Não sei como, sobrevivi até hoje sem nunca ter lido A Aparição.
Foi livro de leitura obrigatória na escola. Não sei porque não o li, mas estou a resolver isso, e com prazer, um prazer que duvido que tivesse aos 15 ou 16 anos.
Na Internet vejo que os miúdos lêem o Memorial do Convento do Saramago e saúdo a escolha, penso que é mais adequada, sendo o Memorial um excelente livro. E não sei se é boa ideia espetar com o existencialismo desesperante da Aparição a jovens adolescentes já de si existencialistas desesperados. Eles não precisam de ajuda para isso. De qualquer forma, quer um quer o outro, dão porrada que chegue na Igreja e nos costumes, o que parece ser um requisito essencial na selecção dos livros escolares pós-25 de Abril. Tudo bem.
Penso que a Aparição é um livro que vem mesmo mesmo a calhar depois de termos tido a experiência da morte. Guardem o livro para quando vos morrer alguém próximo, assim como uma aquela garrafinha de vinho para quando um filho nascer. É ela que nos confronta com os problemas existenciais mais profundos - a morte, não a garrafinha de vinho (e daí...). O pai da personagem adquire a sua crise existencial pela morte do pai, o que também é uma coincidência. Há mais ao longo do livro e por vezes fico com a sensação que isto de espoletar intensas crises existenciais é uma coisa de receita e que tanto eu como o senhor Vergílio somos apenas animais a responder a estímulos de diversa índole e que seriam capazes de transformar o Luisão do Benfica num existencialista angustiado e estudioso de Schopenauer.
Estou a gostar muito deste livro e a escrita é magnífica, embora deva dizer que este autor se insere no grupo dos que esmagam e não dos que entusiasmam, porque escreve demasiado a puxar para a poesia, escreve demasiado bem, se é que isso é possível. Também penso que as personagens e as situações são estereotipadas demais, encaixam num determinado perfil e num simbolismo demasiado evidente, pelo menos, para os gostos de hoje. É um livro que me parece um pouquinho datado. Já o tinha dito em tempos a propósito das obras de Sartre que versam sobre os mesmos temas. O problema destes livros é que têm personagens eruditas e foram escritos por eruditos que viviam num determinado contexto político e social e que entretanto mudou. Temos personagens que têm consciência erudita e, no caso da Aparição, até têm como objectivo a escrita de um ensaio sobre o tema. Penso que isto é uma abordagem um pouco directa demais, como se a melhor forma de abordar um tema na literatura, fosse abordá-lo.