sexta-feira, 1 de julho de 2011

Verão \o/



(no Verão as miúdas usam bikinis na praia que é a mesma coisa que estarem em roupa interior em casa :))) mas elas acham que não, que é diferente porque é um 'bikini' e porque é na praia pfff ^_^)

o amor e os tempos

O amor no século XIX era uma coisa à maneira, pelo menos aqui na Rússia do Guerra e Paz do Tolstói. O Harold Bloom parece que refere alguma misoginia do Tolstói, mas penso que está enganado, é preciso contextualizar a obra na época e reparar que ele trata do mesmo modo mulheres e homens. Há personagens masculinas como Boris ou Anatole que são mais detestáveis que qualquer mulher de Tolstói no seu próprio campeonato: fúteis, vaidosos, estúpidos, manipuladores etc.

O que talvez não haja é uma mulher com o nível de complexidade de um Rostov ou Andrei, é certo, mas  parte da "complexidade" destas personagens advém de experiências exclusivas dos homens: guerra, duelos, paixão (são eles que cortejam), governo de propriedades, ascendência de título, dinheiro, liberdade individual etc.

A mulher desta sociedade aristocrática russa não fazia nada a não ser esforçar-se para ter um bom partido. E para tal, nos melhores casos, cultivava o espírito, dançava, cantava, lia, rezava, embelezava-se e sonhava. .

Casavam muito cedo e normalmente com homens mais velhos. O dinheiro e a posição compensavam a idade. Também podiam ser terrivelmente interesseiras, coisa que não mudou hoje em dia, continua a haver esse tipo de mulher; homens grosseiros e desinteressantes, ou porque são famosos ou ricos ou ambos, têm mulheres e/ou amantes belíssimas (sendo o oposto muito mais raro).

Tal como hoje, no século XIX na Rússia havia sentimentos de amor e podiam determinar casamentos. Mulheres recusam bons partidos porque não os amam e vice versa. Não há, pelo menos aqui no Guerra e Paz, o casamento forçado, contra a vontade, embora seja notória a influência de uma série de factores, como a benção dos pais; a vontade das famílias. Era possível impedir um casamento ou dificultá-lo muito, da mesma forma que se podia montar uma espécie de armadilha, colocando os potenciais noivos em situações de interacção romântica no baile.

O que é muito diferente face a hoje é o namoro e a perspectiva do casamento.Naquela altura, homens e mulheres decentes, para consumarem a sua paixão, tinham de se comprometer. As hormonas podiam estar aos saltinhos mas primeiro tinham de casar. O namoro é rápido, feito por vezes na presença de familiares ou em bailes, perante os olhares de estranhos. A forma como se apaixonam é feita de sinais, esboços, impressões, ela canta e ele chora, ele dança e ela fica apaixonada, uma palavra, um ombro nu, uma carta, umas conversas. Não há passagem pela antecâmara da amizade, do esquadrinhar dos defeitos e virtudes e muito menos, do sexo. Há apenas uma curta janela de oportunidade para dizer o que se tem a dizer e caso um homem demonstre "interesse" numa jovem que corteja, tem de declarar as suas intenções e ser honrado, falar com a família, comprometer-se e pedi-la em casamento para o resto da vida. Extraordinário no Guerra e Paz é o caso de dois noivos cujo casamento o pai não aprova e diz ao filho que vá para o estrangeiro 1 ano, sozinho, e que se mesmo assim depois de um ano quiserem casar, que casem. Escrevem-se cartas e anseiam pelo dia em que poderão estar juntos. Não casam, um deles apaixona-se por uma pessoa detestável e falsa e não adianto muito para não "spoilar" o livro, mas dá que pensar.

Hoje, apesar da liberdade que temos em conhecer, namorar e viver juntos, as separações são cada vez em maior número (sejam divórcios, fins de namoros longos etc). Não que os casamentos sejam mais disfuncionais do que antes. A mulher é mais independente, não se vivem tantas situações hipócritas, a sociedade é mais tolerante, a separação legal é mais fácil etc. Isto, apesar de ser nítido que estamos mais centrados em nós próprios e na consciência do nosso direito a estarmos bem.

Enquanto que no passado o salto no escuro obrigava a um compromisso com uma situação estática e a uma abnegação total do "eu" e desse compromisso podia advir uma forma de amor, à semelhança do que sucede com aquele nosso colega de trabalho que é uma pessoa palerma mas de quem acabamos por ser amigos por o aturarmos todos os dias, hoje podemos construir uma situação romântica a pouco e pouco, com coisas que imaginamos serem fases e que, para cada salto de uma fase para a outra, podemos não ir iludidos; temos mais certezas, garantindo transições suaves e racionais, inclusive, para uma separação se for caso disso, uma separação que se admite, não sem algum cinismo, a priori, no próprio dia do casamento.

Depois há um tipo de pessoas cuja única pergunta que parecem fazer constantemente é "qual é a forma mais bonita de nos estamparmos?"

Eu acho esta aqui bonita, fica aqui a sugestão para esse tipo de pessoas.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Pessoas que perderam o emprego e agora tiveram de arranjar outro: O primeiro ministro que agora é estudante de filosofia em Paris

- Bonjour! Aujourd'hui on va examiner les postulats de Kant, mais avant de comencer, je voudrais salouer un nouveau etudiant. Le ex premier ministre de Portugal est ici avec nous, et il a un nom de philosophe. Mon cher, c’est une honeur de vous avoir ici.
- Enchanté.
- Êtes vou bien instalé a Paris?
- Oui je beacoup. Eifel… mangé le croissant et le champagne… fromage! Beacu fromage. Camembér oh oh. Oui ui.
- Ah… Et vous aimez Paris?
- Oh la lá, trés trés le Paris, la cidade que ne dors jamais! Il avais les bonecos, do Dartacão, ai como é que se diz... le Dartachien, j’etais etudiant e nunca perdia un episódio. La belle et le monstre, le corcunde de Notredame que era assim marreco… marreq? Et claro, le Louvre, la Mone Lise, le Gire Soleil de Van Gogh, les impressionistas qui me fazem muita impression, mas de la bone impression... tante chose.
- Je ne comprens pas trés bien mais… euuh… vous conaissez Kant?
- Quem? Pardon, quoi?
- Emanuel Kant, le philosophe…
- Je parlê pá le francês trés bien. Peoples tell me le class was em english. I speaks le english.
- Oh, do not worri monsieur! We wil have the classes in inglish, so that you and all the students are ok and understand all dat we are saíng.
- Bolas, que este gajo faja mal que se farta. Vou ligar ao Luís... Luís, tou? Luís, disseste-me que isto era em inglês! Estes tipos falam mal inglês e não percebo o que dizem… está bem, ser simpático, mas vê lá se me arranjas um tradutor e… está bem Luís, eu ponho os livros em cima da mesa à mostra… mas ficam melhor assim um bocadinho espalhados ou assim todos alinhados numa pilha?
- Monsieur, we are not allowed to use the telephone in the class…
- tenho de desligar Luís. Sorry, le sincere pardon beacu.
- No probléme. Oh, I see that you have Nietszche books on your table. Veri interresting. You like Nietzsche.
- I like Nietzsche? I has not le moustache, I is diferent dele. É que não tem nada a ver… regardez la cape do livre, aqui ó... moustache!
- I was saíng that you must enjoy reading Nietzsche, izit not so?
- Yes, beaucoup… very much. All the times le reading, before i sleep, i read filosofia, le glass of milk, le cookie, le fromage, le sleep and… and i think very much during night. Au clair de la lune, like you peoples in france say!
- Ah, oui… Nietzsche says exceptional people must no longer be ashamed of their… uniqueness in the face of a morality for all people, which Nietzsche thinks to be harmful to the development of exceptional people. With your political experience, all that power, you must have thought about this, sometimes, non?
- Yes, i has. I likes to think.
- But do you agree with this idea of no morality for exceptional people?
- Yes.
- Yes?
- I mean no… I mean yes... Yes and no... No and yes… no? Just a bit no? Or a bit yes? Who knows? Un peti peut? La vache qui ri… ele ri? De quoi? Hmm? Of le Nietzsche? Le Kant?
- I am sorry, I’m not looking for a right answer monsieur, just what you are thinking… if you do not know and that is…
- Stop interupting me, i was answering the question, if you give me 5 minutes I can explain this!
- Pardon monsieur…
- We have great philosopher em Portugal who once said: “mais vale um pássaro na mão, que dois a voar”, better one bird in the hand than two birds flying. Voler? Vous comprends? Volare? Like this? Not in the hand, but flying. Free. If the bird is in the hand, he canot voler! We also have a philosophy in Portugal that goes like this: “ovo é, galinha o pôs”. Egg it is, chicken putt… puted… putou-o…

segunda-feira, 27 de junho de 2011

procuro emprego

Exmos Senhores,
Venho colocar-me à Vossa disposição para uma entrevista de emprego que poderá nem ser bem uma entrevista. Pode ser uma conversa. Apesar de eu ser genial, tenho a capacidade de ser humilde e sinto-me um pouco embaraçado que me queiram entrevistar e por isso ficam à vontade. Também vos posso entrevistar a vocês se quiserem.

Quero um emprego em que não tenha de pensar demais e em muitas coisas ao mesmo tempo e que não tenha reuniões. Seja qual for o emprego, só quero um em que não haja reuniões. Sei que há pouca oferta de empregos sem reuniões porque as reuniões são muito importantes para os portugueses. A Internet não chega a toda gente e a rede de telemóvel ainda é fraca e cobre apenas 10% do país e por isso é necessário transmitir informação uns aos outros em pessoa, como o Imperador Alexandre da Rússia quando se encontrava com Napoleão. Também é uma forma de combater a solidão e a exclusão que tanto mal faz nas modernas sociedades e aos velhinhos. Tudo isto eu compreendo, mas se calhar sou uma pessoa solitária por natureza.

Gostava de arranjar barcos em Peniche, por exemplo. O barco chegava com mossas e ferrugem e riscos e aquelas lapas que se colam ao casco e eu ia lá com uma faquinha e raspava bem aquilo, lavava com javisol e punha um bocadinho de cera, esfregona etc.

Gostava de uma profissão ao ar livre e no meio da verdura, mas que não seja prostituto no Parque Eduardo VII ou no Príncipe Real, que é o que toda gente me sugere quando digo que gostava de ganhar dinheiro rápido sem trabalhar muito.

Não me importo nada de ser cozinheiro, eu gosto de cozinhar e sei fazer muitas variações de massa com coisas, como atum, cavala, mexilhões. Sei uma forma de abrir as latas sem que saiam salpicos de óleo direito à pessoa que a está a abrir, o truque é não abrir a lata toda até a tampa sair, porque é quando a tampa sai que o óleo salpica.

Posso ser guarda-florestal, eu gostava e acho que tenho as qualificações para isso, ficava assim à beira da floresta e quando viessem pessoas com cigarros ou intenções de fazer fogueiras eu mandava-as dar meia volta, que fossem pegar fogo à casa deles já agora. Também sei falar com os animais e podia resolver os conflitos entre eles. Topo-lhes as manhas. Por exemplo, os esquilos fazem aquilo de vir um armar-se em engraçado à frente do urso ,a fingir que está a tocar gaita de beiços (com uma avelã) e vem outro por trás e rouba o mel ao urso que está distraído, são tipo os romenos da floresta.

Posso fazer muita coisa, se me deixarem. Posso ser nadador salvador numa praia que eu conheço e que mais ninguém conhece, ali pelos lados da Foz do Arelho, é praticamente inacessível e por isso não é vigiada ainda.

Eu quero mesmo é ser escritor mas acreditem que vou levar muito a sério o vosso emprego e as vossas ordens, desde que não interfiram muito comigo.

Atenciosamente,
Tolan

sexta-feira, 24 de junho de 2011

quero que saibam que se eu escrevo para vocês é porque me fizeram o favor de ignorar totamente o meu talento como produtor de música, obrigado :* e continuem a ouvir o vosso lixo

"Tolan" - Beach House - Pavement Remix (2007?)

já percebi porque é que a minha box às vezes muda de canal sozinha e grava coisas aleatórias

Quando as pessoas estão apaixonadas fazem coisas muito estúpidas, como estar apaixonado (por exemplo). Então deixam de raciocinar bem e tropeçam em coisas e a senhora do supermercado tem de lhes dizer o valor da conta duas vezes. Acham que estão muito felizes e, na prática, só conseguem fazer os outros todos sentirem-se miseráveis porque se lembram de ter passado por aquilo também e agora já não passam. Algumas pessoas, felizmente, demoram tempo a apaixonar-se o que dá margem de manobra para se safarem a tempo. E tendem a relativizar tudo, a crise, os problemas sérios, o trabalho, as ordens aleatórias do chefe, as conversas dos amigos que as tentam levar para temas que não a pessoa espectacular que o apaixonado eleva ao olimpo, e que é espectacular e que é assim e assado, que tem dois olhos e tudo e cabelo e mãos e os dentes todos etc. E mudando de tema, encaram a conversa do amigo que diz que vai ser pai e do outro que perdeu o emprego com tédio e contam os minutos até ao próximo mail, mensagem ou encontro com o ser humano da sua paixão. Outros ainda vão mais longe e aquelas coisas de que gostavam e que as iam entretendo perdem o interesse e tornam-se até um pouco ridículas, como quando na adolescência ainda fazemos um esforço para pegar num brinquedo que ainda há dois anos nos parecia divertido. E depois perdem o apetite e prejudicam a própria saúde, custa-lhes engolir a comida mas estão sempre com fome, dormem mal e a tensão sobe. Têm vontade de dizer a toda gente que estão apaixonados mas como os amigos começam a esconder o status online no facebook e a não atender o telemóvel, dizem a estranhos, mesmo à senhora da caixa que fica a olhar para eles desconfiada e repete o valor da conta pela terceira vez. E quando vão ao cinema e está a dar uma cena romântica acham-na falsa e pequena comparada com a vida deles e as músicas românticas, pensam que foram escritas de propósito para eles, são muito egoístas e egocêntricos os apaixonados. Os estados de espírito mudam sem aviso, ora sentem um peso muito grande no peito ora pensam que ficam levezinhos e que podem ser levados por uma corrente de ar e tudo porque determinada palavra ou ausência de palavra do seu amor os pôs assim. Claro que do outro lado está outra pessoa (nos piores casos) no mesmo estado de espírito e então esta situação tende a reagir em cadeia! É um Fukushima todos os dias, é o que acontece nas estrelas por exemplo, só que as estrelas estão longe e não chateiam, é lá uma coisa delas. Excepto o Sol, esse está perto e às vezes manda com muitos UVs para cima das pessoas que não têm nada a ver com isso e só queriam ir à praia ou então manda com tempestades electromagnéticas que dão cabo dos satélites todos e depois têm de ir lá o electricista astronauta acima arranjar aquilo, mudar a motherboard e os fusíveis. E se o electricista astronauta estiver apaixonado, a NASA está bem lixada porque ele vai trocar aquilo tudo e meter o chip no sítio errado e ligar o fio vermelho ao verde e o amarelo ao azul que são os que mandam nas boxes do planeta terra, enquanto assobia o can't buy me love dos beatles todo contente dentro do fato espacial, a embaciar o visor todo. E é por isso que a minha box às vezes tem estes comportamentos, fica aqui a nota, pode alguém ter o mesmo problema.

viver nas nuvens

A história tem uns quantos artistas geniais que se deixam enredar no hábito de tentar responder às questões que importam, Tolstói é um deles. A certa altura descobre que a raiz de todo o mal está a propriedade por exemplo, idealiza uma vida de peregrino despojado de bens. Tolstói procurava ora na filosofia (racional) ora na religião (fé) uma solução, também deixou de escrever, contrariando os amigos escritores que imploravam para que não o fizesse. Para onde quer que se virasse, não encontrava solução para os seus prórpios problemas (até se tornou, não ateu, mas profundamente anti-clerical e anti-igreja, procurando ter ele próprio a sua interpretação das sagradas escrituras). Em Portugal, Zeca Afonso foi o último artista 'santo'. A questão para ele era 'se eu penso isto, se isto é a verdade, então tenho de levar as coisas às últimas consequências' e então tinha pânico de se comprometer e não ser verdadeiro, num mundo muito cinzento e confuso que o tentava arrastar para um lado ou para o outro e que se preocupava com coisas muito mais prosaicas e práticas.

As questões que importam têm o problema de não terem resposta e qualquer cidadão normal, mesmo um com algumas angústias, ou mesmo um artista qualquer, convive bem com isso.

Podemos pensar em Deus num momento em que vemos um céu estrelado ou num funeral, mas não é que tenhamos de pensar nele 24h por dia ou quando estamos na privacidade do WC e isso se torna constrangedor. Podemos preocupar-nos com os pobres mas não significa que tenhamos de sacrificar a nossa situação e sermos peregrinos sem nada. Conheci uma pessoa assim uma vez, e era uma pessoa tenebrosa, fez isso de dar tudo, mas depois cravava as pessoas para tudo e não se calava com o facto de ter feito isso, tinha muita fé e tentava convencer os outros a fazer o mesmo.

somos só uns pequenos animais, uns bichos. As ovelhas são demasiado burras para irem sequer para a sombra das árvores ali ao pé e muitas morrem de insolação e nós somos assim. E depois alguns armam-se em cão-pastor. Tolstói e Zeca Afonso pensavam que eram parte do rebanho com as suas músicas e livros porque sentiam que não eram compreendidos integralmente ou que aquilo era entretenimento, o que em grande parte é verdade. Mas essas coisas, os seus livros ou músicas, eram pequenas nuvens a passar por cima do rebanho, projectando um pouco de sombra fresca nas existências áridas.

"é canónico, só experimentando."

O Atum Macaco respondeu à corrente dos livros.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

a conversa ficou-se por aí

Pensei em mais pessoas para a rúbrica do you think i'm sexy, é complicado, porque o objectivo não ser "mauzinho" e seria mauzinho se incluísse o Rui Santos, ou Pedro Rolo Duarte ou o José Luís Peixoto. O António José Seguro é uma classe totalmente à parte. Tem um ar confiante embora nos seja misteriosa a origem dessa confiança, mesmo com um grande esforço de observação e alguma boa vontade. Tem uma posição importante  e ambiciona ter uma posição ainda mais importante; uma que tenha influência na nossa vida e nas nossas posições na vida. Que mal nos fez? Nenhum. Que bem nos fez? Nenhum. O que quer ele? Não sei. É complicado recordar com clareza qualidades distintivas, detalhes. Uma pessoa ouve-o falar no telejornal e depois é acometido de uma amnésia indiferente no curto espaço de tempo de ir buscar mais uma cerveja ao frigorífico.

A propósito, recordo-me da primeira página do Almas Mortas do Gogol em que é introduzido o protagonista Tchítchikov: Na britchka vinha um senhor, nem bonitão, nem feio de todo; nem muito gordo, nem muito magro; não se diria que fosse muito velho, nem tão-pouco muito jovem. A sua entrada não provocou na cidade qualquer alvoroço nem foi acompanhada por nada de especial; apenas dois mujiques russos parados à porta de uma taberna em frente da estalagem trocaram algumas impressões que, aliás, tinham mais a ver com a carruagem do que com o seu passageiro: «Ena - disse um para o outro -, que roda! O que achas, uma roda destas aguenta até Moscovo, se for caso disso, ou não aguenta? - «Aguenta.» respondeu o outro. «Mas até Kazan não aguenta?» - «Até Kazan não aguenta» - respondeu o outro. A conversa ficou-se por aí.»

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Do You Think I'm Sexy? #1

Nome Completo: António José Martins Seguro
Data de Nascimento: 11-03-1962
Habilitações Literárias: Licenciatura em Relações Internacionais, Frequência de Mestrado em Ciência Política
Profissão: Docente Universitário;
Pofissão: Deputado e candidato à liderança do PS

Senhoras e homosensuais, avaliem numa escala de 1 a 10 em que 1 significa "António José Seguro" e 10 significa "George Clooney / Colin Firth / Tolan ".

terça-feira, 21 de junho de 2011

well, I'm a lady, you know?

Fui muito injusto porque a Lady oh my Dog! me tinha passado a corrente às 0:13 do dia de hoje e eu não vi e logo a Lady Oh My Dog! que é uma lady, you know?

1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Volto a alguns livros por questões técnicas, do género lembrar-me de como o Bukowski começa um livro ou como o Twain mantem a coerência numa voz juvenil etc. De resto, com o alzheimer, vou ter vontade reler o mesmo livro todos os dias, provavelmente as mesmas 10 páginas.


2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, Ulysses, James Joyce e praticamente dos os livros de análise matemática e cálculo numérico na universidade.


3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Um bom que não tivesse lido ainda, assim pelo menos ainda lia mais um.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
As Mil E Uma Noites. Nunca o vi à venda.


5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
O Castelo, do Kafka, não tem cena final, é inacabado, a edição que li tinha esboços de vários finais alternativos e o facto do Kafka não saber como terminar aquilo apenas reforçou mais o próprio livro.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim, ficção científica manhosa (Aventuras de Tom Swift, Os Trípodes, Contos Fantásticos de Ray Bradbury) e muita BD (Tintin, Asterix, Spirou, Snoopy, etc.), Jack London, O livro da Selva etc.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
O Dom Quixote de Cervantes, não é um livro chato, mas tem partes que são, é um calhamaço gigante. Li-o até ao fim porque agora já posso dizer que o li e isso confere-me credibilidade e até uma certa mísitica.


8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
ver post abaixo

9. Que livro estás a ler neste momento?
Guerra e Paz, Tolstói ehehehe bingo ^_^


10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
http://ruadaabadia.blogspot.com/
http://quintoesquerdotras.blogspot.com/
http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/
http://oanaogigante.blogspot.com/
http://restosesobras.blogspot.com/
http://desertacoes.blogspot.com/
http://atumacaco.blogspot.com/
http://naopercebiapergunta.blogspot.com/
http://infernocheio.blogspot.com/
http://viagensnasurrealidadequotidiana.blogspot.com/

uma auto-corrente de post literário

Anda aí uma corrente que ninguém me passou e era sobre livros, pedia-se a bloggers que respondessem a uma série de perguntas sobre livros (agora já não vale). Em consequência disso e da situação do Fernando Nobre, esta noite, sonhei que saía um artigo num jornal com uma apanha dos melhores bloggerse estavam lá uns 8 nomes, incluindo alguns obscuros e eu não estava e fiquei irritado. E depois uma mulher, que pelos vistos devia ser minha esposa, diz-me: "mas não és tu que dizes que os críticos não percebem nada?" e eu anuí tristemente "sim, sim, é verdade" e comecei a tentar ver a coisa pelo lado positivo: "se fazem uma lista e eu não estou nela, quer pelo menos dizer que sou diferente" e atirei o jornal para o lado. Só que no íntimo sabia que ela ficaria orgulhosa se o meu nome saísse ali porque, para uma mulher, é importante o que a sociedade em geral pensa do seu homem (traduzido em fama e dinheiro, normalmente ambos). Depois voltei a sonhar que perseguia coelhos, que é uma coisa que me descontrai bastante e acordei bem disposto porque percebi que nem sequer estava casado nem nada.

Não recebi esta corrente, mas recebi há tempos um mail de um leitor a perguntar-me directamente os 10 livros que eu recomendaria como imprescindíveis para se ler e comecei a trabalhar nessa lista de 10 livros, muito feliz de me pedirem a opinião (falei nisso a uma miúda, para a impressionar). Também me pediu uma lista dos 10 melhores videogames (é um bom leitor, o leitor ideal diria). A dos jogos, cheguei logo à conclusão que é impossível de se fazer. E a dos livros, também.

No caso dos jogos, o problema tem a ver com a tecnologia e a sua exponencial evolução num curto espaço de tempo. A literatura é, tecnologicamente, a mesma coisa: letras a formar palavras que formam frases, ideias etc. Um jogo tem de envolver os sentidos com o recurso da tecnologia e qualquer hardcore gamer só jogará a um jogo da geração anterior da consola ou do computador, por piada (ou porque não tem dinheiro para uma PS3 nova), quanto mais um clássico da Atari com 30 anos. Ora, na literatura, macacos do Monkey Island me mordam se não podemos hoje ler o  Dom Quixote do Cervantes e mesmo assim retirar um prazer real e efectivo, sem qualquer esforço ou condescendência - nunca dizemos "olha que engraçados que eram os livros nesta altura ahahaha tão fofinhos, o Sancho Pança é uma bola e o D.Quixote um rectângulo com uma linha que deve ser a lança ahahah e as descrições são todas pixelizadas ihihihih".

É claro que podia resolver isto pensando nos jogos de que retirei mais prazer, mas o problema é que a tecnologia apareceu com a minha infância e evoluiu comigo, tornando-se indissociável da capacidade de ficar imerso num mundo imaginário próprio das brincadeiras. Não vou ser eu aquele trolaró que diz que os desenhos animados no nosso tempo é que eram,  porque hoje, aos 35 anos, fica a olhar com cara de parvo para os bonecos que os filhos vêem. A não ser, claro, que a tecnologia evolua até ao ponto de enganar todos os sentidos, como no Existenz do Cronenberg. Aí a coisa muda, vai acontecer e, nesse momento, a arte dos jogos estabilizará enquanto tecnologia veremos apenas evoluções na forma, como sucede no Cinema, pontuadas por detalhes tecnológicos superficiais (3D, gráficos digitais etc.).

Quanto aos livros, cheguei à conclusão que era um pouco escusado fazer uma lista dos melhores, visto que estaria a chover no molhado.Então lembrei-me de listar livros que considero mais próximos de mim, isto é, uma lista mais coerente, feita de livros que têm algo em comum, achei que podiam ter sido escritos tendo-me a mim como o seu leitor ideal. À medida que vamos lendo pode começar a desenhar-se um padrão pessoal de gosto, como se na literatura vissemos reflectida um 'eu' até então desconhecido, a desenhar-se com bocadinhos da grande obra literária universal que também diz muito ao meu semelhante, inclusive semelhantes que nasceram há 300 anos. Existe a probabilidade de um leitor deste blogue gostar deles, a não ser que esse leitor leia este meu blogue com o mesmo espírito com que eu leio o 5 Dias ou os posts do Henrique Raposo que o maradona às vezes linka. Mas mesmo isso não é certo porque tenho recebido relatos de pessoas desiludidas com o Bukowski por exemplo, o que me faz pensar que este blogue não está a ser bem feito. Portanto, vou inaugurar uma nova forma de fazer correntes, que é dirigi-las para mim e acabá-las em mim: Tolan, por favor, começa a fazer a lista de rajada sem pensar muito e pára dentro de 20 minutos.



O Castelo, O Processo, o Estrangeiro (ou América) - Kafka
Gogol (em geral)
Um Herói do Nosso Tempo - Leermontov
O Idiota, os Irmãos Karamazov, Crime e Castigo - Dostoiévski
Le Rouge Et Le Noir - Stendhal
Voyage au bout de la nuit - Céline
Salinger (Salinger em geral)
Post Office, Ham on Rye, contos em geral - Bukowski
L'ecume des jours, Morte aos feios, Elas não percebem nada etc. - Boris Vian
Fome - Knut Hamsum
Livro do Desassossego - Bernardo Soares
Molloy - Becket
Saroyan em geral
As aventuras de Huckleberry Finn - Mark Twain
O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
Os Nús e os Mortos - Norman Mailer
A extensão do domínio da Luta - Houellebecq
Lolita, Convite para uma decapitação, O Dom - Nabokov
O Deserto dos Tártaros - Dino Buzzati
Contos (em geral) - Truman Capote
A Queda, o Estrangeiro - Camus
Guerra e Paz - Tolstói
Contos em geral - Tchékov
Robison Crusoe - Daffoe (versão original completa)
Dom Quixote - Cervantes
Confissões de Uma Máscara, O marinheiro que perdeu as graças do mar, - Mishima
Belle du Seigneur - Albert Cohen
Tolkien em geral, particularmente o Silmarillion, o Hobby e o Senhor dos Anéis
Contos em geral - Guy de Monpassant
Poe (contos)
Além - Huysmans
O Ano da Morte de Ricardo Reis e O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago
Cartas de Guerra, volumes 1 e 2 de crónicas, Fado Alexandrino - António Lobo Antunes
Eça, em geral duh
Heart of Darkness - Conrad
Shining - Stephen King
A Ilíada e a Odisseia - Homero 

acabou o tempo

*acrescentei agora o O Que Sabemos do Amor - Raymond Carver, este tem de lá estar.

** apercebi-me ao ler a lista que não sei quem sou mas não queria apagar aquele parágrafo com a lenga lenga do nosso retrato pessoal a desenhar-se etc., talvez se desenhe mais facilmente com uma lista dos grandes livros de que não gostámos (livros que sabemos que objectivamente são bons mas com que não fomos à bola)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

a pergunta que todo o blogger faz de forma mais ou menos implícita em todos os seus posts

ronery, I am sooo ronery


Eu compreendo-te Nobre, amigo, eu compreendo. Eu também disse que não seria apenas "mais um escritor" e que se fosse apenas mais um escritor renunciaria ao cargo de escritor embora saiba que isso não é bem verdade e se calhar até fico contente com um livro impresso e fazer aquelas conferências culturais e debater livros num palco em frente a uma plateia de gente a esforçar-se por ver elevação naquilo tudo. Somos fracos. É estúpido não é? Uma pessoa está sossegada a fazer aquilo que sabe e todos gostam de nós e depois vai e por orgulho, por missão, por uma qualquer angústia que nos faz pensar que os outros precisam de nós, o país inteiro (quiçá o mundo!), mete-se numa aventura a pensar que os caminhos se vão abrir todos e que as pessoas nos vão compreender e depois ninguém quer nada connosco e somos um empecilho tão grande que mesmo num acordo entre dois partidos de direita somos a única coisa que fica de fora. E de longe, quando comparados com deputados ou escritores portugueses, até parecemos piores do que eles, o que se nos afigura como a pior humilhação possível visto serem precisamente estes os homens que considerávamos fazerem mal aquilo que nós saberíamos fazer muito melhor. Resta-nos a consolação que, com o tempo, com a nossa morte e o desaparecimento da nossa pessoa, nos vão ver de outra forma e reconhecer o nosso génio e pedir desculpa pelo quão injusto Portugal foi connosco, como foi com o Camões por exemplo. É possível que isto seja uma triste ilusão mas é indiferente porque, como estamos mortos, não somos confrontados com isso. Espero que encontres conforto nestas palavras.
Abraço

se calhar era só alguém que picava cebola ali por perto

«Depois do almoço, Natacha, a pedido do príncipe Andrei, sentou-se ao clavicórdio e cantou. O príncipe Andrei estava junto à janela a conversar com as senhoras e a ouvi-la. A meio de uma frase teve de se calar e sentiu, inesperadamente, que as lágrimas lhe apertavam a garganta, umas lágrimas de que não se sabia capaz. Olhou para Natacha a cantar e na sua alma aconteceu qualquer coisa nova e feliz. Feliz e ao mesmo tempo triste. Não tinha motivos válidos para chorar, mas estava prestes a chorar. Chorar por quê? Pelo amor antigo? Pela pequena princesa? Pelas suas desilusões?... Pelas suas esperanças de futuro? Sim e não. O que lhe provocava aquela vontade de chorar era uma terrível oposição, que súbita e agudamente consciencializou, entre qualquer coisas infinitamente grande e indefinível, presente nele, e qualquer coisas estreita e carnal, que era ele próprio e, até ela própria. Aquela oposição atormentava-o e alegrava-o enquanto Natacha cantava.» - Guerra e Paz - Tolstói, Editorial Presença, tradução Filipe e Nina Guerra.

codex

Sentir que se está bem quando na realidade se está mal ou sentir que se está mal quando na realidade se podia estar pior, são erros comuns. Às vezes, na esplanada das mesas de plástico vermelho, pouso o Guerra e Paz ao lado da caixinha de guardanapos e pergunto-me se somos dignos de o ler. Mesmo que o céu esteja nublado à noite, há todo um universo acima das nuvens e outro debaixo delas. Uma sensação desagradável é não saber o que fazer da vida mas essa sensação desagradável é constantemente substituída por outras como tomar um duche de água gelada porque o esquentador não funciona. Vou dar uma voltinha de bicicleta. Os travões da minha bicicleta estão carcomidos do salitre e já não funcionam, cada viagem é uma prova de fé.

reconstrução

Agora que as coisas entre mim e a Nastássiuskinha terminaram, estou a passar pela fase de reconstrução dela e a analisar friamente o que se passou. Só podemos amar uma gata que não conhecemos muito bem, já o dizia o Bukowski. Achei que o pêlo dela era sedoso e bonito quando na realidade estava sempre emporcalhado de andar por aí de rojo. Achei que ler-lhe Tolstói em voz alta lhe agradava, mas na realidade só esperava pela próxima cavala em azeite e a maior parte das vezes adormecia. Achei-a elegante mas na realidade é apenas escanzelada, o ser ruim emagrece. Pensei que o seu espírito fosse elevado mas é do género de pessoa que para se lavar se lambe a si própria. Sempre a recusar os meus avanços para festas nas orelhas com desculpas como "fffsssssss" e "meaaaaawwww!!!" E eu até sou um homem experiente, não sei como caí nisto. Se me dessem um cêntimo por todas as vezes em que ouvi fffssss, meaaaaw e 'estou muito cansada', tinha agora o suficente para comprar um... uma... sei lá, uma sandes de ovo. O problema é ser uma gata, as gatas têm uma comunicação complicada e livre arbítrio, nunca sabemos o que estão a pensar e o que vão fazer. Do que eu precisava era de uma boa cadela, como a Virgínia Woof. Não era muito faladora, mas sabia sempre no que ela estava a pensar: comida agora? passear? ohh não vás embora! voltaste! sim, aí atrás da orelha é bom etc.

domingo, 19 de junho de 2011

todas iguais

Porra, dei-lhe polvo, dei-lhe atum, dei-lhe cavala, tudo coisas que eu próprio como e comprei-lhe o mix de croquetes para gato e hoje estou a ler o Guerra e Paz a beber uma cerveja, a relaxar o corpo dorido do surf e oiço uns gemidos dengosos. Olho para o quintal do lado e está um gatarrão ruivo em cima da minha Natasha. E a morder-lhe o pescoço e a tentar pôr-se a jeito. E ela a fingir que não gostava, estava colada ao chão e com as peles todas esticadas para trás com os dentes a verem-se porque o outro a estava a morder no pescoço e não a deixava fugir.

Fiquei em choque. Levantei-me, entornei cerveja e o livro e gritei

NATASHA! Como pudeste? E o polvo à marinheiro!?! Não significou nada para ti? Fui eu que fiz de ti uma estrela no video dos x-files no meu blogue! É debaixo do meu carro que te abrigas todas as noites quando o motor está quentinho! É na minha cadeira que deixas o teu pêlo seboso! E agora aqui como uma rameira, em brincadeira sado-masoquistas com esse... esse...


Ajoelhei-me e chorei um bocadinho.

Porquê Natushka, Nastássia, Tasha, Tashiuska...

Os dois pararam com aquilo e olharam-me fixamente, ele com os dentes ferrados no cachaço dela e a Natasha com a cara esticada pelo repuxão. Ele não saía de cima dela, se calhar à espera que aquilo (eu) passasse e desaparecesse. Então fui a correr direito a eles e o gatarrão fugiu para os arbustos do quintal e a Natasha refugiou-se debaixo de umas escadas.

Hás-de cá vir! Hás-de querer ver a Lua à noite comigo enquanto fumo um cigarro e te dou lulinhas em caldeirada! - ainda lhe gritei.

Porra. Preciso de beber hoje.

sábado, 18 de junho de 2011

é bom aproveitar as férias para descontrair com hobbits relaxantes

surf movies

Gosto muito do meu Tolstói, há muito que não lia um livro com este sentimento pleno, não apenas de gosto ou empatia, mas também existencial, torna-me observador e pensativo. Estou numa zona sem cabo, ao pé do mar e com duas pranchas de surf, uma grande para os dias de ondas pequenas e outra pequena para os dias de ondas maiores (hoje é um desses dias). Há lojas de surf que vendem filmes de surf e vou lá de bicicleta ver as coisas. Sempre tive algum preconceito contra filmes de surf recentes, tendia logo a pensar numa uma estética Portugal Radical, cheia de cortes, montagem histeriónica e um rock apunkalhado de 2ª, quando não ska, esse terror musical. Como em todos os géneros, nos filmes de surf há clássicos e outros de mastigar e deitar fora, há coisas boas e más e há um punhado de obras com uma fotografia que poderia pertencer a filme do Malick.

Tenho notado uma crescente consciência artística e contemplativa nos realizadores e na atitude geral no surf actual, a reflectir-se logo nas bandas sonoras muito interessantes ou na procura de referências "retro", desde as próprias pranchas às carrinhas antigas que transportam os alemães às centenas aqui para a praias de Peniche.

Os meios digitais democratizaram a realização de filmes independentes de qualidade, mas o mercado do surf também cresceu e popularizou-se e, havendo patrocínios de marcas, há a possibilidade de usar meios que antes eram tão artesanais como o próprio surf. Pode dar-se o caso de estar apenas mais atento a isso porque também tenho um crescente desejo de fuga e contraste com a cidade e a vida de ruído e stress. Isto não é novo, na cultura dos 60s é importante distinguir bem o movimento hippie do movimento do surf. Apesar de ambos serem uma oposição ao modo de vida materialista e convencional, no surf não há propriamente modo de pensar ou uma consciência política. O contacto espiritual com a natureza é prático e directo e o objectivo é só andar numa onda perfeita.

Aqui dois exemplos recentes de bons filmes.



é fraqueza entre ovelhas ser leão*

Quando escrevi isto estava a pensar, entre outros, no Francisco José Viegas, uma pessoa que nunca me fez mal nenhum, nem fará (se Deus quiser), mas pela qual sempre nutri uma antipatia séria. É agora Secretário de Estado da Cultura. É jornalista, é uma coisa muito curiosa em Portugal, a quantidade de jornalistas que estão em altos cargos, por exemplo, na administração de empresas ou no marketing. Vejo Viegas como um parvenu que escolheu um ponto diferenciador para ascender: a cultura. Toda a paixão pela lusofonia, particularmente o Brasil, sempre se me afigurou como uma forçada procura de massa crítica aqui na aldeia, uma vez que o Brasil é um mercado gigantesco e uma pessoa que estabeleça uma ponte entre o Brasil e Portugal, pois que tem mais peso na cultura. Não sei se foi o Brasil  que procurou Viegas.

 Fernando Pessoa ou Camões são como adereços que o ligam a uma história credível e que o distinguem dos outros, mais contemporâneos e superficiais, mais de modas. Sobre Camões nas escolas diz que o problema é político, porque Camões «desde o século XIX que, infelizmente, Camões é sinónimo de patriotismo. Primeiro, pela mão dos republicanos; depois, pela do Estado Novo; depois, alternadamente, ora pela “esquerda cívica”, ora pela “direita das escolas”. De fora fica Camões como um génio a ler, reler e comentar. Às vezes, no Dia de Camões e das Comunidades, apetecia sugerir a leitura do autor de Os Lusíadas – um soneto que fosse, uma redondilha. Hão-de ver que é deslumbrante. » Não sei se o problema de Camões com estudantes é ver-se envolvido nestas considerações mas Francisco José Viegas não hesita. Eles, os senhores das escolas, não compreendem Camões porque não são livres de espírito, são da "esquerda cívica" ou da "direita das escolas". Viegas compreende, está acima disso e não teria dificuldade em ensinar Camões a putos irrequietos. Havemos de ver que é deslumbrante, como Viegas e só Viegas vê. Prevê-se também que Camões deverá ser servido, como um sublime acepipe cultural, nas próximas comemorações oficiais do dia da raça, talvez declamado pela bela voz de barítono de Pedro Passos Coelho sob o olhar beatífico e pestanejante do Professor Cavaco Silva.

Mas não é só em Camões ou Pessoa que Viegas parece procurar aquela mística de ligação com o passado e planar acima do seu tempo ao qual é imune, de charuto na boca (fumar é politicamente incorrecto etc.), qualquer fait divers serve. Por exemplo, a propósito da E. Colli, esfrega as mãos: «Algum dia teria de acontecer — e logo numa quinta de agricultura biológica. Parece que, até agora, as suspeitas acerca do E.coli recaem em amostras que têm sido porta-estandarte da dietética moderna e da «cozinha ilustrada»: pepino, rebentos de soja, beterraba, rebentos de vegetais usados em sanduíches. Sim, faltam a rúcula-bebé (etc.)
 
Qualquer dia tinha de acontecer, pois evidentemente. Também vamos aguardar serenamente pelo dia em que, não sei, alguém que defende os direitos dos animais maltrata uma criança ou que um ciclista em Lisboa atropela uma velhinha.

Também é fascinante a capitalização que tenta fazer de um misterioso judaísmo para se diferenciar. Um exemplo de fundamentalismo islâmico é noticiado, como a proibição de um beijo ou a obrigação de usar o véu e pimbas, Viegas refere-o e exibe-o a  um fantasma de esquerda anti-semita, com a autoridade de ser vítima pois é uma espécie de judeu por usocapião, não é como nós.

Assim, vai sendo politicamente incorrecto. Um observador atento poderia considerar estranho que uma pessoa assim tão politicamente incorrecta e livre e culta chegue a ministro ou secretário de estado em Portugal. A propósito, Vasco Pulido Valente descreve a sua curta passagem pelo parlamento como deputado do PSD focando-se nos urinóis da assembleia que, entupidos, transbordavam de mijo.

*frase de Camões

sexta-feira, 17 de junho de 2011

só gosto de ti

Tinha 8 anos e gostava muito desta música e pensava na Susana quando a ouvia. Uma vez atirei-me para uma piscina para lhe provar o meu amor. Não sabia nadar e ia morrendo afogado. Ela foi chamar a minha mãe, que me salvou in extremis e foi sobretudo humilhante. Enquanto cuspia água e tossicava, com montes de mirones à minha volta e uma Susana preocupada, tentava demonstrar que estava tudo sob controlo e que eu sabia bem o que estava a fazer.


Os anos passaram e continuo a gostar da música (ainda mais) e hoje ouvi-a no rádio, um pouco depois dos Roxette. Os nomes vão mudando, estilo slot machines, a música é a mesma.

é preciso é calma

Hoje na Calçada de Carriche, a descer, o trânsito parou de repente e à minha frente, aí dois ou três carros, um jipe e um golf encostaram lado a lado, ocupando as duas faixas. Um pretalhão saiu de dentro do golf e tentou abrir a porta do jipe e este continuou com elas trancadinhas, se fosse eu também fazia o mesmo. Mas não arrancou, para meu espanto (eu tinha fugido logo). Não, o gajo saiu do carro com ar de "foda-se, vamos lá resolver isto..." assim meio a rir. Era calmeirão, t-shirt justinha e com cabelo à escovinha, pinta de suburbano. Se eu não fosse um pretalhão também tinha fugido do senhor do jipe. Mas o pretalhão não era eu e o calmeirão também não era eu e os dois envolveram-se ali à porrada. Claro que o preto mandou logo o suburbano ao chão e dominou-o mas não lhe deu pontapés e murros com ele no chão, isso é mais as meninas adolescentes, essas é que são tramadas. E então os carros começaram a apitar, inclusive os que vinham no sentido contrário que abrandavam para ver o espectáculo. Ouvi uma mulher a gritar "parem com isso!" muito preocupada. Ninguém saiu dos carros, eu muito menos, eram os dois duas bizarmas e depois estava a dar uma música gira na M80, o Listen To Your Heart dos Roxette. Às tantas o preto soltou o gajo e com ele ainda no chão esticou-lhe o indicador do género "isto é para aprenderes mano" e voltou para o carro. O outro levantou-se, sacudiu-se e quando ia a entrar no carro, a rir-se e a compor a t-shirt toda torta, vira-se para os carros todos a buzinar e grita "calma caralho!"

quinta-feira, 16 de junho de 2011

músicas que gosto de ouvir quando conduzo com grão na asa e com as janelas abertas e a BT não me manda parar #2

Iggy Pop - Tonight

Twain

Fascina-me o modo como Mark Twain consegue recriar o seu universo infantil no Tom Sawyer sem ser declaradamente autobiográfico, apesar de Sawyer ser ele e mais duas outras pessoas, mas sobretudo ele, e de tudo se passar nas margens do seu Mississipi de infância e de conter uma sátira muito pessoal.

Mark Twain utiliza uma técnica que também vemos em Walt Disney e especialmente nas bds do "tio patinhas" de Carl Banks que organizam aquele universo. Tom Sawyer não tem história. Não tem mãe (sabe-se que é orfão) e do pai nem se fala. O que é fascinante é que isso nunca surge nas reflexões de Sawyer: ele nunca cai numa melancolia ou numa reflexão sobre o porquê de não ter mãe e pai e dos outros meninos terem. Do mesmo modo, nos Tio Patinhas, não existe uma única relação de parentesco directo: pais, filhos, irmãos. São todos primos, sobrinhos, tios, netos, avós etc. A única coisa que interessa é o momento presente, em que acontece algo, uma aventura.

Já no Huck, é totalmente diferente. O livro é bem mais intimista e uma obra digna de figurar no canône ocidental. Para além da questão fundamental de ser na 1ª pessoa, como disse no post abaixo, a figura do pai violento e bêbedo surge frequentemente e é comovente a situação de Huck. Huck não tem ninguém, não tem lar e não tem raízes, é um "bom selvagem". Tom tem uma tia que gosta dele e é um jovem mais normal apesar de tudo. Huck não é ninguém, é um cão solitário.

Nos desenhos animados da nossa infância não é pois de admirar que a figura imortalizada tenha sido Tom Sawyer e o Huck um mero side-kick simplório, o objectivo de um desenho animado é semelhante ao das bds do Tio Patinhas. A literatura é outro território.