quinta-feira, 26 de maio de 2011
quarta-feira, 25 de maio de 2011
have they ever had to face killer poodles?
Já aqui postei ou noutro lado qualquer mas posto outra vez, a melhor opening music de sempre dos video jogos:
E um comentário ao video que resume a coisa
*sad sigh* they just don't make them like this any more. So many hours of my youth spent glued to my Amiga 500 painstakingly muddling my way through this game. I feel sorry for the youth of today. They may have awesome graphics, but do they have Grog? Do they know how to win a sword fight with witty repartee? Do they know the joy of using gopher repellent on stuffed yaks? Have they ever had to face killer poodles? I think not.
(embora eu nunca tenha deixado de jogar e ache que se continuam a fazer jogos bons e inteligentes - Portal, TF2, GTA Vice City etc. mas sem o toque ingénuo e independente destes tempos)
E um comentário ao video que resume a coisa
*sad sigh* they just don't make them like this any more. So many hours of my youth spent glued to my Amiga 500 painstakingly muddling my way through this game. I feel sorry for the youth of today. They may have awesome graphics, but do they have Grog? Do they know how to win a sword fight with witty repartee? Do they know the joy of using gopher repellent on stuffed yaks? Have they ever had to face killer poodles? I think not.
(embora eu nunca tenha deixado de jogar e ache que se continuam a fazer jogos bons e inteligentes - Portal, TF2, GTA Vice City etc. mas sem o toque ingénuo e independente destes tempos)
um certo tipo de mulheres
Há um certo tipo de mulheres que te faz sentir católico: não importa o que faças, tens culpa e a culpa acompanha-te permanentemente. Queres chegar ao céu, pedes perdão, não sabes bem de quê, a uma entidade que se remete ao silêncio ou que fala por sinais, como o voo da gaivota, uma auréola à volta do sol ou um 'não estou aborrecida, estou só magoada'. Revês mentalmente todos os teus passos desde que nasceste, à procura do que fizeste de errado. Confessas-te aos teus amigos e contas o que fizeste e eles parecem perceber o teu Deus porque têm todos opiniões assertivas sobre o que fizeste mal mas tu desconfias que ter-lhe dito que ela está no top 5 pelo menos é mesmo um elogio e não uma ofensa ou que trocar-lhe o nome pelo de uma ex não é nada de grave porque também estás sempre a confundir o Ben Stiller com o Adam Sandler ou o Robert De Niro com o Al Pacino. No fundo sentes que eles percebem disto tanto como tu e achas que eles deviam arranjar uma mulher também para falarem com conhecimento de causa. Às vezes parece que estás a fazer os rituais todos bem mas é pecado se tu em vez de beberes um cálice de vinho na missa do jantar, beberes a garrafa toda para lhe provar a tua fé como deve ser. E exige monoteísmo e a terra treme e o céu desaba quando tu lhe confessas o fascínio pelas religiões politeístas à maneira grega e romana ou quando, nas suas escavações arqueológicas - ao teu pc, telemóvel, blogue, facebook, gavetas ou debaixo da cama - são descobertos artefactos e relíquias de cultos pagãos anteriores. Mas quando te sentes bem, vês o teu Deus em tudo, nos pássaros a cantar, no sol que nasce, no sorriso das crianças, no pedreiro das obras do prédio ao lado que não tem a chave para entrar nem telemóvel e das 8:00 às 8:20 da manhã grita ininterruptamente 'Oh CAAAARLOS!? CAAAARLOS? ABRE O CARALHO DA PORTA FODA-SE! CAAAAARLOS!', nas belas flores, nas nuvens, nos outros vizinhos que vêm à varanda ver o que se passa, nos seus roupões, ensonados, é tudo bonito e perfeito. Com o tempo deixas de ir cometendo tantos erros nos rituais deste tipo de mulher. Um erro, por exemplo, é dizer 'este tipo de mulher', ela não pode ser 'um tipo', é um exemplar único. Ficas satisfeito contigo mesmo de teres aprendido esta lição. A próxima é evitar dizer-lhe que todas as mulheres são um exemplar único como ela. Com o tempo, aprendes a evitar pensar por ti e ficas orgulhoso de teres decorado algumas passagens do seu livro sagrado:
Namorados, sede submissos à própria namorada, como convém nas Amoreiras" (Colossensas 3:18)
O homem aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que o homem ensine, nem exerça autoridade de mulher a propósito das compras ou sugira a decathlon como uma opção para a aquisição de roupa confortável; esteja, porém, em silêncio" (1 Timótea 2:11-12)
Em todos os jantares com os pais dela, conservem-se os homens calados a propósito dos montantes totais das suas compras nas Amoreiras, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissos como também a lei o determina. Se, porém, querem aprender alguma cousa, interroguem, em casa, a sua própria namorada; porque para o homem é vergonhoso falar disso em frente aos pais dela" (1 Coríntias 14:33-35).
Namorados, sede submissos à própria namorada, como convém nas Amoreiras" (Colossensas 3:18)
O homem aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que o homem ensine, nem exerça autoridade de mulher a propósito das compras ou sugira a decathlon como uma opção para a aquisição de roupa confortável; esteja, porém, em silêncio" (1 Timótea 2:11-12)
Em todos os jantares com os pais dela, conservem-se os homens calados a propósito dos montantes totais das suas compras nas Amoreiras, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissos como também a lei o determina. Se, porém, querem aprender alguma cousa, interroguem, em casa, a sua própria namorada; porque para o homem é vergonhoso falar disso em frente aos pais dela" (1 Coríntias 14:33-35).
terça-feira, 24 de maio de 2011
moules frites
Os 'Arcade Fire' originais - grupo de okupas que pega instrumentos e parece ser uma comunidade de gente bem intencionada - eram os dEUS e eram belgas.
Para além de serem bons e de me terem proporcionado um concerto vagamente semelhante ao que seria um concerto de Nirvana, conseguiram o feito inacreditável de fazer os belgas e Bruxelas parecerem cool.
Estava-se em 1999.
Para além de serem bons e de me terem proporcionado um concerto vagamente semelhante ao que seria um concerto de Nirvana, conseguiram o feito inacreditável de fazer os belgas e Bruxelas parecerem cool.
Estava-se em 1999.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
bleeding to death
Rebentei com as crostas todas do herpes a comer uma bola de berlim. Tem de se abrir muito a boca. Os guardanapinhos dos cafés são péssimos a absorver sangue. Fica aqui o aviso. Não tentem estancar uma amputação acidental com guardanapinhos do café.
miúfa de gostar dela
- Sabes, o comum dos mortais guia a sua existência pela normalidade que o puxa para as massas como a gravidade puxa uma pedra para o chão. O artista deve ser um grão de poeira ao vento...
- Achas que leve este vestido?
- O artista pode... sim, leva. O artista pode ser o oposto da norma dos media e da norma do politicamente correcto. Existirão momentos de coincidência e momentos de divergência com a norma. Em todo o caso, eles não devem ser forçados... consegues ouvir-me aí dentro?
- Sim querido! Estou a ouvir-te!
- Bem... dizia-te que o artista não deve ter fundações e inclinações, deve ser uma caixa vazia onde cabe tudo e tudo se pode construir com a imaginação e destruir com um sopro. Um artista não deve ter opiniões que durem mais de uns momentos, mesmo que os media os cristalizem de forma ressentida e neurótica como fizeram agora ao Lars Von Trier e já tinham feito ao Verhoven, ao Bergman, ao Gunter Grass, ao Celine, ao Bukowski, ao Morrissey, ao David Bowie, ao... NÃO VAIS À RUA ASSIM?
- Achas demasiado provocante?
- Não nada. Está óptimo para quem vai trabalhar num ringue de boxe a passar o número do round.
- Não sejas assim. É só um vestido de verão e está calor.
- A julgar pela quantidade de tecido nisso devem estar 45º lá fora.
- Sim. Ajuda-me só a fechar o soutien, apertei mal.
- Ok. Os media são o ruído branco que um esquizofrénico paranóico ouve nos períodos de alucinação. Tens de aprender a ver os media como arte pop ou uma nuvem no céu...
- Então? Concentra-te...
- Estou concentrado! Tu é que não me estás a ouvir
- Precisas do comando da playstation para fazer isso?
- Não! Este tem um fecho esquisito. Onde é que eu ia... Um artista... pode ter um bunker e isolar-se. A única defesa possível é passiva, isolar-se o mais possível e remeter-se ao silêncio, recusar o amor para garantir uma redoma afectiva estável e CONSEGUI! CONSEGUI! AH-HA! CONSEGUI FECHAR!
- Muito bem... yupi...
- Consegui!! Viste? Onde é que eu ia...?
- ...recusar o amor para garantir uma reforma efectiva apreciável, algo assim. Anda, estamos atrasados.
- Não, não devia ser isso...
sexta-feira, 20 de maio de 2011
e 'é assim', não dizia?
Graças ao Homem Que Sabia Demasiado, para além de sabermos que a Leni Riefenstahl diz 'bom' e 'basicamente' no início de respostas e que considera a fotografia uma arte 'extremamente gratificante', também tivemos um vislumbre sobre as suas opiniões políticas até hoje envolvidas em mistério. Achei particularmente interessante que os anos de Hitler na Alemanha sejam por ela caracterizados como 'loucos e frenéticos'. Não sei se era bem os adjectivos que eu ou o Homem que Sabia Demasiado utilizaríamos, mas a Leni (Lenita para os amigos) sabe o que diz porque viveu aquilo de perto.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
herpes
Uma vez por ano, depois do primeiro verdadeiro banho de sol, tenho herpes labial solar. É isso e maçãs, se como maçãs à dentada. É certinho e já me habituei. A sua intensidade varia conforme os níveis de stress e cansaço físico e psicológico. Esta semana os astros alinharam-se para o herpes perfeito. Comecei a sentir os primeiros sintomas ontem e soube logo que era dos grandes, como os que tinha em puto. Mas não esperava isto: quando acordei hoje de manhã e me vi ao espelho, soube instantaneamente como se sentiu a Manuela Moura Guedes ao tirar as ligaduras.
É um período instrutivo e educativo. Por umas semanas, vivo a experiência de ser fisicamente repulsivo, algo que vocês experienciam diariamente. E de ter a dicção da Sofia Aparicio. É um banho de humildade. As pessoas perguntam "o que é que tens aí na boca!?" e temos algumas hipóteses de resposta:
1- melgas, picaram-me,
2- ela beijou-me com força a mais
3- estou só muito amuado
etc.
O certo é que quando dizemos que é herpes, disparamos um rol de piadas. Piadas que ouvi muitos, muitos anos, quando ainda era virgem e que vão desde o 'pois pois, andas a meter a boca onde não deves' até ao menos cordial 'para a próxima ela que lave a rata'. E hoje até estava de fato e gravata, mas o respeito é uma coisa que depende da nossa aparência física e esta é a pequena janela temporal durante o ano em que abrimos uma excepção e somos humildes e discretos. Amanhã ou depois desincha. Podia ser bom, mas o desinchaço é seguido de crostas e feridas que abrem e cicatrizam uma meia dúzia de vezes, até aquela última postela miserável que arrancamos em desespero e que volta a formar-se e arrancamos quando é microscópica e volta a formar-se outra nano crostinha e arrancamos e..
Claro que depois disto tudo, voltamos a ser bonitos e damos valor à beleza, pois ela é um dom que Deus dá a umas pessoas e a outras não e quem somos nós (e vocês) para discutir os desígnios do Senhor.
É um período instrutivo e educativo. Por umas semanas, vivo a experiência de ser fisicamente repulsivo, algo que vocês experienciam diariamente. E de ter a dicção da Sofia Aparicio. É um banho de humildade. As pessoas perguntam "o que é que tens aí na boca!?" e temos algumas hipóteses de resposta:
1- melgas, picaram-me,
2- ela beijou-me com força a mais
3- estou só muito amuado
etc.
O certo é que quando dizemos que é herpes, disparamos um rol de piadas. Piadas que ouvi muitos, muitos anos, quando ainda era virgem e que vão desde o 'pois pois, andas a meter a boca onde não deves' até ao menos cordial 'para a próxima ela que lave a rata'. E hoje até estava de fato e gravata, mas o respeito é uma coisa que depende da nossa aparência física e esta é a pequena janela temporal durante o ano em que abrimos uma excepção e somos humildes e discretos. Amanhã ou depois desincha. Podia ser bom, mas o desinchaço é seguido de crostas e feridas que abrem e cicatrizam uma meia dúzia de vezes, até aquela última postela miserável que arrancamos em desespero e que volta a formar-se e arrancamos quando é microscópica e volta a formar-se outra nano crostinha e arrancamos e..
Claro que depois disto tudo, voltamos a ser bonitos e damos valor à beleza, pois ela é um dom que Deus dá a umas pessoas e a outras não e quem somos nós (e vocês) para discutir os desígnios do Senhor.
quando a minha família deixou uma capital europeia para ir viver para o campo em Portugal o meu pai achou que era boa ideia termos uma coelheira e coelhos até ao dia em que...
... comemos um arroz de Pimpão. Em silêncio sepulcral. E depois foi um Bugsy à caçador. Eu não toquei no prato, nem a minha mãe e o meu pai fê-lo mesmo só por teimosia perante o nosso olhar reprovador.
Não dêem nomes à comida, é só um conselho.
O Cantinflas e o Bechamel tiveram uma reforma confortável.
Não dêem nomes à comida, é só um conselho.
O Cantinflas e o Bechamel tiveram uma reforma confortável.
espelhos
Vamos lá ver se vocês escrevem posts mais interessantes e melhores e com mais regularidade, porque vocês são uma valente desgraça e depois acabam por desinspirar-me.
Desculpem a crítica sincera mas os minutos que perco a ler-vos são minutos da minha vida que nunca mais recupero e fico traumatizado. Tentem ser interessantes.
Um dos atalhos para isso é ser arrogante. Eu fico sempre impressionado com a quantidade de gente que me acha arrogante, é demasiado baixa. Se não conseguem porque são modestos e boas pessoas, aldrabem nas partes que são desinteressantes. No vosso caso, isso significa que devem aldrabar tudo. Se não conseguem aldrabar nem são arrogantes, nem sequer deviam escrever em primeiro lugar, mas se insistem mesmo nisso porque é importante para vocês e para a vossa autoestima, então façam-no num word, imprimam e guardem os textos religiosamente num esconderijo secreto, como se fossem um tesouro. E não se preocupem que ninguém vai tentar encontrar esse tesouro, está bem seguro onde o deixarem e fica para a posteridade.
E pronto, foi só uma crítica construtiva e um incentivo.
Força nisso.
Crocodilos - Espelhos*
*no original Crocodiles - Mirrors (nome da banda - nome da música em questão, não são crocodilos ao espelho)
Desculpem a crítica sincera mas os minutos que perco a ler-vos são minutos da minha vida que nunca mais recupero e fico traumatizado. Tentem ser interessantes.
Um dos atalhos para isso é ser arrogante. Eu fico sempre impressionado com a quantidade de gente que me acha arrogante, é demasiado baixa. Se não conseguem porque são modestos e boas pessoas, aldrabem nas partes que são desinteressantes. No vosso caso, isso significa que devem aldrabar tudo. Se não conseguem aldrabar nem são arrogantes, nem sequer deviam escrever em primeiro lugar, mas se insistem mesmo nisso porque é importante para vocês e para a vossa autoestima, então façam-no num word, imprimam e guardem os textos religiosamente num esconderijo secreto, como se fossem um tesouro. E não se preocupem que ninguém vai tentar encontrar esse tesouro, está bem seguro onde o deixarem e fica para a posteridade.
E pronto, foi só uma crítica construtiva e um incentivo.
Força nisso.
Crocodilos - Espelhos*
*no original Crocodiles - Mirrors (nome da banda - nome da música em questão, não são crocodilos ao espelho)
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Um instantâneo na vida de Tolan, In Cold Blood style
1- A senhora G e a galinha Felizmina
Das quatro galinhas e um galo da senhora G., sem dúvida que a Felizmina era o seu orgulho, uma galinha de penas douradas, de 11 kg, com a espantosa capacidade de por um ovo por dia. ‘Ela põe ovos perfeitos, vem cá gente comprá-los, gente das aldeias vizinhas. Compram ovos das outras galinhas também, que eu vendo à meia dúzia, mas os da Felizmina marco com um F, com um marcador de feltro’, costumava contar a senhora G., quando ia ao padeiro de manhã. Por vezes levava um ovo da Felizmina, para mostrar às vizinhas.
Felizmina debicava milho naquele dia, era uma galinha feliz, uma galinha que se preocupa com as coisas que as galinhas se preocupam. Ela gostava bastante do galo, o Marcelo, e o Marcelo também gostava dela. Era vítima da inveja das outras galinhas que a olhavam de lado e comentavam que ela era gorda e que usava drogas para ter ovos maiores.
2- Podemos ser atacados por aliens
Pelas dezoito horas do dia 14 de Agosto de 1985, Tolan limpou a espingarda de pressão de ar ,marca Diana, ofercida pelo seu pai uns meses antes por ocasião do seu oitavo aniversário, à revelia dos protestos da mãe. Espreitava pelo cano e soprava, sob o olhar atento do seu cão, o Garoto.
Garoto viria a comentar às autoridades paternas que ‘woof woof auuhh woof woof auuhh woff grrunf’ mas o seu depoimento foi declarado inválido no julgamento sumário que decorreria umas horas depois.
Com a lâmina do canivete que o pai lhe oferecera pelo sexto aniversário à revelia dos protestos da mãe, vincou uma cruz na cabeça de onze projécteis de chumbo e colocou-os numa pequena caixa de fósforos. A cruz aumentava o poder destruidor dos chumbos e servia-lhe de marca pessoal também. As restantes munições foram guardadas no bolso direito do fato de treino. Normalmente, não precisaria de mais de meia dúzia, mas as coisas podiam correr mal, ‘nunca se sabe quando podemos ser atacados pelos aliens’, comentava frequentemente aos amigos da escola.
‘Achei que ele estava estranho nesse dia’, comentou a mãe de Tolan, ‘mal tocou nos Choco Crispies, ele que adora Choco Crispies… É um bom menino, um pouco estranho, por vezes parece normal, está sempre a correr de um lado para o outro com o cão e com o Snoopy de peluche mas depois é capaz de ficar longos períodos calado e pensativo e sabemos que ele está a preparar alguma. Sempre que está sossegado é porque está a preparar alguma grave. Devia ter percebido.’
3- Raio do puto, estava ali anhar feito parvo
Tolan montou a bicicleta com a pressão de ar a tiracolo, o boné de caça do pai enfiado até às orelhas e dirigiu-se para as traseiras da casa dos vizinhos, a dona G. e o senhor F., que ficava na ponta norte da aldeia de C., isolada. Era um fim de dia quente e os morcegos confundiam-se com as andorinhas. Chegou à casa da dona G. Era uma casa antiga, de grandes dimensões, com um frondoso jardim na frente e muros altos, decadente pela falta de obras e parcos recursos dos seus habitantes, agricultores.
Na parte traseira havia uma pocilga com porcos, galinhas e coelhos e dois cães permanentemente presos que davam o alarme quando um estranho se aproximava. Tolan desmontou a bicicleta e caminhou com cuidado para não fazer ruído. Armou a pressão de ar com um clac metálico disfarçado pela passagem da Casal Boss do Tó Moleiro que, intrigado pela aparição de Tolan, abrandou e acenou com a mão. Tolan não respondeu . Não podia revelar a sua presença aos cães acorrentados pois estes ladrariam e as ratazanas não saíriam da toca. No café da aldeia, Tó Moleiro comentaria ‘vi o filho do V., com a pressão d’ar, raio do puto tava a anhar ali feito parvo, em cima do muro do sô F', depoimento que poderia ter sido útil mas que acabou por não ser necessário.
4- A grande pilha de estrume
Rastejando lentamente em cima do muro do quintal, colocou-se em posição de sniper. O vento estava contra pelo que Tolan não deveria ser detectado pelo olfacto das ratazanas dos cães. Além disso, havia uma grande pilha de estrume junto ao muro que exalava uma cortina de odor.
Tinha uma boa visão sobre a parte norte das traseiras, conhecia os buracos de escoamento de águas, o amontoado de lenha e os tijolos empilhados. As ratazanas costumavam surgir daqueles esconderijos com o cair da noite e gatinhavam aos sopetões rápidos até às gamelas de ferro dos cães para comerem os restos de sopa de pão. Tinha de agir depressa, mais cedo e a luz intimidaria os gigantes roedores e depois da noite cair, estaria demasiado escuro para atirar com precisão.
Quatro galinhas e um galo patrulhavam o quintal, debicando o chão e fazendo cot cot cot’s ocasionais. O ar estava infestado de melgas e mosquitos, atraídos pelo estrume no muro abaixo e pelas águas estagnadas da pocilga de porcos
Imóvel, esperou pela primeira vítima, controlando a respiração e os batimentos cardíacos, com a coronha da arma encostada à cara, relaxando a vista o mais possível. Quando era picado por uma melga, resistia ao impulso de se mexer ou dar um estalo na face. Aproximava a mão devagar, resistindo à dor e tentava esmagar o insecto com um movimento silencioso. A primeira ratazana apareceu pelas 19:45, os seus olhos vermelhos a espreitar do buraco de evacuação das águas junto ao muro e Tolan disparou, errando o alvo. Os cães sobressaltaram-se e ladraram. Tolan esperou que se calassem mas sabia que só dali por umas horas as ratazanas voltariam a aventurar-se no quintal.
Mesmo assim deixou-se ficar teimosamente à espera, sendo cada vez mais picado por melgas. Sentia já alguns altos a formarem-se-lhe na face e esta a deformar-se progressivamente. Irritado, apontou a arma à cabeça de uma galinha de 11kg, dourada. O tiro era praticamente impossível, estava a mais de 20 metros e no escuro.
5- eu não lhe queria acertar pai!
Bateram à porta e os pais de Tolan precipitaram-se, estavam preocupados com atraso do filho para o jantar. Depararam-se com a senhora G, lacrimejante e nervosa. Numa mão segurava com firmeza o braço de um Tolan de cara deformada por picadas de melga e sujo de estrume até ao cabelo e na outra a Felizmina. Morta.
‘Eu não lhe queria acertar pai!’, começou por justificar-se Tolan na banheira, os olhos semicerrados pelas bolhas de sabão, enquanto a mãe o esfregava com uma escova normalmente utilizada para escovar o Garoto.
Tolan encarou o castigo com naturalidade, trancado no quarto, sem jantar. O Snoopy era o seu companheiro de cela. No entanto, a prisão mudou-o. A companhia de Snoopy, um perigoso cão de peluche, transformou-o profundamente. Estavam a combinar um assalto às nésperas do senhor P. quando o pai bateu à porta do quarto.
‘Porque fizeste aquilo? Se continuas assim não te vou oferecer a caçadeira júnior que vi no outro dia em TV, à revelia dos protestos da mãe.’
E Tolan fez a confissão, às 21:34 desse dia.
‘Eu não lhe queria acertar. Foi sem querer. Apontei e disparei e ela caiu para o lado. Uma das patas ainda estremeceu um bocado, assim ó. As outras galinhas fugiram. Primeiro pensei que tivesse adormecido de repente. Podia ser narcoplética.
‘Narcoléptica’ – corrigiu o pai.
‘Isso. Fiquei ali meia hora parado. Então pensei que era melhor ir lá abaixo e levar o corpo comigo, tinha de o esconder, sem corpo não haveria prova e eu não queria ser apanhado. E a mãe podia fazer uma bela canja. Tu gostas de canja e a mãe também. Pensei em vocês. Também em eliminar as outras galinhas e o galo, os cães prometeram-me que não diziam nada a ninguém, o Garoto e o Snoopy são amigos deles. E tínhamos canja para o resto do ano. Desci o muro, os cães ladraram muito e tive de correr depressa para a Felizmina. Apanhei-a, era pesada. Estava a escorrer sangue à brava da cabeça e as patas não paravam de estremecer, como se estivessem a andar. Depois as luzes da casa da dona G. acenderam-se e sabia que ela vinha ver o que se passava. Não podia sair pela frente e não conseguia subir o muro. Então vi o monte de estrume, dava quase até ao muro e pensei que podia subir o monte e trepar pelo muro. Pensei que o monte fosse fofinho e que só me ia enterrar até aos pés e fui a correr com a Felizmina agarrada pelo pescoço, saltei e afundei-me todo. Quando a dona G. saiu para o quintal viu-me a sair de lá de dentro coberto de esterco e com a Guilhermina a deitar sangue e a estremer das patas. Assustou-se pai, ficou mesmo com os cabelos em pé. Mas eu disse-lhe ‘boa noite, vai-se andando?’ e tudo, acho que fui bem educado.'
paisagem americana
Uma das questões essenciais é se os EUA parecem o que parecem porque são assim ou porque são filmados por americanos, mesmo hipsters amadores com uma super 8.
Um olhar americano sobre os nosso subúrbios e paisagens desérticas do alentejo, daria o mesmo resultado? Não sei, mas duvido. Por vezes penso que é uma questão de espaço, de distância entre as coisas, de luz, de objectos detalhados e horizontes Nos subúrbios portugueses ou nas paisagens das estradas nacionais, mesmo as do Alentejo, as coisas são mais compactas, o espaço é menor, há mais curvas suaves e as imagens são sobrecarregadas de detalhes e contrastes. Há pormenor e textura nos sobreiros e oliveiras, padrões geométricos nas charnecas, nas vinhas e pomares de minifúndio. Também pode ter a ver com a camada recente de instalações comerciais, um McDonalds, uma bomba de gasolina, um Walmart, um motel, uma espécie de existência perene e improvisada, os monumentos são de contraplacado e neon, por contraste aos nossos em pedra, com séculos. Um dos caminhos mais americanos que conheço é o que vai de Mafra a Sintra pela nacional. Há vilas com stands de automóveis com fitas e descontos em cartazes, exposições ao ar livre com artigos aberrantes em mármore, tijolo e loiça, fios de electricidade a cortar os céus, restaurantes de passagem com aspecto agressivo. A paisagem é incaracterística e e árida, entalada entre o mar, o campo e a serra. É apenas uma estrada com construções caóticas a poucos metros da berma. São só uma dúzia de quilómetros e com a serra de sintra a sul e o mar a oeste.
Nas dunas do Baleal, procuro campos de visão em que possa ignorar a existência de Peniche, do mar, da estrada, do hotel Soleil, dos bloco de apartamentos construídos apressadamente no início do milénio. Foco-me num enquadramento fechado de dunas e cardos e imagino que aquilo é um deserto que se estende por centenas de quilómetros sem nada, a não ser talvez uma estação de serviço e um motel decadente. Preciso de espaço.
terça-feira, 17 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
desastres à espera de acontecer
O In Cold Blood é perturbador porque Perry Smith e Richard Hickock são humanizados e tratados - literariamente - da mesma forma que as vítimas, os detectives e os locais de Holcomb. A cruel e trágica história familiar, particularmente a de Perry Smith, dá uma explicação. Normalmente os pcicopatas têm um qualquer trauma. Isto não desculpabiliza, mas é importante para perceber que o mal extremo não tem forçosamente que nascer por magia, do nada.
Existem extremos como o caso de Pedro Alonso López, o Monstro dos Andes - matou no Peru e na Colombia. Era filho de uma prostituta, foi depois abusado sexualmente num colégio e abusado na cadeia. Depois de matar 3 dos 4 abusadores na prisão (facto que agravou a sua pena em 2 anos), foi libertado e matou mais de 350 raparigas pré-adolescentes. Certa vez, índios capturaram-no e tentaram linchá-lo, mas um bom missionário católico impediu-os e salvou-o. Por fim foi preso e mesmo assim só uma cheia que desenterrou dezenas de corpos convenceu a polícia da sua confissão. Acabou, inacreditavelmente, por ser libertado após 20 anos na cadeia em 1998 e não se sabe do seu paradeiro.
Mas o caso de Perry Smith e Hickock é diferente, por não ser estratosférico como os casos de Pedro Alons López, ou o Nightstalker ou o Charles Manson. São dois putos idiotas, pobres, niilistas. Apesar de serem profundamente maus e não terem remorsos, toda a raiva não era metodicamente dirigida, a violência era como uma prova constante da sua virilidade ou afirmação. Tinham ressentimento contra a sociedade e as respectivas famílias (caso de Perry). A chacina de Holcomb é um acidente psicológico, um momento de psicose num assalto idiota. Perry vivia obcecado por mapas de tesouros enterrados. Ambos achavam sempre que se poderia enriquecer numa golpada final e para sobreviverem faziam pequenas falcatruas, cheques a descoberto etc. Em certa medida, a dinâmica entre Perry (o culto, o sensível, o visionário) e Dick (o prático, o charlatão, o bruto) é semelhante à de Dom Quixote e Sancho Pança ou mesmo Tom Sawyer e Huckleberry Finn. O primeiro encanta o outro com o seu mundo de ficção, ingénuo, em que tudo é um jogo.
Quando trabalhei aos fins de semana, nos meus tempos universitários, conheci algumas pessoas assim, não psicopatas, mas pessoas que tinham claramente um pendor para o desastre nas suas vidas. A maior parte não, eram atinados, mas alguns eram mesmo socialmente disfuncionais, faziam tudo mal e o que faziam mal ainda atraía mais desastre. Dava-me com alguns jovens de muito pouca instrução, odiavam a escola e esperavam sempre uma golpada qualquer. Tinham sempre um primo ou um tio ou um amigo que tinha enriquecido facilmente, ou nas obras, ou com um bar ou a vender droga. Eram completamente desgarrados de qualquer espécie de valores básicos e de noção da realidade. Eram capazes de ser despedidos ou de fazer merda até nas coisas mais simples, só por preguiça, por desafio, por uma rebeldia e ressentimento mal aplicado que os fazia ser desconfiados de tudo e de todos. A maior parte das vezes eram cómicos, gostava de os ver interagir (interagiam com alguma violência entre si, a mim deixavam-me em paz) mas fazia pena ao mesmo tempo, dava a sensação que ninguém lhes explicava que talvez não fosse boa ideia endividar-se para comprar um carro potente e depois kitá-lo, ou que não era prudente fazer corridas na vasco da gama ou fumar ganzas no WC antes de ir servir à mesa. Eram sempre um desastre à espera de acontecer.
Existem extremos como o caso de Pedro Alonso López, o Monstro dos Andes - matou no Peru e na Colombia. Era filho de uma prostituta, foi depois abusado sexualmente num colégio e abusado na cadeia. Depois de matar 3 dos 4 abusadores na prisão (facto que agravou a sua pena em 2 anos), foi libertado e matou mais de 350 raparigas pré-adolescentes. Certa vez, índios capturaram-no e tentaram linchá-lo, mas um bom missionário católico impediu-os e salvou-o. Por fim foi preso e mesmo assim só uma cheia que desenterrou dezenas de corpos convenceu a polícia da sua confissão. Acabou, inacreditavelmente, por ser libertado após 20 anos na cadeia em 1998 e não se sabe do seu paradeiro.
Mas o caso de Perry Smith e Hickock é diferente, por não ser estratosférico como os casos de Pedro Alons López, ou o Nightstalker ou o Charles Manson. São dois putos idiotas, pobres, niilistas. Apesar de serem profundamente maus e não terem remorsos, toda a raiva não era metodicamente dirigida, a violência era como uma prova constante da sua virilidade ou afirmação. Tinham ressentimento contra a sociedade e as respectivas famílias (caso de Perry). A chacina de Holcomb é um acidente psicológico, um momento de psicose num assalto idiota. Perry vivia obcecado por mapas de tesouros enterrados. Ambos achavam sempre que se poderia enriquecer numa golpada final e para sobreviverem faziam pequenas falcatruas, cheques a descoberto etc. Em certa medida, a dinâmica entre Perry (o culto, o sensível, o visionário) e Dick (o prático, o charlatão, o bruto) é semelhante à de Dom Quixote e Sancho Pança ou mesmo Tom Sawyer e Huckleberry Finn. O primeiro encanta o outro com o seu mundo de ficção, ingénuo, em que tudo é um jogo.
Quando trabalhei aos fins de semana, nos meus tempos universitários, conheci algumas pessoas assim, não psicopatas, mas pessoas que tinham claramente um pendor para o desastre nas suas vidas. A maior parte não, eram atinados, mas alguns eram mesmo socialmente disfuncionais, faziam tudo mal e o que faziam mal ainda atraía mais desastre. Dava-me com alguns jovens de muito pouca instrução, odiavam a escola e esperavam sempre uma golpada qualquer. Tinham sempre um primo ou um tio ou um amigo que tinha enriquecido facilmente, ou nas obras, ou com um bar ou a vender droga. Eram completamente desgarrados de qualquer espécie de valores básicos e de noção da realidade. Eram capazes de ser despedidos ou de fazer merda até nas coisas mais simples, só por preguiça, por desafio, por uma rebeldia e ressentimento mal aplicado que os fazia ser desconfiados de tudo e de todos. A maior parte das vezes eram cómicos, gostava de os ver interagir (interagiam com alguma violência entre si, a mim deixavam-me em paz) mas fazia pena ao mesmo tempo, dava a sensação que ninguém lhes explicava que talvez não fosse boa ideia endividar-se para comprar um carro potente e depois kitá-lo, ou que não era prudente fazer corridas na vasco da gama ou fumar ganzas no WC antes de ir servir à mesa. Eram sempre um desastre à espera de acontecer.
In Cold Blood - Truman Capote e a verdade na arte
Perry Smith e Richard Hickock, os assassinos de uma família em 1959 em Holcomb, Kansas
Na literatura existem críticos e leitores - não sei porquê mas suspeito que se prende com o horror à psicanálise - que pensam de outra forma, que uma obra de arte é uma emanação de um criador que está a quilómetros do que faz. Nabokov dizia de Dostoiévski que era "um repórter social", pois que porra, Dostoíevski existiu mesmo e viveu e escreveu.
O In Cold Blood do Truman Capote é um livro a sério. Estou quase a terminá-lo. Tem um estilo "jornalístico", Capote usou um "underwriting" factual, sem rodriguinhos, directo, o narrador é apenas a testemunha "ausente" e a literatura mais poética advém das falas e depoimentos reais. Contudo, é uma obra de génio tão evidente que só mesmo um imbecil pode considerar o In Cold Blood "mal escrito". Capote fez extensa investigação e privou com os homicidas Dick e Perry, viveu na pequena cidade de Holcomb, falou com as pessoas, recolheu dados e envolveu-se na história. A execução de Perry, por quem se afeiçou - pois revia-se nele - deixou-lhe marcas que nunca desapareceram.
Claro que o In Cold Blood é parcialmente uma obra de ficção, um pouco como a história romantizada em que os historiadores ou escritores preenchem o vazio e o desconhecido com as suposições mais prováveis. Existem passagens inteiras que serão inventadas e alguma pesquisa na net revela-me que quando Capote afirmou que "tudo no livro era Verdade", foi desmentido por vários dos "retratados". O livro seria um bestseller estrondoso, precisamente pelo "claim" de ser verdade. O que cativa naquele livro, é o facto de se debruçar sobre coisas reais, pessoas reais, um crime real. O leitor sabe isso e até pode admitir alguma ficção, mas não escapa ao essencial que é "isto aconteceu, é, no global, uma coisa real", como eu senti ao ler a biografia romantizada dos imperadores romanos no livro A República Romana. E isso confere um peso totalmente distinto a uma obra que, se fosse sobre um crime fictício, seria interessante, no máximo, mas nunca uma obra de arte.
Para o meu gosto pessoal, admito que o real, pelo menos algum real, uma inspiração real, mesmo que distorcida e ampliada, é uma coisa que me agrada. Levada ao limite, considero-a o fim da linha da literatura, o ponto em que a vida e a arte se fundem num só e são indistintos.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
miniconto: Casa Comigo - (recuperado do bug da blogger que o apagou)
— Queres casar comigo? — perguntou Jorge.
Com as mãos no corrimão da varanda do quarto de hotel, Vera pousou o olhar nas palmeiras recortadas a negro no céu violeta do pacífico e ficou em silêncio. Procurava um sinal de que estava a sonhar. Ele terminou o gin tónico, pousou o copo e abraçou-a.
— Querida, queres casar comigo?
Ela voltou-se e agarrou-lhe o roupão aberto, torcendo o tecido, encostou a face ao seu peito e suspirou:
—Sim. Oh sim querido…
— Ok querida, era para saber — afastou-a com delicadeza foi para dentro do quarto. Vera ficou encolhida como um animal ferido, a ofegar baixinho para não ser ouvida por predadores. Depois riu-se sozinha e depois ficou muito séria.
Jorge abriu o mini bar e serviu-se de outra schweppes e de outra miniatura de Gordons e depois deitou-se na cama. Tentou ligar a televisão mas o comando não tinha pilhas e apesar das pancadinhas não conseguia pô-lo a funcionar.
— Jorge, estou farta de ti, estas coisas já não têm piada, não levas nada a sério.
Soprava um vento quente do mar, as cortinas do quarto agitavam-se, como as palmeiras, como o cabelo e o vestido de verão dela.
— O que foi? — tinha aberto o comando do ar condicionado para ver se as pilhas eram do mesmo tipo do comando da televisão, mas não eram. —O que foi, porra? — perguntou outra vez, agastado pelo contratempo das pilhas.
— Devíamos ter acabado no verão passado.
— O verão passado? — bebeu um pouco do gin tónico e tirou o maço do bolso do roupão. Só via a silhueta de Vera a contra-luz, à porta da varanda. Acendeu um cigarro e deixou-se hipnotizar pela chama do fósforo até esta lhe queimar o polegar.
— Sim, o verão passado, o jardim zoológico de Madrid, os crocodilos, lembras-te? ‘Aproxima-te, não tenhas medo, aproxima-te mais?’
— Isso foi um acidente.
— Não foste tu que me foste lá buscar ao fosso, de qualquer forma.
— Eram grandes, os crocodilos.
—Eu sei que eram grandes, os cabrões dos crocodilos.
— O que é que adiantava Veruska? Ia fazer o quê, eu, aos crocodilos? Não sou a porra do crocodilo dundee…
— Tu pareceste desiludido de não acontecer nada!
— Pedi-te desculpa na altura, pensei que esse assunto estivesse arrumado.
— Estou a dar em doida! Nunca saímos deste quarto de hotel! —foi para a varanda e fincou as unhas no corrimão — ESTOU A DAR EM DOIDA!
Ele levantou-se da cama e foi para a varanda com o copo e o cigarro. Com o vento o roupão abriu-se totalmente, estava nu por baixo.
— Por amor de Deus, tapa-te — gritou ela — não é preciso dares escândalo no hotel. Ele fechou o roupão, aparentemente não tinha reparado que estava nu.
No pátio em frente dois tipos mergulhavam à vez na piscina. Esforçavam-se para fazer chapões e bombas e os salpicos de água faziam uma rapariga numa chaise longue rir muito.
— Então o episódio dos crocodilos ficou-te entalado. Já vi que és do tipo de pessoa que guarda ressentimentos de tudo e depois manda à cara. Vou ter isso em consideração para decidir se caso contigo ou não…
—EU NÃO QUERO CASAR CONTIGO!
— Ainda há bocado disseste que querias, ali na varanda... ainda não estou com os copos Veruksinha.
— És cruel. Não tens coração.
— Pedi-te desculpa uma vez por aquilo dos crocodilos, peço outra vez, pronto, descuuuulpa… — rolou os olhos.
—Se fosse só os crocodilos Jorge… só esta semana foram tantas… não encontrava o meu passaporte no aeroporto e tu passaste na mesma e encolheste-me os ombros, só me fizeste sinal que me ligavas quando chegasses.
—Mas encontraste o passaporte, estava na tua mala e vieste na mesma.
— A questão não é essa, tu vinhas para aqui sem mim!
— Já tínhamos pago isto. Aliás, eu já tinha pago isto. Vais continuar Vera? Eu também tenho razões de queixa, nem tudo é perfeito.
— Ai sim? O que foi? — meteu-se à frente dele. —diz! Vá diz lá uma! — empurrou-o.
— Não quero, não vou dizer, não sou de guardar ressentimentos.
Terminou o gin tónico e sentou-se na cama, a olhar para os chinelos do hotel. Eram felpudos demais para um clima tão quente e os pés transpiravam.
— Nunca te apetece fazer amor, por exemplo! —gritou de dentro do quarto para a varanda. Ela não respondeu. —E nunca fizeste um esforço para ver futebol! No início disseste que farias um esforço!
—Acabou, Jorge.
Com o fim do por do sol o vento amainou e as palmeiras imobilizaram-se. Ouviam-se risos e alguns splashes de mergulhos tardios.Vendo o seu próprio reflexo na tv desligada, ele enfiou as mãos nos chinelos e fez deles fantoches felpudos. Os fantoches ora discutiam e davam turras um ao outro, ora começavam aos beijinhos e a roçar-se. Parecia bastante entretido com isso.
Com as mãos no corrimão da varanda do quarto de hotel, Vera pousou o olhar nas palmeiras recortadas a negro no céu violeta do pacífico e ficou em silêncio. Procurava um sinal de que estava a sonhar. Ele terminou o gin tónico, pousou o copo e abraçou-a.
— Querida, queres casar comigo?
Ela voltou-se e agarrou-lhe o roupão aberto, torcendo o tecido, encostou a face ao seu peito e suspirou:
—Sim. Oh sim querido…
— Ok querida, era para saber — afastou-a com delicadeza foi para dentro do quarto. Vera ficou encolhida como um animal ferido, a ofegar baixinho para não ser ouvida por predadores. Depois riu-se sozinha e depois ficou muito séria.
Jorge abriu o mini bar e serviu-se de outra schweppes e de outra miniatura de Gordons e depois deitou-se na cama. Tentou ligar a televisão mas o comando não tinha pilhas e apesar das pancadinhas não conseguia pô-lo a funcionar.
— Jorge, estou farta de ti, estas coisas já não têm piada, não levas nada a sério.
Soprava um vento quente do mar, as cortinas do quarto agitavam-se, como as palmeiras, como o cabelo e o vestido de verão dela.
— O que foi? — tinha aberto o comando do ar condicionado para ver se as pilhas eram do mesmo tipo do comando da televisão, mas não eram. —O que foi, porra? — perguntou outra vez, agastado pelo contratempo das pilhas.
— Devíamos ter acabado no verão passado.
— O verão passado? — bebeu um pouco do gin tónico e tirou o maço do bolso do roupão. Só via a silhueta de Vera a contra-luz, à porta da varanda. Acendeu um cigarro e deixou-se hipnotizar pela chama do fósforo até esta lhe queimar o polegar.
— Sim, o verão passado, o jardim zoológico de Madrid, os crocodilos, lembras-te? ‘Aproxima-te, não tenhas medo, aproxima-te mais?’
— Isso foi um acidente.
— Não foste tu que me foste lá buscar ao fosso, de qualquer forma.
— Eram grandes, os crocodilos.
—Eu sei que eram grandes, os cabrões dos crocodilos.
— O que é que adiantava Veruska? Ia fazer o quê, eu, aos crocodilos? Não sou a porra do crocodilo dundee…
— Tu pareceste desiludido de não acontecer nada!
— Pedi-te desculpa na altura, pensei que esse assunto estivesse arrumado.
— Estou a dar em doida! Nunca saímos deste quarto de hotel! —foi para a varanda e fincou as unhas no corrimão — ESTOU A DAR EM DOIDA!
Ele levantou-se da cama e foi para a varanda com o copo e o cigarro. Com o vento o roupão abriu-se totalmente, estava nu por baixo.
— Por amor de Deus, tapa-te — gritou ela — não é preciso dares escândalo no hotel. Ele fechou o roupão, aparentemente não tinha reparado que estava nu.
No pátio em frente dois tipos mergulhavam à vez na piscina. Esforçavam-se para fazer chapões e bombas e os salpicos de água faziam uma rapariga numa chaise longue rir muito.
— Então o episódio dos crocodilos ficou-te entalado. Já vi que és do tipo de pessoa que guarda ressentimentos de tudo e depois manda à cara. Vou ter isso em consideração para decidir se caso contigo ou não…
—EU NÃO QUERO CASAR CONTIGO!
— Ainda há bocado disseste que querias, ali na varanda... ainda não estou com os copos Veruksinha.
— És cruel. Não tens coração.
— Pedi-te desculpa uma vez por aquilo dos crocodilos, peço outra vez, pronto, descuuuulpa… — rolou os olhos.
—Se fosse só os crocodilos Jorge… só esta semana foram tantas… não encontrava o meu passaporte no aeroporto e tu passaste na mesma e encolheste-me os ombros, só me fizeste sinal que me ligavas quando chegasses.
—Mas encontraste o passaporte, estava na tua mala e vieste na mesma.
— A questão não é essa, tu vinhas para aqui sem mim!
— Já tínhamos pago isto. Aliás, eu já tinha pago isto. Vais continuar Vera? Eu também tenho razões de queixa, nem tudo é perfeito.
— Ai sim? O que foi? — meteu-se à frente dele. —diz! Vá diz lá uma! — empurrou-o.
— Não quero, não vou dizer, não sou de guardar ressentimentos.
Terminou o gin tónico e sentou-se na cama, a olhar para os chinelos do hotel. Eram felpudos demais para um clima tão quente e os pés transpiravam.
— Nunca te apetece fazer amor, por exemplo! —gritou de dentro do quarto para a varanda. Ela não respondeu. —E nunca fizeste um esforço para ver futebol! No início disseste que farias um esforço!
—Acabou, Jorge.
Com o fim do por do sol o vento amainou e as palmeiras imobilizaram-se. Ouviam-se risos e alguns splashes de mergulhos tardios.Vendo o seu próprio reflexo na tv desligada, ele enfiou as mãos nos chinelos e fez deles fantoches felpudos. Os fantoches ora discutiam e davam turras um ao outro, ora começavam aos beijinhos e a roçar-se. Parecia bastante entretido com isso.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
side-show bob dá show no Chelsea
O David Luiz ainda não compreende inglês. nada mesmo. Como se pode comprovar aqui em que responde a um 'are you happy with the game?' com uma expressão de 'wtf!? queres mesmo que eu fale?' e um im very happy. thank you thank you.. thank you. thank you boys. thank you chelss.", quase provocando um ataque de riso ao colega Essien.
Apesar das suas dificuldades de comunicação verbal, pela mímica, David Luiz vai-se impondo no Chelsea...
Apesar das suas dificuldades de comunicação verbal, pela mímica, David Luiz vai-se impondo no Chelsea...
fábulas
Eu gostava de anedotas quando era pequeno mas para as contar à minha mãe, tinha de substituir os intervenientes da anedota por animais, para lhe conseguir chamar a atenção. Por vezes era um pouco forçado, mas ela ria-se à mesma. Penso que bastava incluir animais e pronto. É um humor muito pouco exigente.
Um carro vai cheio de pandas, quem vai a guiar?
O policia!
O que é que se diz a um panda num fato formal?
“O réu por favor levante-se”.
Quem é mais parecido com um macaco: um panda ou um leopardo?
É o leopardo , o panda é igual.
Como é que se começa uma maratona de guaxinins? Basta atirar uma moeda de cinco cêntimos colina abaixo.
Porque é que as sinagogas dos guaxinins são redondas? Para eles não se poderem esconder num cantinho quando chega a caixinha dos donativos.
etc.
Um carro vai cheio de pandas, quem vai a guiar?
O policia!
O que é que se diz a um panda num fato formal?
“O réu por favor levante-se”.
Quem é mais parecido com um macaco: um panda ou um leopardo?
É o leopardo , o panda é igual.
Como é que se começa uma maratona de guaxinins? Basta atirar uma moeda de cinco cêntimos colina abaixo.
Porque é que as sinagogas dos guaxinins são redondas? Para eles não se poderem esconder num cantinho quando chega a caixinha dos donativos.
etc.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
feira do livro, diálogos e toneladas de livros
Uma das coisas que gosto na feira do livro é de ver quem são os leitores, quem são as pessoas que compram tal e tal livro, quais os clichés.
Alguns diálogos ouvidos de relance:
- Estas traduções são muito boas, são do Filipe e da Nina Guerra, leva este.
- O Crime e Castigo? Não é muito pesado?
- Não, lê-se bem, a sério. Leva.
- Não sei... parece um bocado difícil...
(nota: passei exactamente pelo mesmo, isto de tentar convencer alguém a ler Dostoiévski, não sei porquê, há um tipo de leitores que olha com notável desconfiança qualquer coisa que se assemelhe a boa literatura e que não tenha capas com pétalas e chaves e desertos)
Intelectual, aos gritos, para a senhora a atender:
- Quero o Era do Vazio... é do Guies Lipovetsky, mas já deve saber isso com certeza. Eu sei que é um livro um pouco datado e tal, enfim, discorre sobre as novas relações sociais caracterizadas pela redução da violência e a transformação das suas manifestações em... obrigado, quanto é?
Intelectual com pinta de anarquista, folheia um livro numa editora refundida e às tantas vira-se para o pobre senhor solitário da banca:
- Pois... publicaram isto com estes desenhos... eu bem avisei o António, mas o António está-se a cagar. Para fazer estes bonecos pagavam-me a mim. É o costume, há pessoas que estão nestas coisas é para ganhar dinheiro com livros. Não fazem as coisas por amor à arte... é só aldrabões!
- Pois.
- É só aldrabões... olha para isto, está aqui uma rica coisa... pff...
- Pois é.
Eu ontem foi os 4 volumes do guerra e paz de Tolstoi, O Adolescente e o Coração Fraco e Outras Histórias de Dostoiévski, os três volumes da trilogia americana de John Dos Passos, a obra completa de um autor que agora não me lembra o nome mas que é incontornável etc. Depois para literatura juvenil, os contos de Oscar Wilde, uma farturinha, contos de Christian Andersen, Alice Do Outro Lado do Espelho de Lewis Carrol, as aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain e o Trópico de Câncer do Henry Miller. Sei que os devia ter comprado em inglês mas um dia tenho um filho português.
E uma série deles que também são incontornáveis mas que não me lembro do nome, só sei que não os consegui contornar. A ver se nos próximos dias trato do resto. Gosto depois de empilhar as aquisições da feira em cima de uma mesa e ficar a olhar para elas, como se fossem o meu tesourinho. Ainda tenho alguns livros da feira do ano passado que não li, mas isso é apenas um detalhe.
Alguns diálogos ouvidos de relance:
- Estas traduções são muito boas, são do Filipe e da Nina Guerra, leva este.
- O Crime e Castigo? Não é muito pesado?
- Não, lê-se bem, a sério. Leva.
- Não sei... parece um bocado difícil...
(nota: passei exactamente pelo mesmo, isto de tentar convencer alguém a ler Dostoiévski, não sei porquê, há um tipo de leitores que olha com notável desconfiança qualquer coisa que se assemelhe a boa literatura e que não tenha capas com pétalas e chaves e desertos)
Intelectual, aos gritos, para a senhora a atender:
- Quero o Era do Vazio... é do Guies Lipovetsky, mas já deve saber isso com certeza. Eu sei que é um livro um pouco datado e tal, enfim, discorre sobre as novas relações sociais caracterizadas pela redução da violência e a transformação das suas manifestações em... obrigado, quanto é?
Intelectual com pinta de anarquista, folheia um livro numa editora refundida e às tantas vira-se para o pobre senhor solitário da banca:
- Pois... publicaram isto com estes desenhos... eu bem avisei o António, mas o António está-se a cagar. Para fazer estes bonecos pagavam-me a mim. É o costume, há pessoas que estão nestas coisas é para ganhar dinheiro com livros. Não fazem as coisas por amor à arte... é só aldrabões!
- Pois.
- É só aldrabões... olha para isto, está aqui uma rica coisa... pff...
- Pois é.
Eu ontem foi os 4 volumes do guerra e paz de Tolstoi, O Adolescente e o Coração Fraco e Outras Histórias de Dostoiévski, os três volumes da trilogia americana de John Dos Passos, a obra completa de um autor que agora não me lembra o nome mas que é incontornável etc. Depois para literatura juvenil, os contos de Oscar Wilde, uma farturinha, contos de Christian Andersen, Alice Do Outro Lado do Espelho de Lewis Carrol, as aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain e o Trópico de Câncer do Henry Miller. Sei que os devia ter comprado em inglês mas um dia tenho um filho português.
E uma série deles que também são incontornáveis mas que não me lembro do nome, só sei que não os consegui contornar. A ver se nos próximos dias trato do resto. Gosto depois de empilhar as aquisições da feira em cima de uma mesa e ficar a olhar para elas, como se fossem o meu tesourinho. Ainda tenho alguns livros da feira do ano passado que não li, mas isso é apenas um detalhe.
terça-feira, 10 de maio de 2011
ser fotógrafo artístico de mulheres nuas é que rende
Um amigo meu é fotógrafo e está sempre a tirar fotografias a mulheres nuas, mas assim artísticas, com grão e a preto e branco. É melhor do que ser pintor de mulheres nuas, isso dá uma trabalheira desgraçada e é preciso ter jeito, não basta fazer um boneco daqueles como os do enforcado, com bolinhas a fazer de maminhas e uma bola grande a fazer de cabeça com um smiley e os bracinhos abertos. Um fotógrafo de mulheres nuas consegue despachar pelo menos uma por dia em sessões fotográfica e sai sempre bem, basta ter uma máquina digital no modo automático portrait ou até landscape, se ela for volumosa.
Às vezes não mostram a cara ou tapam as partes com objectos como livros ou com as mãos ou com uma pose dramática, como se estivessem a atrofiar com qualquer coisa, mas para o meu amigo fotógrafo é indiferente, ele viu tudinho enquanto elas se ajeitavam à pose e está-se bem marimbando para mim ou outros espectadores. Às vezes até ralho com ele ‘porra, não reparaste que a gaja tinha o livro mesmo ali em frente?’ e ele olha-me de lado com desdém.
Ele não gosta que eu diga “fotografias de mulheres nuas” mas o que é certo é que são fotografias e são de mulheres nuas a sério, não é photoshop. Elas nem são strippers ou prostitutas. Elas querem ver-se a si mesmas bonitas e artísticas, como nas fotografias artísticas de outras mulheres que quiseram o mesmo e assim sucessivamente. São muito invejosas!
O essencial na sua actividade de fotógrafo de mulheres nuas é conseguir manter-se neutro, sério, como os médicos por exemplo, quando eles se viram para as mulheres e começam com aquela história da apalpação mamária e do ‘dispa-se’. À menor coisa, os médicos dizem ‘dispa-se’ e fazem apalpações como espanhóis numa loja. Imagino que no dia a dia os médicos tenham algumas dificuldades em ser sociais, basta uma senhora queixar-se de qualquer coisa numa conversa de café que lhes sai um embaraçoso ‘dispa-se’ e esticam as mãos para apalpar a senhora como se fossem zombies.
Uma das manifestas limitações da escrita é a dificuldade em escrever mulheres nuas. De todas as artes, penso que é a mais infeliz, especialmente a prosa. Os poetas ainda é como o outro, mas como os poetas são tendencialmente homossexuais é um talento que não lhes serve de grande coisa.
Às vezes não mostram a cara ou tapam as partes com objectos como livros ou com as mãos ou com uma pose dramática, como se estivessem a atrofiar com qualquer coisa, mas para o meu amigo fotógrafo é indiferente, ele viu tudinho enquanto elas se ajeitavam à pose e está-se bem marimbando para mim ou outros espectadores. Às vezes até ralho com ele ‘porra, não reparaste que a gaja tinha o livro mesmo ali em frente?’ e ele olha-me de lado com desdém.
é só fazer ali um clip da fotografia, mas ele fica com o original completo
e um gancho ou um elástico para o cabelo, não havia não?
Ele não gosta que eu diga “fotografias de mulheres nuas” mas o que é certo é que são fotografias e são de mulheres nuas a sério, não é photoshop. Elas nem são strippers ou prostitutas. Elas querem ver-se a si mesmas bonitas e artísticas, como nas fotografias artísticas de outras mulheres que quiseram o mesmo e assim sucessivamente. São muito invejosas!
O essencial na sua actividade de fotógrafo de mulheres nuas é conseguir manter-se neutro, sério, como os médicos por exemplo, quando eles se viram para as mulheres e começam com aquela história da apalpação mamária e do ‘dispa-se’. À menor coisa, os médicos dizem ‘dispa-se’ e fazem apalpações como espanhóis numa loja. Imagino que no dia a dia os médicos tenham algumas dificuldades em ser sociais, basta uma senhora queixar-se de qualquer coisa numa conversa de café que lhes sai um embaraçoso ‘dispa-se’ e esticam as mãos para apalpar a senhora como se fossem zombies.
uma dica: flash
Uma das manifestas limitações da escrita é a dificuldade em escrever mulheres nuas. De todas as artes, penso que é a mais infeliz, especialmente a prosa. Os poetas ainda é como o outro, mas como os poetas são tendencialmente homossexuais é um talento que não lhes serve de grande coisa.
já vimos poses mais naturais em politraumatizados de acidentes de motociclo
Já pensei em abordar mulheres na rua, como faz o meu amigo fotógrafo, com um cartãozinho a dizer ‘escritor’ e dizer-lhes que só precisam de se despir e ficar ali à minha frente enquanto as escrevo e até fazer uns ares dramáticos, como se estivesse muito concentrado. O problema é que o corpo é um objecto literário bastante desinteressante e considero a misoginia cultivada como uma característica essencial para um escritor a sério,o que faz com que os meus retratos tendam a ser pouco abonatórios. Imagino que o Picasso sofria do mesmo problema, 'o meu nariz não é assim, idiota!' etc.
Uma mulher nua é uma espécie de vazio em termos literários, tem muito mais piada uma mulher, por exemplo, a coxear subtilmente porque uns minutos antes o salto se lhe enfiou entre duas pedras de calçada e lhe torceu o pé. E ela vai mesmo assim à porcaria do copo de água, a disfarçar as lágrimas e a cerrar os maxilares para se conter e contém-se, contém-se, contém-se e depois quando chega o namorado ao pé dela com dois martinis e lhe diz ‘então marmotinha, tás com uma cara, deves estar com a tpm não?’ ela, discretamente, pisa-lhe um pé com o salto e aplica nele todo o peso do corpo mas multiplicado por quatro ou cinco, que é uma coisa que elas conseguem fazer e os gatos e os cães também quando temos de lhes dar banho. E depois ele também fica a lacrimejar e ficam os dois calados e com os olhos húmidos, tensos, a beber martinis como se não houvesse amanhã e as pessoas cochicham que entre eles já não há amor e que devem ter vindo o caminho todo a discutir e que são alcoólicos.
Uma mulher nua é uma espécie de vazio em termos literários, tem muito mais piada uma mulher, por exemplo, a coxear subtilmente porque uns minutos antes o salto se lhe enfiou entre duas pedras de calçada e lhe torceu o pé. E ela vai mesmo assim à porcaria do copo de água, a disfarçar as lágrimas e a cerrar os maxilares para se conter e contém-se, contém-se, contém-se e depois quando chega o namorado ao pé dela com dois martinis e lhe diz ‘então marmotinha, tás com uma cara, deves estar com a tpm não?’ ela, discretamente, pisa-lhe um pé com o salto e aplica nele todo o peso do corpo mas multiplicado por quatro ou cinco, que é uma coisa que elas conseguem fazer e os gatos e os cães também quando temos de lhes dar banho. E depois ele também fica a lacrimejar e ficam os dois calados e com os olhos húmidos, tensos, a beber martinis como se não houvesse amanhã e as pessoas cochicham que entre eles já não há amor e que devem ter vindo o caminho todo a discutir e que são alcoólicos.
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