terça-feira, 31 de agosto de 2010

Texto definitivo sobre o motivo pelo qual não acho os The National assim tão bons

(olhem para mim estou a sofrer)
Aqui de outro ângulo:
Ao avançar para este texto sinto-me como o Richard Dawkings a explicar aos criacionistas que o mundo tem mais de 6000 anos. Para baixar um pouco as defesas, não digo que os The National sejam uma merda - o que penso na realidade.
Digo apenas que não são assim tão bons. Tenho muitos amigos que gostam de The National, pessoas que, apesar disso, continuo a estimar e a respeitar. De facto, a única pessoa que conheço que detesta The National é uma das pessoas com pior gosto, não gosta dos Strokes.

Os adeptos de The National têm todos uma coisa em comum: têm a ideia que têm bom gosto. Têm consciência desse bom gosto. Em boa verdade, têm bom gosto. Não existe banda nenhuma à face da terra que espelhe melhor a noção de “bom gosto” pós 2000 que os The National. Gostava de saber onde compram roupa e cortam o cabelo. Mas o bom gosto não é tudo.

Eu não tenho bom gosto. Gosto daquela música do Corey Hart, a eurasian eyes. E de muitas baladas de Brian Adams.

Eu gostei dos The National a primeira vez que os ouvi e a 2ª também. Depois com o tempo, à medida que ouvia outra e outra música, comecei a mudar de opinião, a ficar com mau gosto.

As roupas, as poses, as texturas do som, os vídeos cinematográficos com pessoas bonitas e a fotografia escura, a doce melancolia que nunca resvala para a piroseira de um Corey Hart em hipotermia, tudo nos The National é pensado e pesado, num esforço pretensioso. Eles levam-se brutalmente a sério. Não há ironia nenhuma. É difícil haver uma boa banda sem ironia. Se fizermos uma lista das 10 melhores bandas de sempre, 9 têm ironia, 1 não (Joy Division).

Os The National são uma banda de adultos bonitos, maduros, que usam uma fórmula já de si aborrecida, tornada ainda mais aborrecida pela repetição: uma textura sonora agradável e narcoléptica, uma estrutura primitiva, sem acidentes, sem contradições, com uma ideia por música, uma voz bonita, grave, sem amplitude, sem risco, a lembrar o pastelão dos Tindersticks, a debitar letras perfeitas, inteligentes, crípticas quanto baste para não serem demasiado óbvias, tudo em progressões de acordes menores, sempre com a mesma tonalidade que remete para o sentimento melancolia e grandiosidade.

Musicalmente, uma coisa que me causa náuseas nos The National (estou lançado) é a forma indiferenciada com que preenchem os espaços do silêncio com pianos soporíferos e, por vezes, coisas piores, como metais e violinos, coros, num crescendo inóquo, sem tensão, básico, formal.

Sem emoção. Mesmo os Arcade Fire, que fizeram um 3º disco absolutamente miserável (falta de ironia) têm um vocalista que arrisca um bocado, há por vezes uma sensação de perigo. Nos The National há a sensação de absorção e nem é ao contrário. Salva-se o trabalho de Bryan Devendorf, na bateria.

Dou só este exemplo, a Fake Empire, uma música a lembrar o melhor dos Silence 4 na utilização de uma 2ª voz feminina em doubling. Vejam como é sensaborrona a secção de metais a partir do minuto 2:33, completamente “random” e como a banda parece encher um chouriço sem fim com a mesma estrutura do verso. Por fim aos 3:16, um acorde perfeito, o piano, tchan, acabou. O paradoxal é que é muito difícil dizer que a música é feia. E no entanto, ela é feia.

a shot in the arm - wilco

Achei que fazendo pelo menos 1 post daqueles com uma letra de música que ninguém lê e que são extraordináriamente enervantes, escolhi esta música e esta letra. A ver se encerro definitivamente um capítulo.

"A Shot In The Arm"

The ashtray says
You were up all night
When you went to bed
With your darkest mind
Your pillow wept
And covered your eyes
And you finally slept
While the sun caught fire

You've changed

We fell in love
In the key of C
We walked along
Down by the sea
You followed me down
The neck to D
And fell again
Into the sea

You changed
Oh, you've changed

Maybe all I need is a shot in the arm
Maybe all I need is a shot in the arm
Maybe all I need is a shot in the arm
Maybe all I need is a shot in the arm
Maybe all I need is a shot in the arm
Maybe all I need is a shot in the arm
Maybe all I need is a shot in the arm
Something in my veins bloodier than blood
Something in my veins bloodier than blood
Something in my veins bloodier than blood
Something in my veins bloodier than blood

The ashtray says
You were up all night
When you went to bed
With your darkest mind

You changed
Oh, you've changed

What you once were isnt what you want to be any more
What you once were isnt what you want to be any more
What you once were isnt what you want to be any more
What you once were isnt what you want to be any more
What you once were isnt what you want to be any more

cereais, eu adoro cereais \o/

porquê?

Porque é que sempre que pergunto a alguém que tipo de profissão podia ter para ganhar o suficiente em 2 dias por semana todos me sugerem o Príncipe Real ou o Parque Eduardo VII? Não percebo, vou ser jardineiro? Montar uma barraquinha de gelados? Depois riem-se. Ok.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

em jeito de despedida aos olhos mais bonitos que vi na vida



(atentar ao minuto 3:45, mesmo antes do bonito solo de guitarra, em que não se percebe se o Corey Hart está num climax dramático ou simplesmente a entrar em hipotermia)

isto é grave

O final do Confissão de Lúcio é bastante orilalilolelas. Já é o 3º livro consecutivo em que sou apanhado de surpresa. Os homossexuais são matreiros, fazem livros que em vez de estarem na secção "literatura gay" da fnac, ao pé dos guias Spartacus, de cozinha vegetariana e poesia, estão misturados com os outros, sem qualquer aviso. Primeiro foi Bullet Park do John Cheever, que não li depois de alguém ter lido a contra-capa por mim no emprego e ter depois lido a mesma contra-capa a todos os colegas. A contra-capa era bastante explícita na descrição. Mas a capa era tão bonita, não resisti, combinava mesmo bem com o pantone da minha casa decorada com tons de poeira do deserto do kalahari. Depois o Rebeldes do Sándor Márai, que não acabei (desisti na parte em que o velho actor gordo tenta beijar o rapazinho vestido de gaja que desmaia no palco). E agora o Confissão de Lúcio, que só mesmo no final atinge o 7 na escala de Liberace. Porque fui confiar num poeta? Eu sabia. Pelo menos ele foi inteligente e disfarçou tudo com a história de uma mulher pelo meio. Vê-se que tinha vergonha na cara e o outro também, que se matou no fim.

Hoje de madrugada comecei a ler o Farewell to Arms do Hemingway. Tudo aquilo é um zero na escala Liberace, é o Chuck Norris da literatura. A capa também é gira.

domingo, 29 de agosto de 2010

as minhas notas mentais ao ler passagens de sexo na Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro

«Depois de tantos requintes de brasa, de tantos êxtases perdidos - sem forças para prolongarmos mais as nossas perversões - nos possuímos realmente." (quando já tinhas a língua dormente é que ela te deixava ir à cona)


«Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ânsia ruiva...» (se estão embaralhados é porque não estás a fazer isso muito bem)


«As minhas entrevistas amorosas com Marta realizavam-se sempre em minha casa, à tarde.(nunca lhe ouvi chamarem "entrevistas"...foda-se... poetas...)


Com efeito ela nunca se me quisera entregar em sua casa. Em sua casa apenas me dava os lábios a morder e consentia vícios prateados. (quando chegavas a tua casa devias bater poucas devias...)


«O certo é que eu ao possuí-la era todo eu medo - medo inquieto e agonia: agonia de ascenção, medo raiado de azul: enquanto morte e pavor» (estás com medo de apanhar alguma doença venérea?)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O meu emprego de sonho

Estou atrás de um balcão num estabelecimento. Um balcão normal. Tenho uma cadeira confortável e livros numa pilha confusa em cima do balcão, todos de autores russos do século XIX. Estou a ler um bom livro de um autor russo do século XIX. Uma pessoa pensa que os conhece todos e depois há mais um e outro. No balcão também há um cinzeiro e um maço de Português azul. Por debaixo do balcão há um pequeno frigorífico, desses dos hotéis, com dois copos vazios em cima. Ao lado do frigorífico, uma caixa grande cheia de pandas de peluche e uma zebra de peluche. No tecto, uma ventoinha vintage que me custou uma pipa de massa. Pertencia a um café lisboeta há muito encerrado. Uma cliente entra. Por momentos só lhe vejo a silhueta a contra-luz mas percebo imediatamente que é uma mulher, o que é bom sinal. Finjo que continuo a ler. Ela avança, confirmo que é uma mulher porque me pergunta, numa voz de mulher:
-- Sinto-me muito sozinha. Uma amiga disse-me para vir aqui.
Pouso o livro com calma. Olho para ela. Não é má, já cá veio parar pior. Nesses dias digo que só estou a tomar conta do estabelecimento pelo Tolan e que ele é capaz de demorar.
-- Tem uma boa amiga – digo. Abro o pequeno frigorífico e agacho-me debaixo do balcão e pergunto-lhe – Whisky? Ice-tea? Sumol de ananás?
-- Pode ser um Sumol.
Vazo o whisky para um dos copos, umas pedras de gelo, retiro o Sumol do frigorífico e ponho-o no outro copo. Pouso-os no balcão. Estendo o maço com um cigarro de fora:
-- Fuma?
-- Não, obrigado.
Bebe um bocadinho do Sumol. É bonita, tem uma cara trágica. Não de quem tem uma vida aborrecida. Ficamos um bocadinho calados, eu a fumar, ela a olhar em volta como uma criança curiosa, de vez em quando põe-se nervosamente em bicos de pés, com as mãos atrás das costas. É adorável.
-- O que vende? – pergunta-me.
Tiro um dos pandas, na mão esquerda, e a zebra na mão direita, coloco-os frente a frente no balcão e, fazendo vozes diferentes e sacudindo um bicho de cada vez, ponho-os a falar um com um o outro. De vez em quando tenho de largar um dos bichos para dar uma passa no cigarro ou beber um pouco de whisky.
-- Bom dia Zebra.
A mulher ri-se da voz taralhouca e arrastada do panda, resulta sempre.
-- Bom dia Panda.
-- Zebra, porque é que nunca mais fazemos miminhos?
-- Panda, se calhar é porque não somos compatíveis.
-- Mas Zebra, repara, temos as mesmas cores.
-- Não é suficiente Panda. Aliás, acho que o problema é esse. Não me completas. Gosto de ti como amigo.
-- Não Zebra, não digas isso. Eu posso mudar. Eu inscrevo-me no ginásio. Eu deixo de cozinhar bambu todas as noites, eu…
-- Pára Panda, pára. Mantém a tua dignidade. Não faças esse ar triste.
-- Sou a porra de um panda, a minha cara é mesmo assim. Se quiseres, se isso te fizer feliz eu pinto-me todo às cores.
-- Não te serve de nada. Estou apaixonada por um cavalo.
-- Um cavalo?
Tiro uma passa do cigarro, é o momento dramático.
-- Sim, um cavalo, um puro lusitano, grande e possante. Tu não passas de um panda roliço, pequeno, triste e preguiçoso. Estou farta de ti. Adeus!
-- Não, nãaaao voltaa Zebra, volta!
A zebra afasta-se aos saltinhos e arrumo-a na caixa. O panda está dobrado sobre si mesmo, com as patinhas em cima dos olhos, a soluçar silenciosamente. De vez em quando faço-o erguer a cabeçorra incrédula e esperançada que tudo não passe de uma brincadeira da zebra. Mas ela vai mesmo embora.

A mulher está calada.
-- Quer comprar este panda? 90 euros.
Ela dá-me o dinheiro e sai do estabelecimento com o panda ao colo, a fazer-lhe festinhas. É incrível, cada panda destes custa-me dois euros aos chineses.
Limpo o balcão, os copos, verifico o stock de pandas. Está tudo em ordem. Continuo a ler o meu autor russo do século XIX, daqui a pouco é hora de almoço.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

o truman capote...

A Rita informa-me que o truman capote não se matou nem morreu novo. Não sei porquê, achava que sim, que lhe ficava bem. Bom, mas era alcoólico. É um meio termo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

o horror, a humanidade

Por um motivo inexplicável e que vou investigar e corrigir (um like no sitio errado?) recebi a notificação no facebook que a Quetzal lançou mais um livro do José Luís Peixoto, chamado, Livro. É o mesmo que receber uma notificação que o Donald Rumsfeldt facturou mais 3 milhões de dólares com a venda de uma participação numa empresa ou que Aníbal Cavaco Silva fez um discurso numa terra pequena a apelar a qualquer coisa. "A história é maravilhosa, desde a primeira frase do livro", disse à Lusa Francisco José Viegas, director editorial da Quetzal, que está a reeditar a obra de José Luís Peixoto".. (daqui). O Francisco José Viegas lembra-me aquele preto, o Don King, o empresário do boxe americano, a apresentar livros. E aqui no canto esquerdo, um livro que é maravilhoso da primeira à última frase. Falta depois acrescentar que o escritor viveu em Nova Iorque para se inspirar, não sei se para este, mas foi amplamente divulgado por aí "José Luís Peixoto em nova iorque, entrevista" etc. qual provinciano encantado com a grande metrópole a contar as aventuras para as provincianas leitoras que sonham com sexo e a cidade e escritores.

Penso que nunca li um livro maravilhoso da primeira à última frase. Estou curioso. A notícia avança que primeira frase é "A mãe pousou o livro nas mãos do filho". Ok, perdi a curiosidade. Toda. Até penso que há aqui um sinistro jogo de palavras. O romance chama-se "Livro". Não sei se isto é mesmo o que parece. É como uma banda fazer "o disco" ou um cozinheiro fazer "o prato" ou uma banda chamar-se the band (por acaso, nem era má).

Mas o horror, dispensável, é isto. A thumb da notificação era esta.
À primeira vista pensei ser mais spam homoerótico. Costumo receber spam homoerótico desde que um colega engraçadinho se pôs a fazer-me "likes" a torto e a direito em páginas alusivas à causa gay, quando eu me levantei para ir buscar um café sem fazer log off do fb. Passou-me a ideia da tatuagem. A minha mãe vai agradecer ao JLP.

A culpa disto tudo não pode ser só do gajedo, evidentemente, a quem a foto e todo o marketing à volta do José Luís Peixote habilmente se dirige (um pouco como o meu blogue, mas ao contrário). Se o tipo ganhou prémios, como o Saramago 2001, é porque é bom. O Lobo Antunes ganhou 1 globo de ouro na sic. O Alfred Hitchcock ou o Orson Welles nunca ganharam um óscar.

Estou a ler um gajo que se diz que era maricas, o Mário de Sá-Carneiro, a confissão de lúcio, e estou a gostar. Isto é só para calar os que me rotulam de homofóbico. Estão a ver? Não gosto de José Luís Peixoto que é hetero. E gosto do Mário de Sá-Carneiro. Claro que se matou aos 27 anos, os escritores gay têm tendência a fazer isso, é como se estivessem programados geneticamente. O Tenessee Williams. O Truman Capote. O Mishima, este com requinte e muitos, muitos mais. Deve ser possível demonstar isto cientificamente. É pena o José Luís Peixoto não estar programado geneticamente para vestir uma t-shirt pelo menos.

não sonhamos todos em fazer isto um dia?

sei que ela vai aparecer

Então estou neste semáforo e sintonizo uma rádio manhosa que dá uma música reggae de uma banda chamada Cidade Negra, cantada em brasileiro, enquanto conduzo pela Av. De Ceuta, encostado à Maria pia, ao casal ventoso. A letra da música diz é quando você percebe, que o frio é a solidão, que só a presença do amor, pode aquecer seu coração, sei que ela vai aparecer, sei que ela vai aparecer, sei que ela vai apareceeeer. Nos prédios, as bandeiras de Portugal desbotadas, os carros de tuning estacionados, o café corajoso assaltado 4 vezes por mês onde se juntam os gandulos todos e os velhos demasiado velhos para terem medo de qualquer coisa. Há uma escola de artes marciais. Dentro das casas, as televisões azuis ligadas 12 horas por dia, nas novelas, nos programas matinais, nos concursos, nos telejornais, a tábua de engomar na dispensa ao pé da cozinha pequena e atulhada, com infiltrações de humidade. Estou parado no semáforo. Há uma coroa de flores encostada ao separador, provavelmente um atropelamento. O radar dos 50kmh testemunha silenciosamente a campa. Uma miúda gira espera um autocarro. É bonita. Vejo que é dura e confiante, cresceu ali. Outra miúda ficaria em pânico de fazer o caminho do desterro dos prédios até àquela paragem, especialmente à noite. Dois putos passeiam um pitbull. Vê-se que ela faz um esforço para ser feminina mas só no quarto antes de sair à rua. Ali tem um ar um pouco indolente, não parece surpreendida por nada, nem atenta a nada de especial, tem o olhar um pouco vago das pessoas menos inteligentes. O romance, as ideias de paixão, têm de ser alimentadas pela arte para poderem planar acima dos instintos. Ali, com aquela mulher, atinge-se o osso das coisas. O autocarro vai levá-la ao emprego na loja do Colombo. Talvez ainda estude, mas não me parece. Talvez eu pudesse casar com ela e ensinar-lhe coisas. Está a mastigar pastilha elástica e a ouvir música. Sabia que ela ia aparecer e apareceu. O semáforo abre e despeço-me do amor da minha vida. Os tipos das obras da nova etar de Alcântara fumam cigarros antes de enfrentar o cheiro nauseabundo dos esgotos dos ricos. Fecho as janelas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

não são só os pretos que...

... têm pancadas por adereços estilosos como correntes de ouro, bonés de baseball para o lado e armas. Os brancos também têm. Aqui há meses fui acometido de uma súbita e inexplicável vontade de ter uns rayban wayfarer. Bem tentei, mas nenhum dos modelos actuais me assentava. Fiquei muito triste. Uns rayban wayfarer eram exactamente os óculos que eu queria (na minha mente estava uma imagem qualquer do Warren Beatty com uns). Até que descobri que os wayfarer voltaram mesmo à moda e já há algum tempo. Porquê? Será que isto está no código genético de um branco, como o é ter filhos e procriar para uma mulher ou guardar muito dinheiro para um judeu? Como explicar que só agora tenha tido vontade de uns wayfarer, um súbito acesso de "para exprimir a minha individualidade quero uns wayfarer". Agora, evidentemente, já não quero ter uns wayfarer. Quero uns óculos daqueles que têm lentes transparentes (mesmo sem graduação) e depois umas lentes escuras por cima que quando se levanta parecemos o rato mickey. Queria ver o Jude Law com uns desses.

hippie jonhy


Quando tinha 16 anos os namorados delas eram sempre “hippie Johnnies” como na música do grande disco dos Modern Lovers e eu o straight (no sentido de atinado e neste contexto também “abstémio”) não percebia porque motivo a C. ou a M. preferiam os hippie johnnies.
O Jonathan Richman pergunta na música: “these guys, if they're really so great, tell me, why can't they at least take this place and take it straight?” Eram os hippies em 1970, hoje serão outros. Como afirmou Richman, os hippies eram a conformidade total.
15 anos, depois não sou um hippie jonhy, mas não sou straight (talvez um barfly charles?). Eu não consigo aturar “este lugar”, mas digo-o sem qualquer ponta de raiva, ressentimento, vontade que as coisas fossem diferentes, etc. O lugar é assim, nós somos assim, o Pedro Passos Coelho é assim. O Jonathan parece andar o dia todo com uma moca natural. Tem sorte. Tenho algumas amigas que também não bebem e por vezes parece que estão com os copos. Mas não estão. É uma diferença importante, quando a noite avança.
As miúdas vão sempre gostar dos hippie jonhies das suas épocas, no sentido de símbolos da rebeldia / marginalidade, mas com conformidade suficiente para se sentirem orgulhosas do troféu. Depois arranjam um straight para casar e ter filhos. Depois há os que ficam num limbo. Não tem piada nenhuma não ser straight a partir de uma certa idade.

estou a sentir-me melhor :)

sábado, 21 de agosto de 2010

ALERT!

hoje de manhã apetecia-me estar casado e ter dois filhos. Em pânico meti-me no carro e fui à FNAC do Colombo. Comprar coisas inúteis normalmente resulta para quase tudo comigo. As mulheres têm a roupa e sapatos, eu é literatura. Aquilo é o paraíso num sábado de manhã em agosto, está praticamente deserto. Só havia um puto gordo a jogar àquele jogo de PS3 que tem o tapete no chão e temos de fazer coreografias de dança. Estava a suar que nem um bacorinho.

Comprei:
  • Um croissant com chocolate (péssimo) e um sumo de laranja cenoura, um café.
  • A farewell to arms e o For whom the bell tolls, do Hemingway
  • Best new horror, uma colectânea de contos de terror recentes, edidata pelo Sephen Jones. Não sabem que é o Stephen Jones? Eu também não. Gosto muito de comprar livros que têm na capa uma coisa como "selected by Stephen Jones" e um gajo não faz a menor ideia de quem é o Stephen.
  • A confissão de Lúcio e a Loucura de Mário de Sá-Carneiro - tenho de ler gajos portugueses também, apenas para reforçar o meu preconceito que o romance português é, actual e historicamente, inferior ao romance americano, russo, francês, inglês e mesmo espanhol e que os bons são todos, excepto o Saramago e o Eça, poetas que escrevem bem prosa;
  • a portrait of an artist as a young man do Joyce, talvez goste deste, o Ulisses, peguei-lhe fogo sem querer com o isqueiro num cais em Sta Apolónia há 5 anos;
  • a pérola, Steinbeck, tradução, mas tenho de ler português;
  • the adventures of tom sawyer, do Mark-a-melhor-pessoa-do-mundo-Twain
  • Uma pulseira punk de cabedal dos Guns N'Roses (não perguntem)
  • Bad Company 2 e o Finall Fantasy XII para a PS3 :]
Sinto-me melhor agora, muito melhor. O importante é conseguir regredir ao estado em que estava quando andava na universidade. Vou passar o fds em casa com os estores em baixo. Tenho tabaco e latas de chispalhada. Só vou precisar de ir à rua buscar cerveja fresca. Talvez depois de almoço jogue um pouco de poker também. Não sei porque motivo hoje de manhã acordei com a pancada de querer estar casado e com dois filhos mas só ficarei preocupado quando deixar de sentir um frissom quando meto um jogo novo na ranhura da PS3. Talvez um dia leia os livros que comprei.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

14 cervejAS DEPOIS

NÃO CONSIGO DESLIGAR O CASPLOCK

já está.
lol

detesto este teclado

9 cervejas depois até eu sei escrever poemas

a lua brilha no céu
que bonita é
a lua
os bêbados gritam
na rua
o camião do lixo
vem aí
os senhores do lixo
gritam
oi! ei!
o som hidráulico
do caixote do lixo
do meu prédio
a ser içado
e sacudido
para dentro
do contentor
O meu lixo
beatas, comida estragada, latas
misturado com o lixo
dos vizinhos
que não conheço
a mulher linda
que passeia o cão todas
as noites
ela no seu caixote verde
eu no meu
os dois atirados
para o camião
olá diria eu
olá diria ela
ei! oi!
misturados
com o lixo
dos outros
ela é morena e um
pouco baixa
veste-se como uma
estrela de cinema
para passear
o cão branco
um vestido azul
com riscas brancas
um colar de imitação
de pérolas
fuma um cigarro
em casa o marido
ou namorado
esqueceu-se dela
ei oi epáa
oiço as latas
das minhas cervejas
no contentor

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

sentir a dor

Sinto uma dor que não é uma dor qualquer. Dói-me quando estou deitado e dói-me quando estou sentado. Dói-me quando estou em pé. Dói-me quando estou a tomar o pequeno-almoço, no café... ou a conduzir o meu carro nesta cidade perdida debaixo das estrelas. Não é uma dor de cabeça, ou de dentes, nem é cancro ou reumático. É uma dor mais profunda e sincera e que nenhum médico pode curar… se bem que alguns cancros, os médicos também não conseguem curar… como o do actor, o que fazia de Toni no conversa da treta. É uma dor de alma. Uma dor cá dentro, como uma coisa que está cá dentro e dói e não se consegue tirar.
És tu que me faltas num abraço enorme, um abraço do tamanho de algo grande, maior que uma baleia das grandes. Sinto apenas o ar entre mim e os braços, o vazio do nada. Oiço os teus risos a ecoar na casa a vir de todos os lados, oh , os teus risos. Ah ah ah… ah ah ah… Como te rias de coisas simples e pequenas… o gelado de uma criança a cair no chão… uma gaivota a ir contra um vidro... e nós os dois, ríamos felizes, de mão dada pelo universo, como dois balões a flutuar nas mãos de uma criança.
Choro um rio por ti, um rio de lágrimas sem fim, um rio com rápidos e cascatas, um rio maior do que aqueles no Paquistão … Um rio com salmões. Tu gostavas de salmão fumado. Comias o salmão directamente da embalagem. Gostavas de coisas simples. Eu não fui simples como o salmão. Eu fui um salmão com um pouco de limão e pimenta, um toque de vinagre balsâmico e ervas nórdicas, pousado sobre uma folha de alface bebé, com tomatinhos cherry a acompanhar.
Mas olho para o futuro com confiança porque sei que tenho valor, sei que tenho amor para dar a alguém que me queira, alguém que precise de salmão com ervas de cheiro e de um rio de lágrimas cristalinas, puras. Sei disso, eu sei. Ouviste? Eu sei.
E nesse dia serei feliz porque essa pessoa vai tomar conta de mim, vai enxugar-me as lágrimas, vai levar-me pela mão, vai ler histórias de encantar para mim antes de fazermos amor loucamente, de forma louca, tresloucada, com a luz acesa e tudo, sem ser debaixo dos cobertores, sem ser ao Sábado depois do filme no meo, mas assim, como duas crianças inocentes, duas crianças que brincam num orfanato católico, com o futuro pela frente. Eu não tenho medo do que o futuro me reserva. O importante é viver. Só me arrependo daquilo que não fiz, como dar a volta ao mundo ou fazer um salto de bungee jumping ou beber 5 cafés no mesmo dia.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

vitamina

Ontem descia a Av das forças armadas, antes do semáforo, e estava sentado no separador central um senhor desses da revista Cais, a chorar copiosamente. Mesmo com os vidros fechados conseguia ouvir o cabrão a chorar e via-o pelo espelho retrovisor, a limpar o bigode à t-shirt, a cabeça entre os joelhos, a soluçar como um desgraçado. Uma criança espreita do banco de trás do BMW. Três faixas para cada lado, tubos de escape a cuspir fumo. Foda-se, o que é o que o pôs assim? Do semáforo, vejo sempre o outdoor gigante da rotunda de entrecampos, o filho da puta do outdoor gigante da vitamin water, a original de NY, e os jovens em poses dinâmicas de concurso de talentos. Vejo-lhes as caveiras nazis em raio x. Sinto-me culpado de não sei de quê. Se calhar devia ter parado o carro no meio do trânsito e perguntado ao senhor se precisava de ajuda. Mas estes gajos podem ser doidos e arranjamos um 31. Queria chegar a casa, comprar pizza congelada, cerveja e tabaco antes do ACS fechar.

não é mesmo de propósito

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

trecho mais gay

"Confidenciavam sobre várias amantes, amadas absolutamente únicas e extraordinárias, com quem - em segredo - ainda mantinham relações.
Estavam sentados no jardim, quando Ábel se calou no meio de uma história dessas.
- Minto - disse, e levantou-se.
Tibor também se ergueu.
- Porquê?
- Todas as palavras que eu disse sobre mulheres são pura mentira. Nenhuma delas é verdadeira, nem sequer uma. E tu também mentes. Reconhece que estás a mentir, diz, Tibor, que estás a mentir.
Ábel agarrou-se à mão de Tibor.
- Sim - disse Tibor, constrangido. Recolheu a mão"

pag 105, Os Rebeldes, Sándor Marai, Dom Quixote. Isto atingiu um 9 na escala de Liberace.

É preciso dizer que eles têm cerca de 16 anos acho eu, e que o resto do livro não tinha apresentado, até ali, resquícios de panasquice, fora as descrições masculinas com adjectivos como "belo" que são sempre de desconfiar. Só que ontem, à página 155, dou com isto, a meio de uma cena em que estão e experimentar fantasias num teatro:
"Tibor ergueu a saia e rodou espantado sobre si mesmo.
- A saia - disse, numa surpresa sincera - nem é roupa assim tão incómoda, como seria de esperar."

Começo a ter medo da grande revelação final deste livro, sinceramente. E vou começar a lê-lo com a capa falsa do Por quem os sinos dobram do Hemingway, um truque que utilizo para ler os livros do Mishima e de poesia, em sítios públicos.

mens only

Alguns comentadores anónimos chamaram-me a atenção para o facto preocupante de “isto ser só gajas, aproveita”. A culpa em boa medida é da amiga Luna que ao linkar este post provocou aqui um derrame de estrogénio. O google analytics felizmente mostra uma queda abrupta nas visitas 2 dias dias depois o que singifica que a maior parte das mulheres que visitou isto estranhou logo e achou que algo estava errado. O pior é que aquele boost de visitas alisou toda a série histórica do gráfico por ampliar o máximo da escala e daqui para a frente também vai ficar lisinho outra vez, tendo um efeito psicológico deprimente. Já não vou ver as minhas oscilações de 10 visitas diárias. A ver se nos entendemos. Existem escritores para “gajas” e escritores para “gajos”. Por exemplo, o Bukowski é um escritor para gajos. O Celine é um escritor para gajos. O Paulo Coelho é um escritor para gajas. O Hemingway é um escritor para gajos. O José Luís Peixoto é um escritor para gajas. Houllebeq, Salinger, Gogol, Kafka, Leermontov, Philip Roth, Becket e Tourgueniev são escritores para gajos. José Rodrigues dos Santos, Sándor Márai e o Paul Auster são escritores para gajas. A Flanery O’Connor e a Daphne Du Maurier são escritoras para gajos. A Daniele Steel, a Jane Austen, a Carolina Salgado e a Margarida Rebello Pinto são escritoras para gajas. Já sei que muitas vão pensar "ah mas eu gosto de Kafka, aquele em que ele se transforma em bichinho engraçado" ou "odeio José Rodrigues dos Santos prefiro o Dan Brown" ou "detesto ser estereotipada pela publicidade de detergentes" ou "estou com o TPM seu %&$##". Calma. Não estou a fazer qualquer juízo de valor. A Jane Austen até tem qualidade. Mas isto não deixa de ser preocupante em certa e determinada medida. Lembra-me uma vez que tive um blogue anónimo e um dia fiz um post com fotos sobre o desenvolvimento e constituição muscular do Cristiano Ronaldo que foi linkado por boa parte da comunidade gay. Só me apercebi vários dias depois de começar a estranhar os comentários demasiado entusiasmados, mesmo para um apreciador de futebol e de jogadores de topo. O que realmente forçou a barra foi um comentário de um senhor que usou um "corpinho" em "não há dúvida que com aquele corpinho deve ser capaz de penetrar em qualquer defesa". Eu tinha usado "corpo" no texto original e o "penetrar", termo inocente, faz parte da gíria do futebol. A propósito, logo à noite, a ver se me lembro de postar o parágrafo mais gay do Sándor Márai, há um que rebenta a escala. E é isto. Agora voltem para a cozinha ou levam com o cinto.