainda não percebi algumas coisas na vida e tenho medo de as perceber.

entrada directa para o top de "miúdas giras em filmes de terror"

Lauren German no Hostel 2:






Aqui assim no mundo real:





sábado, 24 de setembro de 2011

love is only in your mind, not your heart

utilidade e curvas de indiferença da procura de parceiro reprodutivo

Acerca deste e deste post, que criticam duramente a preferência dos homens por mulheres mais bonitas e voluptuosas em detrimento das inteligentes e interessantes, gostaria de dizer umas coisas.

Os homens avaliam as mulheres de acordo com uma função de utilidade:


em que U é a utilidade que uma determinada mulher tem e x1, x2, x3... xn são os diferentes atributos dessa mulher. Por exemplo, x1 pode ser o índice de maminhas, x2 o índice de pernas, x3 o índice inteligência, x4 o índice boa disposição e por aí fora. As funções de utilidade divergem de indivíduo para indivíduo. Há homens que conferem mais importância à beleza e outros mais importância à inteligência, uns conferem utilidade máxima a maminhas grandes e outros a cultura literária.

Mas mesmo congregando os atributos todos em dois, x1 como "beleza física" e x2 como "inteligência", podíamos ter de incluir um terceiro muito importante, o x3, a que daríamos o nome de "hipóteses de sucesso reprodutivo". Contudo, este atributo não é independente de x1 e x2, uma vez que quanto maior for a inteligência e beleza da mulher, menor serão as nossas hipóteses de sucesso e quanto menor for a inteligência e beleza de uma mulher, maiores serão as nossas hipóteses de sucesso e a correspondente utilidade (admitindo que há utilidade zero para uma mulher com a qual não seja possível reproduzir, mesmo que tenha grandes quantidades de x1 e x2).

Este é realmente o grande paradoxo contido no discurso destas nossas duas bloggers inteligentes. A mulher é um bem que também procura ou rejeita o utilizador. É como um detergente para loiça dotado de vontade própria. Imaginem que vão ao supermercado comprar cerveja e, em vez da Sagres do costume, decidem levar uma Heineken ao dobro do preço. Ao estenderem a mão para a Heineken ela dá-nos uma sapa na mão e diz-nos "não, não és bom que chegue para mim, leva a Sagres".

Aqui um gráfico que explica o conceito de curva de indiferença entre dois bens, o bem Y e o bem X. Imaginando que a mulher em si é composta por bens (e não apenas um bem composto por atributos), diremos que Y é o bem "beleza feminina" e o X o bem "inteligência feminina"
  


As curvas vermelhas correspondem a uma zona de indiferença de combinações de X e Y. Para o homem, ter mais X e menos Y ou mais Y e menos X é igual, em determinadas quantidades: "aquela faz-me rir e não é feia, a outra gosta de José Luís Peixoto mas tem umas ricas maminhas, estou indeciso, é como se fossem iguais!" etc.

No gráfico há 3 curvas correspondentes a 3 indivíduos. O I3 é o mais exigente, pois a sua curva exige sempre níveis mais elevados de X e Y para o mesmo nível de utilidade (curva vermelha). O I1 é o menos exigente, uma vez que pequenas quantidades de X e Y conferem a utilidades tão boas como as que I2 e I3 retiram de muito mais X e muito mais Y. É normalmente o homem mais feliz de todos.

Com o consumo de álcool verifica-se um efeito curioso que é a deslocação da curva de indiferença para zonas mais próximas dos eixos. O homem começa a noite na curva I3 e, quando são 6 da manhã e já bebeu 10 imperais e não conseguiu consumir nenhuma devido ao facto de estar abaixo das curvas de indiferença das suas escolhas, estará na zona I1, menos exigente e com a sensação que a discoteca está cheia de mulheres gostosas e inteligentes (admite-se que no caso do álcool a função de utilidade tende a conferir um peso próximo de zero ao atributo inteligência).

Já no caso da mulher, este grau de consciência não é tão elevado, uma vez que ela pensa ser sempre escolhida de acordo com uma curva I3. Parte da culpa é nossa, uma vez que depressa aprendemos ser um erro tremendo dizer algo como "gosto muito de ti porque não és nem demasiado bonita, nem demasiado inteligente" e assim a curva nunca sofre reajustes.

E pronto, espero ter sido esclarecedor ao dar-vos alguns conceitos de economia e desejo-vos boas escolhas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

mudar as pessoas, um truque agora revelado

Descobri um truque muito fixe que pode ser usado para moldar a mente dos outros e partilho agora com vocês. Quando temos a infeliz ideia de escolher uma música de que gostamos para despertador no telemóvel, com o tempo, basta ouvirmos a música noutro contexto que temos aquela sensação desagradável de ter de acordar, como um reflexo pavloviano. É uma excelente forma de dar cabo de músicas boas por isso mais vale escolher um toque simples.

Mas se substituirmos o toque por uma gravação de palavras podemos criar uma repulsa forte a essas palavras e mesmo ao seu significado. A maior parte dos telemóveis possibilita a gravação de memo's de voz por isso é fácil fazer isto. Querem evitar que o vosso filho seja do Sporting? É só ele acordar com uma gravação de voz a dizer "Sporting... Sporting... Sporting... Sporting..."

Se ele protestar (imaginem que já é do Sporting) então acordem-no vocês todos os dias às 6 ou 7 da manhã, durante meses, gritando para o quarto "Sporting! Sporting! Sporting!" e depois aplicando uma paulada no lombo com o cabo da vassoura ou da esfregona - os cobertores absorvem parte do choque. E mal ele começar a acordar todo estremunhado, escondam-se, ele não vai perceber bem o que aconteceu mas o subconsciente vai registar.

Com a namorada também dá para usar isto. Ainda hoje há por aí uma mulher que não percebe porque sempre que ouve "IKEA" sente um arrepio desagradável e náuseas quando outrora fazia questão de ir lá semana sim semana sim, muita gostava ela de ir à p#@a da IKEA f#%@-se...

arte, não é só nas galerias dela (da arte)

Minilogue - Animals

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

há pessoas do Porto que odeiam Lisboa

Há muitas pessoas do Porto que odeiam mesmo Lisboa. Já ouvi histórias bem reais e credíveis sobre pessoas do Porto que nutrem por Lisboa o mesmo sentimento que os ewoks nutrem pela Death Star do Darth Vader. Fantasiam sobre Lisboa a arder e imaginam-se, qual Nero, com uma lira de cordas de tripa de porco nas muralhas do castelo, contemplando a destruição e os gritos de pânico. Se dermos um jogo de legos a uma criança do Porto ela vai logo construir uma cidadezinha e fazer o reinactment do terramoto de 1755, com os bonequinhos mouros todos a correr de braços no ar enquanto abanam e destroem as casas.

Eu não percebo porque há estes preconceitos porque eu gosto imenso do Porto e conheço o Porto muito bem, aquela avenida, a dos aliados e aquele café muito bonito, o Majestic. Agora também gosto muito daquela livraria antiga, a Lello. Aí está um bom exemplo de preconceito desfeito: eu pensava que a Lello fosse uma livraria de cultura étnica cigana e depois de lá entrar um dia a contra-gosto vi que afinal era só uma livraria bonita e antiga. E desfiz dois preconceitos de uma vez, foi esse e aquilo do Lello Universal que eu pensava que era um termo xenófobo para nomear um cigano padrão (português, romeno, chinês etc.)

As pessoas do Porto têm algumas qualidades melhores que as de Lisboa. Para começar e a propósito do Lello, são muito menos racistas do que em Lisboa porque não há pretinhos como há em Lisboa. Na minha aldeia de infância era a mesma coisa, tudo gente boa e católica. Uma vez chegou lá uma família de pretinhos ao casal e ficou tudo racista por causa disso, desaparecia roupa dos estendais e era o macaquinho que as roubava e a massa do pão não levedava porque ela tinha mau olhado e ele falava com as árvores a dar estalinhos com a boca. As pessoas de Lisboa, especialmente as da margem sul, tornam-se racistas e más e estão sempre com estas conversas.

As coisas são mais genuínas, as lojinhas com 50 anos que vendem maçanetas de porta ou ganchos de cabelo... lembram muito a Lisboa que começou a desaparecer nos anos 80 e é como um passeio pela saudade.

Também há requinte e sofisticação no Porto

No Porto são mais genuínos e engraçados, dizem imensos palavrões, dizem o que pensam e são frontais, metem-se uns com os outros na rua e conhecem-se todos. Também não ligam ao próprio aspecto como as pessoas de Lisboa que são umas snobs e superficiais. A forma de falar, a pronúncia, também é muito cómica mas se rirmos eles não levam a bem. Acontece-me começar a falar como eles passado uns dias, não só porque aquilo se pega por ser giro, mas porque se não o fizer, eles têm tendência a desconfiar pois não estão habituados a forasteiros. É preciso falar com uma voz calma e estender-lhes uma guloseima qualquer - um pedacinho de enchido faz maravilhas e quando lá vou, levo sempre umas rodelinhas de chouriço.

No Porto, todos se conhecem e são amistosos.

Isto dos povos se darem bem só exige um pouco de esforço de parte a parte e o quebrar de preconceitos e barreiras, como as que existem actualmente entre os palestinos e os judeus e que tanta morte têm causado.

Faço daqui uma sugestão: organizem-se visitas guiadas a Lisboa para pessoas do Porto que odeiam Lisboa com o mesmo conceito daqueles pacotes de aventura radical, o swimming with sharks: trazem-nas para aqui num autocarro com grades (ou gaiola de acrílico, mas é mais caro...) para se sentirem seguros e mostrem-lhes coisas de que iam gostar de certeza e que as iam fazer sentir-se em casa; aquelas pitorescas partes velhas da encosta do castelo, com aquelas casinhas cheias de vegetação no telhado e com a utilização de materiais reciclados como chapa e contraplacado, o IC19 que também tem trânsito como a VCI, os jardins com pombos para eles poderem dar pão e também lancharem os seus enchidos, depois o mercado da droga na Maria Pia e terminavam o tour no museu nacional de arqueologia para uma visita guiada às relíquias do terramoto de 1755, só para se divertirem um pouco também e a viagem não ser só cultural.

o funeral

Um excelente exercício que aplico invariavelmente a toda gente que conheço é o de imaginar-lhes o funeral. O que é que pensaria daquela pessoa no seu funeral? Sentiria falta dela? Perdoar-lhe-ia os defeitos? De que coisas boas me ia lembrar? É engraçado mas quando faço este exercício, vejo que o grupo de pessoas "más" se reduz muito, sobra uma coisa destilada (sublimada?) e alguns defeitos até aparecem como idiossincrasias engraçadas. Na prática não conheço ninguém verdadeiramente mau, como aquelas que vejo na TV, como o Bin Laden ou o Batatinha. E às vezes há pessoas que a gente vê que teriam um funeral mesmo comovente à brava e temos vontade de abraçar aquelas pessoas e dizemos "gosto tanto de ti!". E então fica só um amor desapegado.

Claro que isto tem um o seu quê de mórbido porque para além de imaginar o funeral em abstracto também imagino em concreto e ao detalhe. Tento perceber que tipo de funeral é que a família lhe faria, se católico ou agnóstico, se enterradinho ou tostado, se com jazigo à novo rico ou discreto e, sobretudo, o que escreveriam no seu epitáfio! Isto chega a tal ponto que tenho um word só com epitáfios para as pessoas de quem gosto. E sei que se morrerem tenho de ter calma e não mandar logo um sms aos pais ou irmãos a dizer: "Lamento muito :( Tenho aqui uns ricos epitáfios para meterem na lápide, vou mandar e escolham o que gostarem mais :)"

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sous les pavés, la plage

Sonic Youth - Youth Against Fascism

workaholic

Já aqui falei no "queijo da aldeia" que foi o que percebi quando comecei a trabalhar e me falavam no casual day (com péssima pronúncia, diga-se). Outra, quando comecei a trabalhar, foi aquela em que pensava que workaholic era uma pessoa que bebia no emprego e fiquei muito bem impressionado com a primeira chefe que tive e que disse que era um bocado workaholic na primeira entrevista que tive e eu disse que também não me importava de ser workaholic e consegui o emprego. Pensei que ia trabalhar no paraíso! Queijo da aldeia num dia (sexta feira), cerveja e vinho noutros... infelizmente não foi o caso. Na altura eu tinha muito má vida, culpa de uns amigos malucos e chegava frequentemente ao trabalho com ressacas monumentais e duas horas de sono e pedia licença a meio de uma reunião, ia ao WC, vomitava-me todo e quando voltava piscava o olho à chefe workaholic e ela tomava aquilo por flirt e começámos a jantar juntos e coiso. Ora, ela não era workaholic mas bebia, digo-vos, ela bebia a sério, como uma marinheira russa. Então bebíamos muito e andávamos de carro, eu nem tinha carta na altura, ela é que conduzia e tinha um mazda mx5 e íamos aos s's para bares a ouvir hits dos 80s e depois para a praia e hotéis e depois no dia seguinte íamos trabalhar e éramos os dois workaholics achava eu, mas ela dava-me ordens, toda ressacada e de mau humor e eu ficava sentido com isso, era como se ela tivesse duas personalidades, tipo o Jeckyll e o Hyde. Ela achava que havia trabalho para fazer e isso fazia-me confusão, ela levava o trabalho mesmo a sério e percebi o verdadeiro significado de workaholic.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

vamos tentar psicologia invertida

Gostava de ganhar uns trocos a escrever umas crónicas. Isso é que eu gostava. Sim senhoras, isso é que era uma rica coisa, tinha de ser um formato assim livre à lobo antunes ou miguel esteves cardoso. Se alguém me convidasse "tolan, eu pago-te estas centenas de euros por um texto teu". Isso é que era. Haviam de ver os textos, eu dava-lhes os textos mais filhos da mãe que já tinham visto! Passava fome para o escrever, abandonava o meu emprego, abandonava os meus amigos e a minha playstation porque "tenho de acabar uma crónica até 5ª feira!"

Seria para mim revolucionário ter a escrita equiparada ao trabalho, significaria que poderia levá-la a sério e não como um hobbit e tudo funcionaria em função dela! Tudo! E nunca mais teria uma reunião. Odeio reuniões. É só por isso que escrevo, quero um emprego sem reuniões por toma-lá-da-cá aquela palha!

As impressoras da tipografia até espirrariam tinta por todo lado ao imprimirem-me as crónicas e o papel chegaria húmido e quente às bancas! Os leitores sentir-se-iam excitadinhos só de passar as mãos pelas letras, eu faria sexo mental com todos eles! As vendas iriam aumentar em flecha e todos iriam elogiar o gesto de coragem do editor que descobriu e apostou num diamante em bruto desconhecido! Ah! Era bom.

E tinha de ter uma página só minha e com uma caixa a bold à volta do meu texto, para o enquadrar e isolar do resto da publicação porque eu compreendo que as outras pessoas que partilhassem a página contígua não pudessem estar ao mesmo nível... mas eu seria misericordioso para todos e até me esforçaria para não ser tão genial, só um pouco, ali ainda na fronteira do humanamente possível. Mas de vez em quando faria uma travessura e zás, espetava com um texto genial, textos que no espaço de duas linhas fariam as pedras da calçada chorar e alguém como o Cavaco Silva rir com gosto.

É pena que não haja editores assim em Portugal, é de facto pena.

Um editor justo e bom, corajoso, com bom gosto. Uma pessoa boa, amigo do seu amigo, mas ético e inflexível, um que não alinhasse em modas. E que fosse bem parecido também e bem sucedido. Uma pessoa fantástica, no geral, e que eu pudesse ser citada dali por 20 ou 30 anos e entrevistada em documentários sobre mim.

Mas eu compreendo. Sei que é complicado arriscar e que há muita pressão para não falhar. Sei que a vida de um editor ou director de publicação é complicada. É preferível apostar em valores seguros, testados pelo mercado e que é muito difícil que deixem uma marca pessoal, que se orgulhem mesmo daquilo que fizeram e da importância que o seu trabalho teve. É preferível agir da forma como sempre agiram, da forma como fazem os outros e que é aquilo que se espera deles e depois quando morrerem nem deixam nada de especial para trás, pagaram dinheiro a pessoas sem talento para escrever crónicas ou colunas invisíveis e assépticas, textos que o tempo rapidamente irá apagar, coisas sem estrutura literária, lixo, mero lixo reciclado de ideias batidas e clichés e piadas forçadas e tudo de uma alma baça e vulgar, aquilo que imaginam eles que é o espelho de um leitor medíocre, o tal que nem sequer compra jornais e revistas boas...

É triste, mas é perfeitamente compreensível e eu aceito bem.
Um abraço.