domingo, 17 de julho de 2011
mapa de vida
Pela internet, vi um restaurante japonês de ramen, no bairro da liberdade (o bairro japonês). Vi no google maps e no mapa de papel e não me pareceu longe do meu hotel. O mapa tem muitos (muitos) quadradinhos e estes quadradinhos do hotel e do bairro da liberdade estão mais ou menos no meio dos quadradinhos todos do mapa. Foram 12,5km. Para se ter uma ideia, da calçada de carriche à praça do comércio são 8 km, que estive agora a ver no google maps.
1 522 986 km². 20 milhões de habitantes.
A partir de uma certa dimensão de cidade ocorre um efeito de diluição do eu. Este efeito pode sentir-se vagamente no metro de Lisboa em hora de ponta. Mas aqui e noutras metrópoles gigantes somos literalmente despojados da nossa individualidade (e dos nossos reais quando andamos de taxi) e arrastados numa corrente de vida em que não há tempo para contemplações, filosofias e melancolias. É uma sensação libertadora mas também é esgotante. A qualidade de vida serve-se em doses de prazeres rápidos, como a cultura, a noite, a comida, o parque ao fim de semana (onde eles correm e fazem patins e skate e bicicleta que nem uns malucos)
Penso que para mim - e para muitos estrangeiros e portugueses que conheci por aqui - São Paulo não é uma cidade para se criar raízes. Seria diferente noutras cidades que não se definissem, precisamente, por serem boas para se trabalhar.
Aquilo que caracteriza o ocidental que vem cá parar, normalmente um quadro médio/alto, consultor ou empresário, é uma vida de permanente viagem e riscos. Como estão fora desde a universidade (mestrados, doutoramentos, mbas etc) têm menos lastro que outra pessoa que não teve essa vida. É uma vida muito interessante e tenho muita admiração.
Mas ao Tolan, custa-lhe sair de Lisboa. Foi difícil tirá-lo do Tejo, tiveram de usar gruas e de o desmantelar.
sábado, 16 de julho de 2011
São Paulo é duro
São Paulo é uma cidade muito cara. A 10ª a nível mundial e a mais cara da américa do sul. A mais cara do mundo é Luanda. É mais cara que Londres, Milão, Paris, Oslo, Berna... NY está em 32º lugar.
Há uma bolha imobiliária: uma renda equivalente a 1300 euros é considerada normal. Os empréstimos imobiliários cresceram 40%. A cidade tem crescido na periferia de forma caótica e ausência de uma rede de transportes sólida faz do trânsito aqui um caos. Não é apenas por luxo que S. Paulo é a 2ª cidade do mundo com mais helicopteros privados (NY é a primeira). Morrem 2 pessoas atropeladas por dia e uma pessoa é atropelada todos os 25 minutos. As passadeiras não têm semáforo de peões.
Voltando ao custo de vida, uma refeição para dois que em Lisboa custaria 50 euros num bom restaurante aqui chega facilmente ao equivalente a 100 euros. A ideia que fica é que assim que se dá o salto para "outro nível de vida" os preços disparam.
E tudo isto num país em que o salário mínimo é de pouco mais de 200 euros.
Ou seja, coisas como jornais, comida em sítios simples, tabaco etc. não estão muito mais caras do que em Lisboa, mas assim que se dá o salto para coisas de classe média como, rendas, carros, andar de taxi, sair à noite, jantar num sítio engraçado, um iPhone etc. os preços explodem. Um iPad custa 700 euros, em Portugal perto de 500.
Os carros são ainda mais caros que em portugal. Um honda civic custa o equivalente a 31 mil euros. Em Portugal pode ser comprado a partir de 18 mil euros.
Isto tem várias causas: o câmbio (o real valorizou muito), os impostos (pesam 40% do PIB, semelhante a Portugal), o crédito a consumo disparou 20% num ano, concentração na economia e um optimismo recorde. Um economista traça o paralelo com Buenos Aires, numa revista: há 10 anos Buenos Aires era uma das cidades mais caras do mundo, depois da crise, é uma das mais baratas.
Falei com muitos portugueses da minha idade que aqui vivem. É possível ganhar dinheiro em S.Paulo. Mas também comentam que tem vindo uma vaga de portugueses que julgam que S.Paulo é o el dorado, que chegam aqui com um curriculo debaixo do braço e esperam a fortuna e a sorte. Não é fácil, fica aqui o aviso. Isto não é para meninos.
Há uma bolha imobiliária: uma renda equivalente a 1300 euros é considerada normal. Os empréstimos imobiliários cresceram 40%. A cidade tem crescido na periferia de forma caótica e ausência de uma rede de transportes sólida faz do trânsito aqui um caos. Não é apenas por luxo que S. Paulo é a 2ª cidade do mundo com mais helicopteros privados (NY é a primeira). Morrem 2 pessoas atropeladas por dia e uma pessoa é atropelada todos os 25 minutos. As passadeiras não têm semáforo de peões.
Voltando ao custo de vida, uma refeição para dois que em Lisboa custaria 50 euros num bom restaurante aqui chega facilmente ao equivalente a 100 euros. A ideia que fica é que assim que se dá o salto para "outro nível de vida" os preços disparam.
E tudo isto num país em que o salário mínimo é de pouco mais de 200 euros.
Ou seja, coisas como jornais, comida em sítios simples, tabaco etc. não estão muito mais caras do que em Lisboa, mas assim que se dá o salto para coisas de classe média como, rendas, carros, andar de taxi, sair à noite, jantar num sítio engraçado, um iPhone etc. os preços explodem. Um iPad custa 700 euros, em Portugal perto de 500.
Os carros são ainda mais caros que em portugal. Um honda civic custa o equivalente a 31 mil euros. Em Portugal pode ser comprado a partir de 18 mil euros.
Isto tem várias causas: o câmbio (o real valorizou muito), os impostos (pesam 40% do PIB, semelhante a Portugal), o crédito a consumo disparou 20% num ano, concentração na economia e um optimismo recorde. Um economista traça o paralelo com Buenos Aires, numa revista: há 10 anos Buenos Aires era uma das cidades mais caras do mundo, depois da crise, é uma das mais baratas.
Falei com muitos portugueses da minha idade que aqui vivem. É possível ganhar dinheiro em S.Paulo. Mas também comentam que tem vindo uma vaga de portugueses que julgam que S.Paulo é o el dorado, que chegam aqui com um curriculo debaixo do braço e esperam a fortuna e a sorte. Não é fácil, fica aqui o aviso. Isto não é para meninos.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
viagens em trabalho
Viajar em negócios é bom porque podemos andar com um portátil, fato e pouca bagagem em aeroportos, o que manda sempre estilo e isso é fixe. E também não somos nós que pagamos a gasolina do avião e o alojamento.
Depois, toda gente sabe que a informação nova absorvida num sítio tem uma curva logarítmica. A minha é esta:
Nas primeiras horas temos muita informação nova e depois vai diminuindo ao longo dos dias, semanas, meses e anos, no caso de sítios onde se vive.
Em viagens de negócios raramente saímos da fase inicial da curva e por vezes só se tem umas horas no fim de um dia ou numa manhã antes de apanhar o avião de volta. E estamos normalmente sozinhos, quando muito com colegas, mas nunca com a namorada por exemplo, para andar de mão dada com ela e começar a discutir à brava por causa do cansaço das divergências sobre o que ver e a que ritmo. E eu nem sequer tenho namorada, pelo que é duplamente deprimente.
Para se poder dizer que se esteve em Frankfurt ou Estocolmo ou Paris a pessoas que lá foram em férias e visitaram tudo, desenvolvi um método bom. Envolve andar a pé a partir do hotel (se for num sítio central) e ter sentido de orientação. Quando se tem muito poucas horas é irrelevante (e até um desespero) querer correr para museus e ex libris e coisas dessas, embora haja quem o faça. Eu prefiro andar como se vivesse ali e fosse ao café da esquina, abstraindo-me do facto de nunca mais ir meter os pés em Estocolmo ou Frankfurt ou Paris. Na fase inicial da curva é indiferente. Só o facto de ver habitantes estrangeiros e que falam línguas estrangeiras e de ver que os carros têm chapas de matrícula iguais às dos emigrantes portugueses em Agosto, é giro.
Cansado da viagem e do dia de trabalho, ficar no hotel é sempre uma hipótese. Há muitos canais de televisão e ligamos canais financeiros, só para dar wallpaper executive a toda a cena.
Olha S.Paulo ali. Hmm hmm, está ali. Bom. Vamos ler Tostói na cama?
Depois, o viajante tenta fazer nos hotéis em que fica uma espécie de toca. Aqui podem ver como eu fiz para fumar num quarto para não fumadores, equilibrando o cigarro na latinha de guaraná.
Cuidado com as vertigens, são 20 andares. E liga-se o ar condicionado para o vento empurrar o fumo para fora e enganar o sensor!
Descobri isto sozinho. A latinha só descobri no 2º dia, depois de ver as marcas de queimaduras que o cigarro deixou na pedra ^_^ ups...
Também podem ver que a caixilharia da janela é de qualidade e a pedra também.
Lembro-me sempre de um primo afastado, mais velho, que é assim muito dado à bricolage e que sempre que ia de férias comentava estas coisas. Podiam pô-lo no Louvre que ele ia olhar para os rodapés dos corredores a ver se estavam bem envernizados e como é que faziam para impermeabilizar o tecto.
Ele a olhar para isto à noite devia pensar "iih, tshh, tanta luz acesa, é bom que tenham o tarifário bi-horário para isto..."
E hoje vou para ali para o meio à noite, há jantarito e festa. Espero sobreviver, mas também espero ver crime e violência e execuções sumárias na via pública porque dizia no guia turístico que havia disso aqui e ainda não vi nada.
Depois, toda gente sabe que a informação nova absorvida num sítio tem uma curva logarítmica. A minha é esta:
Nas primeiras horas temos muita informação nova e depois vai diminuindo ao longo dos dias, semanas, meses e anos, no caso de sítios onde se vive.
Em viagens de negócios raramente saímos da fase inicial da curva e por vezes só se tem umas horas no fim de um dia ou numa manhã antes de apanhar o avião de volta. E estamos normalmente sozinhos, quando muito com colegas, mas nunca com a namorada por exemplo, para andar de mão dada com ela e começar a discutir à brava por causa do cansaço das divergências sobre o que ver e a que ritmo. E eu nem sequer tenho namorada, pelo que é duplamente deprimente.
Para se poder dizer que se esteve em Frankfurt ou Estocolmo ou Paris a pessoas que lá foram em férias e visitaram tudo, desenvolvi um método bom. Envolve andar a pé a partir do hotel (se for num sítio central) e ter sentido de orientação. Quando se tem muito poucas horas é irrelevante (e até um desespero) querer correr para museus e ex libris e coisas dessas, embora haja quem o faça. Eu prefiro andar como se vivesse ali e fosse ao café da esquina, abstraindo-me do facto de nunca mais ir meter os pés em Estocolmo ou Frankfurt ou Paris. Na fase inicial da curva é indiferente. Só o facto de ver habitantes estrangeiros e que falam línguas estrangeiras e de ver que os carros têm chapas de matrícula iguais às dos emigrantes portugueses em Agosto, é giro.
Cansado da viagem e do dia de trabalho, ficar no hotel é sempre uma hipótese. Há muitos canais de televisão e ligamos canais financeiros, só para dar wallpaper executive a toda a cena.
Olha S.Paulo ali. Hmm hmm, está ali. Bom. Vamos ler Tostói na cama?
Depois, o viajante tenta fazer nos hotéis em que fica uma espécie de toca. Aqui podem ver como eu fiz para fumar num quarto para não fumadores, equilibrando o cigarro na latinha de guaraná.
Cuidado com as vertigens, são 20 andares. E liga-se o ar condicionado para o vento empurrar o fumo para fora e enganar o sensor!
Descobri isto sozinho. A latinha só descobri no 2º dia, depois de ver as marcas de queimaduras que o cigarro deixou na pedra ^_^ ups...
Também podem ver que a caixilharia da janela é de qualidade e a pedra também.
Lembro-me sempre de um primo afastado, mais velho, que é assim muito dado à bricolage e que sempre que ia de férias comentava estas coisas. Podiam pô-lo no Louvre que ele ia olhar para os rodapés dos corredores a ver se estavam bem envernizados e como é que faziam para impermeabilizar o tecto.
Ele a olhar para isto à noite devia pensar "iih, tshh, tanta luz acesa, é bom que tenham o tarifário bi-horário para isto..."
E hoje vou para ali para o meio à noite, há jantarito e festa. Espero sobreviver, mas também espero ver crime e violência e execuções sumárias na via pública porque dizia no guia turístico que havia disso aqui e ainda não vi nada.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
perdido na tradução
Não estou em S.Paulo de férias mas sim em trabalho. Passo o dia em reuniões de um lado para o outro com chofer particular (sempre quis poder dizer isto) e tenho tido o privilégio de ir conhecendo detalhes da mega economia paulista e as elites que nela se movem. Aqui, é verdade, dá gozo pensar numa carreira ou ser empreendedor ou ser rico. A olhar pelas enormes janelas de um escritório high tech e sóbrio num 18º andar, sozinho, a ver o sol cair atrás dos arranha-céus e do véu de smog, com helicópteros a pousar no topo dos prédios, com as avenidas paulistas de 8 faixas todas bloqueadas de carros e as formiguinhas a correrem para os seus comboios e onibus... ah... uma pessoa sente-se com vontade de agarrar o mundo. De pertencer a isto! De ser uma peça relevante na máquina esmagadora! De não ser apenas mais um!! De ser dono da cidade!!!
Felizmente, sei que me vai passar assim que voltar ao meu bairro e for à minha tasca beber umas cervejinhas e folhear A Bola do dia anterior. Voltarei a ser português rapidamente.
Felizmente, sei que me vai passar assim que voltar ao meu bairro e for à minha tasca beber umas cervejinhas e folhear A Bola do dia anterior. Voltarei a ser português rapidamente.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Porque ler grande literatura clássica na tasca da minha rua às vezes é má ideia
«- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera, como poderia ele ficar vivo? - ouvia-se no meio da multidão - E era novo, era um rapaz... devia ser dos comerciantes, irra, que povo!...»
- Então o que é vai ser hoje?
- Pode ser uma canja e o entrecosto frito com arroz de feijão.
- SAI UMA CANJA! E É QUENTE NÃO É A FERVER! SAI MEIA DE ENTRECOSTO DEPOIS DA SOOOOPA! E para beber?
- Pode ser uma cerveja.
- Com certeza. Posso pôr aqui o pão?
- Não quero pão mas ponha aqui o cestinho, dá jeito para me segurar o livro aberto, obrigado.
Ok Tolan... onde é que tu ias... ah... «- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera»
- Ó sô Antunes, fiquei-lhe a dever alguma coisa de ontem?
- Ficou a dever duas minis.
- Não fiquei nada!
- Ai isso é que ficou Sô Antunes, ele é um caloteiro!
- Não perca dentro de instantes a grande entrevista a Durão Barroso aqui na RTP1.
- Olha m'este agora, tá lá com o bom tacho a mamar! Havia era de ser delapidado!
- Lapidado ó ignorante!
- Ó Sô Antunes, é mais 5 minis!
Calma Tolan, calma, concentra-te no livro, tens de ler o 3º volume até ao fim hoje.
«- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera, como poderia ele ficar vivo? - ouvia-se no meio da multidão - E era novo, era um rapaz... devia ser dos comerciantes, irra, que...»
- Olha o Benfica ó!
- Então o Saimar ainda joga lá?
- O "Saimar"?
- O Savola!
- Saviola!
«- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera, como poderia ele ficar vivo?» concentra-te Tolan
- Olha a gasolina vai aumentar outra vez ó.
- Que cambada... é impostos a subir e a gasolina a aumentar... um gajo tá fodido.
- Bebe mas é, cala-te!
«- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera, como poderia ele ficar vivo?» concentra-te Tolan «ouvia-se no meio da multidão - e era novo, devia ser dos comerciantes, irra, que povo!...»
- Oh Sô Antunes a máquina não tá desbloqueada!
- Tá desbloqueada tá, a luz verde tá acesa.
- Atão não aceita a nota!
- Ó urso, tás a pôr uma nota de 10!
- E isto não aceita?
- Só aceita de 5!
- A dali do Manel dos Frangos aceita de 10!
- Tás mas é parvo!
- Aceita aceita, vais lá e vês se não aceita.
- CALEM-SE! SIM O CARALHO DA MÁQUINA DO MANEL ACEITA NOTAS DE 10!!! CALEM-SE! POR AMOR DE DEUS! ESTOU A LER O TOLSTÓI! O Tolstói! Tenho de acabar o 3º volume hoje ou tenho de levar este e o 4º volume no avião amanhã! Por causa de 10 ou 15 páginas vou ter de ir com o 3º volume que vou ler logo que estiver sentado no avião 10 horas de seguida. Tolstói! Tolstói! Preciso de acabar de ler esta merda hoje, faltam-me umas 30 páginas, ainda tenho de fazer a mala e dobrar camisas e fatos e vocês SABEM DOBRAR CAMISAS? NÃO POIS NÃO? E eu vou ter de VIDEOS DE DOBRAR CAMISAS NO YOUTUBE ! Só vim aqui comer uma canja e um entrecosto frito e ler em paz, dá só para falarem um bocado mais baixo? É preciso gritar?... Irra, que povo!
- Então o que é vai ser hoje?
- Pode ser uma canja e o entrecosto frito com arroz de feijão.
- SAI UMA CANJA! E É QUENTE NÃO É A FERVER! SAI MEIA DE ENTRECOSTO DEPOIS DA SOOOOPA! E para beber?
- Pode ser uma cerveja.
- Com certeza. Posso pôr aqui o pão?
- Não quero pão mas ponha aqui o cestinho, dá jeito para me segurar o livro aberto, obrigado.
Ok Tolan... onde é que tu ias... ah... «- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera»
- Ó sô Antunes, fiquei-lhe a dever alguma coisa de ontem?
- Ficou a dever duas minis.
- Não fiquei nada!
- Ai isso é que ficou Sô Antunes, ele é um caloteiro!
- Não perca dentro de instantes a grande entrevista a Durão Barroso aqui na RTP1.
- Olha m'este agora, tá lá com o bom tacho a mamar! Havia era de ser delapidado!
- Lapidado ó ignorante!
- Ó Sô Antunes, é mais 5 minis!
Calma Tolan, calma, concentra-te no livro, tens de ler o 3º volume até ao fim hoje.
«- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera, como poderia ele ficar vivo? - ouvia-se no meio da multidão - E era novo, era um rapaz... devia ser dos comerciantes, irra, que...»
- Olha o Benfica ó!
- Então o Saimar ainda joga lá?
- O "Saimar"?
- O Savola!
- Saviola!
«- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera, como poderia ele ficar vivo?» concentra-te Tolan
- Olha a gasolina vai aumentar outra vez ó.
- Que cambada... é impostos a subir e a gasolina a aumentar... um gajo tá fodido.
- Bebe mas é, cala-te!
«- Oh, meu Deus, o povo é como uma fera, como poderia ele ficar vivo?» concentra-te Tolan «ouvia-se no meio da multidão - e era novo, devia ser dos comerciantes, irra, que povo!...»
- Oh Sô Antunes a máquina não tá desbloqueada!
- Tá desbloqueada tá, a luz verde tá acesa.
- Atão não aceita a nota!
- Ó urso, tás a pôr uma nota de 10!
- E isto não aceita?
- Só aceita de 5!
- A dali do Manel dos Frangos aceita de 10!
- Tás mas é parvo!
- Aceita aceita, vais lá e vês se não aceita.
- CALEM-SE! SIM O CARALHO DA MÁQUINA DO MANEL ACEITA NOTAS DE 10!!! CALEM-SE! POR AMOR DE DEUS! ESTOU A LER O TOLSTÓI! O Tolstói! Tenho de acabar o 3º volume hoje ou tenho de levar este e o 4º volume no avião amanhã! Por causa de 10 ou 15 páginas vou ter de ir com o 3º volume que vou ler logo que estiver sentado no avião 10 horas de seguida. Tolstói! Tolstói! Preciso de acabar de ler esta merda hoje, faltam-me umas 30 páginas, ainda tenho de fazer a mala e dobrar camisas e fatos e vocês SABEM DOBRAR CAMISAS? NÃO POIS NÃO? E eu vou ter de VIDEOS DE DOBRAR CAMISAS NO YOUTUBE ! Só vim aqui comer uma canja e um entrecosto frito e ler em paz, dá só para falarem um bocado mais baixo? É preciso gritar?... Irra, que povo!
mentalizar-me
O desafio será o de retroceder a um estado infantil puro, dominado por memórias infantis e por uma ficção permamente e total. Um estado em que não existe ressentimento e não existe memória de longo prazo. O tempo corre lentamente e cheio de detalhes, como uma formiga que trepa um muro e desaparece numa fenda ou a textura do nariz de um cão, ou como aqueles grandes planos estáticos e escatológicos dos bonecos do Ren & Stimpy. Não existe formatação prévia. Não existe preconceito. O conhecimento é feito de ilhas isoladas que são interligadas de forma quase onírica para preencher os espaços vazios do desconhecido. Se está a trovejar, pode ser S.Pedro a arrastar cadeiras ou nuvens como sólidos gigantes a roçarem-se umas nas outras e a soltar faíscas. Se o meu lobinho fantoche de peluche fala comigo quando eu o animo com a mão, ele é o Lobinho Jeremias e não um fantoche de peluche. Se esta cana é uma espada ela é uma espada e aquela árvore é na realidade uma planta carnívora. É preciso retroceder aos arquétipos das formas, das cores, dos sons e dos sentimentos. O medo do escuro existe porque no escuro se esconde um monstro. O monstro é real. A alegria é real e não tem consciência de si, livre da melancolia de ser um estado transitório. Nem sequer a vida é transitória. Somos imortais.
Hans Christian Andersen
Tenho lido os contos de Hans Christian Andersen e para todos os efeitos, ele está lá. Os contos são estranhos. Não são minimamente lineares. As personagens são incoerentes, o tempo “cronológico” é completamente abstracto e mesmo os recursos da linguagem são inesperados. Há toda uma diferença para com os contos de Oscar Wilde por exemplo, estes últimos (e mais ou menos da mesma época) são bem mais “ocidentais” (e muito bonitos, é certo). Os contos de Andersen, até pela ausência de moral recordam-me contos muito antigos, escritos pelos Sufis (há uma edição disso na Assírio& Alvim) ou mesmo contos primitivos da Papua Nova Guiné. São histórias cheias de elementos oníricos e fortes, carregados de simbolismos primitivos, crueis e viscerais e cujo o curso é por vezes desconfortável por não se colar a nada do que deve ser uma história nem se preocupar com justificações. E uma criança a ler aquilo encontra uma lógica natural ou então empancará com detalhes que a um adulto parecerão inusitados. Por exemplo, em vez de perguntar "como pode um sapo falar?" ela perguntará "porque é que o sapo não arranja outra noiva?"
domingo, 10 de julho de 2011
São Paulo
Como o texto dali de baixo é muito grande (mas é giro, a sério) era só para dizer que vou para São Paulo em trabalho uma semaninha e que pode ser a primeira de muitas semaninhas em São Paulo este ano, essa Nova Iorque da América do Sul. Gosto de São Paulo à partida porque tendo a gostar de grandes cidades cosmopolitas em que uma pessoa pode andar por lá sem ser obviamente turista. Agradecem-se dicas de sobrevivência e não só.
depois do início, as aranhas
Depois de nos instalarmos na aldeia, começaram as obras. O meu pai queria aproveitar o sotão da sala principal para fazer um quarto e assim mandaram abaixo o telhado e o tecto da sala. O chão estava coberto de plásticos para proteger o soalho de madeira enquanto uma equipa de pedreiros escavacava tudo. Era muito engraçado sair do quarto e a caminho da cozinha ter uma sala sem tecto nem telhado. Via-se o céu azul ou estrelado, dependendo de ser de dia ou de noite.
Insisti com os meus pais para deixarmos a sala assim e a minha mãe até achou boa ideia porque podia ser um pátio interior mas o meu pai disse que ela estava maluca.
As obras tiveram de parar uns dias porque começou a chover muito e realmente era pouco prático, especialmente à noite quando queríamos ir de pijama e chinelos do quarto à casa de banho e tínhamos de passar por ali e ensopar os chinelos dos coelhos. Para além de um novo quarto para os meus pais, contruíram outra sala que seria o meu quarto e ainda uma casinha encostada à nossa casa, com um forno de lenha. Passou a ser 'a casa do forno' e tinha um grande terraço no telhado e podia-se ver muito longe. O meu pai usou o forno umas duas vezes para cozer pão, não era muito prático porque o fumo vinha para dentro e ele saía de lá todo farrusco a tossir e com os olhos vermelhos, mas ficou casa do forno na mesma porque como não tinha telhado mas sim um terraço, aquecia muito quando batia o sol e era impossível estar lá dentro.
Descobri que tinha medo de aranhas mais ou menos nessa altura. A minha mãe tinha muito medo de aranhas e fez com que eu também tivesse medo de aranhas. No campo havia muito mais aranhas do que na Bélgica. Acho que na Bélgica só vira uma vez uma em casa da minha avó, na banheira e também no museu de história natural em que havia tarântulas vivas dentro de uma gaiola de vidro. O meu pai dizia que de vez em quando fugia uma e podia estar em qualquer parte de Bruxelas e depois a minha mãe ralhava com ele, nem era por me assustar mas porque a assustava a ela.
Mas ali no campo era todos os dias. Com as obras no sotão e o destruir do telhado e madeiras, elas fugiam para as outras divisões da casa e todas as noites havia uma aranha gorda e peluda num canto do tecto do meu quarto. As tábuas do tecto eram escuras e só mesmo olhando com muita atenção podia aperceber-me que lá estava uma à espreita e depois gritava muito a pedir ajuda.
A minha mãe vinha ver o que se passava e não ajudava porque às vezes até se recusava a entrar no quarto e eu ficava deitado na cama a pedir-lhe para que viesse para o pé de mim.
-- Je vais apeler papa! -- e partia a correr.
E deixava-me ali a tremer, escondido nos lençois com o Snoopy que gozava comigo porque ele não tinha medo das aranhas. O meu pai vinha e já se sabia que antes de me ajudar iria fazer parelha com o Snoopy e gozar muito comigo e com a minha mãe.
Não levava a tarefa de matar a aranha suficientemente a sério e eu e a minha mãe dávamos instruções:
-- Non! Não uses o vassouro, merde, vai antes buscar o de plástico ou o esfregone!
-- Não lhe dês só um toque que ela cai para trás da biblioteca e depois desaparece!
-- Dá-lhe com força! Não a deixes fugir!
--Encore! Encore!
As aranhas ficavam imóveis à espera mas quando a vassoura se aproximava começavam-se a mexer e eu arrepiava-me todo e a minha mãe magoava-me com as unhas espetadas no meu braço. Quando o meu pai não estava em casa ou não tinha paciência para vir resolver o problema, a minha mãe usava insecticidas. A pontava à aranha de muito longe e gastava quase meia lata a fazer fssssss e a fugir e depois a fazer fsssst outra vez e a fugir.
As aranhas nunca morriam logo, começavam a andar e a tossir e quando o faziam a minha mãe afastava-se mais e soltava pequenos gritos e eu ficava com a impressão que se a aranha avançasse para mim ela fugia e não dava a vida por mim, como nos filmes.
Finalmente as aranhas caíam no chão mas continuavam a andar aos tropeções. Quando aquilo acabava eu ficava com uma nuvem tóxica no quarto.
Nas noites em que as aranhas me deixavam em paz, havia sempre uma centopeia de pelo menos dez centímetros. Quando vi uma pela primeira vez abri o meu livro dos dinossauros, havia uns fósseis parecidos com elas.
Para me sossegar e ajudar a adormecer depois de um avistamento de aranha, a minha mãe contava-me aldrabices. Dizia que não havia mais de uma aranha por sala, que se tinham morto aquela não haveria mais nenhuma, que os familiares daquela iriam contar às outras que aquele quarto era perigoso e era melhor não irem para lá, que era só porque tinha chovido ou por causa das obras e que normalmente não teria tantas aranhas e outras coisas do género. O meu pai não ajudava nada, só dizia 'é uma aranha, não faz mal ninguém, até dá cabo das melgas'.
Realmente, havia muitas melgas também. E moscas, havia tantas moscas no pátio e que nos obrigavam a andar sempre com um mata-moscas. Na região havia muitas quintas com porcos e vaquinhas e o meu pai dizia que era disso, as melgas e as moscas nasciam nas águas porcas.
Barravam-me com Tabard e quase que nem conseguia respirar. Apetecia-me dormir debaixo dos lençóis e fechar bem a minha toca para que nem aranhas nem melgas nem centopeias pudessem entrar na cama mas o problema é que passado um bocadinho estava cheio de calor e tinha de respirar. Nessa altura ficava exposto ao perigo mas resistia com muito heroísmo. O meu pai fazia pesca submarina e uma vez tentei usar o tubo da respiração na cama, deixando-o de fora dos lençóis fechados mas não me resolvia o problema do calor e também podia dar-se o caso de um bicho entrar pelo tubo adentro, o que seria mau. Então desistia e punha a cabeça de fora, ao fresco. Não demorava nem dois minutos até começar a ouvir o zzz de uma melga nos meus ouvidos. Tentava adivinhar onde elas estavam e dava grandes estaladas na minha cara e por vezes, no dia seguinte, ainda tinha as marcas das porradas que me dava e depois a minha mãe explicava na à dona Célia da creche que eu é que me tinha feito aquilo à cara. Também acendia a luz e tentava caçá-las mas era muito difícil porque o tecto era muito escuro e quando elas pousavam no tecto eu não as conseguia ver.
Como se não bastasse, toda esta inquietação dava-me pesadelos muito reais com aranhas a prender-me em teias e melgas a sugarem-me todo o sangue e não se pode dizer que dormisse descansado naquele tempo.
Insisti com os meus pais para deixarmos a sala assim e a minha mãe até achou boa ideia porque podia ser um pátio interior mas o meu pai disse que ela estava maluca.
As obras tiveram de parar uns dias porque começou a chover muito e realmente era pouco prático, especialmente à noite quando queríamos ir de pijama e chinelos do quarto à casa de banho e tínhamos de passar por ali e ensopar os chinelos dos coelhos. Para além de um novo quarto para os meus pais, contruíram outra sala que seria o meu quarto e ainda uma casinha encostada à nossa casa, com um forno de lenha. Passou a ser 'a casa do forno' e tinha um grande terraço no telhado e podia-se ver muito longe. O meu pai usou o forno umas duas vezes para cozer pão, não era muito prático porque o fumo vinha para dentro e ele saía de lá todo farrusco a tossir e com os olhos vermelhos, mas ficou casa do forno na mesma porque como não tinha telhado mas sim um terraço, aquecia muito quando batia o sol e era impossível estar lá dentro.
Descobri que tinha medo de aranhas mais ou menos nessa altura. A minha mãe tinha muito medo de aranhas e fez com que eu também tivesse medo de aranhas. No campo havia muito mais aranhas do que na Bélgica. Acho que na Bélgica só vira uma vez uma em casa da minha avó, na banheira e também no museu de história natural em que havia tarântulas vivas dentro de uma gaiola de vidro. O meu pai dizia que de vez em quando fugia uma e podia estar em qualquer parte de Bruxelas e depois a minha mãe ralhava com ele, nem era por me assustar mas porque a assustava a ela.
Mas ali no campo era todos os dias. Com as obras no sotão e o destruir do telhado e madeiras, elas fugiam para as outras divisões da casa e todas as noites havia uma aranha gorda e peluda num canto do tecto do meu quarto. As tábuas do tecto eram escuras e só mesmo olhando com muita atenção podia aperceber-me que lá estava uma à espreita e depois gritava muito a pedir ajuda.
A minha mãe vinha ver o que se passava e não ajudava porque às vezes até se recusava a entrar no quarto e eu ficava deitado na cama a pedir-lhe para que viesse para o pé de mim.
-- Je vais apeler papa! -- e partia a correr.
E deixava-me ali a tremer, escondido nos lençois com o Snoopy que gozava comigo porque ele não tinha medo das aranhas. O meu pai vinha e já se sabia que antes de me ajudar iria fazer parelha com o Snoopy e gozar muito comigo e com a minha mãe.
Não levava a tarefa de matar a aranha suficientemente a sério e eu e a minha mãe dávamos instruções:
-- Non! Não uses o vassouro, merde, vai antes buscar o de plástico ou o esfregone!
-- Não lhe dês só um toque que ela cai para trás da biblioteca e depois desaparece!
-- Dá-lhe com força! Não a deixes fugir!
--Encore! Encore!
As aranhas ficavam imóveis à espera mas quando a vassoura se aproximava começavam-se a mexer e eu arrepiava-me todo e a minha mãe magoava-me com as unhas espetadas no meu braço. Quando o meu pai não estava em casa ou não tinha paciência para vir resolver o problema, a minha mãe usava insecticidas. A pontava à aranha de muito longe e gastava quase meia lata a fazer fssssss e a fugir e depois a fazer fsssst outra vez e a fugir.
As aranhas nunca morriam logo, começavam a andar e a tossir e quando o faziam a minha mãe afastava-se mais e soltava pequenos gritos e eu ficava com a impressão que se a aranha avançasse para mim ela fugia e não dava a vida por mim, como nos filmes.
Finalmente as aranhas caíam no chão mas continuavam a andar aos tropeções. Quando aquilo acabava eu ficava com uma nuvem tóxica no quarto.
Nas noites em que as aranhas me deixavam em paz, havia sempre uma centopeia de pelo menos dez centímetros. Quando vi uma pela primeira vez abri o meu livro dos dinossauros, havia uns fósseis parecidos com elas.
Para me sossegar e ajudar a adormecer depois de um avistamento de aranha, a minha mãe contava-me aldrabices. Dizia que não havia mais de uma aranha por sala, que se tinham morto aquela não haveria mais nenhuma, que os familiares daquela iriam contar às outras que aquele quarto era perigoso e era melhor não irem para lá, que era só porque tinha chovido ou por causa das obras e que normalmente não teria tantas aranhas e outras coisas do género. O meu pai não ajudava nada, só dizia 'é uma aranha, não faz mal ninguém, até dá cabo das melgas'.
Realmente, havia muitas melgas também. E moscas, havia tantas moscas no pátio e que nos obrigavam a andar sempre com um mata-moscas. Na região havia muitas quintas com porcos e vaquinhas e o meu pai dizia que era disso, as melgas e as moscas nasciam nas águas porcas.
Barravam-me com Tabard e quase que nem conseguia respirar. Apetecia-me dormir debaixo dos lençóis e fechar bem a minha toca para que nem aranhas nem melgas nem centopeias pudessem entrar na cama mas o problema é que passado um bocadinho estava cheio de calor e tinha de respirar. Nessa altura ficava exposto ao perigo mas resistia com muito heroísmo. O meu pai fazia pesca submarina e uma vez tentei usar o tubo da respiração na cama, deixando-o de fora dos lençóis fechados mas não me resolvia o problema do calor e também podia dar-se o caso de um bicho entrar pelo tubo adentro, o que seria mau. Então desistia e punha a cabeça de fora, ao fresco. Não demorava nem dois minutos até começar a ouvir o zzz de uma melga nos meus ouvidos. Tentava adivinhar onde elas estavam e dava grandes estaladas na minha cara e por vezes, no dia seguinte, ainda tinha as marcas das porradas que me dava e depois a minha mãe explicava na à dona Célia da creche que eu é que me tinha feito aquilo à cara. Também acendia a luz e tentava caçá-las mas era muito difícil porque o tecto era muito escuro e quando elas pousavam no tecto eu não as conseguia ver.
Como se não bastasse, toda esta inquietação dava-me pesadelos muito reais com aranhas a prender-me em teias e melgas a sugarem-me todo o sangue e não se pode dizer que dormisse descansado naquele tempo.
sábado, 9 de julho de 2011
o início
O meu pai discutia sozinho se devia parar o carro na próxima bomba de gasolina ou se devia continuar mais uns quilómetros. A minha mãe tinha o mapa Michelin aberto e tentava descobrir onde estávamos mas o meu pai disse-lhe que ela tinha o mapa ao contrário e a minha mãe disse-lhe que não. O meu pai tinha um papel preso com fita-cola no tablier do Peugeot 504 com uma lista de cidades e as horas a que devíamos passar por elas e irritava-se se estivessemos atrasados.
O meu pai insistia que a minha mãe tinha o mapa ao contrário e a minha mãe dizia que não, que uma autoestrada às vezes passa ao lado das cidades e por isso é difícil perceber onde se está. Eu disse que tinha vontade de fazer chichi e o meu pai disse-me para aguentar mas a minha mãe disse que também tinha vontade de fazer chichi e parámos na bomba de gasolina com o meu pai a corrigir as horas no papel do tablier, muito enervado.
A minha mãe parecia muito contente de ir para Portugal porque havia sol lá e na Bélgica não havia sol. Eu não gostava de chuva e não gostava de neve. Naquele ano tínhamos passado um Natal na floresta das Ardenas, os meus pais, as duas irmãs da minha mãe e amigos. Havia muita neve e frio e por isso não foi bom. A neve é fria e molhada e depois queremos andar e enterramo-nos até aos joelhos e o pai tem de nos pôr às cavalitas. O meu pai era alto e eu sentia-me tonto e sempre a cair quando andava às cavalitas dele, mas era melhor do que enterrar-me todo na neve e ficar para trás nos passeios. Às vezes o meu pai esquecia-se que eu estava às cavalitas dele e passava por debaixo de ramos cheios de neve e eu chocava com a cara nos ramos e a neve caía-nos toda em cima. O meu pai ralhava comigo como se a culpa fosse minha e punha-me no chão e eu enterrava-me todo outra vez.
O meu pai também não gostava muito de neve porque para além de lhe cair em cima quando eu estava às cavalitas dele, não podia pescar quando o rio estava gelado. Passava muito tempo na cozinha do grande chalé porque os amigos da minha mãe eram contra a televisão e riam de forma desagradável quando o meu pai queria ver o Benfica a jogar na Taça dos Campeões Europeus. O meu pai dizia que os amigos da minha mãe eram os ‘intelectuais da merda’ e era ele que cozinhava coisas enquanto os intelectuais da merda discutiam filosofia e política à lareira e fumavam muito e não percebiam de futebol. A minha mãe explicou-me que o meu pai dizia muitas asneiras porque tinha estado no exército mas que eu não podia dizer asneiras. Os intelectuais amigos da minha mãe também diziam muitas asneiras só que era em francês, porque não tinham estado no exército. Diziam ‘merde’ muitas vezes: ‘ah merde il neige encore’, ‘merde, mes cigarretes son finies’, ‘ah non hein, merde, encore c'ete stupide telé ’. Tinham grandes barbas e não me ligavam muito. Eu tinha uma pistola de cowboy com fulminantes e corria de um lado para o outro a dar tiros.
O Jean Michel era um intelectual e parecia o John Lennon. Andava sempre com uma máquina fotográfica e tirava fotografias sem parar. Depois revelava as fotografia. Lia muito concentrado num grande cadeirão, coçando a barba e ajeitando os óculos redondos que lhe caíam para o nariz. Falava muito pouco e eu até gostava dele porque estava sempre a sorrir sozinho e a olhar para as coisas embasbacado.
Uma vez quis brincar com ele e aproximei-me por trás porque ele era um índio, só que ele não sabia que era um índio e dei-lhe um tiro com a pistola mesmo ao pé dos ouvidos e ele assustou-se muito e ficou com dificuldades em respirar. A minha mãe tirou-me a pistola e ralhou mas o meu pai deu-me uns bocados de toucinho na cozinha.
O meu pai insistia que a minha mãe tinha o mapa ao contrário e a minha mãe dizia que não, que uma autoestrada às vezes passa ao lado das cidades e por isso é difícil perceber onde se está. Eu disse que tinha vontade de fazer chichi e o meu pai disse-me para aguentar mas a minha mãe disse que também tinha vontade de fazer chichi e parámos na bomba de gasolina com o meu pai a corrigir as horas no papel do tablier, muito enervado.
A minha mãe parecia muito contente de ir para Portugal porque havia sol lá e na Bélgica não havia sol. Eu não gostava de chuva e não gostava de neve. Naquele ano tínhamos passado um Natal na floresta das Ardenas, os meus pais, as duas irmãs da minha mãe e amigos. Havia muita neve e frio e por isso não foi bom. A neve é fria e molhada e depois queremos andar e enterramo-nos até aos joelhos e o pai tem de nos pôr às cavalitas. O meu pai era alto e eu sentia-me tonto e sempre a cair quando andava às cavalitas dele, mas era melhor do que enterrar-me todo na neve e ficar para trás nos passeios. Às vezes o meu pai esquecia-se que eu estava às cavalitas dele e passava por debaixo de ramos cheios de neve e eu chocava com a cara nos ramos e a neve caía-nos toda em cima. O meu pai ralhava comigo como se a culpa fosse minha e punha-me no chão e eu enterrava-me todo outra vez.
O meu pai também não gostava muito de neve porque para além de lhe cair em cima quando eu estava às cavalitas dele, não podia pescar quando o rio estava gelado. Passava muito tempo na cozinha do grande chalé porque os amigos da minha mãe eram contra a televisão e riam de forma desagradável quando o meu pai queria ver o Benfica a jogar na Taça dos Campeões Europeus. O meu pai dizia que os amigos da minha mãe eram os ‘intelectuais da merda’ e era ele que cozinhava coisas enquanto os intelectuais da merda discutiam filosofia e política à lareira e fumavam muito e não percebiam de futebol. A minha mãe explicou-me que o meu pai dizia muitas asneiras porque tinha estado no exército mas que eu não podia dizer asneiras. Os intelectuais amigos da minha mãe também diziam muitas asneiras só que era em francês, porque não tinham estado no exército. Diziam ‘merde’ muitas vezes: ‘ah merde il neige encore’, ‘merde, mes cigarretes son finies’, ‘ah non hein, merde, encore c'ete stupide telé ’. Tinham grandes barbas e não me ligavam muito. Eu tinha uma pistola de cowboy com fulminantes e corria de um lado para o outro a dar tiros.
O Jean Michel era um intelectual e parecia o John Lennon. Andava sempre com uma máquina fotográfica e tirava fotografias sem parar. Depois revelava as fotografia. Lia muito concentrado num grande cadeirão, coçando a barba e ajeitando os óculos redondos que lhe caíam para o nariz. Falava muito pouco e eu até gostava dele porque estava sempre a sorrir sozinho e a olhar para as coisas embasbacado.
Uma vez quis brincar com ele e aproximei-me por trás porque ele era um índio, só que ele não sabia que era um índio e dei-lhe um tiro com a pistola mesmo ao pé dos ouvidos e ele assustou-se muito e ficou com dificuldades em respirar. A minha mãe tirou-me a pistola e ralhou mas o meu pai deu-me uns bocados de toucinho na cozinha.
o antitaxista
No CERN procuram a antimatéria. Eu ontem descobri alguma na forma de antitaxista. Foi a caminho do bairro alto, com um amigo. Parecia um taxista normal, tinha uma pulseirinha de ouro, t-shirt coçada, cabelo um bocado comprido e penteado para trás. Até que largou num anti-monólogo, com a techno da Orbital em pano de fundo
Com o Salazar é que era... uma pobreza, miséria... que filho da puta aquele Salazar, havia era de ter morrido logo à nascença. Isto era só analfabetos e eles queriam assim tá a ver? "Assine aí! Ai não sabe escrever? Ponha só o dedo, tá bom assim". Que miséria. E ainda há pessoas que "ai o Salazar!" foda-se, até me faz confusão (...) E depois metem os pretos todos ao molho a viver em sítios horríveis, a polícia nem entra lá tá a ver? Estão à espera de quê? (...) E é por isso que para mim desde o Eça que não há um escritor português de jeito, daqueles mesmo bons, e depois você vê as críticas é tudo corrido a 4 e 5 estrelas, foda-se, parece um país de analfabetos (...) E agora é as agências de rating ó caralho, tá tudo entretido a cascar nas agências de rating e esqueceu-se tudo que tamos endividados e que a europa não consegue resolver o problema da grécia mas é melhor desviar as atenções e dar muita importância a isso, parece coisa de Salazar: "eles é que são maus lá fora, nós temos de nos unir todos" etc. Têm é de investigar os conflitos de interesse na estrutura accionista dessas agências, mas isso da guerra euro-dólar é uma tanga porque nem a China nem os EUA ganham seja o que for se o euro for abaixo, pelo contrário (...) E querem criar uma agência europeia, pública, como se as avaliações dela tivessem credibilidade assim por magia, é do caralho, o Salazar havia de achar muito boa ideia (...) E hoje foi o último voo do vaivém Atlantis, por acaso tenho pena porque isto significa que agora isso de ir a Marte fica muito adiado e se calhar já nem vivo para ver isso, é uma pena. (...)
Saímos do táxi convictos que se aquele taxista comete o infortúnio de se aproximar demais de um colega, pode ocorrer uma mega-explosão capaz de arrasar boa parte da Península Ibérica.
Com o Salazar é que era... uma pobreza, miséria... que filho da puta aquele Salazar, havia era de ter morrido logo à nascença. Isto era só analfabetos e eles queriam assim tá a ver? "Assine aí! Ai não sabe escrever? Ponha só o dedo, tá bom assim". Que miséria. E ainda há pessoas que "ai o Salazar!" foda-se, até me faz confusão (...) E depois metem os pretos todos ao molho a viver em sítios horríveis, a polícia nem entra lá tá a ver? Estão à espera de quê? (...) E é por isso que para mim desde o Eça que não há um escritor português de jeito, daqueles mesmo bons, e depois você vê as críticas é tudo corrido a 4 e 5 estrelas, foda-se, parece um país de analfabetos (...) E agora é as agências de rating ó caralho, tá tudo entretido a cascar nas agências de rating e esqueceu-se tudo que tamos endividados e que a europa não consegue resolver o problema da grécia mas é melhor desviar as atenções e dar muita importância a isso, parece coisa de Salazar: "eles é que são maus lá fora, nós temos de nos unir todos" etc. Têm é de investigar os conflitos de interesse na estrutura accionista dessas agências, mas isso da guerra euro-dólar é uma tanga porque nem a China nem os EUA ganham seja o que for se o euro for abaixo, pelo contrário (...) E querem criar uma agência europeia, pública, como se as avaliações dela tivessem credibilidade assim por magia, é do caralho, o Salazar havia de achar muito boa ideia (...) E hoje foi o último voo do vaivém Atlantis, por acaso tenho pena porque isto significa que agora isso de ir a Marte fica muito adiado e se calhar já nem vivo para ver isso, é uma pena. (...)
Saímos do táxi convictos que se aquele taxista comete o infortúnio de se aproximar demais de um colega, pode ocorrer uma mega-explosão capaz de arrasar boa parte da Península Ibérica.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
mais sapiência do Dr. Tolan
fã nº1 (sim, é ela)
porque é que (mais de) metade das pessoas hoje em dia é incapaz de escrever uma frase que seja sem erros? são as pessoas que estão a ficar mais burras ou é um problema educacional?
Dar erros é uma forma de expressão individual e nesta sociedade que tenta obliterar o indivíduo e transformá-lo numa máquina, erros como "combina-mos para a semana" ou "fize-mos um bom passeio" são formas de nos destacar-mos.
fã nº1 (de novo, é a única que leva isto mesmo a sério)
porque é que há pessoas que anos e anos depois da invenção da internet continuam a acreditar em mails em cadeia e a entupir-me o email com essas porcarias? será que têm mesmo medo de cair numa poça de merda se não enviarem o mail a 20 pessoas?
Por incrível que pareça, também há pessoas que anos e anos depois de votarem continuam a fazê-lo e outras que depois de anos e anos a terem relações amorosas e as respectivas naturais desilusões catastróficas continuam a querer tê-las.
fã nº22422
Interrogo-me porque é que todos os senhores da publicidade deixam na caixa do correio não "nenhum panfleto", não "apenas um panfleto", mas sim "dois panfletos iguais"? Será que pensam que vamos querer ler não nenhuma, não uma, mas sim duas vezes a Dica da Semana?
São panfletos em 3D, com uma técnica conhecida por estereograma. Deverá a fã colocar as Dicas da Semana lado a lado numa superfície plana a cerca de 50cm e tentar focar um ponto invisível entre as duas. Com alguma prática conseguirá ver a embalagem de Fairy e o compre 3 pague 2 e o Angélico em pose sensual, como se estivessem ali na sua sala.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Urso Panda
Este é mais um post dedicado ao Panda Bear, porque o Tomboy é claramente um dos melhores discos que ouvi nos últimos anos e eu gosto muito disso quando isso acontece e depois apetece-me desabafar e um blogue é óptimo para isso.
Panda Bear - Alsatian Darn (Tomboy 2011)
Por vezes ao ouvi-lo sou acometido de uma agradável sensação de estar a aprender a ouvir música e, ao mesmo tempo, de já conhecer isto de algum lado. Nunca consegui entrar em Animal Collective (a banda a que ele pertence). Adorava certas músicas mas, no geral, considerava os discos um pouco caóticos demais. Reconhecia-lhes uma imensa qualidade e originalidade, mas também por vezes a sensação de que a originalidade, o soar como nada antes, era uma busca radical que sacrificava componentes mais melódicas e clássicas e não se compadecia com o conforto do ouvinte. É uma busca legítima para uma banda, mas também pode colocar facilmente a música num terreno de uma atitude mais superficial. Aliás, vejo os Animal Collective como uma pop levada a um extremo forte e interessante, mas que dificilmente conseguia fazer uma ligação emocional comigo. É o tipo de bandas que depois influencia 300 bandas que aperfeiçoam os conceitos em bruto e os arredondam para um consumo mais amplo. Certamente que voltarei a ouvi-los com atenção, desde o início.
O Noah Lenox é ele próprio uma emanação (ou será um arquétipo?) de algo que está nos Animal Collective mas que aqui aparece mais humano e simplificado. O que me surpreende na sua música é a forma como se desenrola com ondas que depois encaixam, a música dele é como um puzzle que se vai resolvendo até fazer sentido. Como alguém que julgamos ser louco e alienado e que depois de uns minutos, começamos a perceber que afinal está ali um génio. Tudo isto me lembra outra descoberta deste ano, o Gary Wilson. E nada disto parece ser feito com esforço ou artificialismo. A nível de produção (um hobbit) é magistral a forma como as misturas dominam os reverbs (complexos) e as camadas sucessivas e saturadas que brincam umas com as outras, conseguindo fazer de um disco gravado numa cave em Lisboa, por um gajo que se auto-intitula Urso Panda, uma coisa própria de espaços luminosos e grandes horizontes e enlevos de alma e flashbacks à infância e correrias em campos de trigo.
Não quero exagerar e dizer que oiço o "ar de Lisboa" no Tomboy do Panda Bear, porque isso seria reduzir o meu apreço por ele a uma coisa provinciana e patriota (já o ter um tema chamado Benfica, confesso que contribui) mas sem dúvida que o considero uma feliz coincidência. Quando caminharei por Lisboa a ouvir o Tomboy nas orelhas e dentro da cabeça, sentirei um poucochinho mais a música e a cidade, um privilégio. Deviam dar o nome dele a uma rua. Quem não gostaria no nº2, 2ºDTO da rua Panda Bear? E vou utilizá-lo muito porque eu ando a precisar de ouvir coisas assim nesta fase.
coisas que me fazem pensar que é boa ideia continuar em Lisboa, pagar as quotas ao Benfica e eventualmente casar com a linda portuguesa
...ao senhor Panda Urso, mal não fez:
Panda Bear - Tomboy (2011)
Panda Bear - Tomboy (2011)
open letter to Moody
Dear Mr. Moody,
We tries. We really really tries here at our great country who ivented India and Brazil. We was not very happy with A- but still, it was A. But now we only got B in your speculative expectations class and our parents are going to kill us when they find out :(
Mr Father Christmas already told us that this Christmas we would only have half of our presents because we was not good people. It is really sad to recieve half of new iPad because it probably will not work. But now with B, Father Christmas will give us socks, not even iPad battery and included cables and instructions.
We feels this is very much unfair because this time we said we was going to try really very hard, study very much and grow very much and spend very less and pay the monies to the jews.
But it is like you read our mind. You knew that we would be garbage before we were garbage. This is much shock to us and it really changed the way we think of ourselfes and afected our self-estime. We need therapy now.
Yesterday we looks at mirror and see brave potuguese who invented square tactic to punch spanish toreros in the face and build greatest bridge in europe that we celebrated with the biggest beanary in the world and owned half the world and gave the other half to the spanish toreros because they were crying like babies. Today we look at the mirror and we see garbage.
And not even recyclabe garbage, like the one in the yellow, blue or green containers. Just garbage, like spines of sardines and banana peals and leftovers of pizza.Now all the american raccoons will want to live here and we will have infestation!
But this will not last long! America has superpower of secret recipe of Coca-Cola. Germany has superpower of making german cars. French have superpower of making museums like Louvre that magically atract foreign valuable things. Italians have superpower of having a country called Italy. Spanish have the superpower of thinking they have superpower. But only we have superpower of desenrascanço!
This is such a superpower that it is impossible to translate to mortal foreing languages like english or american. We are able of thinking of many great ways of solving things when things neeed to be solved. If USA was governed by Portuguese, we would have captured mr Bin Laden in 1999 using bits of chouriço and a fishing net.
We are misunderstood geniouses, like Einstein. He also had B in "relativity theory" class but he left university and invented relativity theory and got AAA in it. And his parents were much happy and sorry that Father Christmas gave him socks the year before. His work created the atomic bomb that you used to downgrade the rating of Japan.
We are not afraids. We will study speculative expectations such much that we will have AAAAAAAAAAARGH FUCK YOU+++ in the end of the year!
Best regards
the portuguese peoples
We tries. We really really tries here at our great country who ivented India and Brazil. We was not very happy with A- but still, it was A. But now we only got B in your speculative expectations class and our parents are going to kill us when they find out :(
Mr Father Christmas already told us that this Christmas we would only have half of our presents because we was not good people. It is really sad to recieve half of new iPad because it probably will not work. But now with B, Father Christmas will give us socks, not even iPad battery and included cables and instructions.
We feels this is very much unfair because this time we said we was going to try really very hard, study very much and grow very much and spend very less and pay the monies to the jews.
But it is like you read our mind. You knew that we would be garbage before we were garbage. This is much shock to us and it really changed the way we think of ourselfes and afected our self-estime. We need therapy now.
Yesterday we looks at mirror and see brave potuguese who invented square tactic to punch spanish toreros in the face and build greatest bridge in europe that we celebrated with the biggest beanary in the world and owned half the world and gave the other half to the spanish toreros because they were crying like babies. Today we look at the mirror and we see garbage.
And not even recyclabe garbage, like the one in the yellow, blue or green containers. Just garbage, like spines of sardines and banana peals and leftovers of pizza.Now all the american raccoons will want to live here and we will have infestation!
But this will not last long! America has superpower of secret recipe of Coca-Cola. Germany has superpower of making german cars. French have superpower of making museums like Louvre that magically atract foreign valuable things. Italians have superpower of having a country called Italy. Spanish have the superpower of thinking they have superpower. But only we have superpower of desenrascanço!
This is such a superpower that it is impossible to translate to mortal foreing languages like english or american. We are able of thinking of many great ways of solving things when things neeed to be solved. If USA was governed by Portuguese, we would have captured mr Bin Laden in 1999 using bits of chouriço and a fishing net.
We are misunderstood geniouses, like Einstein. He also had B in "relativity theory" class but he left university and invented relativity theory and got AAA in it. And his parents were much happy and sorry that Father Christmas gave him socks the year before. His work created the atomic bomb that you used to downgrade the rating of Japan.
We are not afraids. We will study speculative expectations such much that we will have AAAAAAAAAAARGH FUCK YOU+++ in the end of the year!
Best regards
the portuguese peoples
quarta-feira, 6 de julho de 2011
plágio
Quando eu era pequeno pensava que plágio (que escrevia "pelágio" até há uns 4 ou 5 anos) era aquela fase anual dos cães em que eles perdem imenso pêlo.
"Mãe, mãe, a Patinhas está com 'pelágio', olha só a minha camisola azul escura!"
Portanto, ainda hoje distingo as duas coisas: o plágio, acto de copiar qualquer coisa que outra pessoa criou e tomá-la como sua, e o pelágio, fase em que os cães perdem mais pêlo que o normal. Tive muitas dificuldades na pontuação desta frase.
Nas áreas criativas, em que uma pessoa cria muitas coisas, sejam piadas, anúncios, porcos, marcas, galinhas ou músicas, acontece por vezes um plágio de coincidência.
Perante um determinado problema que é sempre o mesmo, o criativo lembra-se de uma solução criativa que já foi usada. E se não souber disso mas outra pessoa souber, pode ser - injustamente - acusado de plágio.
Uma pequena dose de má fé ajuda a ver má fé nos outros. Felizmente, não há pessoas invejosas no mundo da criatividade, é tudo gente boa e que fica feliz pelos sucessos uns dos outros. Aliás, o maior medo que um criativo tem, especialmente o masculino, é o do seu próprio 'pelágio' - a que se dá o nome científico de alopécia.
E se não é no particular, na frase, na ideia, na piada, também pode haver acusação de plágio / inspiração no global de uma obra. Nabokov estava sempre a levar com a "acusação" de que o Convite para uma Decapitação era inspirado no Processo do Kafka, apesar deste jurar a pés juntos que não tinha lido Kafka porque nem havia traduções na altura em que escreveu o Convite para ma Decapitação.
O Borges, o escritor argentino, diz uma coisa muito gira. E ele diz que é inútil tentar escrever metáforas rebuscadas para ser original porque as metáforas boas são as simples e que toda gente usa, como "a vida é um sonho" ou "o Passos Coelho é uma alforreca".
"Mãe, mãe, a Patinhas está com 'pelágio', olha só a minha camisola azul escura!"
Portanto, ainda hoje distingo as duas coisas: o plágio, acto de copiar qualquer coisa que outra pessoa criou e tomá-la como sua, e o pelágio, fase em que os cães perdem mais pêlo que o normal. Tive muitas dificuldades na pontuação desta frase.
Nas áreas criativas, em que uma pessoa cria muitas coisas, sejam piadas, anúncios, porcos, marcas, galinhas ou músicas, acontece por vezes um plágio de coincidência.
Perante um determinado problema que é sempre o mesmo, o criativo lembra-se de uma solução criativa que já foi usada. E se não souber disso mas outra pessoa souber, pode ser - injustamente - acusado de plágio.
Uma pequena dose de má fé ajuda a ver má fé nos outros. Felizmente, não há pessoas invejosas no mundo da criatividade, é tudo gente boa e que fica feliz pelos sucessos uns dos outros. Aliás, o maior medo que um criativo tem, especialmente o masculino, é o do seu próprio 'pelágio' - a que se dá o nome científico de alopécia.
E se não é no particular, na frase, na ideia, na piada, também pode haver acusação de plágio / inspiração no global de uma obra. Nabokov estava sempre a levar com a "acusação" de que o Convite para uma Decapitação era inspirado no Processo do Kafka, apesar deste jurar a pés juntos que não tinha lido Kafka porque nem havia traduções na altura em que escreveu o Convite para ma Decapitação.
O Borges, o escritor argentino, diz uma coisa muito gira. E ele diz que é inútil tentar escrever metáforas rebuscadas para ser original porque as metáforas boas são as simples e que toda gente usa, como "a vida é um sonho" ou "o Passos Coelho é uma alforreca".
terça-feira, 5 de julho de 2011
Tema político nº221: o fim das golden shares
Portugal tem muitas empresas com golden shares. Ter algumas empresas com golden shares é normal, mas tantas também não. Isto porque as golden shares prejudicam a eficiência das empresas. Golden shares são as acções detidas por uma linhagem de golden retrievers com um antepassado comum; um golden retriever do século XIX que herdou a fortuna imensa de Sr. Lord Tweedmouth depois deste excluir da herança a mulher e os filhos por 'não ficarem tão contentes como ele quando chego a casa'.
Contudo, apesar das gerações de golden retrievers com golden shares, estes não são especialmente famosos pelas suas qualidades de gestão, pelo menos, não tanto como pelas suas qualidades de caçadores de aves aquáticas.
Uma empresa com golden retrievers com golden shares a mandar tem cantinas onde só se comem golden mcnuggets ao almoço e a sobremesa é goldem grahams, prejudicando o moral e a motivação dos restantes colaboradores que pretendiam uma dieta mais diversificada.
E depois gastam uma fortuna em jardins com lagos cheios de patos reais que mandam importar da inglaterra, quando temos cá patos portugueses bons e de qualidade, mas que como não são importados não prestam.
Os outros accionistas queixam-se destas e de outras exigências mirabolantes, como a de todas as viagens de negócios, mesmo as intercontinentais que habitualmente se fazem em executiva no avião, se terem de fazer de carro com a janela aberta e a cabeça de fora.
Também têm o hábito pouco convencional de fazer chichi quando querem marcar uma posição numa assembleia de accionistas. Estas e outras atitudes têm afastado investidores das empresas com golden shares e resulta numa gestão pouco transparente e despesista. Por isso, é de aplaudir o fim das mesmas e a sua troca por generosas quantidades de saborosos biscoitos, troca a que os golden retrievers não parecem hostis à partida.
Sr. Lord Biscuit, primeiro herdeiro da fortuna de Sr. Lord Tweedmouth
Contudo, apesar das gerações de golden retrievers com golden shares, estes não são especialmente famosos pelas suas qualidades de gestão, pelo menos, não tanto como pelas suas qualidades de caçadores de aves aquáticas.
Uma empresa com golden retrievers com golden shares a mandar tem cantinas onde só se comem golden mcnuggets ao almoço e a sobremesa é goldem grahams, prejudicando o moral e a motivação dos restantes colaboradores que pretendiam uma dieta mais diversificada.
E depois gastam uma fortuna em jardins com lagos cheios de patos reais que mandam importar da inglaterra, quando temos cá patos portugueses bons e de qualidade, mas que como não são importados não prestam.
Os outros accionistas queixam-se destas e de outras exigências mirabolantes, como a de todas as viagens de negócios, mesmo as intercontinentais que habitualmente se fazem em executiva no avião, se terem de fazer de carro com a janela aberta e a cabeça de fora.
Também têm o hábito pouco convencional de fazer chichi quando querem marcar uma posição numa assembleia de accionistas. Estas e outras atitudes têm afastado investidores das empresas com golden shares e resulta numa gestão pouco transparente e despesista. Por isso, é de aplaudir o fim das mesmas e a sua troca por generosas quantidades de saborosos biscoitos, troca a que os golden retrievers não parecem hostis à partida.
sapiência
Apresento-vos a minha sapiência:
E ela vai responder às perguntas entretanto colocadas na página de fãs.
fã nº1
devo comprar a carteira bimba & lola que adorei mas que não dá com praticamente nenhuma roupa que tenho nem faz assim tanto o meu estilo e me faz arrepiar quando toco no tecido? é que está em saldos e só custa 29€ agora.
Deve aproveitar o baixo preço e adquirir a carteira pois assim poupará preciosos euros. Depois tem de adaptar o seu estilo à carteira bimba & lola e adquirir roupa que combine com a carteira que a fez poupar e poupar muito dinheiro no total.
Fã nº2
Por que razão os cães batem com a patinha de trás quando lhes coçamos a orelha?
Pela mesma razão que nós. Sabe bem e é um reflexo incontrolável que significa 'ohh que bom!' e tanto é observável nos cães como numa mulher a quem se dá uma carteira bimba & lola novinha.
Fã nº1 (outra vez)
porque é que os homens não conseguem não mentir? por pequena e inofensiva que seja mentira, a não conseguem não a dizer, cingindo-se à verdade. porque é que isto acontece? é uma incapacidade nata?
Só um apontamento: aqui em Lisboa dizemos "incapacidade pastel de nata" (esta fã é do Porto). Os homens não conseguem mentir porque são boas pessoas e honestas e por isso é que há muito mais políticos homens do que mulheres, por exemplo, porque as pessoas confiam mais nos homens.
Fã nº1 (yep, outra vez ela)
porque é que eu tenho de trabalhar com anormais, apesar de nenhum deles ser portador de nenhum grau de deficiência? mas mentalmente, todos padecem de alguma espécie de atraso mental, parece-me, sem querer discriminar. sabes a razão? se calhar estou a monopolizar isto...
Louva-se a atitude de não os querer discriminar e de os considerar todos anormais ao mesmo nível. Respondendo à questão, e admitindo que não trabalha nem como terapeuta da fala para crianças com necessidades especiais nem no parlamento madeirense, talvez a normalidade não seja uma palavra bem escolhida. Se trabalha num sítio em que todos são anormais e só você é normal, isso é claramente um paradoxo.
E ela vai responder às perguntas entretanto colocadas na página de fãs.
fã nº1
devo comprar a carteira bimba & lola que adorei mas que não dá com praticamente nenhuma roupa que tenho nem faz assim tanto o meu estilo e me faz arrepiar quando toco no tecido? é que está em saldos e só custa 29€ agora.
Deve aproveitar o baixo preço e adquirir a carteira pois assim poupará preciosos euros. Depois tem de adaptar o seu estilo à carteira bimba & lola e adquirir roupa que combine com a carteira que a fez poupar e poupar muito dinheiro no total.
Fã nº2
Por que razão os cães batem com a patinha de trás quando lhes coçamos a orelha?
Pela mesma razão que nós. Sabe bem e é um reflexo incontrolável que significa 'ohh que bom!' e tanto é observável nos cães como numa mulher a quem se dá uma carteira bimba & lola novinha.
Fã nº1 (outra vez)
porque é que os homens não conseguem não mentir? por pequena e inofensiva que seja mentira, a não conseguem não a dizer, cingindo-se à verdade. porque é que isto acontece? é uma incapacidade nata?
Só um apontamento: aqui em Lisboa dizemos "incapacidade pastel de nata" (esta fã é do Porto). Os homens não conseguem mentir porque são boas pessoas e honestas e por isso é que há muito mais políticos homens do que mulheres, por exemplo, porque as pessoas confiam mais nos homens.
Fã nº1 (yep, outra vez ela)
porque é que eu tenho de trabalhar com anormais, apesar de nenhum deles ser portador de nenhum grau de deficiência? mas mentalmente, todos padecem de alguma espécie de atraso mental, parece-me, sem querer discriminar. sabes a razão? se calhar estou a monopolizar isto...
Louva-se a atitude de não os querer discriminar e de os considerar todos anormais ao mesmo nível. Respondendo à questão, e admitindo que não trabalha nem como terapeuta da fala para crianças com necessidades especiais nem no parlamento madeirense, talvez a normalidade não seja uma palavra bem escolhida. Se trabalha num sítio em que todos são anormais e só você é normal, isso é claramente um paradoxo.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
perceber de vinhos
Não tentem decorar descrições de vinhos antes de ir jantar com uma pessoa só porque a querem impressionar e fingir que percebem de vinhos.
descrição de enólogo:
Bouchard Père & Fils Chassagne Montrachet 2006
Tudo ainda muito jovem, mas já tudo muito revelador. Inicialmente discreto, com a faceta mineral mais exposta e o resto algo escondido. Depois, quase que como por passe de mágica, vai-se metamorfoseando e abrindo o jogo... e que jogo! Delicados apontamentos florais, citrinos, o encanto lácteo da manteiga e das natas e toda uma imensidão de frutos secos. Avantajado no corpo e na densidade, impressivo na amplitude e profundidade de sabores, imensamente fresco e com um daqueles finais... senhores! Um branco de grande envergadura - Pedro Gomes
- Queres beber vinho?
- Sim, pode ser.
- Vamos comer peixe por isso se calhar é melhor beber um branco.
- Eu normalmente não bebo branco, não me cai bem.
- Mas hoje vais beber um branco, vais ver que gostas.
- Deixa, eu bebo água. Já me convenceste a comer peixe em vez do bitoque que eu queria. Pede cerveja.
- Não não, é um dia especial. Precisas de… beber… Ora deixa cá ver a lista: Monte Velho, Piriquita… Quinta de Pancas, Cabeça de Burro, bah, tudo vinhos normais… ah ha! Bouchard Père & Fils Chassagne Montrachet 2006… que sorte haver cá este vinho, já ouvi falar dele... Queres experimentar?
- Pode ser, sim. Não é muito caro?
- É o equivalente de uma reforma em Portugal, mas por ti vale a pena.
- Não digas isso :\ pede antes um mais barato.
- Não, não, tenho cá os meus motivos. Vamos pedir este.
‘empregado serve o vinho para aprovação'
- ‘snif snif’… glup glup… hmm, tá bom. É bom este. Cheio de arranjos florais.
- Arranjos florais? Ah ah!
- Sim, arranjos florais. Não te rias.
- Mas que tipo de arranjos florais?
- Que tipo? Daqueles... daqueles arranjos florais, mas bonitos, não é daqueles dos funerais...
- Espero bem que não!
- São daqueles assim de bom gosto, com malmequeres, rosas, tulipas...
- Olha que misturar rosas com malmequeres e tulipas, não sei se... mas tu percebes disto. Já conhecias o vinho?
- Despertou-me curiosidade porque ouvi falar dele em alguns livros que estou a ler, mas estou a prová-lo agora pela primeira vez… espera, deixa-me concentrar... tem minerais à mostra e depois tem coisas escondidas…
- Minerais? Que minerais? 'snif snif'
- Sim... quartzo... feldspato e um toque de mica. Vê lá se não dás pela mica.
- 'glup' É bom.
- Sim, mas notas a mica e o quartzo?
- Não sei. Mas é bom.
- ah! Está a abrir o jogo agora. Olha olha, é daqueles que é citrino e tem o encanto da manteiga.
- Da manteiga? Citrino?
- Sim. É assim amanteigado com lima ó, prova.
- ‘glup’ sim.. .vejo isso do citrino, parece limão…
- É mais lima. Vê lá melhor. E está imensamente fresquinho, como eu gosto. Ohhh meu Deus!
- O que foi!? Estás bem? Está-te a cair mal?
- Não, não é isso, estou emocionado com este sabor. Frutos secos, isto está cheio de frutos secos...
- Mas algum em particular? Explica-me! 'glup' Só me sabe bem.
- Nenhum em particular, é todos, é daqueles mixes da matutano, aqueles com amendoim, caju… uma imensidão.
- ‘glup’ Sim, tens razão! Eu noto um bocadinho de… nozes.
- E depois é densificado no corpo impressivo. E avantajado na amplitude da profundidade. Claramente. Este aqui é claramente um vinho impressionativo e amplo, é o meu tipo de vinhos preferido, é assim que os tenho arrumados lá em casa.
- Como?
- Isso do branco, tinto, ano, país etc. não me interessa nada, é como ter livros por ordem alfabética. Tenho os meus vinhos organizados por “amplitude”, “densidade”, “avantajamento” etc. e depois uma prateleira especial para os amplamente impressionativos amanteigados, é onde guardo alguns queijos também, queijos do mesmo género.
descrição de enólogo:
Bouchard Père & Fils Chassagne Montrachet 2006
Tudo ainda muito jovem, mas já tudo muito revelador. Inicialmente discreto, com a faceta mineral mais exposta e o resto algo escondido. Depois, quase que como por passe de mágica, vai-se metamorfoseando e abrindo o jogo... e que jogo! Delicados apontamentos florais, citrinos, o encanto lácteo da manteiga e das natas e toda uma imensidão de frutos secos. Avantajado no corpo e na densidade, impressivo na amplitude e profundidade de sabores, imensamente fresco e com um daqueles finais... senhores! Um branco de grande envergadura - Pedro Gomes
- Queres beber vinho?
- Sim, pode ser.
- Vamos comer peixe por isso se calhar é melhor beber um branco.
- Eu normalmente não bebo branco, não me cai bem.
- Mas hoje vais beber um branco, vais ver que gostas.
- Deixa, eu bebo água. Já me convenceste a comer peixe em vez do bitoque que eu queria. Pede cerveja.
- Não não, é um dia especial. Precisas de… beber… Ora deixa cá ver a lista: Monte Velho, Piriquita… Quinta de Pancas, Cabeça de Burro, bah, tudo vinhos normais… ah ha! Bouchard Père & Fils Chassagne Montrachet 2006… que sorte haver cá este vinho, já ouvi falar dele... Queres experimentar?
- Pode ser, sim. Não é muito caro?
- É o equivalente de uma reforma em Portugal, mas por ti vale a pena.
- Não digas isso :\ pede antes um mais barato.
- Não, não, tenho cá os meus motivos. Vamos pedir este.
‘empregado serve o vinho para aprovação'
- ‘snif snif’… glup glup… hmm, tá bom. É bom este. Cheio de arranjos florais.
- Arranjos florais? Ah ah!
- Sim, arranjos florais. Não te rias.
- Mas que tipo de arranjos florais?
- Que tipo? Daqueles... daqueles arranjos florais, mas bonitos, não é daqueles dos funerais...
- Espero bem que não!
- São daqueles assim de bom gosto, com malmequeres, rosas, tulipas...
- Olha que misturar rosas com malmequeres e tulipas, não sei se... mas tu percebes disto. Já conhecias o vinho?
- Despertou-me curiosidade porque ouvi falar dele em alguns livros que estou a ler, mas estou a prová-lo agora pela primeira vez… espera, deixa-me concentrar... tem minerais à mostra e depois tem coisas escondidas…
- Minerais? Que minerais? 'snif snif'
- Sim... quartzo... feldspato e um toque de mica. Vê lá se não dás pela mica.
- 'glup' É bom.
- Sim, mas notas a mica e o quartzo?
- Não sei. Mas é bom.
- ah! Está a abrir o jogo agora. Olha olha, é daqueles que é citrino e tem o encanto da manteiga.
- Da manteiga? Citrino?
- Sim. É assim amanteigado com lima ó, prova.
- ‘glup’ sim.. .vejo isso do citrino, parece limão…
- É mais lima. Vê lá melhor. E está imensamente fresquinho, como eu gosto. Ohhh meu Deus!
- O que foi!? Estás bem? Está-te a cair mal?
- Não, não é isso, estou emocionado com este sabor. Frutos secos, isto está cheio de frutos secos...
- Mas algum em particular? Explica-me! 'glup' Só me sabe bem.
- Nenhum em particular, é todos, é daqueles mixes da matutano, aqueles com amendoim, caju… uma imensidão.
- ‘glup’ Sim, tens razão! Eu noto um bocadinho de… nozes.
- E depois é densificado no corpo impressivo. E avantajado na amplitude da profundidade. Claramente. Este aqui é claramente um vinho impressionativo e amplo, é o meu tipo de vinhos preferido, é assim que os tenho arrumados lá em casa.
- Como?
- Isso do branco, tinto, ano, país etc. não me interessa nada, é como ter livros por ordem alfabética. Tenho os meus vinhos organizados por “amplitude”, “densidade”, “avantajamento” etc. e depois uma prateleira especial para os amplamente impressionativos amanteigados, é onde guardo alguns queijos também, queijos do mesmo género.
domingo, 3 de julho de 2011
a natureza humana
No Guerra e Paz, o príncipe Bolkonski é austero, disciplinado, paranóico e tortura psicologicamente a filha Maria, acusando-a de todos os defeitos possíveis e de conspirar contra ele, de ser mal intencionada.
Esta, em total abnegação, sente que é seu dever amar o pai e suportar todas as provações, esforçando-se para as ver como manifestações de um amor que o seu pai não sabe expressar de outra forma e sentindo-se culpada quando o recrimina mentalmente por a fazer sofrer de forma tão gratuita e maldosa.
Com a aproximação das tropas de Napoleão, Bolkonski tem uma apoplexia e fica moribundo e Maria vê uma hipótese de libertação, começa a fantasiar com uma vida completamente diferente em que é livre da opressão do pai e se poderia apaixonar, ter uma existência normal. Esta súbita esperança que o pai morra causa-lhe sentimentos de culpa terríveis mas convive ambiguamente com uma sensação euforia pela liberdade próxima.
O pai emerge do coma por instantes, o rosto encarquilhado, transformado, tenta balbuciar algumas palavras e quando consegue falar, no leito de morte, pede desculpa à filha e diz que a ama muito e pede-lhe para vestir um vestido que lhe fica muito bem. A filha desmancha-se em lágrimas e quando volta ao quarto, o pai morreu, instalando-se nela outro sentimento de culpa: 'como pude desejar a morte dele?'
Sintetiza-se aqui um dos grandes mistérios humanos e que alguns de nós experimentámos, numa ou noutra posição (Bolkonski ou Maria): a de que o comportamento reflecte exactamente o oposto daquilo que no íntimo sentimos, como se fossem reflexos instintivos de defesa do afecto do outro.
Acredito que esse comportamento é inconsciente e ao gerar ressentimento do outro e a sua subjugação (o outro fica triste, é magoado), vai construindo uma situação impossível de quebrar.
A sua alteração implica o sentir de uma dor imensa e - inconscientemente, creio - o comportamento continua e ainda se agudiza mais. Pode ser um teste de amor (podem amar-me, sendo odioso, sendo 'eu'?). Ou o outro perderá o afecto por nós e libertar-nos-á do sentimento de culpa, visto que não nos dirá nada por nos ter abandonado? Ou será um desejo de se ser odiado porque sentimos que é o que merecemos, não somos dignos de gostarem de nós?
Aqui (e em muitos outros episódios do Guerra e Paz) está a ambiguidade do comportamento humano, o hiato entre o que sabemos ser 'o melhor' ou o 'justo' ou o 'sincero' e aquilo para que somos impelidos de forma quase animal, irracional e auto-destrutiva. Seja no jogo, no amor, na família, o homem por vezes segue em piloto automático como se, fazendo exactamente a mesma coisa constantemente, tivesse esperança que algo se rompesse, a esperança que, atingindo-se um limite absoluto, isso o fizesse mudar ou fizesse as pessoas verem-no como ele é, dentro da prisão da sua natureza humana que o faz parecer e sentir-se detestável.
Esta, em total abnegação, sente que é seu dever amar o pai e suportar todas as provações, esforçando-se para as ver como manifestações de um amor que o seu pai não sabe expressar de outra forma e sentindo-se culpada quando o recrimina mentalmente por a fazer sofrer de forma tão gratuita e maldosa.
Com a aproximação das tropas de Napoleão, Bolkonski tem uma apoplexia e fica moribundo e Maria vê uma hipótese de libertação, começa a fantasiar com uma vida completamente diferente em que é livre da opressão do pai e se poderia apaixonar, ter uma existência normal. Esta súbita esperança que o pai morra causa-lhe sentimentos de culpa terríveis mas convive ambiguamente com uma sensação euforia pela liberdade próxima.
O pai emerge do coma por instantes, o rosto encarquilhado, transformado, tenta balbuciar algumas palavras e quando consegue falar, no leito de morte, pede desculpa à filha e diz que a ama muito e pede-lhe para vestir um vestido que lhe fica muito bem. A filha desmancha-se em lágrimas e quando volta ao quarto, o pai morreu, instalando-se nela outro sentimento de culpa: 'como pude desejar a morte dele?'
Sintetiza-se aqui um dos grandes mistérios humanos e que alguns de nós experimentámos, numa ou noutra posição (Bolkonski ou Maria): a de que o comportamento reflecte exactamente o oposto daquilo que no íntimo sentimos, como se fossem reflexos instintivos de defesa do afecto do outro.
Acredito que esse comportamento é inconsciente e ao gerar ressentimento do outro e a sua subjugação (o outro fica triste, é magoado), vai construindo uma situação impossível de quebrar.
A sua alteração implica o sentir de uma dor imensa e - inconscientemente, creio - o comportamento continua e ainda se agudiza mais. Pode ser um teste de amor (podem amar-me, sendo odioso, sendo 'eu'?). Ou o outro perderá o afecto por nós e libertar-nos-á do sentimento de culpa, visto que não nos dirá nada por nos ter abandonado? Ou será um desejo de se ser odiado porque sentimos que é o que merecemos, não somos dignos de gostarem de nós?
Aqui (e em muitos outros episódios do Guerra e Paz) está a ambiguidade do comportamento humano, o hiato entre o que sabemos ser 'o melhor' ou o 'justo' ou o 'sincero' e aquilo para que somos impelidos de forma quase animal, irracional e auto-destrutiva. Seja no jogo, no amor, na família, o homem por vezes segue em piloto automático como se, fazendo exactamente a mesma coisa constantemente, tivesse esperança que algo se rompesse, a esperança que, atingindo-se um limite absoluto, isso o fizesse mudar ou fizesse as pessoas verem-no como ele é, dentro da prisão da sua natureza humana que o faz parecer e sentir-se detestável.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Verão \o/
(no Verão as miúdas usam bikinis na praia que é a mesma coisa que estarem em roupa interior em casa :))) mas elas acham que não, que é diferente porque é um 'bikini' e porque é na praia pfff ^_^)
o amor e os tempos
O amor no século XIX era uma coisa à maneira, pelo menos aqui na Rússia do Guerra e Paz do Tolstói. O Harold Bloom parece que refere alguma misoginia do Tolstói, mas penso que está enganado, é preciso contextualizar a obra na época e reparar que ele trata do mesmo modo mulheres e homens. Há personagens masculinas como Boris ou Anatole que são mais detestáveis que qualquer mulher de Tolstói no seu próprio campeonato: fúteis, vaidosos, estúpidos, manipuladores etc.
O que talvez não haja é uma mulher com o nível de complexidade de um Rostov ou Andrei, é certo, mas parte da "complexidade" destas personagens advém de experiências exclusivas dos homens: guerra, duelos, paixão (são eles que cortejam), governo de propriedades, ascendência de título, dinheiro, liberdade individual etc.
A mulher desta sociedade aristocrática russa não fazia nada a não ser esforçar-se para ter um bom partido. E para tal, nos melhores casos, cultivava o espírito, dançava, cantava, lia, rezava, embelezava-se e sonhava. .
Casavam muito cedo e normalmente com homens mais velhos. O dinheiro e a posição compensavam a idade. Também podiam ser terrivelmente interesseiras, coisa que não mudou hoje em dia, continua a haver esse tipo de mulher; homens grosseiros e desinteressantes, ou porque são famosos ou ricos ou ambos, têm mulheres e/ou amantes belíssimas (sendo o oposto muito mais raro).
Tal como hoje, no século XIX na Rússia havia sentimentos de amor e podiam determinar casamentos. Mulheres recusam bons partidos porque não os amam e vice versa. Não há, pelo menos aqui no Guerra e Paz, o casamento forçado, contra a vontade, embora seja notória a influência de uma série de factores, como a benção dos pais; a vontade das famílias. Era possível impedir um casamento ou dificultá-lo muito, da mesma forma que se podia montar uma espécie de armadilha, colocando os potenciais noivos em situações de interacção romântica no baile.
O que é muito diferente face a hoje é o namoro e a perspectiva do casamento.Naquela altura, homens e mulheres decentes, para consumarem a sua paixão, tinham de se comprometer. As hormonas podiam estar aos saltinhos mas primeiro tinham de casar. O namoro é rápido, feito por vezes na presença de familiares ou em bailes, perante os olhares de estranhos. A forma como se apaixonam é feita de sinais, esboços, impressões, ela canta e ele chora, ele dança e ela fica apaixonada, uma palavra, um ombro nu, uma carta, umas conversas. Não há passagem pela antecâmara da amizade, do esquadrinhar dos defeitos e virtudes e muito menos, do sexo. Há apenas uma curta janela de oportunidade para dizer o que se tem a dizer e caso um homem demonstre "interesse" numa jovem que corteja, tem de declarar as suas intenções e ser honrado, falar com a família, comprometer-se e pedi-la em casamento para o resto da vida. Extraordinário no Guerra e Paz é o caso de dois noivos cujo casamento o pai não aprova e diz ao filho que vá para o estrangeiro 1 ano, sozinho, e que se mesmo assim depois de um ano quiserem casar, que casem. Escrevem-se cartas e anseiam pelo dia em que poderão estar juntos. Não casam, um deles apaixona-se por uma pessoa detestável e falsa e não adianto muito para não "spoilar" o livro, mas dá que pensar.
Hoje, apesar da liberdade que temos em conhecer, namorar e viver juntos, as separações são cada vez em maior número (sejam divórcios, fins de namoros longos etc). Não que os casamentos sejam mais disfuncionais do que antes. A mulher é mais independente, não se vivem tantas situações hipócritas, a sociedade é mais tolerante, a separação legal é mais fácil etc. Isto, apesar de ser nítido que estamos mais centrados em nós próprios e na consciência do nosso direito a estarmos bem.
Enquanto que no passado o salto no escuro obrigava a um compromisso com uma situação estática e a uma abnegação total do "eu" e desse compromisso podia advir uma forma de amor, à semelhança do que sucede com aquele nosso colega de trabalho que é uma pessoa palerma mas de quem acabamos por ser amigos por o aturarmos todos os dias, hoje podemos construir uma situação romântica a pouco e pouco, com coisas que imaginamos serem fases e que, para cada salto de uma fase para a outra, podemos não ir iludidos; temos mais certezas, garantindo transições suaves e racionais, inclusive, para uma separação se for caso disso, uma separação que se admite, não sem algum cinismo, a priori, no próprio dia do casamento.
Depois há um tipo de pessoas cuja única pergunta que parecem fazer constantemente é "qual é a forma mais bonita de nos estamparmos?"
Eu acho esta aqui bonita, fica aqui a sugestão para esse tipo de pessoas.
O que talvez não haja é uma mulher com o nível de complexidade de um Rostov ou Andrei, é certo, mas parte da "complexidade" destas personagens advém de experiências exclusivas dos homens: guerra, duelos, paixão (são eles que cortejam), governo de propriedades, ascendência de título, dinheiro, liberdade individual etc.
A mulher desta sociedade aristocrática russa não fazia nada a não ser esforçar-se para ter um bom partido. E para tal, nos melhores casos, cultivava o espírito, dançava, cantava, lia, rezava, embelezava-se e sonhava. .
Casavam muito cedo e normalmente com homens mais velhos. O dinheiro e a posição compensavam a idade. Também podiam ser terrivelmente interesseiras, coisa que não mudou hoje em dia, continua a haver esse tipo de mulher; homens grosseiros e desinteressantes, ou porque são famosos ou ricos ou ambos, têm mulheres e/ou amantes belíssimas (sendo o oposto muito mais raro).
Tal como hoje, no século XIX na Rússia havia sentimentos de amor e podiam determinar casamentos. Mulheres recusam bons partidos porque não os amam e vice versa. Não há, pelo menos aqui no Guerra e Paz, o casamento forçado, contra a vontade, embora seja notória a influência de uma série de factores, como a benção dos pais; a vontade das famílias. Era possível impedir um casamento ou dificultá-lo muito, da mesma forma que se podia montar uma espécie de armadilha, colocando os potenciais noivos em situações de interacção romântica no baile.
O que é muito diferente face a hoje é o namoro e a perspectiva do casamento.Naquela altura, homens e mulheres decentes, para consumarem a sua paixão, tinham de se comprometer. As hormonas podiam estar aos saltinhos mas primeiro tinham de casar. O namoro é rápido, feito por vezes na presença de familiares ou em bailes, perante os olhares de estranhos. A forma como se apaixonam é feita de sinais, esboços, impressões, ela canta e ele chora, ele dança e ela fica apaixonada, uma palavra, um ombro nu, uma carta, umas conversas. Não há passagem pela antecâmara da amizade, do esquadrinhar dos defeitos e virtudes e muito menos, do sexo. Há apenas uma curta janela de oportunidade para dizer o que se tem a dizer e caso um homem demonstre "interesse" numa jovem que corteja, tem de declarar as suas intenções e ser honrado, falar com a família, comprometer-se e pedi-la em casamento para o resto da vida. Extraordinário no Guerra e Paz é o caso de dois noivos cujo casamento o pai não aprova e diz ao filho que vá para o estrangeiro 1 ano, sozinho, e que se mesmo assim depois de um ano quiserem casar, que casem. Escrevem-se cartas e anseiam pelo dia em que poderão estar juntos. Não casam, um deles apaixona-se por uma pessoa detestável e falsa e não adianto muito para não "spoilar" o livro, mas dá que pensar.
Hoje, apesar da liberdade que temos em conhecer, namorar e viver juntos, as separações são cada vez em maior número (sejam divórcios, fins de namoros longos etc). Não que os casamentos sejam mais disfuncionais do que antes. A mulher é mais independente, não se vivem tantas situações hipócritas, a sociedade é mais tolerante, a separação legal é mais fácil etc. Isto, apesar de ser nítido que estamos mais centrados em nós próprios e na consciência do nosso direito a estarmos bem.
Enquanto que no passado o salto no escuro obrigava a um compromisso com uma situação estática e a uma abnegação total do "eu" e desse compromisso podia advir uma forma de amor, à semelhança do que sucede com aquele nosso colega de trabalho que é uma pessoa palerma mas de quem acabamos por ser amigos por o aturarmos todos os dias, hoje podemos construir uma situação romântica a pouco e pouco, com coisas que imaginamos serem fases e que, para cada salto de uma fase para a outra, podemos não ir iludidos; temos mais certezas, garantindo transições suaves e racionais, inclusive, para uma separação se for caso disso, uma separação que se admite, não sem algum cinismo, a priori, no próprio dia do casamento.
Depois há um tipo de pessoas cuja única pergunta que parecem fazer constantemente é "qual é a forma mais bonita de nos estamparmos?"
Eu acho esta aqui bonita, fica aqui a sugestão para esse tipo de pessoas.
Subscrever:
Mensagens (Atom)











