domingo, 14 de agosto de 2011

lua cheia

Ela diz-me agora que eu estou bêbado, para não ir escrever, porque só vou fazer figura de parvo. Ela diz que está "fodida dos cornos" e que parece a Amy Whinehouse naquela figura e parece genuinamente preocupada com isso. Saí à rua há pouco e as tascas já estavam fechadas, apenas o restaurante fino da avenida estava com gente lá dentro, embora tivesse a placa austera do FECHADO na porta. Bati à porta e, mantendo-me sóbrio e angélico, perguntei se podia comprar cerveja. O empregado disse que sim e comprei muita cerveja. Quando ia para casa com o saco de plástico cheio de cerveja passei por um carro estacionado com dois alcoólicos a sério, costumo vê-los na minha rua, ali a beber e a fumar e a falar de coisas que os entusiasmam muito porque estão sempre a gesticular a falar muito assertivos. Estavam dentro do carro a beber e a fumar. Está lua cheia e sopra uma brisa muito agradável, gosto quando à noite arrefece e não está aquela estufa do dia. Em casa ela está deitada no sofá à espera da cerveja, provavelmente adormeceu a ver o biggest loser.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A família fantasma

Tenho imaginado uma família que não existe. Uma mulher e dois filhos, um rapaz e uma rapariga. E um gato. Podiam ser reais acho eu, mas não são, seja porque numa ou noutra ocasião eu fugi a sete pés do compromisso, seja porque noutra fugiram de mim, é assim que as coisas funcionam, não há drama nisso. Dou-lhes características, especialmente defeitos que me irritam ou aborrecem e me fazem sair de casa à noite para não os aturar ou fechar-me dentro do escritório a tocar guitarra mas que no fundo me fazem gostar muito deles. Estão a tornar-se verosímeis ao ponto de achar que um dia se vão fartar de mim. Ela vai pedir-me o divórcio e depois ficar com a custódia deles e deixar-me o gato, a que eu sou alérgico. Tenho medo de os tornar demasiado reais, especialmente ela. Ontem apercebi-me disso quando fiquei excitado a meio de uma cena que imaginei quando estava no meu jardim com a palmeira, a fumar um cigarro à noite. Ela vinha de robe para o jardim, sentava-se de pernas cruzadas no meio das ervas selvagens. Ouviam-se grilos e as ervas sussurram com o vento e depois ela começa a baloiçar lentamente, como se estivesse a ouvir uma música e vejo-lhe um bocadinho do seio nu, pelo robe entreaberto. E eu sinto-me muito longe dela apesar de estar ali ao pé. Não consigo ouvir a música. Ela está triste e deve ser por causa de mim. Apesar de não lhe conseguir ver a cara de forma definida, é a mulher mais bonita que já vi.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Conto infantil: o Don Ursan

Era uma vez um urso chamado Don Ursan. O Don Ursan era muito conquistador e muito falador, estava sempre a dar uma flor e a piscar os olhos e a dobrar as orelhas às fêmeas da floresta.

"Olá, tudo bem? Toma uma flor *wink* Toma uma flor *wink* Olá tudo bem? Flor. " dizia o Don Ursan. Um dia o Don Ursan lanchou pão com tulicreme e bebeu um leite com chocolate ucal e foi à danceteria. Chegou lá e havia duas gémeas a dançar! Depressa se pôs a conquistar!

"Olá, toma uma flor. Olá toma uma flor *wink*", disse o Don Ursan.
"Olá, obrigada." disse a Carina, que era a gémea da esquerda.
"Olá, obrigada." disse a Vânia, que era a gémea da direita. Eram ambas da margem sul do rio do bosque e vinham muito aperaltadas.
A festa estava muito animada e o Don Ursan já quase não tinha flores para oferta. Eis quando chega o Axel Pixel, o melhor bailarino da floresta.

"what's up" disse o Axel Pixel em estrangeiro.
O Don Ursan ficou muito arreliado, porque o Axel Pixel era mesmo muito dotado e depressa as Gémeas foram dançar com ele.

"Wuhuuu!" disse a Carina.
"Yeaah!" disse o Axel Pixel.
"Wuuuhhuuu!" disse a Vânia.
A situação era desesperante. O Don Ursan afastou-se cabisbaixo, mas depressa encontrou outra rapariga interessante, a dançar o twist.

"Olá, toma uma flor" disse o Don Ursan, dobrando as orelhas de forma muito atraente.
"Obrigada" disse a rapariga do vestido "mas estou acompanhada".

Muito desanimado, o Don Ursan foi para o piso de baixo. Pediu um leite ucal on the rocks ao balcão e ficou ali sentado. Era uma noite de disco na danceteria e havia muitos homens que gostam de outros homens.

"Então e a nós, não nos dás flores?" perguntaram os homens que gostam de outros homens.
"Estão é mas é malucos!" disse o Don Ursan, enquanto tentava conquistar outra senhora que, ele não sabia, mas só gostava de outras senhoras.

Nisto, disparado da outra ponta da pista de dança veio um menino que gosta de meninos, muito determinado, em direcção ao nosso urso desanimado.

"És homemfóbico? Vou-te en***r que é para aprenderes!" disse o menino determinado.
Nesse momento apareceu o Anjo Gabriel que o menino repreendeu:

"Não senhor, não podes andar por aí a en***r pessoas!" disse o Anjo Gabriel.
E lançou uma bomba nuclear na discoteca.

"Buuum" disse a bomba nuclear.
FIM


os outtakes de uns seriam a obra prima de outros

ir à ópera

A ópera sempre me fez muita confusão. Não só não acho normal que as pessoas cantem em vez de falar, como ainda por cima o façam em alemão ou italiano. Se pagarmos uma pequena fortuna temos direito a um livrinho com as falas (cantorias?) de cada personagem mas depois ter de ler aquilo e ver a ópera ao mesmo tempo é um bocado como ser co-piloto e piloto de rally ao mesmo tempo. Os co-pilotos de rally têm de estar muito concentrados para sincronizar perfeitamente a estrada com as notas detalhadas do bloquinho: curva 3 esquerda lomba 60 metros para asfalto 6 direita não corta não corta salto 2 esquerda. Se calha distraírem-se, ficam dessincronizados com a estrada e estampam-se porque dizem esquerda 3 em vez de direita 5. Acontecia-me o mesmo na ópera, constantemente. Eles demoram imenso tempo a dizer uma palavra e repetem-na muitas vezes: “miiiooooooo aaamooooOOooOoooOreeeee amooooooOOooOOooore aaamooore amoooreee miooooo” ao ponto de ter vontade de gritar do camarote do s. Carlos “JÁ SEI! ELA JÁ SABE PORRA! ANDA LÁ COM ISSO!”. E ainda por cima falam com uma dicção esquisita, não se ouvem consoantes, é só vogais o tempo todo: “aaAaaaAAAaaaa” é quando estão emocionados, “oooOoooOOH” significa que estão a morrer, “eeeeEEeeEEEEEH” normalmente significa que estão impacientes ou zangados, “uuuUUuuUuuuuuuUu” que o Nuno Gomes falhou mais um golo fácil e o “iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiih” é que estão histéricos ou assustados. Então acontecia-me saltar as deixas depressa demais e era super confuso porque a pessoa que supostamente estava a declarar-se à outra parecia indiferente e a que era suposto rejeitar o amor do outro parecia suplicante.

sábado, 6 de agosto de 2011

quando os pais descobrirem como criar profiles fictícios para controlar os filhos na internet

carlos: olá, então, tudo curtido?
jfl_97: =D lol ya e ctg?
carlos: ya, por aqui também.
jfl_97: o ke?
carlos: por aki também. tens jogado playstation?
jfl_97: yep, oje fiz mega score no cod
carlos: pois, e não estudaste patavina
jfl_97: :| e...? tb jogas ps? cod?
carlos: ya, eu também, fiz mega score hoje mesmo
jfl_97: jogaxte com que classe?
carlos: 1ª classe eu, sempre
jfl_97: hã? classe sniper, médico, assault?
carlos: sniper, é muita louco.
jfl_97: tb kurto mais o sniper
carlos: olha, tu não sentes vontade de matar os teus colegas não?
carlos: eu às vezes sinto por causa do jogo. se calhar devia jogar menos
jfl_97: taz maluko =D
carlos: e devia estudar mais
jfl_97: lol puto estudar é uma cena ke a mim nao me axiste =D lol lol
carlos: não percebi, os teus pais não te assistem nos estudos?
jfl_97: S tax lerdo man
carlos: se precisares de ajuda nos estudos se calhar devias pedir-lhes ajuda
jfl_97:sao xatos pá sempre a melgar
carlos: eles se calhar estao bem intencionados e tu é que és um preguiçoso
jfl_97: boooring se é pa falar de extudox vou deskonetar puto
carlos: não espera, e drogas, gostas de drogas?
jfl_97: porke perguntas?
carlos: eu... eu gosto muito de drogas. posso arranjar-te drogas, queres?
jfl_97: n sei
carlos: tenho aqui umas ricas drogas, muito loucas, queres?
jfl_97: k drogas?
carlos: drogas espectaculares meu, vais ficar na lua com estas drogas que eu tenho aqui
jfl_97: ya, kero ver isso trax pra eskola
jfl_97: lol a minha mãe tá-se a passar
jfl_97: tá ali no portátil do meu pai e agora amandou um berro
jfl_97: e foi xamar o meu pai
jfl_97: yô carlos?
jfl_97: tás online puto?
jfl_97: tenho de desligar os meus pais vêm aí

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

ou fizeram o hit sem querer ou foram as palhaçadas do gajo da harmónica, mas

os Count Five foram apenas um pequeno átomo na imensidão de talento da melhor era da música e só fizeram esta de sucesso crítico e de vendas mas, Jesus, que música, quem não bater o pé é porque gostaria antes de ouvir uma música dos The Gift cantada pelo João Pedro Pais e a Mafalda Veiga. Em dueto.

e na sua toca, para além da playstation e de jogos de guerra, vão descobrir um manifesto de 1500 páginas contra o "os humanos e o aquecimento global"

'British Tourist' Killed By Polar Bear - One member of a British tourist group has been killed and four others injured in a polar bear attack in Norway. - Sky News

vestir bem

Sou o primeiro (ou o segundo, vá) a reconhecer que o http://oalfaiatelisboeta.blogspot.com/ é um bom blogue. Bem escrito e tantas pessoas elegantes e fotogénicas pela rua, pessoas bonitas e bem vestidas. As fotos são boas e é um blogue cheio de good vibes que até faz impressão. Uma coisa são modelos e actrizes, uma pessoa vê aquilo nas fotos, na tv, nas revistas e pensa "ah, ok são modelos pfff". Mas ali são mulheres que andam na rua, ao contrário das modelos que são congeladas em pequenas embalagens a vácuo e descongeladas antes de serem fotografadas ou utilizadas em festas do Berlusconi. E ele consegue captar bem a beleza delas (o alfaiate, não o berlusconi) e não me custa nada ver que as minhas amigas (imaginárias) podiam perfeitamente figurar naquele blogue. O que me faz espécie é a grande parte dos homens que escolhe e que, suponho, corporizem as tendências da moda. Só vejo tipos assim na rua em sítios como o Chiado ou o Lx Factory. Parecem quase todos saídos de um imaginário homo-erótico. Se calhar é inevitável. Acho que não existe forma de um tipo pensar muito na sua roupa, no seu aspecto, no seu cabelo, no perfume, na sua pele, acessórios etc. e não parecer um pouco homo. É sempre um trade off. Não me refiro aos casos mais evidentes e extravagantes de homossexuais flamboyants ou de metrossexuais. Mesmo quando são subtis e relativamente clássicos, há qualquer coisa de intencional e consciente, revelado em detalhes contemporâneos, como se aquilo não fosse uma emanação natural da identidade  e que só por acaso calhou assentar no contexto actual.

tenho de levar o carro à revisão e inspecção

sábado 7 de Julho de 1497, Belém, estalero Precision

- Mui boa tarde fremoso mecânico. A caravela está pronta? Necessito dela amanhã, pera a mui necessária viagem à Índia, pera a qual fuide incumbido por sua Excelência, hum dos maiores da nassão, D. Manuel I.
- Está pronta sim senhoras, senhor Vasco. Ora aqui tem o leme... o livrete... e aqui a factura.
- Ui! Como pudeis? Quarenta mil reis? Isto constitui hum mui eloquente e fremoso roubo!
- Pintámos os riscos no casco do lado direito...
- Oh, os riscos. O descendente de meretriz do arrumador de alcântara... ele haver com cada hum! Só porque não lhe hei guarnecido os mui fundos bolsos com moedas de oiro. E para que fim? Para os dispender em mui fremoso vinho?
- Isto precisava era de um Salazar em cada esquina senhor Vasco!
- Quem sede tal figura, Salazar?
- Olhe, pintámos tudo senhor Vasco, ficou como novo. Também mudámos a válvula de compressão do injector da cambota de veios do leme.
- Por Deus, que vinde a ser tal jiga-jóhia?
- Ermm.. é um... é o... o coiso... está ligado ao carburador.
- Hmm... Estaides a hengrominar-me?
- Pronto, isto deve ter sido um engano. Desculpe. Desconta 10 reis. Também verificámos a pressão do casco, alinhámos o leme, mudámos o alcatrão, está como novo, pode ir para Índia à confiança.
- Mas como pode isto ter-me custeado 40 mil reis? Peço mui humilde perdão, mas phodei-vos bem phodidos! Sede uma fortuna, por Deus! Trata-se de uma mui bem urdida artimanha!
- Tivemos de mudar as velas senhor vasco. Pusemos umas Bosch, novinhas. Só em velas foram 38 mil reis!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

fantasma

Uma noite produtiva para mim é estar sozinho, ter cerveja, poder fumar, escrever e ouvir músicas, enquanto tento inventar histórias idiotas. Descobri há algum tempo que a música é uma droga estimulante muito boa para atingir determinados estados de espírito embora prejudique um pouco a concentração e o discernimento. Então podemos sintonizar o estado de espírito que queremos recorrendo a música e uma dose certa de bebida - apenas o suficiente para dissolver contracturas existenciais - como quando estamos num jantar e só depois do 2º copo de vinho as pessoas começam a rir e a falar um pouco mais alto. Ultimamente ando numa receita de oldies em barda, recorrendo ao youtube. As oldies são cantadas por fantasmas apaixonados. Naquela época as canções só falavam de uma coisa: amor. E aqueles fantasmas, as vozes registadas em suportes magnéticos ou de vinil, crepitantes do tempo, as imagens a preto e branco e cheias de grão, como se viessem do além, cantam para mim. A minha biblioteca é composta maioritariamente por livros de pessoas que já são fantasmas também, leio muito poucos autores vivos, quase que faço questão disso. Morram primeiro, depois logo se vê. O fumo dissolve-se pela janela aberta. De dez em dez minutos um avião levanta vôo, a caminho de outra metrópole. Já me habituei ao som que no início me parecia um trovão a anunciar tempestade. Sinto-me como um fantasma! Dreeeeam dream dream dream dreeEeeeam dream dream dream...

procura-se sítio público com matrecos em Lisboa

Para snooker é evidente, há o Fox Trot, um belíssimo bar. Mas para matrecos? Com o fim da feira popular e do salão de jogos monumental do rato, a coisa ficou complicada.

A mesa deve ter as seguintes especificações oficiais:
  1. Ser de madeira, estável, pesada, os bonecos de ferro e sem empenos nas barras.
  2. O tampo pode descair um pouco das balizas para o meio campo, mas com curvatura suave, nada de covas e ondulações.
  3. Os cantos e linhas laterais devem ter uma pequena cunha ou "rodapé" para facilitar o regresso de bolas lentas ao centro do jogo, mas nada de cunhas gigantes que fazem a bola saltar e impossibilitam o uso de tabelas.
  4. As bolas devem obrigatoriamente ser pesadas, nada de bolas de madeira ou plástico demasiado leve (os três pontos acima excluem a mesa intratável do Clube Ferroviário).
  5. É bom haver cerveja para hidratação, é um desporto muito exigente.
  6. Idealmente, estão presentes "cromos" da faixa etária dos 45 para cima que bebem minis e jogam matrecos como jogavam futebol na Premier League antes do Mourinho ir para lá.
  7. Tem de haver uma equipa do Benfica e uma outra do Anti-Benfica. Nenhum boneco da equipa do Benfica pode ter a cabeça e os pés serrados como vi uma vez num café na zona oeste.
É isto.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

vencer

Quando era puto, por vezes faltava às aulas para jogar snooker a dinheiro, depois tive de parar porque avisaram os meus pais e nem o facto de eu ter média de 18 os convencia do meu método de estudo. Comecei a partir dos 16 anos. O responsável pela sala de jogos não nos deixava jogar com menos de 16 anos, apesar das nossas insistências. 16 anos era mesmo a idade mítica. Acho que nunca desejei tanto ter uma idade como 16 anos. De aí em diante a idade passou a ser uma abstracção. Treinava todos os dias e passava fome porque gastava o dinheiro do lanche em snooker e por vezes perdia e tinha de dar coisas (CDs, jogos) para pagar as dívidas. Outras vezes ganhava e sentia-me o rei e pagava rodadas de imperiais (deixavam-nos beber, jogar é que não). Depois aos fins de semana às vezes jogava em casa de um amigo que tinha mesa e à noite, quando podia sair, ia ao bar com mesa de snooker no centro da pequena cidade e desafiava tipos velhos, com 19 anos por exemplo, que jogavam contra mim, com as namoradas dengosas a suspirar de tédio. Ficavam ali, observando o namorado, um rechemengo maçarro de peito feito, a dar uma lição no geek desengonçado. Juntavam-se amigos e curiosos, a observar, de copo da mão, ao som do saturday night da wigfield.

Começava sempre avassalador, à tom cruise na cor do dinheiro. Inspirado e eufórico, visualizava trajectórias, era arrojado, tinha nota artística, metia bolas com duas tabelas, fazia curvas dando tacadas quase na vertical, usava efeitos... Mas quando chegava à bola preta, mesmo que fosse uma jogada fácil e básica, eu projectava mentalmente o acto de falhar, os meus braços ficavam tensos, espasmódicos e, sob os olhares dos estranhos e da namorada do mongo, falhava mesmo, deixando a preta à porta. Outras vezes dava uma castanhada idiota na preta e a branca acabava por entrar, perdia o jogo. Como prémio levava umas palmadinhas no ombro, tap tap tap e o tipo voltava para o pé da namorada, de peito inchado e eu para casa, de mãos nos bolsos vazios. Nunca ganhei nenhum jogo nesse bar.

Mais ou menos pela mesma altura, em 1994, vi o Baggio falhar aquele penalti contra o Brasil com um chuto para a estratosfera, entregando o título mundial. O melhor jogador do mundial marcar um penalti assim, um chuto daqueles, milhões de pessoas a ver, o fim de uma carreira marcado por um falhanço trágico. E os brasileiros a festejar o título aos saltos, felizes porque ele falhou, não dependeu deles, foi ele que falhou, foi ele que decidiu o título mundial. E depois o ar de resignação dele, a olhar para o chão, mãos na cintura, o desejo de desaparecer do planeta. É muito mais interessante um penalti falhado do que um marcado, que é o que se espera. O que importa é o estilo e querer, genuinamente, vencer. Um título é uma nota de rodapé na história.

e pronto, estava-se mesmo a ver...

Videojogos violentos retirados do mercado após ataque na Noruega - Público.

Um tipo inspira-se na Bíblia, considera-se um templário, um cristão, recria um Mein Kampf caseiro durante 9 anos, tem acesso a armas legais automáticas, adquire fertilizantes químicos que são base de explosivos, inscreve-se em partido de extrema direita onde lhe fomentam as ideias, movimenta-se em fóruns de extremistas, testa explosivos na quinta, treina fogo real, tem acesso a munições especiais que explodem no impacto, não vê o pai há 10 anos, tem uma vida social de alienação total, tomava esteróides em barda, pertencia ou fingia pertencer à maçonaria etc. etc. etc. etc. e os jogos "violentos", jogados por centenas de milhões de pessoas por todo o mundo, surgem como bode expiatório numa manobra de marketing de uma worten lá do sítio.

Para se ver o ridículo da coisa, até o Warcraft proibiram, só porque a besta jogava Warcraft, um jogo tão violento como o Senhor dos Anéis ou o Harry Potter. Só me vem à memória o facto do assassino de John Lennon ser um adolescente obcecado pelo Catcher in The Rye do Salinger.

É evidente que alguém com instintos violentos e fantasias militares gostará, à partida, de jogos militares. A questão que se coloca é o percurso inverso. Podia encher centenas de páginas só de exemplos pré-jogos, pré-televisão, pré-cinema, de violência extrema fundada em ideologia / crenças. Neste particular, só a Bíblia podia encher 10 volumes. Não se metam nisso.

"venda" do Roberto por 8,6 milhões

Não compreendo a preguiça dos jornalistas e comentadores desportivos. Noticiam as coisas sem questionar? O Benfica comunicou de facto a venda por 8.6 milhões ao Saragoça à CMVM. A operação inicial de compra do Roberto (investigada pela PJ) teve contornos estranhos. 8,5 milhões por um guarda-redes emprestado pelo Atlético ao Saragoça, um clube do fundo da tabela. Demasiado estranho. Se não acreditei que o Benfica pagasse isso directamente por aquele guarda-redes, também não acredito que o Benfica tenha encaixado 8,6 milhões. São ainda mais absurdos, tendo em conta o contexto de debilidade financeira do Saragoça, o seu limite jurídico de não pagar nada acima de 2,5 milhões e da época péssima do Roberto.

A julgar por vários comentários de espanhóis às notícias, o Benfica incluiu os salários de Roberto nos próximos 5 anos (5 milhões que vai pagar ao Roberto ou ao Saragoça) e ainda aproveitou para abater o resto da dívida por Aimar (cerca de 1,6 milhões). Recebeu uns 2 milhões líquidos mais os 1,6 milhões que devia de Aimar (não deixa de ser ganho) o que dá uns 3,6 milhões de lucro.

Se é verdade que o comprámos por 8.5 milhões (que não acredito) então o Roberto custou-nos uns bons 5 milhões negativos.

Enfim, não sou jornalista, mas espanta-me que a notícia seja noticiada de forma tão "acrítica" por especialistas. Nos próximos dias veremos.

tenho uns ténis iguais aos dele e tudo

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

sou má pessoa.

Não consigo conter a satisfação por estar mau tempo e estragar as férias às pessoas enquanto eu trabalho e  não me sinto bem comigo mesmo. Eu tiro férias sempre em maio/junho ou setembro, nunca em agosto, e apanho bom tempo consecutivamente desde 2003, o que me dá um certo gozo. Mas nada justifica o rir-me muito de ver as praias vazias e chuva e os pobres dos veraneantes, normalmente pais forçados a tirar férias em agosto por causa dos filhos, agasalhados nas varandas dos seus hotéis, contemplando as piscinas que reflectem um céu baço e cinzento.

Eu sei que herdei muita misantropia dos meus pais, eles não gostavam de pessoas. Eram daquele tipo de casais que prefere descer uma escarpa perigosa num sítio recôndito, nem que seja preciso atar-me a uma corda aos 4 anos e descer-me com mais ou menos cuidado, para ir para uma praia sossegada sem areia, só com rochas e ondas e que quando a maré sobe desaparece e temos de fugir.

Com esta educação, eu sinto sempre que não pertenço às massas e quando acontece qualquer coisa de catastrófico para elas, como um azeite em promção esgotar em poucos minutos e ter limite de quantidades passíveis de se comprar de uma vez e as pessoas andarem à porrada pelas últimas garrafas e quererem partir o supermercado ou cair uma bancada num concerto de João Pedro Pais e matar uma dúzia de pessoas, eu sinto-me bem, como se houvesse um equilíbrio cósmico. O Benfica é a evidente excepção, aí consegui escapar à força gravítica do buraco negro social da minha família.

Esta maneira de ser não me faz uma pessoa mais feliz, longe disso. Só que eu sou assim, não há nada a fazer. Por mim chovia sempre que eu não precisasse de sol.

casamentos

Na margem sul, por exemplo, o que não falta é criatividade na forma de demonstrar afecto e felicidade pelos noivos.

Gosto muito de casamentos, acho que são o tipo de festa que não pode correr mal. Mesmo quando é super deprimente, uma pessoa acha piada aquilo e não tem pena dos noivos, muito pelo contrário. Aqui uma lista em bullets, que é uma coisa que aumenta sempre as visitas deste tipo de posts:
  • O cairro dos noivos é um Toyota Celica novo, todo kitado, com decalques com marcas como Recaro, Yoshimura, Pioneer, Falken etc. e depois com um enorme laço de tule cor de rosa (prenda dos pais)
  • O padre é alcoólico e deprime toda gente quando começa a falar na inutilidade da existência humana sem o sacrifício da mulher e que no tempo dele não eram "umas flausinas e umas megeras" como hoje.
  • Há esculturas em torresmo. Isto era um mito urbano para mim (ouvi falar num cisne de torresmo uma vez) até há poucos anos em que vi um maravilhoso castelo de fadas em torresmo (o casamento era temático da cinderela).
  • Vem gente de muito longe, há sempre um primo Joel que vem de França com a mulher Estelle (francesa) e duas crianças que são sempre o Patrick e o Sebastião.
  • Há leitão com fartura. Podia ser um ponto positivo porque eu gosto de leitão. Contudo, seria dispensável aquilo da maçã na boca do leitão e ele estar inteiro e em exposição no lugar central da mesa entre dois castiçais a imitar prata.
  • A selecção musical é uma playlist da radio cidade e o DJ Kajó inclui remisturas caseiras de clássicos disco e tem liberdade criativa na aplicação de efeitos como 'eco'.
  • Há sempre um bêbedo que é a alma da festa mas que a certa a altura começa a causar um sentimento de desconforto entre os convidados (por exemplo, quando apalpa as nádegas da noiva, por brincadeira e é empurrado pelo noivo).
  • Faz-se aquela brincadeira edificante da noiva ir para cima de uma mesa e arregaçar o vestido e depois há um leilão, os homens atiram notas para o vestido subir e mostrar a pernoca roliça e cabe ao noivo e aos pais pagarem para ela descer (ajuda a contribuir para a lua de mel em Puntacana).
  • Há a mesa dos solteiros que são todos uns "ganda malucos" e que começam a bater com os talheres nos pratos para os noivos se beijarem, o que estes fazem com grande prazer e para gáudio geral.
  • Há pancadaria, um stress qualquer, no fim da noite porque os ânimos estão em geral bastante exaltados.
  • Há sempre uns casais mais para o entradote que dançam como nos bailaricos de aldeia, agarrados um ao outro, mas ao som do She Bangs do Ricky Martin, é-lhes indiferente. E fazem sempre um ar bastante ausente, porque sabem, eles sabem o que é o casamento.
  • O momento alto das solteiras é quando se atira o ramo e há sempre uma que leva aquilo muito, muito a sério, mais do que as outras que também levam a sério mas menos e então a cena é parecida com a que se vê quando uma camisola do Aimar é atirada para o topo sul dos NoNameBoys.
"Larga, larga minha puta, é meu!!"
    Meeeeeuuu! *ssskkwwwrr*
  • Há uma mesa das senhoras que estão à rasca do pés, começa-se a compôr aí pela meia noite, localiza-se perto da pista de dança e ficam ali sentadas a massajar os pés trucidados pelos saltos e a chupar cabeças de camarão e a falar dos maridos e da miséria.
  • Os homens fumam cigarrilhas e charutos ao pé do balcão do bar aberto com pose e atitude de quem é uma pessoa da vida e que faz aquilo regularmente em casa.
  •  O noivo por esta altura está completamente alcoolizado, pálido, tem suor a escorrer pela cara e tem de ser amparado para não se estatelar no chão. Compreende-se, é o dia mais feliz da vida dele.

os ricos americanos são uns mariquinhas

Nos EUA lá chegaram a acordo e não vai haver aumento de impostos sobre os mais ricos como os democratas tinham exigido. Os republicanos cederam um bocado mas não neste ponto em particular que, pelos vistos, é muito importante para todo o eleitorado republicano. Pelas minhas contas, este eleitorado deve ser composto por milionários.

Por cá, as fortunas dos mais ricos aumentaram 17,8% no último ano e pesam 10% do PIB. Num ano de "crise". E nem sequer temos republicanos, nem um tea party - pelo menos, assim à primeira vista.