sexta-feira, 17 de junho de 2011

só gosto de ti

Tinha 8 anos e gostava muito desta música e pensava na Susana quando a ouvia. Uma vez atirei-me para uma piscina para lhe provar o meu amor. Não sabia nadar e ia morrendo afogado. Ela foi chamar a minha mãe, que me salvou in extremis e foi sobretudo humilhante. Enquanto cuspia água e tossicava, com montes de mirones à minha volta e uma Susana preocupada, tentava demonstrar que estava tudo sob controlo e que eu sabia bem o que estava a fazer.


Os anos passaram e continuo a gostar da música (ainda mais) e hoje ouvi-a no rádio, um pouco depois dos Roxette. Os nomes vão mudando, estilo slot machines, a música é a mesma.

é preciso é calma

Hoje na Calçada de Carriche, a descer, o trânsito parou de repente e à minha frente, aí dois ou três carros, um jipe e um golf encostaram lado a lado, ocupando as duas faixas. Um pretalhão saiu de dentro do golf e tentou abrir a porta do jipe e este continuou com elas trancadinhas, se fosse eu também fazia o mesmo. Mas não arrancou, para meu espanto (eu tinha fugido logo). Não, o gajo saiu do carro com ar de "foda-se, vamos lá resolver isto..." assim meio a rir. Era calmeirão, t-shirt justinha e com cabelo à escovinha, pinta de suburbano. Se eu não fosse um pretalhão também tinha fugido do senhor do jipe. Mas o pretalhão não era eu e o calmeirão também não era eu e os dois envolveram-se ali à porrada. Claro que o preto mandou logo o suburbano ao chão e dominou-o mas não lhe deu pontapés e murros com ele no chão, isso é mais as meninas adolescentes, essas é que são tramadas. E então os carros começaram a apitar, inclusive os que vinham no sentido contrário que abrandavam para ver o espectáculo. Ouvi uma mulher a gritar "parem com isso!" muito preocupada. Ninguém saiu dos carros, eu muito menos, eram os dois duas bizarmas e depois estava a dar uma música gira na M80, o Listen To Your Heart dos Roxette. Às tantas o preto soltou o gajo e com ele ainda no chão esticou-lhe o indicador do género "isto é para aprenderes mano" e voltou para o carro. O outro levantou-se, sacudiu-se e quando ia a entrar no carro, a rir-se e a compor a t-shirt toda torta, vira-se para os carros todos a buzinar e grita "calma caralho!"

quinta-feira, 16 de junho de 2011

músicas que gosto de ouvir quando conduzo com grão na asa e com as janelas abertas e a BT não me manda parar #2

Iggy Pop - Tonight

Twain

Fascina-me o modo como Mark Twain consegue recriar o seu universo infantil no Tom Sawyer sem ser declaradamente autobiográfico, apesar de Sawyer ser ele e mais duas outras pessoas, mas sobretudo ele, e de tudo se passar nas margens do seu Mississipi de infância e de conter uma sátira muito pessoal.

Mark Twain utiliza uma técnica que também vemos em Walt Disney e especialmente nas bds do "tio patinhas" de Carl Banks que organizam aquele universo. Tom Sawyer não tem história. Não tem mãe (sabe-se que é orfão) e do pai nem se fala. O que é fascinante é que isso nunca surge nas reflexões de Sawyer: ele nunca cai numa melancolia ou numa reflexão sobre o porquê de não ter mãe e pai e dos outros meninos terem. Do mesmo modo, nos Tio Patinhas, não existe uma única relação de parentesco directo: pais, filhos, irmãos. São todos primos, sobrinhos, tios, netos, avós etc. A única coisa que interessa é o momento presente, em que acontece algo, uma aventura.

Já no Huck, é totalmente diferente. O livro é bem mais intimista e uma obra digna de figurar no canône ocidental. Para além da questão fundamental de ser na 1ª pessoa, como disse no post abaixo, a figura do pai violento e bêbedo surge frequentemente e é comovente a situação de Huck. Huck não tem ninguém, não tem lar e não tem raízes, é um "bom selvagem". Tom tem uma tia que gosta dele e é um jovem mais normal apesar de tudo. Huck não é ninguém, é um cão solitário.

Nos desenhos animados da nossa infância não é pois de admirar que a figura imortalizada tenha sido Tom Sawyer e o Huck um mero side-kick simplório, o objectivo de um desenho animado é semelhante ao das bds do Tio Patinhas. A literatura é outro território.

jantar de idiotas

Ontem decidi quebrar a tradição do filme de terror para me animar e alguei uma comédia, o Dinner for Schmucks com o Steve Carell e aquele gajo dos Flight of The Concords (que rouba um bocado o filme). Foi uma comédia agradável dentro do género.

O que mais me comoveu e fez rir foram as cenas do genérico inicial. Só vemos as mãos do Steve Carell a montar estes pequenos cenários com ratos mortos empalhados (um hobbit como outro qualquer) recriando o seu próprio casamento (infernal) num mundo de sonho e fantasia.




Tolstói

É praticamente inútil, e mesmo arriscado, perder tempo com autores contemporâneos ou do próprio país (quando só os lemos porque são, neste caso, portugueses). Só mesmo com muita sorte se encontra algo que compense o tempo perdido. Editam-se livros que fazem mal, afundam as pessoas numa mediocridade. Chamamos obras ao que fazem e aos seus autores damos-lhes o nome de escritores ou pior, poetas. E fala-se neles e alimenta-se um espírito de novidade, de revelação e atribuem-lhes prémios franchisados, com nomes de escritores mortos que não têm culpa nenhuma e que depois são impressos nas capas. Tudo isto me causa alguma angústia, vergonha e sentimento de culpa, porque meti na cabeça que iria escrever ficção. O único motivo pelo qual perco tempo com autores contemporâneos, particularmente portugueses, é para me sentir menos culpado e mais motivado. A mediocridade é tão evidente que perdemos qualquer vergonha ou sentimento de inferioridade, muito pelo contrário. Pensamos 'bom, já que as coisas são assim, mais um não faz mal'.

O nosso meio literário / intelectual (qualquer meio, aliás, é o mesmo no da gestão ou do marketing ou da política) quando comparado com outros países civilizados parece uma associação recreativa de uma aldeia em que doutores obstinados e estrategas da carreira, que sabem umas coisas 'de fora', profundamente insensíveis e sem coração ou sentido de humor, encenam imitações de civilização para uma plateia ignorante e provinciana.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

músicas que gosto de ouvir quando conduzo bébrio(c) com as janelas abertas e a BT não me manda parar #1

The Horrors - Sea Within a Sea


(c) termo com copyright do Atum Macaco

pêlo tóxico

Apercebi-me, há momentos, enquanto estendia um filete de cavala à gata preta esfomeada que mevoltou a arreganhar os dentes pelo 8º dia consecutivo, que não estou bem. Quer dizer, a minha situação. Não sou só eu que o vejo, vários amigos comentam-no, pelo chat do messenger ou do facebook, embora todos tenham uma impressão diferente de mim e diagnósticos também incoerentes. No pátio do bungalow só vejo um parque de estacionamento, sem carros, está deserto. Em frente ao parque há um muro alto com arame farpado que não deixa ver a vasta planície de dunas e por cima há uns cabos eléctricos onde de manhã se pendura um pássaro que não sei identificar mas que faz o mesmo barulho crruuu cruuu crruuu todas as manhãs.
Vou de bicicleta ao supermercado e encho os alforges da mesma com cerveja e whisky e carne congelada e snacks e latas de conservas. Almoço a ver o telejornal e o país parece uma metáfora de mim, é uma coisa impressionante. Às vezes pergunto-me se não sou apenas uma antena receptora de más vibrações karmikas, eu que nem acredito nessas coisas. E quase choro quando vejo os esforços de orgulho, como aquele video de provocação à finlândia em que falam nas coisinhas boas que fazem, como a via verde ou os cartões pré-pagos dos telemóveis, como crianças a mostrar garatujas e infantilidades a adultos que os censuraram.

Hoje desinfestaram o parque, um camião passou por aqui a despejar veneno tóxico na cadeira em que estou sentado e na mesa amarela onde tenho a garrafa de JB e pevides. Espero que tenha caído algum insecticida em cima da gata preta, mata-lhe as pulgas, ela... ela é rija. Apesar de recusar qualquer avanço meu para uma festinha, não sai daqui e passa os dias à espera de atum, debaixo da minha bicicleta ou mesmo em cima da cadeira, enchendo-a de pêlo tóxico. Lembra-me uma pessoa e gostava mesmo de ser amigo dela. Se calhar já somos amigos. Perdidos, perdidos, perdidos... Não consigo ver o eclipse, há nuvens, ainda pensei correr a casa da minha mãe, pedir-lhe para tirar o telescópio de dentro da adega (está coberto de teias de aranha, não lhe toco) e tirar umas belas fotos e postar aqui mas que se dane, é só uma lua e uma sombra, consigo fazer isso com uma lata de cerveja e um candeiro. Era melhor que houvesse ondas e não há praticamente ondas há 8 dias, 8 dias seguidinhos com o mar praticamente inerte e as famílias felizes a tomar banho abençoadas pela bandeira verde e eu vejo aquele mar que não quer brincar e volto a pedalar para casa, aborrecido. Tomo café na esplanada de mesas de plástico vermelho e vejo famílias e casais com cães e volto para casa. À noite leio o Guerra e Paz à luz dos candeeiros do parque de estacionamento porque acho que estar no exterior é mais saudável e esforço a vista.

Um velho anda para trás e para frente com o seu audi novo no parque de estacionamento deserto, parece hesitar em escolher um lugar, há tantos que o velho pondera e hesita, pondera e hesita, avalia as casas, as potenciais sombras do dia seguinte, e anda aos círculos e enerva-me. Finalmente estaciona e ao passar por mim diz "boa noite!" e eu respondo "boa noite" com sinceridade, sem sequer pensar nisso e sorrio, cheio de boa vontade de repente, como se estivesse sintonizado com o universo. Estendo-me na cadeira e olho as nuvens pesadas não vejo a lua mas sei que ela está lá, consigo imaginá-la.

Tom Sawyer e Huckleberry Finn

Li há poucos dias o Tom Sawyer de Mark Twain (a melhor pessoa que já viveu).
Apesar de serem dois livros aparentemente próximos (o Huck é uma personagem secundária no livro do Tom e depois sucede o contrário), são na realidade muito distintos. O Huckleberry Finn foi finalizado uns seis ou sete anos depois, com muita reescrita à mistura e tem um tom bem mais sério e por vezes melancólico e é, justamente, considerado por alguns (nomeadamente o Tolan e o Hemingway só para citar dois nomes de peso) como a obra 'mãe' da literatura moderna americana. A gande diferença técnica entre os dois é que o Tom Sawyer é contado na 3ª pessoa e o Huckleberry Finn na primeira pessoa. Enquanto que no livro de Tom Sawyer a consciência de Mark Twain, jovial e irónica, é uma referência e uma âncora (várias vezes o Mark Twain dirige-se directamente ao 'leitor'), no Huck, a escrita na primeira pessoa (um puto espontâneo e sem educação) causa um estranhamento mais poderoso e intenso.

Tenho feito uns exercícios nesta voz juvenil, uns ensaios dispersos a tentar encontrar as bases para o romance. É difícil encontrar o equilíbrio entre um "eu" de agora e um eu com uma idade que nem consigo bem precisar, com um misto de inocência mas que também deixe espaço para a ironia e alguma profundidade.

Talvez tenhamos tendência para subestimar os miúdos, eu certamente nunca fui pessoa de falar com crianças com a voz alterada e de forma simplória, como se fossem debilóides. Lembro-me de isso me causar forte irritação logo aos 3 ou 4 anos, os beliscões nas bochechas e a forma como por vezes oram falavam comigo, ora de mim na 3ª pessoa aos meus pais como se eu não estivesse ali "ele é sempre assim tão calado e sério?"

a capelinha de cinco andares

Pelos vistos os donativos à igreja têm vindo a cair e os eclesiásticos, naturalmente preocupados, salientam que os portugueses não estão menos generosos (os donativos ao Banco Alimentar aumentaram) mas que isto são sinais de dificuldades das pessoas e que há uma questão cultural, na opinião de um bispo ouvido na tvi, as pessoas parece que têm mais facilidade em dar coisas do que dinheiro.

Ninguém duvida que a Igreja tem uma obra social importante. O que se calhar pode fazer confusão (e a julgar pelos testemunhos em várias reportagens, inclusive de fiéis, faz) é que nesta altura o dinheiro possa ser utilizado para construir um mamarracho destes.


Pondo de parte o atentado urbanístico e arquitectónico (5 andares, meu Deus...) o luxo custa para cima de 3.1 milhões de euros e também é financiado pela Câmara Municipal de Oeiras.

João Leitão

e agora

este blogue vai fazer uma breve pausa de algumas horas por diversos e variados motivos que se prendem com escovar os dentes ao som da música abaixo e para ler o Guerra e Paz e dormir. Durmam bem, meus pequenotes.

terça-feira, 14 de junho de 2011

dedicado ao comentador anónimo que uma vez disse "que maravilha" a uma cena electro que postei e aos que me mostraram as músicas com os cães :*

(os outros podem ignorar, obrigado)
DATA - Blood Theme

muito gosto eu destas merdas

pronto, 7 dias ou mais, em anos cão, são 28 dias, é muito tempo (nota: em anos cão, os primeiros 2 anos de vida multiplicam-se por uma factor de 10.5, depois disso é por 4, agora ficam a saber que tenho mais de 2 anos)

Nota prévia: após ter lido mais uns capítulos, nomeadamente, o da Batalha de Austerlitz, a minha opinião sobre isto tudo, mudou, mesmo assim fica aqui o texto:

Estou a ler o Guerra e Paz de Lev Tolstoi, tradução do duo dinâmico Nina e Filipe Guerra, é uma obra esmagadora. Não no sentido dos 4 volumes que, com optimismo ingénuo levei comigo para férias, caso me faltasse leitura. O Tolstoi é efectivamente um nome que se pode pôr ao lado dos deuses do Olimpo da literatura, pelo menos, a julgar pelo 1º volume que terminei hoje. Seria de esperar que uma obra da dimensão do Guerra e Paz tivesse a chamada "palha". Pois não tem. Comparando outros grandes autores com o Tolstói ao nível de palha, é como comparar uma sala de operações de um hospital com um curral de vacas. Percebo pois que alguns (não cito nomes nem faço links mas eles sabem que são eles) digam que Tolstoi é muito superior a Dostoiévski. Pois eu compreendo que o digam, mas é estéril pensar assim. Considerando que Tolstoi e Dostoiévski são contemporâneos, este último consegue um salto para a "modernidade" na literatura pela introdução de uma componente mais visceral e, talvez, psicanalítica, que em Tosltoi, apesar de existir e ser bem evidente, não deixa de parecer "homérica", naquele sentido clássico do termo. O meu primeiro impulso genuíno - fundamentado na minha ignorância - foi o de acreditar que o Guerra e Paz era umas boas décadas anterior a um livro como o Crime e Castigo, mas não, são contemporâneos. As personagens de Tolstoi, em combate, não têm propriamente medo de morrer (no sentido existencial) mas sentem antes uma euforia ou uma honra que por vezes é confrontada com o caos e o ridículo de um ferimento ou de uma cobardia. O drama da batalha (os mortos, feridos, estropiados) desenrola-se como num pano de fundo infernal mas algo neutro.

É uma obra disruptiva face ao espírito da época (e ao próprio género 'romance') no retratar de uma sociedade em que a guerra, apesar da recente introdução da moderna estratégia (em que Bonaparte é um mestre), é para os russos uma oportunidade de ascensão e de honrarias, desenvolvida como um teatro abstracto pela alta sociedade enquanto que no terreno de batalha vive-se um caos e uma espécie de anti-climax, tão bem representado por soldados com lama até aos joelhos ou no oficial corajoso que é ferido em combate e que pensa "isto não me pode estar a acontecer".  Mas mesmo assim, é claro que na época de Tolstói a guerra era diferente ou, pelo menos, o espírito dos homens (e das sociedades) que partiam para a guerra. O Imperador Alexandre, passando revista às tropas, provoca num oficial o desejo de morrer por ele, que nada o faria mais feliz. As batalhas tinham algo de 'simbólico' e cavalheiresco, a começar pelo curioso facto de altas patentes do exército poderem ser mortas em batalha por participarem nas investidas da linha da frente e usarem sabres e de haver alguma improvisação. Temos também a sensação que Napoleão 'é forte' porque vem 'do povo'e ascendeu pelo seu próprio punho e determinação implacável. É, aliás, admirado pelos russos que, nesta altura na alta sociedade, falavam francês com muita frequência e a sua figura intensos debates, talvez um prenúncio de coisas que se iriam passar no próximo século.

Apesar da I Guerra Mundial ter sido o fim de uma inocência, vemos que mesmo na II Guerra Mundial não havia consciência do drama individual. Pegue-se no exemplo do desembarque na Normandia. Homens com passado e identidade são atirados para uma situação em que é certo que boa parte deles irá morrer anonimamente assim que sair do barco. Uns anos depois o homem ganha outro tipo de consciência (quase neurótica) quanto à própria mortalidade e liberdade.

Contudo, em Dostoiévski, essas sementes já lá estão mais visíveis, em dramas individuais, em personagens que têm dilemas existenciais profundos e que são 'modernos', aliás, aqueles temas viriam a impor-se. Em Tólstoi isto parece existir mas de uma forma implícita, o que lhe acrescenta uma dimensão clássica e porventura superior. Dostoiévski que desce à visceralidade da psique humana dos seres mais simples e oprimidos, no fundo, o povo e também a temas espirituais, éticos digamos assim. Pode ser pois o "repórter social" para o Nabokov (não linko o blogue do Nabokov, ele que arranje visitas sozinho) mas consegue criar personagens que estabelecem, ainda hoje no século XXI, uma empatia total com o leitor (ele reconhece-se nelas) enquanto que as de Tolstoi não deixam de causar algum estranhamento e até alguma inveja, como se fosse uma época para sempre perdida.

É curioso, o caminho destas coisas. A Ilíada de Homero tem batalhas mas aí só existem num plano de homens candidatos a deuses ou deuses, o resto são números abstracos. Em Tolstói, vamos até ao nível do responsável por um pequeno pelotão de artilharia, mas ainda não vi "o soldado raso" tratado com profundidade psicológica, continua a ser um número (50 mil efectivos russos contra 150 mil franceses etc.). Os Nús e os Mortos do Norman Mailer, já versa sobre o tal soldado raso na II Guerra Mundial (no Pacífico), o pequeno pelotão de meia dúzia de homens comuns.

E hoje em dia, chegámos ao ponto de psicanalizar os estrunfes, considerando-os racistas e marxistas.

não falo com ninguém (excepto com a senhora do supermercado) há 7 dias por isso sejam compreensivos

terça-feira, 7 de junho de 2011

até breve

Vou fazer uma pausa no blogue por diversos e variados motivos.

-->(aqui havia texto)<--
até ao meu regresso, deixo-vos com um bonito poema do meu anti-profeta preferido.

"there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?"

— Charles Bukowski

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Deixem a anti-matéria em paz :(

Cientistas do CERN conseguiram finalmente aprisionar anti-matéria durante alguns minutos. O ano passado tinham aprisionado 38 anti-átomos de hidrogénio, agora foram 300 e por mais tempo. Para conseguirem fazê-lo têm de aproximar a temperatura do zero absoluto. É muito frio. Para terem uma ideia o mais científica possível, é ainda mais do frio (muito mais) do que o congelador do frigorífico quando se carrega no botão de congelação rápida. E têm de o fazer num contentor magnético especial. O que me assusta um bocadinho é que a matéria reage com a anti-matéria e ambas se aniquilam, libertando muita energia, mais do que a que um aquecedor eléctrico consome num inverno inteiro.

Isto aqui é a armadilha. Não sei como os átomos de anti-hidrogénio são totós ao ponto de entrar naquilo, vê-se logo ao que vão. A cadeirinha é para a dona Aurora, a auxiliar do CERN, vigiar os anti-atominhos para a ver se não anti-fogem e se não andam à anti-bulha.


Estão a tentar explicar um dos grandes mistérios da cosmologia e o Big Bang. Supostamente deveria haver tanta matéria como anti-matéria e isto ser tudo um grande 'nada' de energia mas o universo desviou-se para o lado da 'matéria'. Os cientistas não percebem porquê e acham que há muito mais matéria do que anti-matéria no universo, mas eu duvido muito disto. Por exemplo, quando fazia os testes na universidade, devia ter muita anti-matéria na cabeça porque quando chegava ao exame, a matéria tinha desaparecido.

Sou contra experiências em animais e anti-matéria. Estão os átomozinhos de anti-hidrogénio anti-sossegados na sua anti-vida e pimbas, ficam aprisionados na ratoeira magnética gelada. Não deve ser nada agradável, esperemos que não se aborreçam.

O meu receio é que os cientistas só consigam descobrir uma explicação para o Big Bang provocando o Big Bang II - A Vingança Fatal. Talvez as últimas palavras Professor Hangst do projecto Alpha, um dos responsáveis por estas experiências, venham a ser 'Ah! Então foi assim que tud...'

E recomeça tudo outra vez, num loop infinito. Não me apetecia ter de fazer os exames de Análise Matemática IV outra vez.

sou uma pessoa de cães

sábado, 4 de junho de 2011

alguns excertos de um bom professor

The object of fiction isn’t grammatical correctness but to make the reader welcome and then tell a story . . . to make him/her forget, whenever possible, that he/she is reading a story at all. The single-sentence paragraph more closely resembles talk than writing, and that’s good. Writing is seduction. Good talk is part of seduction. If not so, why do so many couples who start the evening at dinner wind up in bed?

(...)

A novel like The Grapes of Wrath may fill a new writer with feelings of
despair and good old-fashioned jealousy—“I’ll never be able to write anything that good, not if I live to be a thousand”— but such feelings can also serve as a spur, goading the writer to work harder and aim higher. Being swept away by a combination of great story and great writing—of being flattened,in fact—is part of every writer’s necessary formation. You cannot
hope to sweep someone else away by the force of your writing until it has been done to you.

(...)

One of my favorite stories on the subject—probably more myth than truth—concerns James Joyce. According to the story, a friend came to visit him one day and found the great man sprawled across his writing desk in a posture of utter despair.
“James, what’s wrong?” the friend asked. “Is it the work?”
Joyce indicated assent without even raising his head to look at the friend. Of course it was the work; isn’t it always?
“How many words did you get today?” the friend pursued.
Joyce (still in despair, still sprawled facedown on his desk):
“Seven.”
“Seven? But James . . . that’s good, at least for you!”
“Yes,” Joyce said, finally looking up. “I suppose it is . . . but I don’t know what order they go in!”

On Writing - Stephen King.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

sempre que oiço falar em 'E-Coli' é mais ou menos isto que imagino



(Na cozinha de uma casa moderna e acolhedora, o e-Collie está provavelmente a tentar criar uma caption para um loldog no icanhashotdog.com pois parece bem humorado e prestes a rir, com o olhar perdido num dos cantos da sala em contemplação sonhadora. O gato à janela, o da esquerda, aparenta fazer um comentário cínico como 'mnhec' ou 'meew', talvez implicitamente sugerindo que o icanhascheezburger.com é bem melhor ou que o laptop não é um MacBook mas sim um HP. O gato da direita, esse, olha directamente para o espectador, como que o interrogando, não sem alguma ironia. A caneca pousada na mesa, decorada com o que aparenta ser uma reprodução do empire state building enquadrado por duas ovelhas num plano mais próximo, deixa outro mistério: sem polegares oponíveis, como pode o Collie beber da mesma? Poderá estar aqui uma sátira à modernidade? Nunca o saberemos, o sorriso do gato encerra o mistério. Notem também a referência aos girassóis de Van Gogh, no canto superior esquerdo, o que confere substracto e consistência clássica à composição. Podem comprar este bonito Collie With Computer da artista Susan Alison aqui)

foi com a força da mente

Estou a pensar incluir um anexo no romance com os melhores bloopers narrativos, cortados da versão original. Este causou muita risada ao revisor:

'Meti as mãos nos bolsos e acendi um cigarro.'

quinta-feira, 2 de junho de 2011

é ficção

Várias pessoas (uma) alertaram-me para a possibilidade da ironia do post sobre a revisão do meu romance ser incompreendida, sugerindo que o tal revisor, o meu amigo, está desiludido.

Queria aqui abrir um parentises de seriedade para dizer que ele teve um ataque de pânico a meio da noite uns dias depois de começar a ler porque é uma das pessoas em que me inspirei e teve de meter baixa médica. É assim tão bom, o livro :)

Há a hipótese de não ter sido por causa disso, mas sim por café a mais nesse dia e stress, mas vamos acreditar que sim, que foi. Sempre disse que admirava obras que fossem directas ao sistema límbico mas nem nas minhas maiores ambições pensei chegar a este nível.

Vou jantar com ele daqui a pouco e pagar-lhe uns copos e fazer olhos de cachorrinho.

Espero que a minha mãe tenha os calmantes por perto quando o ler.








mãe, é tudo ficção ok? :]

a revolução é mais daqui bocadinho

Há muitas músicas que falam de revolução e que instigam a pequenada à mesma. Tanto pode ser Beatles como Rage Against The Machine, Bob Dylan como Chemical Brothers. O rock é óptimo para exorcisar durante breves minutos o desejo de revolução e depois uma pessoa acalma. Cada um tem a sua música mais adequada.
A minha música de revolução é a Revolution dos Spacemen 3.


É uma música que me dá vontade ir para a rua, para o Rossio, manifestar que estou contrariado com as coisas e que acho as cenas mal em geral (salvo honrosas excepções). Com óculos escuros e a mover-me preguiçosamente avenida abaixo, encontraria outros como eu. Todos com cara de aborrecimento a fumar cigarros, ficavamos por ali, a ouvir Spacemen 3, Velvet Underground, Jesus And Mary Chain, Sonic Youth, My Bloody Valentine…
E enviariam a polícia de choque. Perfilada de azul escuro, as sombras negras projectadas na calçada, ficaria muito bem filmada a super 8, para depois se pôr no youtube.

Não vai acontecer.

comunicação não-verbal, she has it

quarta-feira, 1 de junho de 2011

os verdadeiros sinais da decadência dos valores

Depois da Jaguar e da Porsche terem morrido para mim (começou com o Boxter, definhou com o Cayenne, bateu a bota definitivamente com o 'utilitário' Panamera), a Ferrari faz um gigantesco FF de quatro lugares e tracção às 4.

Não, não é um BMW série 1 em esteróides

Já tinham feito outro de quatro lugares, o 612 Scaglietti, e este é um dos mais potentes alguma vez feitos pela Ferrari - quase tão potente como o Enzo. No entanto, como argumento de venda, no próprio site da Ferrari, está este preocupante parágrafo: «The FF: the Ferrari Four. Four as in four-wheel drive. Four as in the four comfortable seats that cocoon driver and occupants alike.»

Isto é preocupante. A minha querida Lamborghini também lançou ou vai lançar o aberrante Estoque de 4 portas, 4 lugares, desenhado para o segmento familiar.

O que acho piada nisto é que eles metem sempre motores brutais nestas coisas, como se tivessem um peso de consciência 'sim, é verdade, tem 4 portas e é confortável, mas tem 650 cavalos por isso é um Lamborghini' ou, no caso da Porsche 'isto não é um VW, reparem, tem aqui o símbolo da Porsche'.

Preferia muito que a Lamborghini e a Ferrari continuassem fieis e a fazer carros com pouca fiabilidade e que eu nunca poderei comprar e mesmo que tivesse dinheiro, não comprava. Ou comprava? A piada é essa, é um objecto que nos desafia imediatamente no acto de compra por não ter base racional - e por nos meter medo em vez de nos atrair com facilidades e mordomias e conforto.

O Aventator, LP700-4


- Querida? errm... lembras-te da Mercedes Vito que eu tinha dito que ia comprar para podermos levar os miúdos para o Algarve? Afinal comprei um prático Aventator LP700-4 e levo um de cada vez, em numa manhã está toda gente lá! Quem quer ir no Aventatorinho? *ovação eehhhh!!!! \o/*
- Estás doido!?!?
- Calma querida, com o que sobrou das nossas poupanças e venda de todo o nosso património, comprei-te uma Ford Transit de 1992, tem imenso espaço.